A lenda de São Cassiano de Ímola

Esta lenda de São Cassiano de Ímola surgiu-nos na sequência da associada a São Vicente, de que cá falámos há algumas semanas. A mesma obra de Prudêncio (século IV) que nos serviu de base para essa outra lenda contém muitos outros relatos de martírios, pelo que nesta semana de Nossa Senhora de Fátima achámos que poderíamos recordar três deles, aqueles que nos pareceram mais invulgares e interessantes para os leitores. E, nesse sentido, o martírio de São Cassiano de Ímola é talvez um dos mais estonteantes apresentados na obra em questão.

São Cassiano de Ímola

Sobre ele, é-nos dito que era professor, usando essa profissão para ensinar o Cristianismo a alguns dos seus alunos sem dar muito nas vistas. Depois, quando Juliano [o Apóstata] se tornou imperador, este homem foi acusado de ser cristão, e foi-lhe proposto que sacrificasse aos deuses pagãos. Ele rejeitou, como é comum em todas estas histórias da época, mas o que aconteceu em seguida foi curiosamente único – em vez de ser torturado pelos Romanos, como em muitos outros casos, este futuro mártir foi pura e simplesmente entregue aos seus alunos, para fazerem dele o que assim desejassem.

Presume-se que tenha sido entregue a alunos não-cristãos, ou toda esta trama se tornaria ainda mais estranha… mas então, aberta a possibilidade de se vingarem dos muitos TPCs e castigos por que tinham passado ao longo dos anos, os petizes que antes tinham sido alunos de Cassiano de Ímola ataram-no a uma coluna, deram-lhe dezenas de golpes com paus, e depois feriram-no até à morte com os mesmos instrumentos com que tinham tantas vezes sido obrigados a escrever.

 

Não sabemos até que ponto toda esta lenda de São Cassiano de Ímola terá um fundo de verdade, mas o seu acaba por ser provavelmente um dos mais estranhos martírios da Antiguidade, quanto mais não seja pela forma como isenta os Romanos de culpas na sua morte. Quer dizer, é provável que as crianças que o mataram fossem todas elas pagãs e filhas de cidadãos de Roma, mas não nos conseguimos recordar de nenhum outro conjunto de aflições tão singular como este, ao ponto de nunca o termos visto representado em qualquer igreja nacional… talvez só exista mesmo na região de Ímola, em Itália? É provável que sim, já que seria estranho explicar, de uma forma mais descontextualizada, a presença de um santo mártir numa representação como a mostrada ali em cima…

Sobre o mito de Quetzalcoatl

O mito de Quetzalcoatl transporta-nos imperativamente para um conjunto de crenças que durante muito tempo existiram na América do Sul. Na verdade, se este era o nome dado a uma divindade entre os Astecas, já entre os Maias ele era Kukulcan… mas sempre com um mesmo significado comum por detrás do seu nome, “serpente emplumada”, até porque as fontes literárias nos dizem que esta figura era venerada num templo coberto de plumas dos mais diversos pássaros e – muitas vezes – até representada como uma espécie de cobra voadora e repleta de plumas.

O mito de Quetzalcoatl (em Final Fantasy)

Mas o que podemos contar sobre o mito de Quetzalcoatl? O grande problema em tentar recapitular a sua história é o facto de existirem muitas versões distintas dos mesmos episódios. Assim, resumimos aqui os três elementos mais importantes associados a este deus.

 

Segundo alguns esta divindade nasceu de uma mãe virgem. Como é que isso aconteceu, de uma forma mais precisa, varia bastante de uma versão para outra, mas para contar duas das mais curiosas, numa delas um deus aparece-lhe em sonhos e revela-lhe essa gravidez misteriosa; enquanto que numa outra, esta mesma jovem – a que alguns chamavam Chimalman – é atingida por uma seta atirada por um outro deus (que não o anterior…), suscitando-lhe uma gravidez completamente mística. Essas variações na trama devem-se não só ao facto de ela ter evoluído em culturas e contextos diferentes, mas também porque, em muitos casos, quase só nos chegaram através de relatos cristãos, que tinham, como é óbvio, todo o interesse em deturpar alguns elementos e modificar outros, com vista a promover ideias católicas (recorde-se, por exemplo, o caso do Popol Vuh).

 

Assim, este Quetzalcoatl era mesmo o deus… do quê? Mais uma vez, há diversas versões – uns diziam que ele era deus do vento, outros que tinha sido ele o fundador do calendário local. Aparece associado às Artes, Metalurgia, ao cacau, ao dia (enquanto complemento da noite, já essa associada ao seu irmão Xolotl), a rituais profundamente sangrentos, entre muitos outros elementos, que parecem variar mediante a cultura-fonte e as fontes literárias a que temos acesso.

 

Um terceiro elemento comum entre as culturas – e provavelmente o mais importante de todos os mitos e lendas associados a este Quetzalcoatl – é o facto de ele ter desaparecido (seja subindo aos céus, ou afastando-se num barco), mas ter prometido aos seus crentes que voltaria um dia. Nesse contexto, quando os Espanhóis atracaram na região foi-lhes demasiado fácil reaproveitar as crenças locais e dizer que Hernán Cortés era nem mais nem menos que a reencarnação do deus, agora retornado após séculos de espera. Portanto… seria como se, entre nós, alguém surgisse, dissesse que era Jesus Cristo reencarnado, e depois fizesse um conjunto de coisas que a nossa ciência não era mesmo capaz de explicar – não o tomariam por esse deus? É provável que sim, e que lhe prestássemos culto, como os Astecas veneraram, num primeiro momento, aqueles que desembarcaram nas suas costas, apresentando-se submissos e acabando por ser conquistados sem dificuldades de maior.

 

Sendo este último o elemento da sua história que mais popularizou esta divindade nas culturas ocidentais, talvez até seja essa a grande lição a retirar do seu mito, o perigo que pode advir de algumas crenças religiosas. Bastará pensar, por exemplo, nos casos de Jonestown ou de Heaven’s Gate, com já alguns anos, em que um grande número de pessoas foram conduzidas às suas mortes pelo facto de acreditarem em “algo”. Como os Astecas deveriam ter tido, também a nós se exige, cada vez mais e mais, alguma prudência em matérias de Religião…

Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres

Sobre este infame Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres, também conhecido na altura em que viveu como O Pancada, ele é hoje famoso essencialmente devido ao facto da sua cabeça ter sido estudada por múltiplos especialistas, em busca de uma explicação para as suas acções horrendas, e ter chegado bem preservada até aos nossos dias de hoje. Imagens que a mostram, que entretanto até se parecem ter tornado virais na internet, mostram algo deste género, em que a face do criminoso pode ser vista quase como ainda era em vida:

Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres

É provável que já conheçam as bases da sua história – ele foi o mais prolífico de todos os serial killers de Portugal, facilmente colocando na sombra as 33 mortes de Luísa de Jesus ao causar a morte de muitas mais pessoas. E como o fazia ele? Diz-se que este Assassino do Aqueduto das Águas Livres, essencialmente abordava as pessoas na parte superior do famoso aqueduto lisboeta e, depois de as assaltar e lhes roubar as suas posses, atirava-as daí abaixo, causando-lhes a morte (enquanto que também evitava possíveis testemunhos por parte das suas muitas vítimas, o que era bastante conveniente). Curiosamente ele nunca foi apanhado por esses crimes, que cometeu uma e outra vez, mas somente por ter morto a família de um médico, num local muito distinto de aquele que lhe trouxe a fama nacional (e, mais tarde, até internacional). Mas, mais do que recordarmos toda a sua história, por agora já suficientemente famosa, trazemos cá hoje é um pequeno filme sobre todo este episódio da história nacional. Datado de 1909, este filme (inacabado) recapitula parte da história de Diogo Alves e merece ser apresentado por cá por se tratar de um dos primeiros filmes da indústria cinematográfica nacional:

Um outro filme sobre o mesmo tema, esse já em forma completa e datado de 1911, pode também ser visto aqui, contando a história dos crimes deste Assassino do Aqueduto das Águas Livres numa sequência de alguns breves capítulos, nomeadamente os seguintes, tal como o próprio filme os apresenta:

Diogo mostra os Arcos ao “Beiço Rachado”
Uma das primeiras vítimas [que fez no local]
Único crime de que Diogo Alves se arrependeu, pelo motivo da criança se rir na ocasião em que era precipitada
Roubo e morte da Estanqueira
O encontro de Diogo com o Caseiro da Senhora Infanta
Diogo resolve ir esperar o Caseiro aos Arcos para o roubar
Combinação para o roubo em casa do Médico Andrade
O assalto a casa do Médico Andrade
Diogo com o Enterrador matam o criado do Médico Andrade
Diogo nega os crimes, a filha da Parreirinha acusa-o
Justiça feita [!]

É fácil constatar que ambos os filmes contam mais ou menos a mesma história. Claro que isso era difícil de evitar, tratando-se esta de uma trama baseada em factos verídicos, mas é curioso apercebermos-nos que mesmo após 50 anos do enforcamento do vilão – foi um dos últimos condenados à morte em Portugal*, em 1841, mas provavelmente um dos mais famosos da história nacional a sofrer esse derradeiro destino – a sua história ainda era bem conhecida entre os Portugueses, provavelmente porque foram sendo publicadas diversas obras e folhetos sobre a sua vida e os seus muitos e chocantes crimes**. Agora, se hoje já pouco se sabe sobre ela… pelo sim, pelo não, fomos ler diversos documentos da época sobre todo este caso e descobrimos que as coisas não foram tão simples como hoje se contam. Relatar toda a história deste criminoso fugiria dos nossos objectivos neste espaço, mas podemos aqui deixar cinco breves curiosidades sobre ela:

 

  1. Diogo Alves nem sempre foi um criminoso. Ele tinha uma vida relativamente boa, até que o seu caminho foi alterado pelo vício da bebida e pela influência de uma tal Gertrudes Maria, conhecida como “a Parreirinha”, com quem até chegou a viver. A “Estanqueira” mencionada no filme era, na verdade, a mulher que lhes alugou casa.
  2. Pouco se parece ter sabido sobre os crimes que tiveram lugar no Aqueduto, o que poderá ter contribuído para uma espécie de mitificação dos mesmos.
  3. Este criminoso não agia sozinho. Em dada altura juntou-se a uma quadrilha e cometeram bastantes crimes. Entre os seus companheiros contava-se Manuel Joaquim da Silva, conhecido sob a alcunha “Beiço Rachado”, a que o filme também fazia alusão.
  4. O mais famoso dos crimes que perpetraram foi o assalto e mortes causadas na casa do médico Pedro de Andrade, sita no número 36 da Rua do Alecrim, um evento que teve lugar na noite de 26 para 27 de Setembro de 1839.
  5. Ironicamente, os criminosos foram condenados porque a filha da “Parreirinha” testemunhou contra eles. Presume-se que não fosse um rebento deste famoso criminoso, o que até teria dado um desfecho demasiado hibrístico a toda a história, mas possivelmente de uma relação que ela tinha tido anteriormente. Manuel Joaquim e o criminoso aqui em questão foram condenados à morte, enquanto que a mãe da delatora foi desterrada (não sabemos o que foi feito da filha, mas dificilmente poderia ficar a viver com a mãe depois do que fez em tribunal).

 

Assim se compreende que Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto das Águas Livres, não foi somente o perpetrador daqueles crimes que lhe trouxeram uma enorme fama, mas também cometeu muitos outros, tendo a sua condenação à morte sido bem merecida. Agora, o resto da sua história real deixamos para que outros a contem melhor nos nossos dias, até porque as nossas linhas sobre esta pequena curiosidade de hoje já vão demasiado longas…

 

*- Para quem tiver essa curiosidade adicional, o último condenado à morte em Portugal parece ter sido um tal José Joaquim Grande, que em 1846 foi enforcado em Lagos pelo crime de ter violado e morto a criada de um padrinho.

**- Numa nota mais pessoal, há alguns dias vimos um destes filmes com um grupo de idosos, o que até inspirou a escrita destas linhas. Durante o filme, quando o criminoso se prepara para atirar uma criança do topo do aqueduto, quase todos os visualizadores se mostraram chocados com o horrendo acto. Certamente que a audiência original terá sentido uma repulsa ainda maior!

A história da mulher que casou com um demónio

São muitas as lendas de Portugal que datam da Idade Média. Entre elas conta-se esta pequena história da mulher que casou com um demónio, que se encontra atestada em pelo menos um manuscrito alcobacense do século XIV. Entre muitas outras histórias presentes nesse chamado Horto do Esposo encontra-se então uma curiosa e breve trama, que aqui resumimos de uma forma sucinta:

A mulher que casou com um demónio no Horto do Esposo

Contava-se então que um demónio, tendo tomado a forma de um homem, serviu um homem muito rico. Fê-lo durante anos, até que este seu patrão, feliz com os serviços que lhe tinham sido prestados, decidiu dar-lhe a sua própria filha em casamento. Assim, inconscientemente e sem saber o que realmente fazia, fez da filha uma mulher que casou com um demónio, e deu-lhe até um extenso dote.

Durante algum tempo esta mulher e o demónio que com ela casou foram felizes, mas à medida que o tempo foi passando ela tornou-se cada vez mais louca e “brava” (é isso que lhe é chamado, no original), desrespeitando completamente o marido, desobedecendo-lhe e sujeitando-o a todo o tipo de desgraças. Às tantas, o demónio lá se fartou e pediu ao sogro que o deixasse partir para a sua terra, com as seguintes palavras:

Disse-lhe o sogro – E onde é a tua terra?

E respondeu o demónio – Não te quero esconder a verdade. Digo-te que a minha terra é o Inferno, e nunca no Inferno senti tanta repugnância como no ano que passei com esta mulher brava que me deste. E mais me apraz estar no Inferno que morar com ela.

Depois, o demónio abandonou o corpo do homem que até então ocupara, mas a história não ficou por aí. O que acaba por ser interessante, no entanto, é toda esta ideia de uma mulher que casou com um demónio, mas que também tinha um carácter tão medonho que os próprios habitantes do Inferno não conseguiam tolerá-la. É uma ideia presente em muitos outros instantes do Horto do Esposo, essa do carácter estereotipadamente negativo das mulheres, que aqui é levado a um extremo, apresentando o caso de uma mulher que viola tanto os princípios da época – deixe-se claro que ela é chamada brava não num sentido positivo (e.g. forte ou valente), mas em sentido de rude, selvagem, ou tempestuosa – que nem os próprios diabos eram capazes de a aturar.

 

Assim sendo, e para quem tiver essa curiosidade, a moral de toda esta história, no contexto da época em que ela foi posta por escrito, é simples – mulheres, respeitem os vossos maridos, porque nem mesmo os piores seres que se supunha existirem, os demónios do profundo Inferno, conseguem tolerar uma mulher incapaz de fazer o que lhe compete. Eram outros tempos…

A lenda de São Cipriano

Hoje, contamos aqui a lenda de São Cipriano. Sim, já cá falámos do seu famoso livro, contando até alguns dos seus feitiços de amor e outros mais estranhos, mas quem é, na verdade, a figura por detrás de todas essas construções mágicas? Sim, poderíamos contar a sua história, como o fazemos habitualmente, mas hoje, em alternativa, decidimos tentar algo de diferente.

A lenda de São Cipriano

Em vez de contarmos nós esta lenda de São Cipriano, deixaremos que uma das edições da famosa obra, O Verdadeiro Livro de S. Cypriano, de autoria anónima e publicado em Portugal há quase 100 anos, o faça. Isto porque o seu primeiro capítulo contém a história do santo, de forma a justificar os seus poderes. Ele diz-nos então o seguinte:

Cipriano, o Feiticeiro, desde tenra idade, até aos 30 anos, teve pacto com o diabo e relações intimas com todos os espíritos infernais, nasceu em Antioquia, entre a Síria e a Arábia, pertencente ao governo da Fenícia. Seus pais idólatras e possuidores de grandes riquezas, vendo que a natureza o dotara com talentos necessários para granjear a estima dos homens, o destinaram ao serviço das falsas divindades, mandando-o estudar toda a ciência dos sacrifícios que se ofereciam aos ídolos; de maneira que ninguém como ele conhecia a fundo os profanos mistérios do gentilismo. Depois de ter feito 30 anos empreendeu uma viagem para ir ter com um religioso chamado Eusébio, que fora seu companheiro de colégio, e durante esse tempo o censurava por causa da sua vida errada, para ver se o afastava do abismo insondável em que o via. Mas Cipriano não quisera nunca atender ás suas rogativas, e antes o desprezava e metia a ridículo.

 

Porém, certo dia Eusébio tanto orou a Deus que as suas orações foram ouvidas no céu. A misericórdia divina dignou-se iluminar e converter esta infeliz vítima da astúcia de Satanás em uma criatura devotada à religião, servindo-se da sua divina graça para mostrar no coração de Cipriano este grande prodígio, pelo meio que vamos expor:

 

Achava-se em Antioquia uma donzela por nome Justina tão rica de haveres como de beleza, à qual seu pai Edeso e sua mãe Cledonia educaram primorosamente nas superstições do paganismo. Porém, Justina, dotada como era de um claro engenho, assim que ouviu pregações de Prailo, diácono de Antioquia, renunciou o gentilismo e abraçando a fé católica, converteu a pouco e pouco seus pais.

 

A ditosa Justina, depois de cristã, fez-se uma das mais perfeitas filhas de Jesus, consagrando-lhe a sua virtude e virgindade, para cujo efeito observava com o máximo cuidado a modéstia e o retiro. Mas, apesar disto, vendo-a um pobre mancebo de nome Aglaide, lhe conciliou tanto os agrados que a foi pedir em casamento a seus pais, no que eles concordaram, mas o não pôde efectuar o pretendente, por Justina se negar a dar o seu consenso. Foi, então, procurar Cipriano, o qual empregou todos os meios mais eficazes da sua arte diabólica para satisfazer ao empenho do amigo. De nada, porém serviram os feitiços de Cipriano.

 

Então, Cipriano, cheio de desesperação, ofereceu aos demónios muitos abomináveis sacrifícios, e eles lhe prometeram tudo o que pretendia, investindo Justina com grandes tentações e fantasmas; porém, ela fortalecida com os auxílios da graça que havia merecido com orações e rigorosas austeridades e com o patrocínio da Santíssima Virgem, sempre ficou vitoriosa. Agitado, Cipriano, pela inutilidade dos seus esforços, voltou-se para o demónio, que ali estava, e disse-lhe desta forma:

 

“Maldito e pérfido, já vejo a tua fraqueza, pois não podes vencer uma delicada donzela, tu que tanto brasonas do teu poder. Diz-me com que armas se defende aquela santa para tornar inúteis os teus esforços?”
Então o demónio, obrigado por uma divina virtude, confessou-lhe a verdade, dizendo que o Deus dos cristãos era o supremo Senhor do céu, da terra e dos infernos, e que nenhum demónio podia operar contra o sinal da Santa Cruz com que Justina se armava, de sorte que, por este sinal, logo que ele aparecia para tentar, era imediatamente obrigado a fugir.

 

Cipriano disse: “Pois se assim é, o Senhor tem mais poder do que tu, e se o sinal da Cruz te faz fugir, eu te esconjuro e aborreço em nome do Deus dos cristãos”. E Cipriano pôs os braços em cruz, em sinal da Cruz de Cristo. O demónio irritado, apoderou-se de feiticeiro e lançou-o no inferno. Mas, dali a pouco, foi o diabo intimado por S. Gregório a apresentar Cipriano no seu antigo estado, o que o santo levou a efeito à força de orações.

 

Cipriano, daí em diante, foi-lhe difícil viver, porque o diabo estava sempre a aparecer-lhe para o tentar; porém Cipriano, punha logo os braços em Cruz e afugentava-o sempre. S. Gregório disse a Cipriano que se não salvaria enquanto se não desligasse de tudo a que se tinha ligado. Cipriano revestiu-se da graça de Deus e alugou uma pobre casa, com o fim de chamar ali todas as prestigiações do demónio. Passado pouco tempo foi Cipriano elevado pela graça de Deus ao reino dos justos.

Colocando então de uma forma breve esta lenda de São Cipriano, ele era originalmente um feiticeiro que obrava pelo poder do Diabo. Contudo, quando veio a entender que existia uma força mais poderosa que essa, a de Deus, converteu-se ao Cristianismo e tentou emendar os erros do passado. O que, no contexto da obra, explica o porquê de esta – na edição, ou forma, do O Verdadeiro Livro de S. Cypriano – conter apenas magias de protecção, destinadas a combater os malefícios mágicos do Diabo…