Um feitiço para matar alguém

Se já cá mostrámos vários feitiços antigos, desde os de Luís de la Penha até à chamada Cabra Preta Milagrosa, passando por alguns de conteúdo amoroso, entre muitos outros, há uma questão inquietante que ficou por se fazer – mas então, e se alguém odiasse tanto outra pessoa que quisesse, pura e simplesmente, um feitiço para matar alguém? Seria isso possível? Ou, perguntando-o até de um modo mais geral, quais eram os limites atribuídos à magia há uns poucos séculos atrás?

Feitiço para matar alguém

De facto, dos muitos registos que nos chegaram dessa época podemos inferir que se acreditava, efectivamente, que a magia tinha alguns limites. Eles raramente são colocados de uma forma bem explícita, i.e. “a magia não pode fazer X ou Y”, e nem nunca sequer vimos uma listagem concreta dos seus limites – apenas inferências que podiam ser feitas, através de histórias como as da poção mágica dos amores de Tristão e Isolda. Mas aqui e ali até é dito – por exemplo, no Malleus Maleficarum – que os seus limites se prendiam com uma permissão divina para se conseguir realizar determinados actos, e.g. Deus jamais permitiria trazer os mortos de volta à vida no seu corpo original até ao Dia do Julgamento. Por isso, se o poder da magia face à morte e vida não era completo, com efeito até foi possível encontrar um exemplo de feitiço para matar alguém. O que reproduzimos aqui hoje é nacional e vem de um dos muitos casos de feitiçaria julgados pela Inquisição:

Anjos do céu,
Justos da terra,
Santos fiéis de Deus,
D’além mar,
D’aquém mar,
No Monte Olivete vos ajuntai,
E por Jesus Cristo chamai,
No seu coração gritai
Por [nome da pessoa],
Que não durma,
Que não coma,
Que se afogue,
Que se mate,
Que se enforque,
Por tal santo *
E tal santa *
E que seja logo e logo e já.

Será que – como questionámos em relação a feitiços anteriores – este funciona mesmo? Talvez haja uma questão muito melhor a ser colocada, neste caso concreto – como seria possível atestar que ele funciona? Mesmo que a pessoa com quem este feitiço fosse usado morresse, como se saberia se foi do feitiço para matar alguém, em si mesmo, ou por quaisquer outras razões? Não é propriamente algo fácil de se responder, pelo que – como em muitos casos anteriores – isto é tudo e somente uma questão de crença, opinião e fé. Por isso, como até já é costume, este conteúdo foi reproduzido aqui por pura curiosidade e nada mais – presume-se, como sempre, que não funcione, mas os nossos inimigos ficam convidados a tentar e deixar cá algum feedback.

 

 

*- Não é totalmente claro, pela fonte consultada, se o feitiço era mesmo com estas palavras específicas ou se, na sua forma original, continha referências a santos e santas específicos, que poderão ter sido omitidos pela Inquisição.

Bernardim Ribeiro e “Menina e Moça”

Bernardim Ribeiro, conhecido hoje quase apenas como o autor da novela pastoril Menina e Moça, é uma figura sobre a qual hoje se sabe muito pouco. A sua vida, mais do que composta por factos, é-o quase somente por opiniões, inferências, sugestões e um constante carácter de quase-lenda. Como tal, é muito difícil saber-se seja o que for sobre ele, até que se explore a novela que escreveu e que originalmente até tinha o título de Saudades – o seu nome alternativo vem da primeira frase da obra, i.e. Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.

Bernardim Ribeiro e Menina e Moça

Reza então uma espécie de lenda que Bernardim Ribeiro, o poeta, se apaixonou por uma familiar. Esta, impedida de casar com ele por ordem paterna, acabou por casar com outro homem, que faleceu pouco depois. Desiludida com a vida, esta apaixonada fugiu do mundo e escondeu-se de toda a humanidade, supostamente num convento, onde acabaria louca. E o poeta, esse, morrendo de amores no seu peito, escreveu sobre tudo isto a obra que viria a ficar conhecida como Menina e Moça. Ou seja, trocando-se por miúdos toda esta situação, se sabemos muito pouco sobre o autor, pegando-se no que ele escreveu nesta sua maior obra e reinterpretando-a como uma espécie de autobiografia, em que as personagens são agora anagramas de aqueles que as inspiraram (e.g. o autor torna-se Binmander, a amada fica convertida em Aónia, e assim por diante), passa a encontrar-se uma suposta e dolorosa história de amor na própria vida de quem escreveu todo o texto. Porém, onde termina essa suposta ficção e começa a realidade, é algo que temos de admitir que se desconhece por completo, i.e. tudo isto poderá ser somente uma enorme ficção e absolutamente nada mais.

 

Hoje, Bernardim Ribeiro, autor desta Menina e Moça, continua a ser famoso por esta sua obra, tal como por alguns poemas da sua autoria presentes no Cancioneiro Geral. Deu nome a ruas e a um teatro, mas continua sem se saber muito bem quais são os verdadeiros factos da sua vida e aqueles que apenas lhe são atribuídos, de forma indirecta, pela leitura das suas obras. Assim, são atribuídos à vida do escritor um conjunto de eventos que até poderá não ter tido, gerando uma espécie de lenda nacional a que Teófilo Braga um dia chamou os “Amores de Bernardim Ribeiro” – mas deixe-se claro, já hoje e agora, que os eventos do parágrafo anterior são provavelmente os de uma pura lenda, e pouco ou nada mais, devendo admitir-se que a vida do compositor desta obra se encontra envolta num enorme nevoeiro dos tempos…

O segredo de São Nemo

De entre os santos que existiram no passado e que entretanto foram esquecidos talvez nenhum tenha sido tão grande como São Nemo. De facto, ele parece ter sido tão esquecido que mesmo nos nossos dias de hoje, quem decidir fazer uma pesquisa por este santo na internet encontrará as mais diversas referências ao outro Nemo, o peixe da Disney, mas quase nada em relação à figura santa que parece ter sido tão bem conhecida na Idade Média.

A situação ainda se torna mais caricata porque, ao lerem a vida de São Nemo, não deixarão de se aperceber que este homem parece ter sido o maior e melhor de todos os santos, ao ponto de um relato dos seus (muitos) feitos dizer até que “o que Deus fecha este santo abre, e o que Deus abre este santo fecha.” Muitos outros feitos lhe são associados – só ele podia venerar cumulativamente a divindade e o dinheiro; só ele podia ter duas esposas; só ele amparou Jesus Cristo nos seus momentos de maior sofrimento… e, talvez mais impressionante que tudo o resto, foi ele o primeiro de todos os homens a ser criado, existindo antes de tudo o resto. Mas… se assim o é, o que lhe aconteceu? Como foi uma figura assim tão impressionante esquecida ao longo dos séculos?

Imagem de São Nemo

Na verdade, este santo não existiu excepto em paródias escritas na Idade Média. Nemo é uma palavra latina que significa “Ninguém” – uma espécie de São Nunca medieval – e então algum brincalhão teve a ideia de compilar todos os momentos da Bíblia em que essa palavra aparecia e associá-los a uma única figura, a um suposto homem que poderia ter intervido em todos eles, mesmo quando isso pareceria impossível.

Poderia pensar-se que se tratou de um engano, de uma perda do sentido original das palavras, mas não, era mesmo uma sátira e nada mais, ao ponto de muito poucos parecerem ter acreditado que se tratava de uma verdadeira figura digna da santidade. Isso é completamente óbvio em representações como a acima, em que se torna óbvio que este São Nemo era não mais do que “Ninguém”, não tendo por isso uma forma física. É uma piada muito antiga, bem conhecida até já da Odisseia de Homero, mas que parece ter tido o seu pico na compilação das “vidas” deste santo, a quem foram atribuídos, de uma forma admitidamente falsa e jocosa, alguns eventos verdadeiramente impressionantes na Idade Média. E, depois, o tempo foi passando e ele acabou por ser esquecido…

Sobre as lendas das Mouras Encantadas

Se foram muitas as lendas nativas de Portugal que se foram perdendo ao longo dos séculos, as das Mouras Encantadas ainda nos chegaram. E, na verdade, a termos de eleger uma grande figura lendária nacional, ela teria de ser, sem qualquer menor dúvida, esta, por ser completamente característica do nosso país e nos ter chegado num numero enorme de histórias. Infelizmente, elas também são tantas – poderão ler algumas numa tese de que cá falámos anteriormente, ou na obra As mouras encantadas e os encantamentos no Algarve de Ataíde Oliveira – que se torna impossível resumi-las a todas numa só publicação, mas é notável que elas tendam, quase sempre, a seguir um padrão previsível. Assim, na impossibilidade de contar a totalidade das suas histórias, começamos aqui por apresentar esse grande padrão que as caracteriza:

Uma moura encantada das lendas?

  1. Uma pessoa vai a um local de difícil acesso, como um ribeiro ou uma caverna, ou a um sítio que os locais tendem a evitar;
  2. Encontra por lá uma mulher misteriosa e muito bonita (ou, menos frequentemente, um homem ou criança – o Mouro Encantado e o Mourinho);
  3. Esta nova personagem pede-lhe que realize uma determinada tarefa, prometendo-lhe que terá uma boa recompensa;
  4. A pessoa tenta realizar essa tarefa, mas por uma qualquer razão acaba quase sempre por falhar (há excepções, em particular nas versões mais antigas das lendas);
  5. Se não for salva, a figura misteriosa desaparece, para – acredita-se muitas vezes – não mais voltar a ser vista por essa pessoa.

 

São estes os cinco grandes passos que tendem a caracterizar grande parte das lendas das Mouras Encantadas, mas eles permitem realizar um grande número de histórias. Por exemplo, quando estas figuras apareciam ao pé de água, elas frequentemente tomavam a forma de peixes (como a lampreia), que se desencantavam para uma forma humana somente num único dia do ano (quase sempre o de São João), e que pediam ajuda para deixar de estar “fadadas”, i.e. encantadas, o que podia ser realizado se, por exemplo, uma dada pessoa levasse um pequeno embrulho para algum lado sem o abrir. Movida pela curiosidade, a pessoa lá o abre, condenando novamente a figura que procurava ajuda. Numa outra história do mesmo tipo, uma pessoa come os vistosos figos que viu numa árvore, apenas para depois se aperceber que eles eram o ouro encantado de uma destas figuras. Até podemos dar aqui um exemplo mais concreto, provindo da tese que já referimos acima, e que parece ter sido reportado oralmente:

Uma Moura Encantada

A- Há, disseram-me, no “sítio da Canada” e dentro de um algueirão, uma moura encantada. Tem aparecido a algumas pessoas, e até houve um rapaz do tempo dos nossos avós que tentou desencantá-la.

B- Como foi isso?

A- Passando em certa ocasião por ali próximo, o tal rapaz, apareceu-lhe a moura e prometeu-lhe riquezas sem conto se a desencantasse. “O que devo fazer?”, perguntou o rapaz, que era muito corajoso. “Lutar com um dragão e com um toiro.” “E o dinheiro, onde está?” “Além.” E a moura mostrou ao rapaz uma grande esteira de figos ao sol. “São figos…” “Parecem-te figos, mas não são – o que ali vês são dobrões em ouro.” E neste momento ouviu o rapaz o rastejar de um grande bicho, mas não pôde dominar o próprio medo e fugiu para não mais aparecer.

 

Mas de onde vêm estas histórias? De onde nasceu toda a ideia de Mouras Encantadas? Algumas das suas lendas revelam-no da seguinte forma – no tempo da Reconquista Cristã, esse período que foi fonte de infinitas lendas nacionais, quando muitos castelos algarvios estavam prestes a ser conquistados, algum mago islâmico decidiu lançar alguma espécie de feitiço para proteger as suas “posses”, que iam desde ouro e pedras preciosas até mulheres e filhas. Depois, com o passar do tempo, essas figuras enfeitiçadas quiseram livrar-se do seu triste destino, mas para isso precisavam de ajuda externa, que nunca se importavam de agradecer e recompensar.

A ideia é quase puramente nacional, mas também tem um problema – a serem verdade, se alguém as conseguisse mesmo desembruxar teria muito rapidamente acesso a uma vasta fortuna. Ou seja, hoje andava a pastar ovelhas, amanhã tinha propriedades dignas de um rei. O que daria muito nas vistas, como é claro, e por essa razão a tarefa proposta pela figura mística ou acaba por ser falhada, ou sofre imperativamente de um qualquer precalco para se poder justificar a ausência da recompensa, ou – em último caso – a lenda é localizada num passado já distante, não existindo portanto testemunhas vivas.

 

O curioso em tudo isto é que algumas pessoas acreditavam mesmo que tinham vistos estas tais Mouras Encantadas. Há provas disso mesmo. Por exemplo, uma tal Rosa Maria, que viveu em finais do século XVIII em Vale do Peso, afirmou isso mesmo – em troca, acabou por ser presa pela Inquisição durante três anos e açoitada publicamente. Compreende-se – se alguém nos viesse dizer, hoje, que viu uma dessas figuras, também muito dificilmente a levaríamos a sério, não é?! Nesse sentido, há até uma ideia na obra de Ataíde Oliveira já mencionada acima que capta bem este problema, e mesmo o porquê de muitas destas lendas se terem perdido:

Antigamente falava-se muito de Mouras Encantadas; hoje quando falamos disso põem-se a rir. Gosta-se mais do bruxedo : acha-se-lhe mais graça.

 

Mas, ao mesmíssimo tempo, a Moura Encantada e o (raro) Mouro Encantado são figuras lendárias nacionais que ainda conhecemos, por oposição a entidades como os Olharapos, Olharapas e Olhapins, ou mesmo o Secular das Nuvens e o Homem das Sete Dentaduras. Chegaram-nos centenas, talvez até milhares, dessas histórias – bastará pensar que cada “Cova da Moura” do nosso país parece ter uma para si! Portanto, cabe a cada um de nós a tarefa de não deixar que estas histórias das Mouras Encantadas se percam. Contem-nas, seja aquela que apresentámos ali em cima, as dos livros, ou até possíveis relatos da vossa região – porque, caso contrário, também elas acabarão por desaparecer, mais cedo ou mais tarde, e ficaremos com uma mitologia nacional ainda mais pobre do que já a temos…

O Secular das Nuvens e o Homem das Sete Dentaduras – duas lendas (quase) perdidas

De entre as lendas de Portugal, é provável que a deste Secular das Nuvens (a que depois juntamos a do Homem das Sete Dentaduras, por razões explicadas abaixo), também conhecido como Escolar da Nuvens ou Escolarão, seja a mais estranha de todas elas, porque nos preserva um conjunto de ideias que é muito pouco comum nos mitos e lendas do nosso país. Não acreditam? Vejamos então a sua pequena história, com base no (pouco) que ainda se sabe sobre esta figura mitológica, mas aconselhamos que os mais sensíveis não leiam o parágrafo seguinte:

O Secular das Nuvens

Supostamente, e na versão nacional da lenda, se alguém morresse de uma morte extremamente horrenda, ao ponto do seu corpo ser completamente destruído, a pessoa depois transformar-se-ia num Secular das Nuvens. E em que consiste essa tal “morte extremamente horrenda”? Para o tal efeito se produzir, a pessoa deveria ser morta muito devagarinho, pedacinho por pedacinho, ao ponto de toda a carne ser reduzida a picadinho… e depois, quando isso acontecesse, se a carne em questão se mantivesse em total repouso durante um ano, a pessoa iria sofrer uma estranha metamorfose, ascendendo aos céus e ganhando o poder de controlar as tempestades.

 

Toda esta espécie de lenda levanta muitas questões, mas é igualmente infeliz que não tenhamos muitas respostas para lhes dar, porque as raríssimas fontes literárias que nos preservaram esta história não nos permitem saber muito mais. O nome desta figura, tenha ele sido originalmente Secular das Nuvens ou Escolar das Nuvens, remete-nos facilmente para o uso da magia por elementos internos, pela sua alegada capacidade para controlar os elementos, mas o porquê da necessidade da destruição do corpo não é fácil de compreender… seria pela necessidade de transcender a condição humana, que apenas se julgava possível pelo abandono do corpo? Admitidamente, não sabemos, porque já muito pouco se sabe sobre esta figura e toda a possível história que o envolveria!

O Homem das Sete Dentaduras

Normalmente as nossas linhas ficariam por aqui, mas pareceu-nos uma boa altura para falar de uma outra figura da Mitologia Portuguesa, um tal Homem das Sete Dentaduras, que também sofre do mesmo problema que a figura anterior.

Portanto, e nesse seguimento, o Homem das Sete Dentaduras era uma figura lendária, supostamente humana, que tendia a aparecer por volta do meio-dia e comia tudo aquilo com que se deparava. Presume-se que fosse para essa mesma tarefa que necessitava dos seus sete conjuntos de dentes, mas infelizmente não se sabe muito mais sobre esta invulgar criatura. Seria uma espécie de Cuca ou Coca, um antigo Papão, usada para assustar os meninos e fazê-los evitar as horas de maior calor? É possível que sim, mas o muito pouco que ainda se pode saber sobre ela não nos permite saber mais.

 

Em suma, o Secular das Nuvens e o Homem das Sete Dentaduras representam uma face da Mitologia Portuguesa que se foi perdendo progressivamente e, portanto, sobre a qual já não sabemos quase nada. Já nos tínhamos deparado antes com um problema semelhante, quando aqui falámos sobre os Olharapos, Olharapas e Olhapins, mas há que fazer nossas as palavras de alguns estudiosos do século XIX, quando eles admitiram que alguns elementos dos mitos e lendas nacionais se estavam a perder – e, de facto, acabaram mesmo por perder-se, salvo em ténues menções que nos chegaram por via dos trabalhos que eles tentaram fazer.