Os mitos de Agdistis, Cibele e Átis

O tema de hoje, dos mitos que unem Agdistis, Cibele e Átis, é sem qualquer dúvida muito inapropriado para os mais novos. Como tal, tenderíamos a evitar recordá-lo, por razões já cá mencionadas, mas ao mesmo tempo esta é claramente uma história de grande importância na Antiguidade, não só por se assemelhar a alguns mitos vindos de terras outrora distantes, mas também porque parece ter nascido de uma adaptação dessas famosas histórias de outras culturas a todo um novo contexto. E, portanto, apesar do seu carácter problemático para uma audiência mais nova, decidimos que tínhamos mesmo de contar esta história de três partes a quem nos vai lendo.

Agdistis, Cibele e Átis

Em dada altura das suas aventuras, o deus Zeus uniu-se com Gaia, personificação da terra. Como isso aconteceu não é totalmente claro, varia mediante a versão consultada, mas em comum parecem ter o elemento de que esta união não foi planeada ou deliberada, simplesmente tomou lugar. Dela nasceu Agdistis (ou Agdiste, se preferirem), um grotesco ser com órgãos sexuais masculinos e femininos. Visto que os deuses temiam esta criatura tão pouco natural (talvez pelas razões apontadas no Simpósio de Platão), Dioniso embebedou-a, prendeu-lhe uma corda entre o pé e o pénis, e quando esta acordou auto-emasculou-se, derramando algum sangue no chão (de onde nasceu a primeira amendoeira) e repondo a normalidade de toda a situação. Agora apenas feminina, esta figura divina poderá então ter-se tornado a deusa Cibele.

 

O tempo foi passando. Um dia, uma filha de um rei local apanhou algumas amêndoas e colocou-as no seu regaço. Estes frutos da amendoeira desapareceram e a jovem ficou grávida, dando depois à luz o belíssimo Átis. Agdistis/Cibele apaixonou-se por ele (apesar de tecnicamente ser uma espécie de sua avó…), mas ele estava destinado a casar com outra pessoa. Então, a deusa apareceu no casamento e conduziu à loucura muitos dos presentes, que foram levados a emascularem-se, juntamente com o próprio Átis. Acabaram todos por morrer, mas Agdistis/Cibele pediu a Zeus que não deixasse o belíssimo corpo do jovem desaparecer para sempre, algo que o pai do Olimpo lhe decidiu conceder. Reza a história que o corpo deste belíssimo jovem ainda hoje jaz no monte onde foi enterrado, algures na Frígia (actual Turquia).

 

Já aqui citámos uma versão do mito da primeira de estas figuras; e a ideia, muito popular entre os autores cristãos, de um Átis como um mortal divinizado; mas a introdução do seu culto em Roma, com a ajuda de Cláudia Quinta, merece aqui uma especial referência, porque os sacerdotes dessa deusa tinham, tradicionalmente, de ser eunucos. Esse até pode parecer um elemento de fácil compreensão, face ao próprio contexto do mito da deusa, mas há que deixar muito claro que nem todos acreditavam que Agdistis e Cibele fossem uma só figura divina. Para uns eram-no, para outros não, mas pelo menos a história mitológica apresentada acima aparece muito associada a esta figura, sendo importante deixar aqui essa ressalva parcial.

A origem do nome dos gémeos siameses

Hoje, ouve-se falar ocasionalmente de gémeos siameses, talvez até sem que se pense muito nessas palavras e na sua verdadeira origem. É, como bem nos informa o dicionário da Priberam, uma expressão usada para “cada um dos gémeos que nascem ligados por uma parte do corpo”, mas de onde vem toda a expressão? Claro que ela pode ser associada, sem muita dificuldade, com o reino de Sião – actual Tailândia – mas porquê? Como chegou a este nome? É isso que, de forma sucinta, aqui explicamos hoje.

Os gémeos siameses originais, Chang e Eng Bunker

Claro que gémeos sempre existiram – já eram referidos em obras da Antiguidade Clássica como as de Aristóteles – e provavelmente sempre existirão, mas os que levaram à origem do nome que ainda lhes damos são relativamente recentes. As figuras que nos ficaram conhecidas como Chang e Eng Bunker nasceram no século XIX, mais precisamente a 11 de Maio, na província de Samut Songkhram, na Tailândia, e depressa se tornaram famosos no seu país. Depois, por volta dos 17 anos de idade começaram a ser exibidos pelo mundo fora e chegaram até a trabalhar com P. T. Barnum quando já eram bastante famosos. Às tantas, estes gémeos siameses decidiram viver nos EUA, obtiveram o apelido “Bunker” em suposta homenagem a um amigo americano, casaram cada qual com sua mulher, tiveram um total de 21 filhos (eram outros tempos…), e faleceram a 17 de Janeiro de 1874, estando hoje enterrados na White Plains Baptist Church, no estado da Carolina do Norte.

Os famosos Gémeos Siameses

Agora, o que este breve história tem de particularmente digno de nota é aquela parte, quase inicial, em que estes gémeos saíram do seu país natal e foram exibidos nos continentes americano e europeu. Se alguns os antecederam e muitos mais os seguiram, naquele tipo de entretenimento outrora conhecido como freak shows (a que aqui fizemos outra alusão recentemente), estes parecem ter sido os mais famosos numa época em que esse tipo de exibição era muito popular. Desta forma, os gémeos originários de Sião tornaram-se gémeos siameses (por compressão do seu país de origem), que pela sua grande fama passaram depois a dar nome a todos aqueles que se lhes seguiram e que se mostraram igualmente unidos como estes – para quem ainda não o tiveram notado na pintura e no poster acima, estes dois irmãos estavam juntos na área da barriga, com uma banda de pele e cartilagem em que muitos médicos mostraram especial interesse… não se sabe, hoje, se teria sido possível separá-los, algo que não foi tentado na época e que até levou a uma possível morte prematura de Eng, cerca de duas horas após o falecimento do seu irmão Chang.

 

Assim sendo, a origem do nome dos gémeos siameses, expressão que continua a ser utilizada hoje, advém da fama que Chang e Eng Bunker, nascidos na Tailândia(o antigo reino de Sião), obtiveram no século XIX. Eles não foram os primeiros gémeos que correspondem a esta designação, nem sequer os últimos (e.g. pense-se no caso de Abby e Brittany Hensel, nascidas em 1990 nos EUA), mas é agora claro que foram os mais conhecidos numa época em que o conhecimento se começava a espalhar entre países de uma forma mais fácil, e poderá ter sido essa possibilidade que contribuiu para a sua fama e para a adopção da sua designação para a generalidade de todos os irmãos gémeos que partilham da sua característica tão singular.

Mariana Alcoforado e o mistério das Cartas Portuguesas

Hoje, falar de Mariana Alcoforado é obrigatoriamente falar das Cartas Portuguesas. Isto é um tanto ou quanto paradoxal, já que não se tem uma certeza absoluta de uma ligação entre essa suposta autora e a autoria das cinco cartas que compõem a obra, mas a verdade parece ser que, hoje, os dois elementos se encontram tão embrenhados que tentar separá-los é absolutamente impossível. E, por isso, comece-se pela realidade de toda esta história, antes de se avançar para uma espécie de mito que dela nasceu.

A janela de Mariana Alcoforado, suposta autora das Cartas Portuguesas

Nasceu a 22 de Abril de 1640 uma mulher portuguesa que nos ficou conhecida sob o nome de Mariana Alcoforado. Por volta dos 11 anos de idade foi forçada a entrar para um convento, o de Nossa Senhora da Conceição, na sua terra-natal de Beja. E toda esta história poderia ter ficado por aí, como aconteceu a muitas outras mulheres da sua época, não fosse o facto de ela ter vivido um tórrido amor com um oficial francês, que muitas vezes poderá ter visto através de uma janela bejense semelhante à representada acima. As datas são sempre difíceis de precisar, nestas coisas das paixões humanas, mas é provável que esse amor tenha tomado lugar algures entre os anos de 1656, em que a jovem tomou o hábito, e de 1668, em que a Guerra da Restauração terminou. E depois, um dia e por alguma razão incerta, tiveram de se separar – e aqui parecem terminar os factos comprováveis em toda esta história!

As lettres portugaises ou Cartas Portuguesas

… Mas algum tempo depois foi publicado em Paris uma obra que ficou conhecida, na forma mais sucinta do seu título, como Lettres Portugaises (que é como quem diz, na nossa língua, Cartas Portuguesas). Datada de 1669, a obra contém cinco cartas que uma religiosa de Portugal escreveu a um seu amante originário de França. Pelo conteúdo podemos depreender que as primeiras três ficaram sem resposta, mas que uma suposta resposta à quarta terá irritado bastante esta freira, o que a levou a terminar, definitivamente, toda a relação. Provavelmente jamais saberemos o que aconteceu, mas… terão sido estas cinco epístolas verdade, um misto de ficção e realidade, ou nada mais do que uma mera invenção de algum autor francês?

 

As informação presentes nas cartas não nos permitem concluir, com absoluta certeza, quem eram os seus supostos intervenientes, mas a cultura popular da época diz-nos que a amante era esta Mariana Alcoforado, o seu amado um tal Noel Bouton, e que se separaram por uma decisão completamente unilateral, quando o francês recebeu uma carta de um irmão, aparentemente pedindo-lhe que voltasse ao seu país-natal, algo que ele parece ter feito demasiado rápido para o gosto da religiosa. Então, por algo que ele terá dito em resposta à quarta destas cinco cartas – é provável que outras as tivessem antecedido, mas não há quaisquer provas reais da existência de uma seguinte à última do quinteto – ela preferiu acabar toda a relação amorosa. Depois, como que desaparece de toda esta história até à data de 28 de Julho de 1723, em que sabemos que faleceu.

 

Mas terão sido as Cartas Portuguesas escritas por Mariana Alcoforado? Serão da autoria de uma outra religiosa que também avistava, da sua janela, as metafóricas portas de Mértola? Ou serão uma simples e completa ficção, talvez baseadas em relatos de soldados franceses que se poderão ter envolvido com freiras do nosso país? Por um lado, a tratarem-se de epístolas completamente reais, há, muito naturalmente, de se perguntar como é que elas foram obtidas para publicação – terão sido desviadas por algum mensageiro, ou terá sido o destinatário masculino a trazê-las a público, numa espécie de versão antiga de revenge porn? Por outro lado, a serem falsas, como se explica a pureza das palavras de amor, o conteúdo (quase) inofensivo, e uma declarada ausência de respostas a três das cartas*, ideias que parecem destoar quase por completo numa tradição epistolar que por essa altura já tinha mais de quinze séculos?

 

Estas epístolas não são as Heroides de Ovídio. Parecem reais, como se fossem verdadeiras cartas de amor escritas por uma mulher a um homem que já não a parece amar mais. Preservam todo um tipo de escrita amorosa que ainda hoje podemos encontrar em circunstâncias semelhantes. Elas soam a verdade, o que não corresponde, obrigatoriamente, a dizer que foram mesmo escritas por Mariana Alcoforado. Mas se o foram, ou não, é um mistério agora quase impossível de resolver, deixando-se a quem lê estas linhas o desafio de as ler e formular a sua própria opinião sobre o tema…

 

 

*- Quando estas epístolas foram publicadas em França, depressa se tornaram muito populares entre as suas elites. Então, posteriormente foram publicadas diversas “sequelas”, e uma das mais curiosas diz que Noel Bouton até respondeu às epístolas desta freira, mas que a abadessa do convento interceptou essas cartas e as impediu de chegar à sua destinatária. Não temos quaisquer provas reais de que isso tenha sido mesmo verdade, mas essa pura lenda diz que as tais respostas foram passando de mão em mão até retornarem ao seu país de origem, onde foram publicadas… naquela que é, naturalmente, uma história apócrifa e destinada a isentar o cavaleiro francês de quaisquer culpas em toda esta situação.

Saida Galla, uma feiticeira(?) esquecida

Por muito interessantes que possam ser algumas das histórias que vão sendo partilhadas por cá, por vezes elas podem levar-nos a todos àquele enormíssimo mistério do conhecimento que já se foi perdendo. Especificamente, falamos de todo um conjunto de coisas que em outros tempos até poderiam parecer óbvias para quem as foi escrevendo e lendo, mas que com o passar dos anos foram quase completamente esquecidas. Este caso de Saida Galla, de que aqui falamos hoje, cai precisamente nessa categoria.

Saida Galla, um mistério?

Já cá falámos antes sobre P. T. Barnum, por exemplo na história do elefante Jumbo, que em anos recentes foi relembrado entre nós através do filme musical O Grande Showman (ou O Rei do Show, título no Brasil). Mas, ao longo do seu tempo de vida, esse homem ficou conhecido pelas mais diversas razões, entre as quais a exibição de freaks (seres humanos particularmente invulgares), e a forma então-invulgar como os foi promovendo, que se perpetuou mesmo após a sua morte. Entre os muitos materiais de marketing criados nesse contexto conta-se, por exemplo, uma espécie de catálogo de exposições, datado de 1898, em que eram sucintamente descritas as personagens humanas e os animais que os visitantes podiam ver no local. Algumas delas ainda são relativamente conhecidas hoje (como Jo-Jo ou Queen Mab), e outras nem tanto…

 

Um dos exemplos mais intrigantes é o de uma mulher a que um catálogo em questão chama Saida Galla. Hoje, mesmo que se faça uma pesquisa pelo seu nome na internet (e que era quase certamente um pseudónimo…), nada nos é revelado sobre ela, enquanto que as linhas do próprio catálogo apenas referem o seguinte:

  • Ela era definida como uma “Egyptian Enchantress“, uma espécie de Feiticeira do Egipto.
  • Praticava juggling, ou seja, malabarismos.
  • Habitualmente terminava cada truque com as palavras “very clever, Galla, Galla”, fazendo rir os espectadores.
  • Trabalhou no Shepherd’s Hotel no Cairo, Egipto.
  • Parece ter-se juntado às exposições no Outono (de 1897?), mas anteriormente já tinha sido exibida em outro local de Londres.
  • Os seus truques eram considerados semelhantes aos de um (agora também desconhecido?) Mr. Bertram.

 

Quem terá sido esta misteriosa mulher? Já o próprio catálogo admitia que na altura se sabia muito pouco sobre a sua história – talvez fosse uma clássica jogada de marketing, destinada a jogar com os mistérios típicos do Próximo Oriente? – mas ela parece estar hoje completamente esquecida. Nada mais conseguimos encontrar, associado a este nome de Saida Galla, e não fossem a fotografia reproduzida acima, além das quatro frases que a descrevem na mesma página, e já absolutamente nada se saberia sobre ela nestes inícios do século XXI…

Sobre a origem dos Kamikaze

Hoje, quando pensamos na palavra kamikaze, lembramo-nos dos pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial. E isso pouco teria de relevante para este espaço, não fosse o facto da mesma palavra japonesa – no original, 神風 ou かみ​かぜ – ter um significado muito específico e que pode ser traduzido para português como “vento divino”. Nesse sentido, se a ligação entre a própria expressão e os tais pilotos não é evidente, de onde vem ela? Que história se esconde por detrás de tudo isto? São as verdadeiras razões por detrás dessa palavra que aqui explicamos hoje!

A origem dos Kamikaze

Diz-se então que em finais do século XIII os Chineses tentaram invadir o Japão com uma frota naval. Essa tentativa de invasão inicial foi repelida e foram construídas infraestruturas para dificultar qualquer possibilidade de invasão marítima futura. Ainda assim, alguns anos mais tarde os Chineses voltaram a tentar atacar, desta vez com uma frota que se diz que teria mais de 4000 barcos e 140000 homens, um valor imenso para a altura. Não esperavam que a situação tivesse sido alterada significativamente – os nativos tinham-se unido e construído uma espécie de muralha em redor de toda a costa, impedindo o atracamento de navios – e quando confrontados com a situação não souberam o que fazer. Esperando então no mar por novas ordens, depressa foram atingidos por furacões, que destruíram a maior parte da sua frota, e que ficaram conhecidos como kamikaze.

 

E porquê chamar-lhe kamikaze, esse tal “vento divino”? Porque, face às ocorrências da altura, os Japoneses começaram então a acreditar que os deuses locais, face à grande união que os nativos mostraram para com um invasor estrangeiro e teoricamente muito superior (algo que nunca tinha acontecido até então…), os decidiram premiar com a sua ajuda etérea, com algumas versões a mencionarem até explicitamente a presença divina de Raijin e Fujin, divindades padroeiras dos ventos e das trovoadas.

 

Salte-se agora para o século XX. Em que medida é que os tais pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial tiveram este nome de “kamikazes” associado a eles? Essa ideia é fácil de compreender face a todo o contexto da história contada acima. Se, outrora, todo o Japão se tinha unido contra um adversário vastamente superior, e em virtude dessas acções os deuses lhe concederam a derradeira vitória, neste confronto mais recente os Japoneses acreditaram, até certo ponto, que se voltassem a demonstrar uma tal união, estando dispostos a abdicar das suas próprias vidas em prol do país, os deuses lhes voltariam a conceder a vitória. Não é claro, hoje, até que ponto é que eles acreditavam verdadeiramente nisso, se achavam que os deuses iam mesmo intervir ou se esta era apenas uma lenda antiga que foi reaproveitada na altura por motivos políticos, mas há que deixar claro que existem muitas lendas semelhantes por todo o mundo – recorde-se, por exemplo, a nossa lenda da Batalha de Ourique, de um Portugal destinado por Deus a ser o grande império cristão do mundo – nas quais as pessoas parecem ter acreditado verdadeiramente até um momento fulcral, como o do nosso desaparecimento de Dom Sebastião. É possível que também o Japão, o antigo Yamato, essa “terra dos deuses”, tenha mesmo acreditado numa lenda semelhante, de que os deuses os auxiliariam novamente contra um opositor muito superior, neste novo caso os Estados Unidos da América, levando-os a estarem dispostos a sacrificar as suas vidas por aquilo que viam como um bem maior.