O mito de Troilo

Voltando a temas da Antiguidade, o mito de Troilo parece um dia ter sido muito popular, mas já não nos chegou de uma forma completa. Ele ocorria, originalmente, na parte inicial do Ciclo Troiano, naquilo a que era chamado a Cypria (ou Poemas Cíprios), mas a informação que ainda temos sobre ele permite-nos compilar uma espécie de visão muito geral de toda a sua trama.

O mito de Troilo

Numa dada altura da Guerra de Tróia, naqueles muitos anos que separaram o início dos confrontos do princípio da trama da Ilíada, surgiu uma profecia que dizia que se Troilo, filho do rei Príamo, sobrevivesse até à idade adulta a cidade onde ele tinha nascido se tornaria inconquistável. Como parecerá natural, quando os Gregos souberam disto depressa se prontificaram a matá-lo. Já não temos a certeza do que aconteceu em seguida, mas parecem ter existido pelo menos três versões do episódio.

Numa delas, quando Troilo se aproximava a cavalo de uma fonte, o herói Aquiles – que estava então escondido atrás da mesma – o puxou pelos cabelos e lhe cortou a cabeça. Uma das irmãs do jovem, Políxena, estava por perto e presenciou todo o episódio, podendo até ter sido mais tarde uma das responsáveis pela morte do combatente grego.

Numa outra, Troilo estava num dos seus passeios quando reconheceu o herói grego. Procurando escapar de aquilo que lhe parecia uma morte quase certa, refugiou-se num templo do deus Apolo, mas o seu opositor, sem dó nem piedade, sem qualquer sentimento de compaixão religiosa, matou-o no próprio altar da divindade. O acto foi considerado tão abominável entre os deuses do Olimpo que esse deus de Delfos acabaria por vingar esta morte com as suas próprias mãos.

Uma terceira, a que já cá fizemos uma alusão quando falámos do mito de Aquiles, dizia que esse herói se apaixonou por Troilo, mas que por uma qualquer razão agora desconhecida foi incapaz de consumar essa paixão carnal. Então, matou-o.

 

Como é natural, face ao que ainda sabemos sobre este mito de Troilo, todas as versões que nos chegaram terminam com a morte dessa figura troiana, mas o que já não temos a certeza é a forma como esse evento tomava lugar nas versões mais antigas do episódio. É provável que as restantes venham de diferentes tragédias da Antiguidade, ou mesmo de outras fontes literárias que se foram perdendo ao longo dos séculos.

Porém, toda esta história do herói ainda não fica por aqui. Através de fontes literárias como as associadas a Dares Frígio e Díctis de Creta, uma versão (deturpada?) das aventuras de Troilo tornou-se popular na Idade Média, dando lugar a histórias como as presentes no Romance de Tróia, de Benoît de Sainte-Maure. A mais famosa de todas elas é provavelmente a de Troilo e Créssida, que emprestou o seu tema a uma tragédia de William Shakespeare, mas cujos amores já não parecem vir, na verdade, dos mitos e lendas da Antiguidade.

Quem traiu Humberto Delgado?

Humberto Delgado foi assassinado a 13 de Fevereiro de 1965 na cidade de Olivença. Isso é um facto consumado, que até a Wikipedia informará qualquer leitor muito rapidamente, mas o que já menos saberão é o que se esconde por detrás desse acontecimento da política nacional. Por isso, para terminar este mês completamente dedicado a temas relacionados com Portugal, decidimos contar uma história um pouco mais pessoal e quase dos nossos dias.

Um dos nossos colegas mora numa casa próxima da de um antigo capitão de uma força de segurança nacional. Hoje já reformado há mais de uma dezena de anos, ele gostava de partilhar histórias de outros tempos e da sua carreira profissional. Uma delas ficou na memória do nosso colega, por razões que serão muito fáceis de compreender.

Quem traiu Humberto Delgado?

Um dado dia, esse capitão perguntou-lhe se ele sabia quem tinha morto Humberto Delgado. O nosso colega disse que não – história de Portugal certamente que não é o seu forte – e então o senhor continuou o que ia dizer, explicando que este antigo general foi assassinado em Olivença depois de [nome omitido por nós] o ter traído, divulgado por onde ele andava escondido e para onde se dirigia. Naturalmente que esta seria uma suspeita bastante perigosa, e então o nosso colega decidiu perguntar um pouco mais sobre isso. Assim, o idoso em questão continuou a conversa, explicando o porquê de isto ser pouco sabido – aparentemente, depois do 25 de Abril esse mesmo traidor teve acesso aos registos da PIDE, que identificavam a fonte dessa informação, e retirou de lá algumas das páginas que lhe diziam respeito. Mas tudo isto ainda se torna mais interessante – visto que esse acontecimento teve lugar na presença deste capitão, e que lhe foi dito para ele destruir esses documentos, ele… se por esquecimento, por curiosidade, por vontade própria, ou por algo menos fácil de compreender, limitou-se a guardá-los. E guardou-os. E, na verdade, pareciam atestar o que este idoso afirmou em conversa.

 

Quando o nosso colega nos contou isto, ficámos curiosos. Seria mesmo verdade, que uma reputada figura da política nacional tivesse traído Humberto Delgado? Muito do património documental da PIDE já está digitalizado. Fomos então procurar esses documentos e, segundo o nosso colega, eram formalmente parecidos com o que ele viu à sua frente. Depois, procurámos o chamado “Registo Geral de Presos” e descobrimos que cada preso tinha um número de identificação pessoal e do(s) seu(s) processo(s). A título de exemplo, para quem ainda não conhecer estas coisas e tiver essa grande curiosidade, é algo como o mostrado abaixo, com o número de preso e do processo assinalados aqui a verde; as secções a vermelho foram censuradas por nós (sim, porque queiramos ou não, hoje ainda existe censura no Sapo Blogs, e não queremos dar-lhes ainda mais razões para chatices), apenas porque é possível que esta pessoa anónima, aqui escolhida completamente ao calhas para este exemplo, ou até alguns dos seus descendentes, ainda estejam vivos:

Um registo de um preso

Continuando, na ficha desse suposto traidor de Humberto Delgado – que também está na Torre do Tombo e digitalizada – não existia apenas um número de registo (como na parte inferior da imagem acima), mas vários. Não conseguimos verificar a totalidade do seu conteúdo – infelizmente, as digitalizações a que tivemos acesso online dizem “informação não disponível” ou “Informação não tratada arquivisticamente” demasiadas vezes – mas um desses números parecia constar no documento que o nosso colega viu. Ou seja, ou ele era parte de um original bem real, ou foi falsificado por alguém que tinha tido um acesso directo a este tipo de informação antes da sua disponibilização ao público em geral, i.e. provavelmente antes do ano de 1994.

 

Acredite-se, nesse sentido, que era um documento completamente real. Afinal, quem traiu Humberto Delgado? Ou, melhor dizendo, a quem é que este documento atribuía essa traição? Discutimos bastante até que ponto deveríamos divulgar essa informação… e se até o podíamos dizer aqui, seria uma resposta um tanto ou quanto chocante, e que também nada acrescentaria ao panorama político, cultural e histórico de Portugal. A pessoa em questão, que até já faleceu, é uma de aquelas com opiniões muito polarizantes em relação a ele, que fizesse o que fizesse continuaria a ser odiada por uns e muito elogiada por outros. Por isso, de nada se adiantaria revelar essa informação – os primeiros diriam que é verdade, que sempre o souberam; enquanto que os segundos iriam exigir todas as provas do universo (e até algumas que só aos deuses pertencem), e nem elas seriam capazes de os convencer; e tudo ficaria na mesma.

 

Para terminar, o que aconteceu ao documento aqui em questão? Será que o podemos mostrar por cá, para que se compreenda melhor o que aconteceu ao General Humberto Delgado? Infelizmente não conseguimos fazê-lo, até porque não temos qualquer cópia – segundo nos foi dito, há já alguns meses o idoso em questão adoeceu e acabou por ser levado para um lar, por razões de saúde. Alguns dias depois os seus filhos deitaram muita papelada e livros fora, pelo que é possível que esse documento estivesse entre muitas dessas coisas que foram deitadas fora. Se sim ou se não, não sabemos de nada disso. Resta a memória do que foi dito e mostrado ao nosso colega, a acreditar-se que a documentação era mesmo verdadeira.

Em busca da lenda da Quinta do Anjo (Palmela)

Há alguns dias vieram-nos perguntar sobre uma possível lenda da Quinta do Anjo, em Palmela. A pessoa estava particularmente interessada nas grutas artificiais – ou hipogeus, se preferirem – existentes no local. Infelizmente não foi possível visitá-las em tempo útil, até em virtude do Covid-19, para escrevermos sobre as mesmas, mas uma outra questão subsistia – afinal, de onde vem o nome dessa tal Quinta do Anjo palmelense (i.e. existem outras em Portugal)? Normalmente não teríamos dificuldade em responder a uma questão como essa, mas a jovem tinha também um pedido adicional, pois queria que também se contassem as fontes precisas usadas para obter essa informação. Tendemos a evitar isso para prevenir roubos de conteúdos, mas a título de exemplo podemos fazê-lo hoje.

A lenda da Quinta do Anjo

Quem for ao site da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo poderá encontrar por lá, sem muita dificuldade, dois dados preciosos para esta busca – é revelado que a freguesia apenas nasceu a 10 de Fevereiro de 1928, mas também é contada uma espécie de origem do seu nome:

Diz a lenda que a fonte existente nesta quinta foi protegida por “um anjo bom armado de espada, portanto S. Miguel” [sic], da tentativa de envenenamento pelas forças do mal salvando, assim, as populações que dela viviam. A imagem de pedra e cal que lá existia do anjo armado de espada pisando o dragão esboroou-se em 1985, estando a própria fonte quase seca devido ao abaixamento dos níveis freáticos.

Para a maior parte dos leitores é provável que esta informação fosse mais que suficiente para resolver a curiosidade – caso encerrado…?! Não tanto, porque algo nos parecia estranho em toda esta história – ela não era mais do que uma repetição de representações e lendas famosas, como a de São Jorge, possivelmente apenas com um herói diferente! Por isso, de onde vem essa lenda, tal como apresentada naquela página?

 

Começámos por procurar na obra Portugal Antigo e Moderno, primeiro volume datado de 1873, que refere a existência de uma “Quinta do Anjo” a 3 quilómetros de Palmela. Não lhe associa qualquer espécie de mito ou lenda, dizendo apenas que o local tinha pertencido a D. Luíza de Mello, casada com João de Mello Feo em fins do século XVII, e que o casal – ou assim parece… – erigiu no local uma ermida à Nossa Senhora da Redenção. Quase 2000 páginas depois é adicionado outro facto – por volta de 21 de Outubro de 1877 um tal “Carlos Ribeiro” estava a analisar instrumentos de pedra encontrados numas “furnas” presentes no local. Ou seja, a considerar-se que havia algo de importante na zona, era apenas uma ermida e umas “furnas”, sem referência a um qualquer anjo, poço ou fonte.

Porém, tratando-se esta de uma ermida mariana, decidimos consultar o Santuário Mariano, datado de 1707, cujo livro II, capítulo LVI, refere a imagem de Santa Maria presente no interior do recinto. E a informação que nos dá é tão preciosa que achámos que a deveríamos reproduzir parcialmente por aqui. O texto foi apenas adaptado para uma leitura mais fácil nos dias de hoje:

Nesta quinta, a que chamam a Quinta do Anjo, mandou edificar Francisco Coelho de Melo [pai de Luíza]  uma ermida – que é anexa à Paróquia de S. Pedro de Palmela, e são seus padroeiros os senhores do morgado Vila do Anjo, e é ao presente a referida D. Luíza (…) – para colocar nela uma devotíssima imagem de Nossa Senhora que tinha em seu oratório.

O texto continua explicando a origem da imagem que Francisco Coelho de Melo tinha em sua posse, mas nada mais nos diz sobre a própria quinta, alguma fonte de água ou algum anjo. O que é curioso, porque depois o autor acrescenta mais informação, dizendo que haviam três altares no recinto mandado construir por Francisco Coelho de Melo – o altar-mor tinha a representação mencionada acima, enquanto que os outros tinham “um Menino Jesus de grande perfeição” e o “Santo Esposo José”. Ou seja, quando foi construída esta ermida, ela não só não tinha qualquer anjo no seu interior (o que faria sentido se algum anjo tivesse anteriormente aparecido no local, e fosse foco de culto entre os seus habitantes), como quem a mandou construir parecia desconhecer por completo qualquer lenda que associasse a própria quinta a um anjo.

 

Portanto, como obteve ela o seu nome? Segundo nos é revelado no texto acima, certamente porque tinham sido padroeiros do local “os senhores do morgado Vila do Anjo”, o que contribuiu para explicar o nome da quinta – se lá tivesse mesmo aparecido São Miguel, porquê dar-lhe este nome genérico, em vez de um mais prestigiante “Quinta do Arcanjo” ou “Quinta de São Miguel”? Não faria muito sentido… Mas depois, à medida que as devoções a esta Nossa Senhora da Redenção foram aumentando, é provável que alguém se tenha interrogado sobre o nome do local e, o seu passado então progressivamente esquecido, lá foi adicionada uma imagem de São Miguel Arcanjo ao local. Quando é que isso aconteceu, já lá iremos.

A Quinta do Anjo e a lenda de São Miguel

E, porque São Miguel é frequentemente representado a combater um dragão (que toma as mais diversas formas, desde serpentes até figuras quase humanas), gerou-se entre o povo a ideia de que o evento até tinha acontecido naquele preciso local. Isto torna-se até particularmente mais interessante se tivermos em conta que a representação em questão era, originalmente, a de uma divindade pagã, como cá apresentámos de uma forma muito breve.

 

Agora, certamente que também se poderia perguntar como é que o “Morgado Vila do Anjo” tomou esse nome , mas é uma questão desnecessária, na medida em que quando foi construída a antiga ermida não existia no local qualquer devoção especial a um anjo. Por isso, se a igreja actual é de 1909, faz todo o sentido que a imagem de São Miguel, referida na página da junta de freguesia, tenha sido adicionado ao local nessa altura, até porque por volta de 1873 ainda não parecia existir qualquer lenda que explicasse o nome do local… ou, a existir numa forma puramente oral, só pode ter sido posterior à fundação da antiga Ermida de Nossa Senhora da Redenção, i.e. após inícios do século XVIII, como atestado pelas linhas do Santuário Mariano.

 

Assim sendo, qual é mesmo a lenda da Quinta do Anjo, em Palmela? Parece existir uma lenda associada a ela no século XX, aquela que recordámos ali em cima, mas há que ter em conta que ela é apenas uma história muito recente, com o nome da quinta a vir, na verdade, de uns padroeiros que tinham a sua posse numa data agora incerta, mas anterior a 1707. Nessa data de inícios do século XVIII não existia no local qualquer devoção associada a um anjo ou a um qualquer evento que aí possa ter tomado lugar. É talvez até por isso que o brasão da freguesia, que data de 1994 e que já reproduzimos acima, tem representado apenas dois elementos – a ideia muito vaga de um anjo (que não é identificado ou identificável como São Miguel), e um dos vasos campaniformes encontrados nas grutas do local, em vez de representar um qualquer episódio lendário bem atestado, como no caso da Vila de Moura. Nunca apareceu um anjo no local, muito menos aquele que é provavelmente um dos arcanjos mais famosos.

A lenda da Moura Salúquia

A lenda da Moura Salúquia é certamente bem conhecida em terras de Moura, no distrito português de Beja, mas para quem ainda não a conhecer achámos que a poderíamos recordar aqui hoje.

A lenda da Moura Salúquia

O brasão da vila de Moura – que hoje já é cidade – apresenta-nos essencialmente uma torre e uma figura feminina como que deitada em frente dessa fortificação. Reza então a história que esta mulher, uma moura de nome Salúquia (e filha do governador da cidade), viveu nesta terra em tempos da Reconquista Cristã, tendo-se apaixonado por um homem chamado Bráfama (ou Farbame?), da povoação de Aroche (a cerca de 50 Km de distância, para quem tiver essa curiosidade). Um dia os Cristãos mataram-no, tomaram as roupas deste amado e da sua comitiva, e dirigiram-se para a povoação que hoje é Moura. Salúquia, vendo-os à distância, pensou tratar-se de Bráfama e ordenou que se abrissem as portas da cidade. Face a essa inatenção, os combatentes cristãos entraram facilmente na povoação e conseguiram conquistá-la sem qualquer dificuldade. Então, notando o que tinha causado, em plena infelicidade esta moura subiu à torre do castelo e suicidou-se; a memória da bela moura, suicidária por amor, perdurou na cultura local, e então a povoação mudou o seu nome islâmico, que parece ter sido Al-Manijah, para o actual.

 

Mas então… porque recebeu a povoação o nome de “Moura”, e não Salúquia? Visto que, face ao contexto de toda esta lenda, se pode depreender que o nome foi alterado por Cristãos, é provável que o nome original se tenha perdido progressivamente ao longo do tempo, ou que o nomeador desconhecesse o nome da falecida, mas pretendesse homenageá-la pelo precioso “auxílio” que deu à conquista do local. Esta segunda hipótese é certamente possível, a acreditar-se nos eventos que comportam esta lenda da Moura Salúquia, que continua a viver nos nossos dias na memória dos habitantes da cidade!

Ao mesmo tempo, é curiosa a apresentação desta personagem principal como uma islâmica que também amou um praticante da mesma religião. Em muitas outras lendas de Mouros e Cristãos, é muito mais comum que se apaixonem por cavaleiros da outra religião, acabando até por trair a sua cidade por amor. Aqui, a povoação é traída, sim, mas de forma quase acidental por Salúquia, e ela depressa se prontifica a pagar o preço da sua acção (algumas versões até acrescentam que tudo isto teve lugar no dia em que ela pensava ir casar-se, o que ainda enfatiza mais o seu sofrimento). Recordando Fernando Pessa, quase que apetece brincar-se um pouco e dizer “E esta, hein?!”

 

[Adicionado posteriormente:] Muito curiosamente, nas suas “Antiguidades da Lusitânia” André de Resende dá uma versão muito diferente desta história, em que uma Moura era disputada por um homem que a queria roubar ao marido, mas nessa versão a trama parece estar um pouco incompleta.

Ala dos Namorados, Doze de Inglaterra e os Magriços – três lendas

Se hoje em dia a Ala dos Namorados, os Doze de Inglaterra e os Magriços ainda nos são conhecidos, são-no por razões muito diferentes das presentes nas lendas originais. A primeira é (agora) uma banda musical, aparentemente criada em 1992-1993, enquanto que os últimos nos são recordados quase sempre como o nome dado à selecção nacional de futebol no Mundial de 1966. Nesse sentido, se há alguns dias trocámos algumas mensagens virtuais com um Sportinguista, e até porque a selecção nacional joga hoje, decidimos que podíamos contar as lendas por detrás destes dois nomes, hoje já muito esquecidas, mas ainda ligadas substancialmente à cultura nacional.

A lenda da Ala dos Namorados

A lenda da Ala dos Namorados

A lenda em questão conta-nos que em finais do século XIV teve lugar em Portugal a famosa Batalha de Aljubarrota, semente de incontáveis lendas nacionais, como a da Espada do Condestável ou a da famosa Padeira. Se a batalha, em si própria, é um facto completamente histórico, já esta breve história adiciona-lhe algo menos certo – diz que uma das alas, i.e. das laterais (se a esquerda, ou a direita, isso parece variar mediante a fonte consultada), da famosa Táctica do Quadrado era chamada a “Ala dos Namorados”, em virtude do facto de ser composta quase somente por namorados, no sentido de homens jovens que estavam em idade de casar mas ainda não o tinham feito. Não sabemos se todos eles já tinham prometido casamento a alguém, mas diz-se que pelo menos alguns deles combatiam não só pela sua pátria, mas também pelo amor das mulheres que amavam e com quem esperavam vir a casar. Sabemos que o seu alferes era Álvaro Anes de Sernache, enquanto que os capitões eram Rui Mendes de Vasconcelos e Mem Rodrigues de Vasconcelos, seu irmão. Mas toda essa história ainda não fica por aqui…

A lenda dos Doze de Inglaterra (e o Magriço)

A lenda dos Doze de Inglaterra (e o Magriço)

Esta lenda é uma espécie de sequela da anterior. Diz-nos que alguns anos depois doze damas inglesas foram insultadas por cavaleiros de Inglaterra, e então elas pediram ajuda aos Portugueses para defenderem as suas honras. Doze cavaleiros da então-famosa ala foram escolhidos para a tarefa, onze partiram por mar, enquanto que um outro, Álvaro Gonçalves Coutinho, conhecido como o [Grão] Magriço, viajou por terra, teve muitas aventuras e chegou a Inglaterra no momento em que mais precisavam dele, quando 11 Portugueses, então muito preocupados, se preparavam para combater contra os 12 Ingleses. Os primeiros venceram a batalha (como seria óbvio numa lenda nacional), e ficaram assim conhecidos como os “doze de Inglaterra”, ou seja, aquela dúzia de cavaleiros que foi a esse país e dele voltaram vitoriosos. A selecção nacional não conseguiu, como é bem sabido, repetir o feito lendário.

 

Agora, se desconhecemos o porquê da banda ter tomado o respectivo nome, porque tomou a selecção nacional de futebol no Mundial de 1966 o nome de Magriços? A segunda lenda de que aqui falámos é antiga, mas é aludida no canto sexto dos Lusíadas, de onde provavelmente a conheciam em meados do século XX – e, de facto, o que o jornal desportivo A Bola escreveu na altura parece confirmar completamente essa ligação:

Parece-nos, de facto, muito apropriada a ideia na medida daquilo que o “Grão Magriço” representa, o belo episódio de suspense que Luís de Camões canta em Os Lusíadas, um autêntico desportista que vai jogar a Inglaterra… e até ganhar!

Assim, por muito que lendas como estas – da Ala dos Namorados, Doze de Inglaterra e os Magriços – estejam cada vez mais esquecidas, é curioso constatar que subsistem na cultura dos nossos dias de hoje, mesmo com uma ligação um pouco ténue face ao seu significado original. Não deixa de ser interessante, até porque, em casos como estes, poderão levar as pessoas a uma busca pelo seu significado original…