A história do Navio de Teseu

Se hoje aqui falamos sobre o navio de Teseu, há que começar por explicar que não se trata de um mito ou lenda que fosse contado em tempos da Antiguidade. Em alternativa, é uma espécie de metáfora filosófica levantada por diversos pensadores desses tempos, mas que ainda se mantém bastante actual hoje em dia. Por isso, e como é hábito, comece-se por relatar, de uma forma abreviada, a trama que envolve toda esta questão.

Um navio de Teseu na cultura popular

É provável que o navio de Teseu, juntamente com a Argo – o navio dos Argonautas – tenha sido um dos mais famosos dos mitos da Antiguidade. Quando o famoso herói derrotou o Minotauro e depois regressou a casa, o navio em que tinha viajado tornou-se tão conhecido que as pessoas da altura o quiseram ver. Isso nada tem de invulgar, ainda hoje acontece, mas depois os anos, as décadas, os séculos, foram passando, e o navio original foi envelhecendo. Começou até a cair aos pedaços… e então, sentiu-se a necessidade de o renovar, de tentar garantir que o então-famoso transporte do viajante não se perdia. Se uma tábua já estava a apodrecer, foi substituída por uma outra; se as velas já estavam cheias de buracos, foram substituídas por novas; e assim por diante, tendo algum cuidado de guardar o que era substituído…

 

De um ponto de vista filosófico, isto pode levantar uma grande questão. E fê-lo, de facto – quando é que este navio deixa de ser aquele que transportou Teseu? Se, uma a uma, todas as suas tábuas antigas fossem substituídas por novas, quando é que ele deixa de ser o navio original, para se tornar algo diferente? Em que instante preciso é que algo que já existe se transforma em algo completamente novo? Ou, se preferirmos adaptar tudo isto aos nossos dias, imagine-se que mudamos o frigorífico lá de casa; é claro que a cozinha continua a ser a nossa, em nossa casa, mas se formos sucessivamente substituíndo todas as partes da mesma divisão – o fogão, o forno, o micro-ondas, os azulejos, etc. – quando é que ela deixa de ser a “nossa” cozinha para se tornar uma completamente diferente, que provavelmente já nem conseguimos reconhecer?

 

A história do Navio de Teseu leva-nos, sem muitas dúvidas, a pensar neste problema de ordem filosófica, o problema significativo da identidade das coisas. Não há, para quem estiver a pensar nisso, uma resposta correcta, mas sim todo um conjunto de opiniões que foram surgindo ao longo dos séculos, e que se tratam exclusivamente disso mesmo, pura e simplesmente de opiniões e nada mais. Uma potencial resposta, essa, é para ser debatida por cada um de nós…

“Tratado de las Supersticiones y Costumbres Gentilicias”, de Hernando Ruiz de Alarcón

A obra de hoje, Tratado de las supersticiones y costumbres gentilicias que hoy viven entre los indios naturales de esta Nueva España, de Hernando Ruiz de Alarcón, é única. Foi escrita na Nova Espanha, actual México, do século XVII, numa tentativa de um religioso de combater – muito mais do que catalogar, como hoje poderíamos pensar – as muitas superstições que continuava a ver após 100 anos de religião católica no país.

Tratado de las Supersticiones y Costumbres Gentilicias, de Hernando Ruiz de Alarcón

Nesse seguimento, este Tratado de las supersticiones y costumbres gentilicias pode ser dividido em duas grandes sequências – uma primeira, em que são contadas algumas pequenas histórias que mostram as crenças dos povos locais; e uma segunda, em que o autor apresenta mais de duas dezenas de preces locais, juntamente com o contexto em que eram utilizadas. Em ambos os casos, essas informações são importantes, hoje, porque caso não tivessem sido preservadas nesta obra, como em algumas outras, se teriam perdido completamente, já que outros religiosos, contrariamente a este Hernando Ruiz de Alarcón, parecem ter pensado que era pura e simplesmente mais importante pregar a religião cristã do que tentar preservar as culturas locais.

 

Isto não quer dizer, porém, que o autor apoiava essas mesmas culturas. Afirmá-lo seria falso… mas o que ele faz nesta obra é, até certo ponto, contar parte dessas tradições locais para tornar mais fácil aos seus correligiosos saber o que tinham de combater.

Numa dada altura, por exemplo, conta algo de muito curioso, quando revela a existência de algo verdadeiramente inesperado nessas terras americanas – circunstâncias em que um animal era ferido num dado local do corpo, ou morto, e em que depois se encontrava alguém que, por influência mágica do próprio animal, sofria o mesmo destino. Pode parecer a mais pura magia, mas o autor explica-o com base em influências demoníacas, que pela ausência de uma verdadeira fé cristã deixava o Diabo fazer essa ligação cúltica entre seres humanos e alguns animais… e, como tal, era necessário baptizar o maior número de pessoas, bem como fazê-las acreditar numa prática constante e fiel dos sacramentos cristãos.

 

Para dar também um exemplo da que poderíamos considerar a segunda parte da obra, já mencionada acima, quando os locais tinham dores nas costas, normalmente diziam as seguintes palavras e ficavam curados:

Tlacuel, xoxohuic coatl, coçahuic coatl, tlatlauic coatl, iztac coatl. Ye huitz iztacquauhtzotzopitzal; nohuian nemiz: in tetl itic, in quahuitl itic; auh in aquin ipan àciz, quiquaz, quipopoloz.

Será que funciona? Foi difícil convencer alguém a tentá-lo, mas lá conseguimos fazê-lo, e… na verdade, a pessoa ficou sem quaisquer dores nas costas, pelo que quem ler estas linhas nada perderá em tentar também (se não temer uma potencial vingança do deus cristão – faça-se essa ressalva, não vá o proverbial diabo tecê-las).

 

Portanto, este Tratado de las supersticiones y costumbres gentilicias que hoy viven entre los indios naturales de esta Nueva España, de Hernando Ruiz de Alarcón, é uma obra importante por preservar parte da cultura mexicana do século XVII. Talvez não seja um tema que interesse à maior parte dos leitores dos nossos dias, mas – a César o que é de César, dê-se-lhe o devido crédito – mesmo que indirectamente, o livro contribuiu para que algumas crenças da época não se perdessem, e é curioso constatar-se que mesmo nessa altura figuras como Quetzalcoatl continuavam no imaginário popular.

Qual a diferença entre touro e boi?

Hoje decidimos explicar a diferença entre touro e boi. Começe-se então pelo seguinte, uma espécie de pequeno e fácil desafio – o que vêem na imagem que reproduzimos abaixo?

A diferença entre touro e boi

Este animal tem cornos proeminentes, sendo fácil de reconhecer como um bovino. Mas não tem tetas, aquelas de onde nos provém o leite, pelo que é naturalmente do sexo masculino. E até este momento tudo bem, é provável que até uma criança pequena consiga estabelecer estas inferências, mas qual é o nome correcto que devemos dar ao “marido” de uma vaca? Qual é essa grande diferença entre touro e boi, que nos possibilita saber qual é qual?

 

Já lá iremos. Por agora, um pequeno aparte – recentemente obtivemos uma cópia de um livro que tem as gravuras dos dois primeiros volumes da Historia Animalium de Conrad Gessner, que é uma espécie de enciclopédia de animais produzida em meados do século XVI, e em que a maior parte deles estão ilustrados com belíssimas gravuras. Entre elas encontra-se aquela que reproduzimos ali em cima, mas o que a obra que obtivemos tem de especial é o facto de incluir parte de um conteúdo que não foi produzido por Gessner, nomeadamente os nomes de cada animal em latim, italiano, francês e alemão. É interessante compará-los, para quem também gostar dessas curiosidades, mas no seu artigo sobre o nosso “boi” – o bos latino – o autor começa por frisar que este nome pode ser dado tanto a um touro como a uma vaca. Depois, prossegue explicando, de uma forma extremamente sucinta e em apenas sete palavras, que um touro é um boi que não foi castrado.

 

Sabemos, portanto, que era esta a grande diferença entre touro e boi em outros tempos, há cerca de 400 anos, mas será que toda a ideia ainda se mantém nos dias de hoje? Com curiosidade, fomos consultar o dicionário online da Priberam, que nos define um touro como um “boi que não é castrado e que se utiliza como reprodutor”, enquanto que um boi é definido como um “touro castrado”. Ou seja, comparando-as com as anteriores, as definições actuais para ambos os animais reteram-se ao longo dos séculos.

 

O que é ainda mais curioso é que toda esta ideia até já tem muitos mais séculos e nos aparece preservada em mitos e lendas de outros tempos. O animal que raptou a princesa Europa é considerado um touro, dada a sua pujança, enquanto que os cornos de um touro são considerados um grande símbolo de poder sexual. Podemos então declarar, de uma forma um tanto ou quanto brincalhona, que um boi é apenas um touro que já perdeu a sua pujança, numa ideia que até se prolonga para outras línguas, e.g. em inglês, o pujante bull VS o ox que pasta nos campos…

A lenda de Yonorang e Seonyo

Falar-se da lenda de Yonorang e Seonyo, que vem da Coreia, é provavelmente falar-se de uma influência cultural local que até chegou aos nossos dias de hoje. De facto, quando tentámos procurar imagens relativas a toda esta história, encontrámos algumas de um pequeno filme animado de 2019, mas também a que reproduzimos abaixo, que tem representada, na parte traseira de um camião coreano, a busca mútua dos dois protagonistas de toda esta história. Dada até a invulgar beleza da ideia assim representada, sentimos que tínhamos necessariamente de aqui contar a eterna lenda que os une.

A lenda de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo era um casal que muito se amava. Não tinham uma vida muito rica, mas viviam o seu amor numa vida simples, uma que lhes parecia mais que suficiente. Até que um dia, quando Yonorang estava a pescar próximo do mar, as rochas começaram a mexer-se e ele foi levado para longe. Não compreendia o que se estava a passar, mas não tinha outra solução senão manter-se nessas rochas e acabar por ver onde é que elas o estavam a conduzir. Assim, o tempo foi passando até que ele foi levado para uma ilha que nunca tinha visto antes, onde uma profecia local fez dele monarca…

Seonyo, essa, mantinha-se em casa. À medida que o tempo foi passando ela começou a sentir muitas saudades do marido. Tentou procurá-lo aqui, procurou por ele ali e acolá, mas foi incapaz de o encontrar. Então, um dia foi à praia e encontrou, bem próximo do mar, algumas das coisas que sabiam ser do seu marido. Não conseguia compreender o que se tinha passado, mas achou que o melhor que podia fazer era levar essas coisas de volta para casa. E então, quando se aproximou delas, as rochas começaram a mexer-se e levaram-na para longe. Também ela não tinha outra solução senão manter-se nessas rochas e acabar por ver onde é que elas a estavam a conduzir. Assim, o tempo foi passando até que ela foi levada para uma ilha que nunca tinha visto antes, onde se reuniu com um homem que já era bem seu conhecido. Era o seu marido tão amado, de quem sentia tantas saudades, e com quem agora estava novamente reunida…

 

Mas toda esta lenda ainda vai a meio. Os dois amados estavam agora reunidos, mas nas suas terras nativas da Coreia algo de muito estranho começou a acontecer. O sol deixou de nascer, a lua parou de aparecer nos céus. Estupefactas, as pessoas não sabiam mesmo o que fazer, até que o monarca local lá chamou os seus sábios e lhes perguntou o que se andava a passar. Eles disseram-lhe que dois dos seus conterrâneos, Yonorang e Seonyo, eram as reencarnações dos deuses do sol e da lua, e que sem a sua presença local estes dois astros não voltariam a agraciar os reinos da Coreia. E isto era um problema, muito naturalmente, pelo que o monarca enviou deputados para os quatro cantos do mundo, em busca do importante casal…

Acabaram por encontrá-los numa terra não muito distante; explicaram-lhes todo o problema, mas Yonorang e Seonyo não queriam voltar. Talvez fosse seu dever fazê-lo, honrar a terra que os viu nascer, mas eles eram agora plenamente felizes. Porquê abandonar essa felicidade, sabendo que nada de melhor os poderia esperar? Incapazes de refutar esse argumento do casal, os deputados do rei propuseram uma alternativa – visto que Seonyo fiava muita seda, ela podia fazer, com todo o seu bom espírito, algo que eles pudessem transportar consigo de volta a casa, para resolver todo o problema. A amada jovem achou que essa solução era perfeita e depressa a fez cumprir. A seda por ela fiada foi levada de volta para a Coreia, juntamente com a luz do sol e da lua, e foi guardada num local que recebeu o nome de Ilwolji. Como diz uma pequena placa que está hoje no local:

O regresso de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo permaneceram naquela misteriosa terra para onde as respectivas rochas os levaram, que eram as terras do Japão (!), para nunca mais voltarem a sua casa. Poderiam ter voltado, sim, mas a felicidade falou mais alto. Não teríamos, também nós, escolhido esse mesmo caminho?

 

Se existe uma lenda nipónica que conte o outro lado desta mesma história, não a conseguimos encontrar até à presente data. Talvez nunca tenha existido. Talvez seja uma mera história de um Japão como uma espécie de terra lendária, em que a maior das felicidades podia vir a ser encontrada por aqueles que estavam a um mar de distância. É difícil saber. Mas, olhando novamente para aquela primeira imagem ali em cima, novos pormenores podem ser encontrados:

A lenda de Yonorang e Seonyo

Yonorang e Seonyo, o sol e a lua, afastados em duas terras bem diferentes, mas sem nunca esquecerem o seu grande amor mútuo… quão bela essa ideia, e quão mais bela terá sido a reunião de ambos, aquele breve instante em que se reconheceram novamente e em que se tornaram a amar. Inesquecivelmente belo, diríamos, nesta belíssima história que parece ser tão pouco conhecida nas nossas terras do ocidente…

Porque vem o pacote de batatas fritas meio cheio? E somos enganados com isso?

Acontece a todos – compra-se um pacote de batatas fritas e ele vem apenas meio cheio, ao ponto de ainda há dias termos lido um artigo em que uma senhora, ao comprar a sua marca favorita, se deparou com uma situação como essa. E as razões para tal já são, hoje, bem conhecidas, podendo ser encontradas em tudo quanto é site informativo – o pacote contém um gás que ajuda na conservação das batatas, e esse mesmo gás também ajuda a que o produto no seu interior não se danifique tanto. Ou, pelo menos, assim nos tentam informar. Mas até que ponto será isso mesmo verdade? É apenas um puro mito, será que as empresas em questão nos estão a tentar enganar a todos?

Um pacote de batata frita meio cheio

Ficámos curiosos com esta espécie de mito dos nossos dias, e então decidimos ir investigá-lo. Comprámos um pacote de batatas fritas – não fomos pagos para publicidades – e constatámos que, de facto, ele vinha apenas meio cheio. Depois, separámos o seu conteúdo em dois pequenos sacos transparentes, selámos o primeiro com muito pouco ar, enquanto que no segundo tivemos o especial cuidado de assegurar que também existia uma quantidade significativa de ar dentro do saco, quase como nos pacotes que se adquirem nas lojas. Em seguida, pedimos uma criança emprestada e pedimos-lhe que agitasse ambos de forma tão vigorosa quanto possível, mas tendo o cuidado de assegurar que ela não fazia nada que danificasse directamente as batatas. Depois, quando reabrimos ambos os sacos, reparámos que o segundo, aquele que tinha uma quantidade significativa de ar, tinha o produto no seu interior menos danificado – o espaço meio vazio no pacote parece ter servido como uma espécie de almofada para assegurar que o produto por que pagamos não choca tanto entre si, por ter mais espaços em que se mover.

Um pacote de batatas fritas rígido

Claro que este procedimento não foi realizado com o tal gás que promove a conservação da qualidade do produto, mas o processo seguido permitiu-nos constatar que, de facto, um pacote de batatas fritas meio cheio faz com que eles não se danifiquem tanto. Ao mesmo tempo, é igualmente essa a razão pela qual pacotes rígidos, como os visíveis nesta segunda imagem, estão ocupados por produto quase até ao topo – visto que a própria embalagem é rígida, é muito mais difícil que o seu conteúdo se danifique durante o transporte!

 

Agora, tudo isto pode gerar uma questão adicional – se os primeiros se encontram meio cheios de ar, enquanto que os segundos aparentam ter mais produto, até que ponto é isso verdade? Será que quando pegamos num pacote de batatas fritas e ele nos diz ter 160 gramas de produto, as tem mesmo no seu interior, ou andamos todos a ser enganados com explicações como as acima?

Para ter a certeza disso, fomos a um hipermercado e pesámos 10 pacotes de batatas fritas de diversas marcas. Com excepção de um dado pacote de marca própria do Continente (que, relembre-se, não é novato em estratégias de iludir os clientes), todos eles pareceram ter um pouco mais de peso do que se suporia. Não abrimos cada um, para pesar somente o próprio produto, mas parece-nos difícil que o pacote pese tanto que os clientes se sintam enganados por ele.

 

Em suma, o nosso pacote de batatas fritas tende a vir meio cheio porque a presença de ar no seu interior torna possível uma mulher conservação do produto, que assim tem mais espaço por onde circular e se danifica menos. Se, por um lado, a visão de um pacote meio vazio até pode assustar o consumidor, devemos reportar que ele está a receber mesmo aquilo por que pagou, pesando o produto no interior aproximadamente o mesmo valor apresentado no texto patente na embalagem.