Quem deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

É provável que o grande incêndio de Roma, que teve lugar entre 18 e 23 de Julho do ano 64 d.C., tenha sido um dos mais famosos da história da humanidade. Mas, no seguimento de uma publicação anterior sobre fake news, quem é que deitou fogo a Roma – Nero ou os Cristãos?

Quem deitou fogo a Roma?

De um modo muito geral, a maior parte das fontes literárias que nos chegaram afirmam que o culpado de deitar fogo a Roma foi o Imperador Nero, mas há que considerar que essa informação se parece dever, maioritariamente, a um rumor que nasceu alguns anos mais tarde. Visto que este imperador queria construir um novo palácio para si, mas não havia local para tal na cidade de Roma, surgiu então a ideia de que o fogo tinha sido ordenado por ele para propiciar essa existência de um local vago. Infelizmente, não temos qualquer forma de saber até que ponto isto será verdade, i.e. se o incêndio foi uma feliz(?) coincidência, ou causado de forma deliberada e com um objectivo muito particular.

 

Uma outra opinião diz que foram os Cristãos que deitaram fogo à cidade, e que esse primeiro acto levou à sua perseguição pelos Romanos. Hoje, isto até poderá parecer-nos um tanto ou quanto estranho, até que se pense em toda a situação no contexto histórico – nessa altura quase nada se sabia sobre essa nova seita religiosa, excepto que se reuniam ilegalmente e a altas horas noite. Depois, nos dias de hoje sabemos até que algumas seitas cristãs da época acreditavam que o novo fim do mundo – por contraste com o anterior, o da cheia de Deucalião e/ou Noé – seria pelo fogo, ou seja, teria lugar quando todo o mundo fosse consumido por um enorme incêndio.

 

Se, por um lado, sabemos que Nero não deitou fogo a Roma por si mesmo e na primeira pessoa – as fontes tendem a dar-lhe uma autoria apenas moral – a segunda possibilidade levanta uma questão muito significativa – se os Cristãos se andavam a reunir durante a noite, e alguns deles até tinham essa ideia de um fim do mundo causado pelo fogo, será que algum deles, por simples acidente ou por alguma ideia mais amalucada, acabou por causar o famoso incêndio? Sabemos que a história é escrita pelos vencedores, e por isso ela tem de isentar os Cristãos de qualquer culpa, mas isso também implicava encontrar alguém a quem culpar – e quem melhor do que Nero, esse seu primeiro perseguidor, para ocupar o lugar, reduzindo-o a um opositor teatral?

Efectivamente, não sabemos quem deitou fogo a Roma, Nero ou os Cristãos, naquele fatídico ano 64 d.C. As fontes literárias que ainda temos nada nos permitem concluir sobre o tema, mas a termos mesmo de eleger um culpado, é mais provável que tenham sido os Cristãos do que este famoso imperador. Não podemos afirmar que o fizeram de uma forma deliberada (o que até é possível, dadas algumas teologias da época, como já foi apontado acima…), mas o que é muito difícil de negar é o facto de eles se andarem a reunir durante a noite; como tal, tinham de levar alguma espécie de fonte de luz consigo, o que poderá ter originado todo este famoso incêndio. Depois, juntando-se os rumores – ou fake news, se preferirem – a toda a equação, criou-se a famosa versão de que eles foram perseguidos não por uma ilegalidade que faziam (e que, de forma até estranha, ninguém parece negar), mas somente para mascarar o “verdadeiro” culpado.

Será que isto foi o que realmente aconteceu? Face à falta de informação mais fidedigna e imparcial da época em questão, essa é uma resposta que temos de deixar aos leitores…

A lenda do Castigo do Bispo

Encontrar a lenda do Castigo do Bispo, de que aqui falamos hoje, não foi tarefa nada fácil, pela simples razão de que o seu nome é muito pouco informativo. Desde a lenda do Bispo Negro até muitas outras, são diversas as histórias nacionais em que um prelado castiga alguém, ou é castigado, por uma qualquer razão. Portanto, passámos meses em busca de uma potencial resposta, em que um castigo de um bispo fosse o elemento central da história. Depois, apercebemo-nos de uma curiosa coincidência – na listagem de lendas nacionais compilada por Teófilo Braga esta surge depois de duas outras lendas associadas ao rei Dom Pedro I, levantando uma leve possibilidade de que esse tal bispo, e respectivo castigo, até pudesse estar associado com esse monarca. E, na verdade, a Crónica de El-Rei Dom Pedro I, de Fernão Lopes, conta uma história curiosa que se poderá ter tornado lendária ao longo dos séculos.

A lenda do Castigo do Bispo

Numa dada altura da sua vida, quando D. Pedro I foi ao Porto, ouviu falar de um bispo que se andava a envolver sexualmente com uma mulher casada. As pessoas da região sabiam do caso, mas tratando-se o criminoso de um religioso com certo nível social, tinham medo de intervir na situação. Então, quando o rei soube da ocorrência, pediu que o bispo se encontrasse com ele e urdiu um plano.

Que plano era, perguntam? Algo de simples – ele queria encontrar-se com o bispo totalmente sozinho, pelo que pediu aos seus funcionários que criassem as condições para que ambos pudessem estar sós um com o outro, nomeadamente não deixando entrar o séquito do religioso e fechando todas as portas e janelas tão depressa quanto possível. Assim foi planeado e assim foi feito. E então, quando se encontraram frente a frente, sós, o rei retirou do seu corpo as vestes reais, pediu ao bispo que tirasse as suas vestes religiosas, e atacou-o repetidamente com um chicote.

Não é claro o que aconteceu nos momentos seguintes, a potencial violência de todo este castigo do bispo não é descrita, mas o que o cronista Fernão Lopes nos revela é que pouco depois as portas foram abertas e um tal Gonçalo Vasques de Goes, escrivão do monarca, o relembrou de que esta não era a melhor forma de administrar justiça. E toda a história parece ter ficado por aí…

 

Mas… pergunte-se, terá sido tudo isto verdade? Fernão Lopes, ao contar-nos este episódio do castigo do bispo, nunca menciona o nome do religioso, mas fomos capazes de descobrir algo de intrigante – quem for consultar uma listagem oficial dos bispos do Porto e depois a comparar com as datas do reinado de D. Pedro I, i.e. 1357 a 1367, poderá notar que entre os anos de 1357 e 1359 não é mencionada qualquer figura a ocupar esse lugar. Isto poderá indicar muito – terão sido os anos em que este misterioso bispo ocupou a Sé do Porto antes de ser deposto? – mas também poderá tratar-se de uma mera coincidência, já que esta situação não é caso único na mesma fonte de informação. Fora essa informação, não encontrámos nada que afiance ou rejeite a ocorrência real deste episódio – poderá ter sido uma invenção do cronista, para demonstrar que a justiça do rei chegava até ao clero, ou um episódio bem real.

 

Resta uma pergunta, por hoje. Terá sido mesmo este o “castigo do Bispo” a que Teófilo Braga se referia? Não há, face à obra original e respectivo contexto da referência, qualquer hipótese de termos uma certeza mesmo absoluta, mas esta parece-nos ser uma curiosa lenda nacional que, pelo seu carácter muito único (quantas lendas de Portugal conhecem em que religiosos sejam punidos fisicamente?), seria certamente digna de nota para esse autor.

João Soares de Paiva, primeiro autor português?

Quando se fala de um potencial primeiro autor português, o nome que tende a surgir frequentemente é o de João Soares de Paiva, que terá vivido em meados do século XII. Porém, Teófilo Braga também incluiu este mesmo nome entre o das maiores lendas de Portugal, dando a entender que ele não terá sido apenas um simples autor, mas também terá associado pelo menos algo semelhante a uma espécie de lenda. Assim, o que se esconde por detrás deste nome?

Um trovador como João Soares de Paiva, o primeiro autor português

Para que possamos considerar João Soares de Paiva como um primeiro autor português é necessário, obviamente, que ele tenha composto algo nesta língua. E, de facto, chegou-nos mesmo uma cantiga de maldizer que lhe é atribuída:

Ora faz host’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’ést’el-Rei d’Aragón;
non lh’han medo de pico nen de marra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen han medo de lhis poer boçón
e riir-s’han muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçón,
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.

Se lh’o bon Rei varré-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non ha a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruír ata burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.

Quand’el-Rei sal de Todela, estrẽa
ele sa host’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pẽa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, come de bon saber,
que o non filhe luz en terra alhẽa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou senón aa cẽa.

Ela não é muito fácil de ler, até por estar em Galaico-Português, mas uma espécie de prefácio, presente em algumas edições, dá uma informação muito importante e bastante simples de compreender, que permite descortinar aquilo que aqui procuramos hoje:

Esta cantiga é de maldizer e feze-a Joam Soárez de Pávia a ‘l-rei Dom Sancho de Navarra porque lhi troub’host’em sa terra e nom lhi deu el-rei ende dereito.

Toda esta informação permite-nos saber que numa dada altura Dom Sancho [VII] de Navarra invadiu terras alheias, incluindo algumas de um rei de Aragão, possivelmente em finais do século XII, e que isso afectou de alguma forma este poeta, motivando-o a escrever o poema acima, em que o afectado critica o rei pelas suas acções cobardes. Portanto, a termos de associar uma espécie de lenda a este João Soares de Paiva, ela passaria precisamente por estes precisos eventos, i.e. provavelmente algumas terras que lhe pertenciam foram invadidas e o poeta escreveu um poema em que criticava o invasor. Ao mesmo tempo, a realidade histórica destes eventos permitem datar a sua composição, tornando possível constituir o seu autor como um pseudo-“primeiro autor português”, não porque o que tenha sido com todas as certezas do mundo, mas porque parece ser o mais antigo que nos seja possível datar.

 

Os mais chatinhos poderão querer argumentar que o que está ali em cima é um poema de João Soares de Paiva em Galaico-Português, até de difícil leitura nos nossos dias, não uma composição na língua portuguesa tal como a conhecemos hoje. Contudo, as línguas são entidades mutáveis, que evoluem ao longo dos séculos, e pela mesmo ordem de ideias seria, de alguma forma, até possível dizer-se que um autor como Luís de Camões não escreveu em Português, já que nas edições originais dos Lusíadas, bem como dos seus outros poemas, nem sempre é fácil compreender o que ele nos escreveu. Gil Vicente ainda é pior, a esse nível, mas ninguém duvida que eles tenham escrito na nossa língua! Portanto, o que o poema ali exposto apresenta é como que uma forma embrionária da nossa língua, que já não é Latim mas que ainda não é igual à nossa.

 

Assim, faz todo o sentido afirmar-se que João Soares de Paiva foi o primeiro autor português cuja data ainda conseguimos atestar. Não foi certamente o primeiro a escrever na língua que vimos acima, mas é o primeiro que o fez de uma forma que conseguimos datar. Em outras cantigas medievais – relembre-se, a título de exemplo, a do nosso Sancho I a Maria Pais Ribeira – nem sempre é possível datar os eventos em questão, pelo que até poderão existir autores anteriores ao aqui em questão, mas já não temos qualquer forma real de o vir a saber…

Os poemas de Miguel Ângelo

Quando nos referimos a poemas de Miguel Ângelo, é provável que a maior questão se prenda com a identidade do seu autor, porque a esse nome tendem a ser atribuídos diversos feitos em múltiplas áreas diferentes, nenhum dos quais hoje especialmente famoso pela sua produção poética. Mas, de facto, referimo-nos ao escultor e pintor italiano do Renascimento, de que já cá falámos sobre a estranha estátua de Moisés com cornos.

Sobre os poemas de Miguel Ângelo

Na verdade, além desses seus famosos feitos artísticos, este Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni também escreveu diversos poemas. Não se destinavam a ser publicados, como pode ser constatado pelo facto da sua maior parte estar incompleta ou numa forma imperfeita, mas pelos seus versos pode ser compreendido um pouco mais sobre o autor e o seu pensamento. Por exemplo, os temas mitológicos raramente fazem parte do palco principal – para uma excepção pode ser visto o caso de Febo di Poggio, um dos modelos do autor, aqui comparado ao deus grego Febo/Apolo – e algumas das construções poéticas dão a conhecer uma possível homossexualidade do seu criador. Se ele nunca casou, nem teve filhos, há no entanto que esclarecer que estes poemas de Miguel Ângelo não deixam clara a completa sexualidade do seu autor, podendo uma mera amizade masculina estar a ser confundida com algo mais.

 

Dadas estas considerações, será que os poemas de Miguel Ângelo ainda merecem ser lidos nos nossos dias de hoje? Após alguma discussão sobre o tema chegámos à conclusão de que não… não porque sejam maus, mas porque o pináculo da criação artística do seu autor não foi certamente a poesia. Assim, esta sua produção merece ser mencionada como uma breve curiosidade, poderá até ter especial interesse para quem estudar a sua arte, mas para o leitor comum é apenas isso, uma mera curosidade. E, nesse sentido, até podemos acrescentar um elemento curioso – quando tentámos seleccionar um dos seus poemas para um potencial apresentação aqui não conseguimos decidir-nos por nenhum deles, por se sentir que nenhum deles continha algo especialmente digno de nota. O que, queiramos ou não, acaba até por dizer muito sobre a produção poética deste famoso escultor e pintor italiano do Renascimento…

A história de Frei Gerundio de Campazas

O livro das aventuras de Frei Gerundio de Campazas, alias Zotes, escrito por José Francisco de Isla em meados do século XVIII, é uma de muitas obras pós-medievais que foram populares numa determinada época e depois quase completamente esquecidas, de que a Gaticanea nacional também é um bom exemplo. Lendo-a, torna-se até fácil compreender o porquê, mas ao mesmíssimo tempo este também é um texto que nos preserva provavelmente um dos mais interessantes desfechos de literatura ficcional a que já tivemos acesso.

A história de Frei Gerundio de Campazas

Mas, como é apenas natural, comece-se pelo início. Gerundio era um menino que desde tenra idade mostrou apetência para as artes da oratória. E é, de um modo geral, essa a grande trama da obra, a forma como ele vai desenvolvendo as suas artes ao longo dos anos, repetidamente aprendendo novas coisas e entendendo mais ou menos bem o que lhe vai sendo ensinado. Entretanto, vai escrevendo e declamando coisas que nos poderão parecer absurdas, mas que a maioria das personagens vai achando lindíssimas. O que não pode deixar de levantar uma questão – o que compõe uma boa homília? Se a grande maioria dos ouvintes gostar do que o orador expõe, que deverá importar a opinião dos entendidos, ou coisas tão “pequeninas” como elementos heréticos no púlpito de uma igreja? Em diversos momentos da obra o leitor é levado a questionar isso mesmo…

 

Porém, ao mesmo tempo, esta é uma obra que denota um nível cultural elevado, em que o Espanhol (original) e o Latim se vão intersectando, mas também os próprios métodos de composição literária da época são questionados. Por exemplo, num dado instante é ensinado a Frei Gerundio que:

Cada bom pregador deve ter na sua cela, ou na biblioteca do seu convento, os seguintes livros – a Bíblia, a Concordância, o Theatrum Vitae Humanae, o Teatro dos Deuses, os Fasti por Masculus (…), a Mitologia de Natale Conti, Aulo Gélio, (…) e acima de tudo os poetas Virgílio, Ovídio, Marcial, Catulo e Horácio. Para os sermões é apenas necessário o Florilegium Sacrum.

Mas como terminam as aventuras deste outrora-famoso frade? Aqui, dado o facto do final da obra ser tão invulgar, importa revelá-lo de antemão. Numa dada altura o herói torna-se tão popular que é convidado para dar a totalidade dos sermões da Semana Santa, uma espécie de jogos olímpicos oratórios. São-lhe propostos um conjunto de desafios, potencialmente os maiores até então, e… o narrador apercebe-se que foi enganado. Tendo pegado em obras antigas, pediu a um homem (supostamente) honesto que as traduzisse, e mais tarde foi-lhe depois revelado que o que se encontrava a ler não era uma realidade, uma suposta verdade história do herói, mas um ficção completamente inventada pelo “tradutor”. Ou seja, se o narrador pensava estar a narrar umas histórias reais de outros tempos, por terceiros ele lá é informado de que tanto ele, como até o próprio leitor, andavam a ser muito bem enganados. De facto, até são apontadas múltiplas falhas, plot holes, em toda a aventura! E, nesse seguimento, é-lhe portanto sugerido que, em alternativa, chamasse ao seu livro e o publicasse como Uma história que pode ser do famoso pregador Frei Gerundio de Campazas.

 

É uma ficção dentro de uma ficção, esta obra da autoria de José Francisco de Isla. E se Frei Gerundio é um herói de palavras mais do que de acções, existem nesta obra, aqui e ali, alguns momentos verdadeiramente divertidos. Talvez sejam apenas bem apreciados apenas por alguém que tenha bases de Latim e perceba minimamente de técnicas de oratória, mas continua a ser muito melhor do que determinadas obras ficcionais dos nossos dias…