Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Chernobog e Belobog contam-se entre aquelas muitas figuras divinas de determinados povos que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos. Foram, como muitas outras, vítimas da cristianização dos vários povos europeus, talvez como o nosso Larouco, mas nem por isso deixam de ter ainda uma pequena história para contar. Como tal, fazemos da sua (pequena) história tema para a publicação de hoje.

Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Comece-se por voltar atrás no tempo algumas décadas. O filme Fantasia, da Disney, chegou aos cinemas em 1940, mas se o considerarmos como um filme animado para crianças não podemos senão estranhar uma sequência particularmente assustadora, que dado o contexto merece aqui ser recordada (caso não seja óbvio, não é uma sequência muito indicada para crianças):

O ser monstruoso e diabólico apresentado nesta sequência é considerado “Chernabog” no filme, como pode ser confirmado pr outras fontes, mas quem quiser procurar por esse nome específico na internet quase nada encontrará sobre ele. Isto porque essa designação tem um pequeno erro, é derivada de um verdadeiro nome de uma antiga divindade eslava de nome Chernobog. Como sempre, seria muito interessante contar aqui alguns mitos e lendas que o envolvam, mas eles estão quase totalmente perdidos, salvo uma pequena informação que nos chegou do século XII – segundo esta, alguns Eslavos veneravam dois deuses, um bom e um mau, respectivamente responsáveis por tudo o que é bom ou mau no mundo. Ao segundo deles era chamado Chernobog – que é como quem diz, “o deus negro” – e se as linhas não preservaram o nome do seu bondoso companheiro até ao século XVI, ele ficou conhecido como Belobog, i.e. “o deus branco”. Nada mais sabemos sobre estes dois deuses na sua forma original, pré-século XII, e pelo facto das linhas dessa altura nos dizerem que o deus mau já era então conhecido pelo nome de Diabo é provável que ele já estivesse quase esquecido enquanto figura religiosa.

 

Portanto, a ideia por detrás de Chernobog e Belobog parece ser curiosa, peca por agora sabermos pouco sobre cada um deles, mas… não era nova. Quase na mesma altura, o Bogomilismo pregava a ideia da existência de dois deuses, um da matéria e outro do espírito, e o Catarismo tinha ideias semelhantes (para quem nada percebe desses temas, eram ambos uma espécie de seitas cristãs). Já muitos séculos antes, o Zoroastrianismo também pregava a existência de dois deuses, irmãos e completamente contrários. Mas de onde terá nascido toda esta grande ideia é algo que o tempo parece ter feito esquecer há muito…

A lenda de Suvannamaccha (e o Ramakien)

Quando aqui falámos sobre a lenda de Rama e o Ramayana, não mencionámos, talvez por puro esquecimento, que a história desse herói teve um impacto significativo em diversas culturas do sudeste asiático. Por exemplo, na Tailândia ela inspirou a criação de um épico local, o Ramakien, em cujo cerne da trama é mantido mas são adicionados alguns episódios extra. Aquele que aqui contamos hoje, a que pode ser chamado a famosa lenda de Suvannamaccha, é um deles, digno de nota pela forma como pega em Hanuman (que já cá introduzimos antes) e lhe dá um carácter um pouco diferente de aquele que tinha no original indiano.

A lenda de Suvannamaccha

No Ramayana da Índia, em determinada altura Hanuman e o seu exército de macacos constroem uma ponte de pedras para conseguir invadir a ilha de Lanka. A ideia é concretizada sem dificuldades de maior, mas na versão tailandesa do Ramakien há uma alteração significativa – a construção dessa mesma ponte tem lugar durante o dia, mas ela é como que “desconstruída” durante a noite. E ninguém parecia saber porquê, até que o herói-macaco investigou a situação e descobriu que os peixes locais estavam a fazer isso a mando de Suvannamaccha, uma das filhas do vilão da história, que era uma espécie de sereia, como a imagem acima permite perceber. Depois, o herói lá conseguiu convencê-la a abandonar esse propósito… e é aqui que a história se torna mais estranha, visto que eles se apaixonam e acabam mesmo por ter um filho, Matchanu. Mais tarde, pai e filho até se conhecem no campo de batalha, lutando por lados opostos, mas essa já é uma história para outro dia…

 

O que esta lenda de Suvannamaccha tem de notável é que, para quem ainda não conhecer essa figura, o Hanuman indiano é uma espécie de asceta, nada ligado às paixões do corpo. Se nesta versão da Tailândia ele se apaixona, faz amor e gera um filho, tais aventuras seriam completamente impossíveis no original indiano, obra na qual o seu peito é apenas habitado por um amor infinito por Rama e Sita.

 

Deixando de lado a estranha mudança de comportamentos do herói, talvez o ponto mais interessante deste Ramakien seja, de facto, a forma como pega na trama da aventura original e lhe faz diversas modificações, ora adicionando novos episódios como este de Suvannamaccha, ora dando um certo lampejo adicional a determinados momentos da trama. Nada de extremamente significativo é alterado – estranho seria se, por exemplo, a figura equivalente a Ravana vencesse a guerra – mas demonstra como uma história pode ser metamorfoseada para apresentar novas formas e personagens locais, ao ponto desta mulher-sereia ainda hoje ser bastante famosa em terras da Tailândia.

A lenda do Castelo do Ovo (em Nápoles)

Esta lenda do Castelo do Ovo, em Nápoles (Itália), não surge aqui por puro acaso, mas fruto de uma pequena conversa tida há alguns dias. A equipa de futebol local ganhou o campeonato italiano, levando a que nos perguntassem se conhecíamos algumas lendas locais. Naturalmente que sim, mas a questão suscitou igualmente uma outra – que famosas lendas de outros tempos ainda conheciam, agora, os habitantes desta cidade italiana?

Por exemplo, um suposto túmulo de Virgílio, o autor da Eneida, ainda hoje pode ser encontrado neste local, e em outros tempos abundavam na mesma cidade as lendas que o associavam aos poderes mágicos (os tais que poderão ter contribuído para ele ser o guia na Divina Comédia), mas será que alguém ainda as conhecia? Na dúvida, inquirimos sobre o tema entre diversos habitantes locais… e curiosamente, deparámo-nos com o facto de todos eles ainda parecerem conhecer a lenda local do Castelo do Ovo, levando-nos agora a escrever sobre ela, nas linhas seguintes:

A lenda do Castelo do Ovo

Esta é uma lenda muito simples. Ela diz que em dada altura da sua vida Virgílio viveu na cidade de Nápoles, na qual colocou diversos amuletos protectores, e um deles foi um ovo mágico que, segundo toda esta história, foi colocado debaixo do castelo local e protegia-o de todos os ataques e catástrofes naturais. Isto funcionou durante muito tempo, mas em meados do século XIV o castelo foi muito danificado, levando Joana I de Nápoles, segundo a história local (confesse-se, não fomos confirmar se é verdade, de um ponto de vista histórico), a ter de proclamar que um novo ovo foi colocado no mesmo local, seguindo aquele feitiço que outrora Virgílio também tinha aqui utilizado… e então, esta pequena lenda mantém-se até aos dias de hoje, dizendo-se que se o famoso ovo fosse retirado do local este Castelo do Ovo, bem como toda a cidade de Nápoles, caíria automaticamente na maior das desgraças.

 

Mas, se esta lenda do Castelo do Ovo de Nápoles ainda hoje é famosa, já muitas outras da mesma cidade se foram perdendo ao longo dos séculos. Todas elas funcionam mais ou menos de forma semelhante – Virgílio tinha colocado um amuleto na forma de “X”, “Y” aconteceu, e depois cada uma dessas importantes protecções foram retiradas do local. Desde uma mosca de bronze, “do tamanho de um sapo”, que fazia com que as moscas não aparecessem na cidade; até umas letras misteriosas nas termas locais, tornando-as capazes de curar todas as pessoas que aí se banhassem; muitas outras lendas associavam a cidade do seu túmulo ao poeta latino, mas essas já parecem estar quase todas elas esquecidas nos dias de hoje… e, portanto, fica aqui aquela ainda bem relembrada, bem como ténues referências às restantes (a que poderemos voltar outro dia, se alguém mais assim o desejar).

Sobre a Inscrição Fenícia da Paraíba

A chamada Inscrição Fenícia da Paraíba, a que dedicamos as linhas de hoje, tem um lugar breve mas curioso na história e cultura do Brasil. Se ela fosse completamente verdade – e já lá iremos… – provaria, sem margem para grandes dúvidas, que foram os Fenícios os primeiros Ocidentais a chegarem às terras da América do Sul. O que seria muito interessante, como é natural, mas a verdadeira questão é… seria verdade, ou tratava-se tudo de uma falsa e completa invenção? Recorde-se a sua história, antes de tudo o mais.

 

Em 1872, um tal Joaquim Alves da Costa – se era verdadeiramente esse o seu nome… – comunicou por carta a uma academia científica local o facto de ter encontrado na sua quinta, na zona de Paraíba, uma inscrição estranha entalhada numa rocha. Supostamente, depois pediu a um filho, que até tinha jeito para este tipo de coisas, para copiar os caracteres que lá estavam, o que gerou uma folha de papel com um conteúdo como este, enviado à tal academia:

Inscriação Fenícia da Paraíba

Posteriormente, um tal Ladislau Netto viria a descobrir e proclamar que isto era Fenício, gerando a sugestão de terem sido eles os primeiros a chegar ao Brasil, e até traduziu o conteúdo desta chamada inscrição fenícia do Paraíba com as seguintes palavras:

“Foi erguida esta pedra pelos Cananeus Sidónios, que da cidade real a comércio saíram”
“sem mim pela (?) remota terra montanhosa e árida, escolhida dos deuses”
“[e?] deusas no ano nono e décimo (décimo nono?) de Hiran nosso rei poderoso”
“e sairam de Aziongaber no Mar Vermelho e embarcaram gente em navios dez”
“e estiveram no mar, juntos, anos dois ao redor da terra da África, e foram separados”
“do comandante e se desligaram de seus companheiros e chegaram aqui duas vezes (doze?)”
“homens e três mulheres, nesta costa ignota que eu servo de Astarte poderosa (Mutuastarte infeliz?)”
“tomei em penhor. Os deuses e deusas tenham de mim compaixão”.

Wow. Impressionante, não é?! Parece que os tais Fenícios foram os primeiros a chegarem a terras do Brasil (!) – e esta Inscrição Fenícia da Paraíba supostamente prova-o!

Mas… depois, os outros estudiosos foram-se apercebendo de alguns problemas mais ou menos importantes em tudo isto. Falar de todos eles escapa ao tema (introdutório) de hoje, mas ninguém conseguiu encontrar aquele tal Joaquim Alves da Costa, até porque ele não tinha incluído qualquer morada na carta que enviou. E pior – não só ele nunca foi encontrado, como aquela pedra onde era suposto estar esta inscrição também nunca foi vista por mais ninguém, algo mais que suficiente para tudo isto cheirar a esturro a qualquer pessoa que seja mais ou menos independente de possíveis interesses locais na questão. E torna-se ainda pior – ao longo do tempo as pessoas também se foram apercebendo que algo de estranho se passava com Ladislau Netto, como se tivesse sido ele, muito convenientemente, a escrever aquela primeira carta, apenas para depois se auto-representar como o decifrador das respectivas letras e ganhar a sua fama.

 

Terá sido verdade? Será que foi Ladislau Netto que falsificou a Inscrição Fenícia da Paraíba, reproduzida ali em cima, para seu próprio benefício? Ouvimos e lemos respostas afirmativas e negativas. É discutível. O que não o é, no entanto, é que desde aquele ano de 1872 até à presente data ninguém mais viu esta suposta pedra na primeira pessoa, que muito poderia provar sobre uma possível antiga presença fenícia no Brasil, nem o seu suposto dono, fazendo crer que ambos nunca existiram. Pelo menos no caso da nossa Estátua da Ilha do Corvo, que também poderia comprovar algo de semelhante nas ilhas atlânticas, são várias as provas de que ela poderá ter existido, existem pessoas reais que a viram, mas a pedra aqui em questão parece nunca ter existido fora daquela carta misteriosa escrita por um suposto Joaquim Alves da Costa…

Porque têm as igrejas um galo dos ventos?

Tanto em Portugal como no Brasil é relativamente comum que as torres das igrejas tenham um galo dos ventos. Ele é uma espécie de cata-vento representado sempre em forma de este animal, que depois até também passou a ser utilizado em casas privadas, dada a sua popularidade religiosa e cultural, mas de onde vem toda esta ideia? Ou, para sermos mais precisos, porque existe esta associação de um cata-vento em forma de galo com as igrejas?

Um exemplo de Galo dos Ventos

Como é bem sabido, os galos são animais relativamente comuns na cultura portuguesa – recorde-se, a título de exemplo, o tão famoso Galo de Barcelos, mas também a Missa do Galo, de que já cá falámos anteriormente – mas também o são no espírito do Cristianismo. Isto porque, conforme já foi dito em relação a essa missa natalícia, pelo menos desde o século IV da nossa era que este animal é equiparado a Jesus Cristo. Como se diz que a figura religiosa veio ao mundo para afastar as trevas do Diabo e do Pecado Original, de igual forma se acreditava que também o galo tinha o poder místico de, com o seu belo cantar, terminar as trevas da noite e ajudar ao nascer do dia, afastando igualmente aqueles demónios que se cria que povoavam a escuridão que antecedia cada novo nascer do dia.

 

Seguindo desse contexto, faz então todo o sentido que as igrejas tenham um galo dos ventos, por esta presença servir não só para anunciar, de forma simbólica, cada vinda de um novo dia, mas também porque, ao estarem sempre colocados no ponto mais alto de uma igreja, que originalmente até tendiam a ser o local mais elevado de uma qualquer povoação, atraíam todos os que em virtude das suas ocupações precisavam de saber mais sobre a força e direcção dos ventos. E, já que estavam no local, talvez até fossem mais à missa, o que nada tinha de negativo, bem pelo contrário…

 

Claro que ao longo dos tempos toda esta associação religiosa original do galo dos ventos se foi perdendo, mas a ideia de que um catavento tinha de ter a forma deste animal manteve-se até aos nossos dias de hoje, talvez por puro hábito ou por um simples prazer estético de possuir algo na sua forma mais tradicional. Duvidamos, como é natural, que quem hoje tem cataventos em sua casa – e eles ainda são frequentes em algumas aldeias por todo o Portugal – ainda pense nos versos de Prudêncio ou na metáfora dos primeiros séculos da era cristã, mas o tradicional galo parece sempre bem para esta função!