Sumano, um deus esquecido dos Romanos…

Seria muitíssimo interessante contarmos aqui o mito de Sumano, como também contámos muitos outros ao longo dos anos, mas neste caso isso não é de todo possível. Poderá parecer estranho, mas convém esclarecer que nem os Romanos, há cerca de 2000 anos atrás, sabiam sobre ele muito mais do que nós, numa espécie de mistério que já antecedia significativamente o início da nossa era.

O mito de Sumano

Assim, dizem as (poucas) fontes literárias que ainda temos que Sumano foi, em tempos já há muito esquecidos, um antigo deus associado às trovoadas nocturnas, tal como Júpiter, aquele Zeus dos Romanos, estava então associado àquelas que tomavam lugar durante o dia. Depois, acrescentam outros, quando foram construídos templos a essas duas divindades, o da segunda era tão mais belo que o da primeira que isso levou ao esquecimento progressivo do seu companheiro, até que ele se tornou nada mais do que um ténue nome do passado.

 

A história ficaria por aqui, sem muito mais para se dizer, não fosse uma antiga sugestão de que o nome de Sumano, no seu original latino Summanus, vinha de Summus Manium, i.e. “o maior dos Manes“, dando a supor que este mesmo deus possa ter tido uma enorme importância em tempos remotos. Mas, se assim o foi, o que lhe aconteceu? Será que foi absorvido por Plutão, deus do submundo, de quem um dos títulos até é Summus Manium, como alguns sacrifícios fazem supor? Ou será que as suas funções foram associadas às de Júpiter, contribuindo para a popularidade posterior deste monarca do Olimpo? Não sabemos, nem podemos vir a sabê-lo actualmente – até Ovídio se referia a esta figura divina como quisquis is est, i.e. “seja ele quem for”, mostrando que a sua verdadeira identidade já era desconhecida nos primeiros anos da nossa era. E, para nós, passados tantos outros séculos desde esse apogeu da literatura latina da Antiguidade, o mistério ainda se adensou mais, fazendo de este antigo deus pouco mais que um mero nome…

A lenda de Sugaru, Raijin e Fujin

Hoje, íamos aqui contar a lenda japonesa de Sugaru, mas ela está tão intimamente ligada com os deuses Raijin e Fujin que não nos pareceu correcto separá-los. Portanto, decidimos falar de todas essas três figuras de uma só vez, até porque são relativamente pouco conhecidas na cultura ocidental.

Raijin e Fujin, Sugaru está ausente

Na imagem acima podem ser vistos dois deuses do Japão. Fujin (風神), do lado esquerdo, é o deus dos ventos, que pode ser reconhecido na imagem pelo facto de levar sempre consigo uma espécie de saco, em que estão contidos todos os ventos do mundo. Já do lado direito pode ser visto Raijin (雷神), deus das trovoadas, fácil de reconhecer em virtude dos símbolos redondos que o cercam – são, na verdade, uma espécie de tambores, com que se diz que esta figura divina causa o barulho característico ouvido durante as tempestades. Neste seguimento, convém dizer que os dois deuses, considerados irmãos, andam frequentemente juntos, porque – como em qualquer país do mundo – durante as grandes tempestades é habitual ouvirem-se também trovoadas. Mas, curiosamente, isso não acontece na lenda de hoje!

 

Conta-se então que na segunda metade do século V o imperador Yuriaku estava prestes a sair do seu palácio quando começou uma enorme tempestade. Não sabemos se teve medo, ou se o seu espírito foi habitado mais pela curiosidade, mas este monarca pediu então a um dos elementos da sua corte, um nobre chamado Sugaru, que capturasse Raijin. Durante dias, este mero homem seguiu o deus sem cessar, até que finalmente conseguiu falar com ele, pedindo-lhe então que viesse com ele ao imperador. Previsivelmente, o deus riu-se e disse que não ia a lado nenhum… até que Sugaru rezou a Kannon, “deusa” da compaixão*, com a ajuda da qual foi capaz de capturar o deus e levá-lo até ao imperador. Posteriormente libertou-o, mas não sem que antes tenha sido forçado a trazer bom tempo a todo o Japão.

 

É, nesta lenda de Sugaru, provável que Fujin também acompanhasse Raijin, como parece ser habitual, mas as versões que consultámos não o afirmam explicitamente; assim, o companheiro associado aos ventos é aqui completamente secundário, tomando o palco principal a figura humana e o seu opositor divino, numa história particularmente emblemática das lendas do Japão, que até concedeu ao herói um título que podemos traduzir como “Aquele que Capturou o Deus”. E, apesar de curta, é uma lenda curiosa, até porque não são muitas as lendas ocidentais em que um deus foi capturado por um ser humano – para uma excepção, ver, por exemplo, o mito grego de Sísifo, que em dado momento capturou a própria morte!

 

 

*- Explicar a figura de Kannon não é simples face a quem nada perceba do tema, mas podemos resumi-la como uma espécie de santa budista padroeira da compaixão.

Como foi a Batalha de Aljubarrota?

Ainda sobre guerras, a Batalha de Aljubarrota parece ser um daqueles episódios da história de Portugal que todos conhecemos “muito bem” dos tempos de escola. E conhecemo-la essencialmente através de um grande facto intemporal – que os soldados de Castela eram muito mais numerosos que os nacionais, mas que estes últimos os conseguiram derrotar devido à chamada “táctica do quadrado”. Toda a gente nata no nosso país se tende a lembrar disso, mas infelizmente aos alunos de escola e aos leitores comuns raramente é explicado muito mais que esse facto consumado numa singela frase somatória, pelo que achámos que hoje deveríamos contar aqui o cerne de toda esta enorme lenda da história nacional. A própria história, os factos contextuais, esse grande “o que aconteceu antes e depois”, terá de ficar para outros (hey, isto ainda é um espaço sobre mitos, lendas, livros esquecidos e curiosidades…) – o que queremos contar, aqui, hoje e de uma forma muito simples, é exclusivamente o que aconteceu na Batalha de Aljubarrota, à data de 14 de Agosto de 1385, e como é que a vitória portuguesa foi conseguida!

A mais famosa imagem da Batalha de Aljubarrota

Assim, e como se aprende na escola, por razões de sucessão ao trono nacional os exércitos de Portugal e de Castela encontraram-se na zona de Aljubarrota. Porém, o que é menos sabido é que os primeiros tinham o auxílio de tropas inglesas, enquanto que os segundos tinham também o apoio de soldados franceses. E isto é importante porque, de acordo com Jean Froissart, cronista francês da época e que até falou com alguns dos sobreviventes, há um primeiro passo interessante na batalha de Aljubarrota – vendo apenas um pequeno exército à sua frente, os soldados franceses decidiram atacá-lo sozinhos, num acto hubristico,  e… acabaram derrotados, com muitos deles até a serem capturados!

Toda a batalha até poderia ter ficado logo por aí, não fosse o facto dos Castelhanos terem decidido atacar pouco depois, o que poderia levar a uma situação muito problemática, em que o exército português era atacado pela frente enquanto também tinha, por trás, os prisioneiros franceses; como tal, tiveram imperativamente de os matar a (quase?) todos antes do confronto com nuestros hermanos. E como se processou esse outro confronto, aquela tal famosa “táctica do quadrado”?

A táctica do quadrado da Batalha de Aljubarrota, por José Hermano Saraiva

Num dos seus vídeos sobre a Batalha de Aljubarrota, que pode ser visto carregando na imagem acima, José Hermano Saraiva explicou-o com um excelente diagrama que, segundo ele, podia ser visto há alguns anos no museu comemorativo da batalha. Essencialmente, e começando pela imagem inferior, os Castelhanos atacaram pela frente dos Portugueses e fizeram-no com uma tal pujança que rapidamente entraram numa espécie de quadrado formado pelo exército nacional. Em seguida, o nosso exército fechou essa formação e “capturou” grande parte dos adversários no seu interior, onde os podia atacar por todos os lados e até à distância.

Agora, poderia perguntar-se o porquê de os Castelhanos não terem, por exemplo, circundado toda a formação portuguesa… ora bem, se isso não é visível na imagem acima, o “nosso” exército estava no topo de uma pequena colina, flanqueado por dois ribeiros (o Ribeiro de Vale de Madeiros e o Ribeiro de Vale da Mata*), o que tornava muito difícil, ou quase impossível, um ataque senão pela frente – e quando, de uma forma previsível e natural, ele lá chegou, este confronto guerreiro tomou lugar precisamente como o exército de Portugal e Nuno Álvares Pereira esperavam, dando-lhes a tão-almejada vitória em menos de um só dia, até porque a noite já se avizinhava!

 

Dito assim, tudo isto até parece fácil, mas há que recordar que esta foi provavelmente uma das mais importantes batalhas da história de Portugal, talvez a par da semi-lendária Batalha de Ourique, ao ponto de um dos seus grandes actores – Nuno Álvares Pereira, “o Condestável” – surgir em diversas lendas nacionais e ser considerado, mesmo até vários séculos após a sua morte, como o grande defensor da nação e uma das quatro maiores figuras da história nacional. Incrivelmente, quando em 2007 se decidiram eleger os “Grandes Portugueses”, ele ficou em 18º lugar, atrás de figuras como Álvaro Cunhal, D. João II, Mário Soares ou Pinto da Costa – uma grotesca injustiça, se se tiver em conta que sem ele poderíamos ter passado estes últimos séculos como uma província de Espanha… enfim, é o clássico esquecimento português, que tanto gosta de olvidar os grandes heróis do passado…

 

*- O local da batalha também pode ser identificado por um outro elemento importante – alguns anos mais tarde o famoso Condestável mandou erigir lá uma pequena capela, supostamente no mesmo local em que ele próprio tinha comandado o exército. Hoje é conhecida como a Capela de São Jorge, na zona de Aljubarrota, o que permite identificar com alguma precisão adicional pelo menos parte do local da batalha!

A lenda do Fantasma de Kiev e Fidonisi

Hoje, em apoio à Ucrânia e ao povo ucraniano, falamos da lenda do Fantasma de Kiev e Fidonisi. Isto porqe queríamos colocar por cá uma lenda vinda desse país, mas infelizmente aquelas que conhecemos ou são demasiado complexas para toda esta ocasião, ou então poderiam ser consideradas inapropriadas para a breve homenagem que aqui pretendíamos fazer. Portanto, e em alternativa, contamos estas duas, que são muito recentes. De facto, são tão recentes que terão, parece, pouco mais de 48 horas de existência, tendo nascido no início do recente confronto da Rússia com este país.

O Fantasma de Kiev e a bandeira da Ucrânia

Diz então esta breve lenda do Fantasma de Kiev que quando os Russos começaram a atacar a Ucrânia, se ergueu nos céus desse país um piloto quase miraculoso que depressa derrubou pelo menos seis caças dos invasores. Desconhece-se a sua origem ou identidade, mas é certamente uma ideia que dá alento aos combatentes locais, como em outros tempos também Jesus Cristo ou São Tiago apoiaram os combatentes ibéricos, ou na Segunda Guerra Mundial foram vistos combatentes misteriosos nos areas a apoiar os Aliados contra as forças de Hitler.

Com este confronto parecem estar igualmente a nascer outras lendas em terras da Ucrânia, mas… serão elas verdade? Ou, se preferirmos, onde termina a sua ficção e começa a sua verdade? Há umas horas ouvimos uma outra história que capta bem essa estranha realidade da existência lendária – na ilha de Fidonisi, um grupo de treze combatentes, antes de morrer e quando confrontados com uma força indiscritivelmente maior, limitou-se a dizer algo como “Vão-se foder”. Um comentador online equacionava essa acção à dos 300 de Esparta, que com uma pequena força tentaram parar o enorme exército de Xerxes I, dando-nos a pensar bastante na imensa intemporalidade da coragem humana.

Putin e Hitler

Será isto verdade? Serão histórias como as do Fantasma de Kiev e Fidonisi completa verdade ou apenas meros mitos? Talvez, por uma vez, isso não importe. Importa é que há guerra, nova guerra, e com ela vem o sofrimento de pessoas que quase nada têm a ver com as suas circunstâncias. A eles, a todos eles, dedicamos as linhas de hoje e a nossa maior compaixão, porque enquanto demasiados europeus estão sentados confortavelmente em suas casas, nesta mesma noite existirá provavelmente algum menino ou menina na Ucrânia, escondido no interior de um armário ou por baixo de uma cama, com imenso medo do que se está a passar – e nós, enquanto europeus e enquanto membros de uma civilização ocidental que nunca parece aprender com os erros do passado, deveríamos pedir-lhes as maiores desculpa pela nossa inactividade. Mais que isso não dizemos, ou pelo menos não hoje…

A lenda de Ugolino della Gherardesca

No contexto desta horrenda lenda de Ugolino della Gherardesca, há que começar por dizer que no passado já cá fizemos diversas alusões à Divina Comédia de Dante Alighieri. Recorde-se, nesse sentido e para quem ainda não conhecer a obra, que na primeira das suas três partes o herói desce os círculos do Inferno e vai encontrando aqueles que se pensavam ser os maiores pecadores de todos os tempos. A ideia já vinha da Antiguidade e continuará na Idade Média e no Renascimento, mas por hoje bastará explicar que nesse conjunto de sistemas do pós-vida existia sempre uma espécie de evolução entre os falecidos, seja num sentido positivo (i.e. no último grupo eram colocados os melhores dos falecidos), ou num sentido negativo, i.e. os piores de todos os pecadores eram encontrados no último dos grupos. O Inferno da obra de Dante estrutura-se na segunda forma, e esta figura encontra-se quase no local mais profundo do Inferno – pior que ele, só mesmo Judas Iscariotes (traidor de Jesus Cristo), Bruto e Cássio (dois dos traidores de Júlio César). Mas, se os outros três são muito mais conhecidos no panorama histórico ocidental, o que fez este para merecer tal “honra”? Vamos contá-lo aqui, mas fiquem os leitores mais sensíveis desde já avisados que esta história poderá não ser muito apropriada para eles!

A lenda de Ugolino della Gherardesca e seus filhos

Conta-se então que Ugolino della Gherardesca foi uma personagem histórica real, que viveu no século XIII da nossa era em terras de Itália. Envolvido em disputas políticas entre as famílias dos Guelfos e Gibelinos, acabou também ele por ser traído e aprisionado, juntamente com os seus filhos, no interior de uma torre na cidade italiana de Pisa. E até aqui tudo mais ou menos bem, é provável que todos os envolvidos considerassem a situação puramente temporária, mas sem que o soubessem o encarcerador atirou da chave da entrada para um rio próximo. Depois, com o avançar dos dias, deixou de ser dada comida a estes prisioneiros e ouviu-se um barulho… o som de “alguém” a emparedar a entrada da torre.

Os dias foram passando. O medo e a incerteza deram lugar à fome. E então, tomou lugar o derradeiro dos pecados de Ugolino della Gherardesca. Sim, ele tinha sido traidor, mas a sua abominável história ainda não tinha acabado. Cheios de fome, em enormíssimo desespero, os filhos desta figura – que se supõe ainda serem crianças, como pode ser constatado na imagem acima – pediram-lhe ajuda. Pediram-lhe que lhes explicasse o que se passava, imploraram-lhe uma só palavra da sua boca, mas ele manteve-se calado, sempre calado. E à medida que as horas passavam, enquanto estas crianças imploravam mais e mais pelo auxílio paterno, ele colocou as mãos na boca e mordeu-as com força, para não ter de gritar. Não compreendendo o que se passava, diz-se que as crianças até lhe disseram “Pai, pai, não te comas! Se tens assim tanta fome, come um de nós…!” – mas ele manteve-se tão calado como sempre. Passaram-se mais alguns dias e estes filhos de Ugolino della Gherardesca faleceram em virtude da sua fome. Depois, também o pai destas infelizes crianças faleceu, esfomeado, e dizem alguns que, nesse maior de todos os desesperos, tentou ainda comer os cadáveres dos próprios filhos…

 

Face a esta horrenda história – talvez a mais inquietante de todas as contidas na Comédia de Dante – sempre fomos pensando que o pecado de Ugolino della Gherardesca não terá sido apenas o da traição aos seus congéneres, mas a traição aos que mais confiavam nele, como seu próprio pai, e aquele derradeiro pecado do silêncio, de não se dizer uma única palavra a um outro ser humano, mesmo quando uma só frase, um só som, lhes teria poupado sofrimento. Se, de um ponto de vista poético, esta é uma história belíssima, já no sentido humano é provavelmente uma das mais horrendas que os poemas épicos têm para nos dar a ler… a história de um homem que pelo mero acto de falar, de abrir a sua boca, poderia ter salvo os seus filhos, poderia ter afastado pelo menos parte do seu sofrimento e do de aqueles que amava, mas escolheu e decidiu não o fazer…