Sobre a série “Cestvs: The Roman Fighter”

Ouvimos recentemente falar de uma série anime japonesa, Cestvs: The Roman Fighter, sobre um jovem escravo que combate nas arenas de Roma Antiga. O herói não é propriamente um gladiador, apesar da versão original lhe aplicar esse nome algumas vezes, mas uma espécie de lutador de boxe de outros tempos, que ao longo de 11 episódios vai combatendo contra opositores fortes e aprendendo novas técnicas de combate. Mas a grande questão é, será que vale a pena perderem tempo com a série?

Sobre a série "Cestvs: The Roman Fighter"

A resposta parece ser um claríssimo “não”. Não só a série está repleta de anacronismos, como também apresenta a sua história de uma forma muito pouco interessante para quem – como é o nosso caso – não conhecer a versão manga em que ela se baseia. Existem, aqui e ali, alguns momentos mais curiosos, de um ponto de vista da Antiguidade – por exemplo, o herói cruza-se com figuras como Nero e Agripina – e o narrador até explica bastante bem os efeitos físicos de alguns golpes mais violentos (estranhamente, nunca é visto nenhum “don’t try this at home”…), mas a série dá constantemente a ideia de que foi apenas criada para os fãs da versão escrita de Cestvs: The Roman Fighter. Isso é particularmente visível num dos seus momentos mais intrigantes, em que é apresentado um misterioso “Demócrito de Cádiz” (não é uma figura histórica, para quem também estiver com essa curiosidade), que supostamente andava pelo mundo fora a treinar novos lutadores, mas a personagem é introduzida por um breve momento e depois rapidamente remetida ao esquecimento. Será que tem um papel maior na versão manga e os autores da série o introduziram aqui para publicitar essa versão escrita? É muito provável que sim, até porque os 11 episódios estão repletos de momentos como este, que um espectador não consegue entender bem excepto se já for fã das aventuras de Cestvs. Pior, só mesmo o facto do último episódio apresentar muitas personagens intrigantes que supostamente iam participar num grande torneio que nunca chegamos a ver…

 

Se parecem existir muitas outras séries japonesas passadas nos tempos da Roma Antiga – recorde-se até o jocoso caso de Thermae Romae, de que cá falámos há já algum tempo – esta de nome Cestvs: The Roman Fighter, em específico, não tem muito interesse para um potencial espectador com interesse na Antiguidade. Saímos muito desiludidos dos 11 episódios, sem qualquer dúvida!

A história de Glycon, o fantoche divino

Possa Glycon ser considerado um mito ou uma lenda, ele é sem dúvida uma das mais estranhas divindades que nos chegou dos primeiros séculos da nossa era. E é-o, talvez mais que tudo, porque – segundo Luciano da Samósata, na sua obra Alexandre, ou o Falso Profeta – ele era pouco mais do que uma espécie de fantoche. Mas estamos a adiantar-nos, talvez seja melhor começar por recordar a sua breve história.

O mito de Glycon (?)

Por volta de meados do segundo século da nossa era apareceu um profeta na cidade grega de Abonútico. Ele revelou aos habitantes locais que uma nova reencarnação do deus Esculápio iria nascer no local. Passado algum tempo esse viajante, de nome Alexandre, fez nascer de um ovo uma estranha criatura a que se chamou Glycon. À medida que os dias se foram seguindo ela foi crescendo e sofreu uma transformação… não sabemos, agora, se se tratava apenas e somente de um fantoche, ou de uma serpente real com uma espécie de máscara em cima da sua cabeça, que lhe dava uma face quase humana e algum cabelo – mas sabemos é que existiu!

Em qualquer dos casos, por razões agora difíceis de compreender este Glycon tornou-se uma divindade famosa na sua época, dando tantas profecias – supõe-se que concretizadas – que começou a ser representado em moedas, e diz-se que até o Imperador Marco Aurélio chegou a recorrer aos seus serviços. E depois de receber muita atenção durante anos – e muitas contribuições monetárias, claro está – desapareceu misteriosamente, de uma forma quase tão secreta como quando chegou ao nosso mundo. Assim, o pouco que sabemos sobre esta divindade chegou-nos por via de Luciano, que se parece opor bastante ao culto, mas não tivesse sido ele e nós nada saberíamos sobre este Alexandre de Abonútico e a sua estranha divindade.

 

Tudo isto levanta uma grande questão – será que as pessoas realmente acreditavam em Glycon, ou apenas o viam com uma espécie de brincadeira, como quando nos dias de hoje pregamos a ideia do Pai Natal às crianças? Ou seria ele somente um esquema maluco, como os de tantas seitas religiosas dos nossos dias? Não é fácil compreendê-lo, até porque só temos acesso a uma única opinião sobre toda a questão (e ela parece ser negativa). No entanto, o grande facto é que durante pelo menos um século as pessoas acreditaram nesta espécie de divindade, possivelmente a mais estranha de todas as que nos chegaram do Império Romano, e isso dá muito que pensar…

Como interpretar vasos gregos?

Se hoje podemos encontrar vasos gregos nos mais diversos museus, nem sempre é fácil interpretar o que está representado em cada um deles. Assim, o que propomos aqui hoje é uma espécie de micro-curso para os compreender. Não oferece uma resposta completamente mágica, não irá tornar quem ainda não percebe nada disto num especialista de forma instantânea, mas irá apresentar é uma técnica basilar que permite, com algum esforço adicional, conseguir compreender as imagens que eles apresentam. E se, por um lado, esta ideia de “algum esforço adicional” poderá assustar alguns leitores, por outro há mesmo que esclarecer que este não é um processo mágico, implica pelo menos algum conhecimento basilar dos mitos gregos e latinos, como iremos ver – caso contrário, sem isso não há qualquer hipótese real de se conseguir entender o que os diversos vasos têm representados.

Um exemplo de vaso grego - Aquiles e Mémnon

Feita então esta ressalva inicial, passe-se ao que realmente importa. Imaginem que vão a uma loja e querem comprar um quadro com o Cristiano Ronaldo a levantar a taça dos campeões europeus de 2016. Como saberiam que estão a comprar isso mesmo, em vez de uma qualquer outra representação? Para nós, hoje, a resposta pode parecer quase óbvia – um quadro como esse teria representado uma pessoa que reconhecemos como esse jogador português, numa posição muito específica de celebração, e nas suas mãos poderia ser vista uma determinada taça. Assim, associando todos esses elementos, podemos saber que se trata do quadro que procuramos, em vez de um qualquer outro.

De uma forma muito semelhante, quando na Antiguidade alguém queria comprar, por exemplo, um πίθος (píthos) com uma representação de um determinado episódio mitológico, o que essa pessoa fazia era algo parecido, em que olhava para as figuras dessa espécie de vaso e, depois, reconhecendo as figuras e circunstâncias presentes no mesmo, lá afirmava que se tratava, como na imagem já mostrada acima, do combate de Aquiles com Mémnon. E sabia disto porque na representação em questão existiam um conjunto de características que não só possibilitavam identificá-lo como tal, mas também distingui-la de episódios como o combate do mesmo herói com Heitor – nomeadamente o facto dos dois heróis estarem acompanhados por figuras femininas, e de existir um terceiro combatente caído entre eles. Mas como se faz isso? Comecemos com um exemplo relativamente simples, um vaso falso criado nos nossos dias:

Um Hércules moderno num vaso grego

1- Decompor a representação presente no vaso grego nos seus elementos principais

A uma primeira vista, para quem percebe pouco ou nada destas coisas, é difícil compreender o que pode ser visto em vasos gregos como o acima. Contudo, mesmo que ainda não se reconheçam os intervenientes em toda a cena, é fácil constatar que eles são três, cada qual com as suas características individuais. Assim, posto de uma forma muito simples, podemos até dar um número a cada figura – a no canto inferior direito será a “1”, a do lado esquerdo será a “2”, e a colocada ao centro será a “3”. Comecem por escrever estes três números numa folha de papel.

 

2- Anotar as características de cada figura

Depois, para cada uma dessas figuras, anotem também as respectivas características, de uma forma como a seguinte:
1- Criatura pequena, com pernas de animal, cornos e barba. Tem um babete ao pescoço, um garfo numa mão e um prato na outra.
2- Figura humana, com um arco numa mão, que segura uma espécie de travessa.
3- Um javali muito grande, supostamente morto (vejam-se os olhos), com uma maçã na boca.

 

3- Procurar o significado de cada figura

Em seguida, ainda mais se (ainda) perceberem pouco destes temas, terão de investigar quem poderá ser cada um dos intervenientes. Esta é certamente a parte mais difícil de todo o processo, porque ou já leram muito sobre os mitos gregos e latinos e sabem mais ou menos as características de determinadas figuras (e.g. um monstro com muitas cabeças é a Hidra de Lerna, um homem com um raio na mão é Zeus, e assim por diante), ou então terão de ler bastantes obras da Antiguidade. Não há um atalho para este passo, mas à medida que investigam o tema poderão aperceber-se do seguinte:
1- Existem muitas criaturas na Mitologia Grega que são um misto de ser humano e animal, mas apenas os sátiros costumam ter pequenos cornos. O babete, garfo e prato – relembre-se que este não é um vaso da Antiguidade, mas uma representação dos nossos dias – indicam que ele está prestes a tomar uma refeição.
2- Não são muitos os heróis gregos que usem arco e flecha. Portanto, neste momento, deixe-se essa figura de lado.
3- Existem alguns mitos gregos que incluem javalis – o Javali do Erimanto, o Javali da Calidónia, e o animal que matou Adónis talvez sejam os mais famosos – mas apenas os dois primeiros foram capturados.

 

4- Escolher o elemento menos comum

Agora, para não terem de reler todos os mitos gregos que chegaram aos nossos dias, deverão então escolher qual é o elemento menos comum presente no vaso em questão. “Mas como sabemos qual é ele?”… é uma pergunta super natural, mas bastará que pensem em qual dos elementos obtidos no passo anterior vos parece o mais raro, e.g. um monstro é certamente mais raro que um ser humano. Nesse sentido, se apenas existem três mitos com javalis, esse elemento será um óptimo ponto de partida para a busca por um significado.

 

5- Somar todos os significados presentes no vaso grego

Finalmente, partindo do elemento menos comum (que aqui é o animal), deverão então somar todos os significados presentes na representação. Já sabemos que ele se trata do Javali do Erimanto ou do da Calidónia, que “alguém” parece ter caçado com arco e flecha. Mas será a figura humana Hércules ou um dos muitos heróis da caça que teve lugar num outro local? A resposta vem da pequena figura também presente na imagem, que já sabemos que se trata de um sátiro. Idealmente, existiria um mito que conjuga todos estes elementos, que nos permitiria dizer que esta é mesmo uma representação de um dado episódio mitológico. Mas, neste exemplo em particular, não há… e já lá vamos!

 

6- Ter em conta os contextos da representação

Neste caso específico, e como já dito acima, a representação em questão não parece ser a de nenhum episódio mitológico da Antiguidade. Isto faz todo o sentido porque, na verdade, se trata de uma cena retirada do filme Hércules, da Disney, e que portanto não corresponde, de uma forma completamente fiel, aos mitos gregos e sua representação, tal como eles eram conhecidos na Antiguidade. Isto acontece porque os mesmos episódios mitológicos nem sempre são representados da mesma forma, ou podem até referir-se a mitos que já não nos chegaram, seja de todo ou na forma como eram conhecidos nessa altura…

 

7- Não podemos ter toda a certeza, mas… o vaso grego pode ter uma representação de X!

Assim, seguindo todos esses passos, é possível chegar a uma espécie de conclusão face ao que é visto na representação que aqui estamos a analisar. Ao termos em conta o contexto (moderno) deste vaso grego, podemos então perceber que ele representa Hércules e o seu professor (ficcional), Filoctetes, tal como eles surgem no filme da Disney. E, assim, podemos aperceber-nos de que os dois companheiros estão prestes a almoçar o Javali do Erimanto, uma das muitas criaturas que o herói grego encontrou nas suas viagens.

 

Dois outros exemplos de interpretações de vasos gregos

Agora, se o exemplo anterior não foi de um vaso da Antiguidade propriamente dito, mas sim de uma adaptação moderna dos mesmos, achámos que também poderíamos dar aqui outros dois exemplos da Antiguidade, seguindo os mesmos passos que já apresentámos acima, até para que se compreenda melhor todo o processo:

Um exemplo de vaso de figuras vermelhas

1- Estão aqui três figuras.
2- Do lado esquerdo está uma criatura que parece uma serpente gigante, com um homem a sair da sua boca. Do lado direito está uma figura feminina, com um capacete, uma lança e uma espécie de manto com uma figura representada na zona do peito. Na parte superior está um carneiro ou ovelha estendido numa árvore.
3- A serpente será provavelmente um dragão, no sentido que essa palavra tinha na Antiguidade, i.e. uma serpente grande. A figura feminina é a deusa Atena, possivelmente a única figura divina feminina que costuma aparecer armada e com a égide ao peito. O carneiro ou ovelha… é desconhecido? Por agora assumamos que sim.
4- Procurar por um homem comido por um dragão é algo que parece desconhecido nos mitos da Antiguidade, e a deusa Atena é demasiado frequente. Por isso, que faz ali aquele carneiro ou ovelha?
5- A ideia de dragão + deusa Atena + ovelha (ou carneiro) poderá conduzir-nos ao mito do Dragão da Cólquida.
6- Mas o que faz um herói na boca do dragão? Mesmo que se trate de Jasão, não nos chegou qualquer mito em que este episódio tenha lugar…
7- Provavelmente* o interior deste copo tem representada uma versão do mito de Jasão e os Argonautas que já não chegou aos nossos dias. E, de facto, este problema até já cá foi falado anteriormente.

Um exemplo de vaso de figuras negras

1- Estão aqui duas figuras.
2- A do lado esquerdo representa um homem com “algo” numa das suas mãos, que tem quatro letras de texto ao seu lado. Do lado direito está uma criatura com asas e múltiplas serpentes a saírem da parte inferior do seu corpo.
3- Pela leitura do texto podemos inferir que a figura da esquerda é Zeus e, portanto, aquilo que tem nas suas mãos é quase certamente um raio. A figura do lado direito é uma espécie de monstro.
4- É óbvio que existem infindáveis vasos com uma representação de Zeus, mas que criatura está do lado direito? Após muito procura poderão ver que se trata de Tífon, identificável aqui pelo seu corpo parcialmente serpentesco.
5- Zeus + Tífon são conhecidos de diversos combates que travaram nos mitos da Antiguidade.
6- Dado que este episódio mitológico já não nos chegou de uma forma completa, é difícil saber como a representação se intersecta com o mito da Antiguidade.
7- Provavelmente* este vaso tem representado o combate entre Zeus e Tífon. Visto que o primeiro dessas duas figuras tem o seu instrumento guerreiro na mão, é provável que ele se prepare para atacar o seu opositor, acabando por destruí-lo, o que pensamos que tomava lugar próximo do final de toda a história que une ambos.

 

Visto assim, de uma forma tão sucinta, poderá parecer que a leitura e interpretação de vasos gregos, sejam eles de figuras vermelhas ou de figuras negras, é uma coisa bastante simples de se fazer, mas a grande dificuldade passa precisamente pelo terceiro passo, em que se tenta associar um conjunto de características a uma figura, seu respectivo nome e eventos. Isso só pode ser feito com um conhecimento significativo dos intervenientes e mitos da Antiguidade e, portanto, é raramente algo que se consiga fazer em meia dúzia de minutos. Exige prática, exige estudo das fontes literárias e exige tempo. E, por isso, se os leitores quiserem deixar algum exemplo de vaso ali nos comentários, podemos tentar ajudar na leitura desses exemplos – fica o convite!

 

 

*- Na maior parte dos casos a tentativa de leitura de uma representação num qualquer vaso é apenas isso, uma mera tentativa e pouco mais. Por muito que se estude e se pense, essa leitura, ao abrigo do seu terceiro passo, é baseada num conjunto pequeno de fontes literárias a que ainda temos acesso, e por isso poderá, na verdade, estar incompleta ou incorrecta. Assim, é particularmente preciosa a leitura de exemplos em que as figuras representadas até têm o seu nome (i.e. o caso de Zeus no último vaso acima), porque a sua identificação se torna sempre mais fiável e credível; infelizmente, nem todas as representações têm esse elemento disponível…

A origem da Alheira e da Farinheira

Há alguns dias vieram perguntar-nos a origem da Alheira e da Farinheira. Visto que os dois enchidos têm uma origem bastante semelhante, é apenas justo que se considerem ambos em paralelo, nesta espécie de história que aqui relatamos hoje.

A origem da Alheira e da Farinheira

A Alheira, para quem ainda não o souber, tem origem no norte de Portugal – daí até existir a muito famosa “Alheira de Mirandela” – e é feita com pão de trigo, carnes desfiadas e alguns temperos. Já a Farinheira é feita com farinha, entre outros ingredientes, como o seu nome indica, sem margem para maiores dúvidas. Agora, se ambas também têm, hoje em dia, algum ingrediente retirado do porco, ele não fazia originalmente parte da sua composição, e é importante frisar isso para que se possa compreender a sua origem.

 

Passando então a esse ponto, sabe-se que há muitos séculos atrás os Judeus foram perseguidos em Portugal, como também o foram em diversos outros países europeus. Para continuarem vivos e no país tinham de se converter à religião de Jesus Cristo, o que implicava, naturalmente, terem de abandonar as regras da sua antiga religião. Assim, se os Judeus e os Islâmicos não comem porco, uma proibição que vem das respectivas escrituras, e essa era uma carne que estava extensamente disponível no país, uma das formas mais fáceis de verificar a sua adesão à nova religião era verificar se esses chamados Cristãos-novos já comiam a carne desse animal, nomeadamente sob a forma de chouriços. Nesse seguimento, diz-se então que esses Cristãos-novos criaram a Alheira e a Farinheira para parecer que estavam a comer porco, mas sem que na verdade o fizessem… e é por isso que os dois enchidos se parecem com o Chouriço, mas depois, na sua forma original, no seu interior tinham várias constituições que, como é mais que natural, nunca incluíam aqueles animais que a sua antiga religião proíbia.

 

Porém, esta origem da Alheira e da Farinheira, a ser mesmo verdade (poderá tratar-se de um mero mito…), levanta necessariamente uma questão – será que estes Cristãos-novos, como então eram chamados, pretendiam esconder que não praticavam a nova religião, ou eles apenas ainda não se sentiam confortáveis a comer animais que anteriormente tinham visto como “sujos” e impróprios para consumo? Não nos é possível ter uma certeza absoluta, mas talvez a resposta venha de uma conjugação dos dois factores, do que era esperado deles numa sociedade em que qualquer alternativa à religião cristã era mal vista. E, por isso, fizeram o que tiveram de fazer para sobreviver, acreditassem, ou não, na religião que lhes estava a ser imposta…

A origem da palavra “alfarrabista”

A origem da palavra alfarrabista é curiosa. Qualquer dicionário nos saberá informar que essa palavra se refere a uma pessoa que vende livros usados, que por sua vezes também podem ser designados por alfarrábios. Mas porque têm esse nome, tanto quem os vende como o produto que por eles é vendido?

A origem da palavra 'alfarrabista', o filósofo Al-Farabi

A origem da palavra alfarrabista deve-se ao filósofo árabe Abu Nasr Al-Farabi, conhecido em Latim como Alpharabius, que escreveu diversos livros sobre as mais diversas áreas da Filosofia, e parece ter sido especialmente famoso pelos seus comentários às obras de Aristóteles. Até aqui tudo bem, ele até se tratou de um autor de fama significativa, mas com o passar dos tempos os seus livros começaram a ser considerados na cultura ocidental como inúteis (e, na verdade, eram-no para a maioria das pessoas), e/ou ilegíveis (até porque, como é natural, estavam na língua árabe). Isto levou a que os livros que se pensava terem essas mesmas características ficassem, também eles, conhecidos sob a designação geral de alfarrábios, até porque eram poucos os que ainda tinham hipótese de os ler e constatar se tinham alguma utilidade real.

Hoje, o que um alfarrabista faz é quase precisamente isso, pegar em livros que a maior parte das pessoas poderá ver como inútil e, depois, considerando o seu conteúdo individual, tentar definir o que deve ser feito com eles. É uma boa ideia, naturalmente, mas que agora deixa de lado um parte cruel do processo de outros tempos – originalmente, esses alfarrábios eram condenados à destruição pelo fogo, até porque quem tinha acesso a eles raramente conseguia ver qualquer motivo real para a sua preservação. E, assim, perderam-se muitas das obras escritas do nosso passado colectivo, porque muitos de aqueles que a elas tinham acesso as consideraram como pouco importantes para os dias em que viviam…