As principais povoações islâmicas de Portugal

Há alguns dias, enquanto procurávamos informação para a lenda de São Vicente, encontrámos um curioso mapa que data do século XII e mostra as povoações islâmicas de Portugal. Presume-se, naturalmente, que não mostre todas elas, mas o que contém é tão interessante que achámos que o deveríamos mostrar por cá. Ah, e para os menos atentos, este mapa está aqui com o Norte para baixo, apenas para facilitar a leitura dos nomes das povoações:

Povoações islâmicas de Portugal

Datado do século XII e da autoria de Muhammad al-Idrisi, mas reproduzido aqui numa cópia já do século XX (e com os nomes latinizados), este mapa mostra um Portugal que ainda quase não o era, delimitado a Norte por Sant Iakub (Santiago de Compostela) e outras duas povoações; e a Oeste por Salamanka, Al kantara, um rio (já lá iremos), e Cádis. Se a geografia aqui presente nem sempre é muito precisa, permite identificar várias localizações cujos nomes ainda são famosos nos nossos dias. Começando então pelo Norte, temos:

  • Minu, que possivelmente deu lugar ao nosso “Minho”, mas cuja localização actual não conseguimos descobrir;
  • Mont Maior, a cidade de Montemor (próxima de Coimbra);
  • Kalimria e Koria [/Kuzala], para as localidades de Coimbra e Curia;
  • Asbuna, a cidade de Lisboa;
  • Santarín, a cidade hoje conhecida como Santarém;
  • Alkasr, moderno Alcácer do Sal;
  • Silb, certamente Silves;
  • Sant Maria, provavelmente as actual cidade de Lagos;
  • Martala, i.e. Mértola, próxima do rio Guadiana, o limite de Portugal a Este.

Face a este mapa, e à geografia que ele nos comunica das povoações islâmicas de Portugal, é curioso poder perceber que algumas grandes cidades dos nossos dias ainda não existiam nessa altura, enquanto que outras foram perdendo progressivamente a importância que tiveram em outros tempos. Ainda assim, foi interessante podermos perceber quais as povoações mais notáveis no tempo da Reconquista Cristã, num conjunto de pequenas curiosidades que achámos que tínhamos mesmo de deixar por cá!

A lenda das Mulheres da Tessália

Nos tempos da Antiguidade as Mulheres da Tessália, uma região da Grécia Antiga, eram conhecidas por serem grandes e famosas feiticeiras. O seu maior exemplo era o de Medeia (que nem era dessa região, mas finjamos que sim), aquela feiticeira malévola e vingativa, mas de um modo mais geral o que se dizia é que estas mulheres tinham poderosos poderes mágicos, sendo até capazes de retirar a própria Lua dos céus. Agora, essa estranha possibilidade é muito repetida, apesar de ser também muito raramente concretizada, até porque se torna difícil compreender o que elas fariam com esse astro, após tê-lo deslocado do seu local habitual nos céus…

Mulheres da Tessália

Porém, um escólio de tempos bizantinos revela dois factos muito curiosos em relação a estas Mulheres da Tessália. Elas possuíam toda uma infinidade de poderes mágicos, sim, mas para poderem tomar proveito deles tinham frequentemente de dar algo seu, algo que lhes fosse muito precioso, em troca, sendo referido que frequentemente perdiam “os pés e os olhos”, talvez por esses elementos poderem ser considerados como alguns dos mais importantes do corpo humano – conseguem imaginar as vossas vidas sem esses órgãos no vosso corpo? É um pouco difícil, não é…?

Porém, o mesmo escólio também acrescenta algo a toda a esta história, um elemento muito curioso. Não nos é dito que alguém o tenha feito, nem sequer é fornecido o nome de alguma figura mitológica ou mais real associada a um potencial episódio, mas é dito que quando as Mulheres da Tessália retiravam a Lua do céu, muitas vezes escondiam-na debaixo das suas próprias camas, utilizando-a para si mesmas e para o que bem lhes apetecesse, como se de um redondo e estranho espelho se tratasse.

Não sabemos, admita-se com toda a sinceridade do mundo, que fontes literárias poderá ter consultado quem nos deixou essa informação na margem de um manuscrito, mas pelo menos ela contribui para que possamos compreender um pouco melhor aquela que é uma referência comum em diversas obras da Antigudade, mas que a uma primeira vista nos poderia parecer demasiado misteriosa para ser descortinada nos nossos dias…

A Verdadeira Lenda de São Vicente

A lenda de São Vicente é famosa em Portugal, e em particular na cidade de Lisboa, devido à ligação deste santo com a nossa capital. Na verdade, os momentos finais de toda a sua grande lenda até podem ser vistos no brasão da cidade:

A lenda de São Vicente e a cidade de Lisboa

Agora, se o brasão – com um navio e os dois corvos – ainda hoje é famoso, o que já poucos parecem saber é que quando toda a história deste santo é contada nos nossos dias, tende a sê-lo de uma forma incompleta, que faz perder um elemento muito significativo da trama. Portanto, hoje contamos cá a verdadeira lenda de São Vicente, na sua forma mais completa, para que todos os leitores a possam conhecer.

 

Conta-se então que este santo nasceu na cidade espanhola de Saragoça, em finais do século III da nossa era. Quando Diocleciano decidiu perseguir os Cristãos, este Vicente foi um dos muitos capturados pelos Romanos, mas por muitas torturas a que o sujeitassem ele recusou sempre abandonar a sua fé em Deus e no Cristianismo. Quando finalmente faleceu, vítima das mais brutais torturas (entre outras coisas, ele foi assado numa grelha), o corpo do mártir foi primeiro abandonado e depois atirado ao mar, flutuando durante dias até que deu à costa perto de Sagres, sendo sempre acompanhado e protegido por corvos. Foi construída uma capela a este santo no local (hoje perdida, tanto quanto foi possível apurar), e também ela foi sempre protegida por corvos. Depois, em finais do século XII e por ordem de Dom Afonso Henriques, as relíquias do santo foram trazidas para a capital de Portugal – e, como já é bem sabido, os corvos continuaram a acompanhar os restos de São Vicente, seguindo-os para a capital e gerando a curiosa imagem que ainda hoje pode ser vista no brasão da cidade – de facto, até é ele o padroeiro de Lisboa, e não São António, como muitos poderiam supor nos nossos dias!

 

Nesta sua forma mais completa do que é habitual, a lenda de S. Vicente permite-nos compreender que a ligação deste santo aos corvos já tinha vários séculos quando ele foi transportado para Lisboa. Mas de onde vem ela? Também podemos explicá-lo – a versão original da primeira parte de toda a lenda, que nos chegou num poema de Prudêncio (século IV), diz que quando o santo morreu, e para que os animais selvagens não pudessem destruir o corpo, um corvo – no singular, corvus – protegeu-o de todo o dano. Depois, ao longo dos séculos este pequeno papel foi crescendo, o número de animais foi sendo ampliado, e o seu papel original foi parcialmente esquecido – quando os restos do santo são trazidos para a cidade de Lisboa, ele é já puramente simbólico, até porque passados tantos séculos já não existiria muito para ser protegido.

 

Portanto, esta é uma daquelas lendas que ao longo dos séculos foi sendo sintetizada e reduzida apenas aos seus elementos mais fulcrais e relevantes para a presença desta figura na capital, estando as suas relíquias hoje – para quem estiver curioso, e segundo foi possível apurar – na Sé de Lisboa (e não no belo Mosteiro de São Vicente de Fora, como seria naturalmente de supor). Porém, recordar esta lenda como o fizemos aqui, com base na sua fonte literária original, é importante para que se possam compreender todos os elementos que a compõem, e em particular a razão pela qual os corvos – tipicamente dois, nas versões dos nossos dias – seguiram sempre os restos mortais do mártir…

 

P.S.- Uma outra curiosidade adicional, relativamente à localização do corpo deste mártir. Uma outra lenda, muito menos conhecida que as anteriores, diz que numa dada altura Afonso Henriques quis oferecer um braço deste santo para a Sé de Braga. Foi enviada uma mula de Lisboa para essa cidade, mas quando ela passou na zona do Porto estacou em frente à Sé da cidade invicta, e por muito que o tentassem ela recusou-se sempre a andar. Os fiéis depreenderam que por este “milagre” o santo dizia não querer ir para o local a que estava originalmente destinado, e então o braço de São Vicente ficou alojado no local próximo do qual esta mula um dia estacou…

Os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis

Há já quase uma década que aqui se falou dos conselhos amorosos de Ovídio, mas hoje completamos o tema falando sobre os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, três figuras femininas que indubitavelmente merecem ser referidas no mesmo contexto que as famosas obras sobre o amor do autor romano. Por isso, quem foram elas?

Os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis

Conta-se que Astyanassa foi uma das empregadas que cuidou de Helena de Tróia quando esta ainda era muito jovem. Depois, aqui e ali, podem ser encontrados alguns brevíssimos factos que lhe foram sendo associados, mas o mais relevante para o tema de hoje é que se dizia que foi ela que ensinou à causadora da Guerra de Tróia as artes da sedução, contribuindo muito significativamente para a paixão de (Alexandre) Páris . Ainda mais – foi esta figura que inventou as diversas posições sexuais, tendo até escrito uma obra literária sobre esse tema. Mas, caso alguém tenha interesse em ir procurar esse texto, devemos deixar claro que não há qualquer prova de que ele tenha mesmo existido, visto que é sempre referido mas jamais citado.

Assim sendo, talvez até para colmatar a impossibilidade de leitura de uma obra como essa, outras mulheres cortesãs (ou seja, que se dedicavam à venda do prazer por dinheiro), escreveram os seus próprios textos sobre o tema. E talvez até tenham sido muitas, mas só nos chegaram informações associadas a duas delas.

 

Uma delas, conhecida sob o criptónimo de Elefantis, publicou um livro que sabemos que até tinha ilustrações, contendo novas (ou “nove”, como outros preferem ler) formas diferentes de praticar os actos derivados do amor. Infelizmente, nada nos chegou dos seus textos, ou mesmo das respectivas ilustrações, pelo que não nos é possível averiguar se terão tido algum impacto na obra de Ovídio.

Contudo, um outro caso é um pouco diferente – Filenis também escreveu um livro sobre os mesmos temas, mas dela já nos chegaram algumas breves linhas, permitindo-nos saber um pouco mais. Assim, a autora nasceu na ilha de Samos e era filha de um tal Ocimenes. A sua obra parecia abordar não só a prática sexual, em si mesma, mas também tudo aquilo que envolvia o tema do amor e a sedução, chegando a dizer, por exemplo, que mesmo que uma mulher fosse muito feia o potencial amante a deveria equiparar a Afrodite, ou que uma mulher mais velha poderia ser comparada a Reia (a chamada “Mãe dos Deuses”). É uma informação que suscita curiosidade, claro, mas que ao apenas nos ter chegado em breves fragmentos, também não nos permite saber muito mais sobre o texto original.

 

Ainda assim, isto prova que os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, tal como o de outros potenciais autores e autoras da Antiguidade, podem ter dado um pano de fundo à Arte de Amar ovidiana, mas também contribuído para a sua proibição, pelos seus antecessores se tratarem, como nos informam os autores que aludem a estes textos, de obras pouco recomendáveis ao público em geral. Recorde-se até que, como já cá foi dito antes, livros pornográficos em Latim apenas vieram muito mais tarde, mas aqueles em língua grega foram, quase certamente, aqueles que aqui apresentámos hoje…

Sobre o “Sítio do Picapau Amarelo”, de Monteiro Lobato

Se anteriormente já cá falámos de Monteiro Lobato e do Saci, achámos que hoje seria apenas justo que falássemos também do Sítio do Picapau Amarelo, uma série de literatura fantástica que é também da sua autoria. Ela é muito famosa no Brasil, ainda nos dias de hoje, mas em Portugal quase que é apenas recordada em virtude de uma série de televisão infantil, com imagem real, que deu na televisão há uns anos (já lá voltaremos). Então, para a escrita desta página de hoje, decidimos comprar um dos livros de Monteiro Lobato – a obra Reinações de Narizinho, Edição de Luxo – com onze histórias da conhecida colecção brasileira e ver onde isso nos levava.

Algumas personagens do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato

De uma forma um tanto ou quanto irónica, face ao tema do espaço que aqui conduzimos, a Cuca, o Saci e a Mula Sem Cabeça nem aparecem em nenhuma das histórias da obra que comprámos… porém, o que não deixámos de encontrar nas linhas deixadas por Monteiro Lobato foi um conjunto de histórias que são muito apropriadas não só para crianças como também para adultos, e em que os níveis de leitura dos dois públicos se entrelaçam de uma forma que, em dados momentos, não pode deixar de fazer toda a gente rir.

Por exemplo, numa dada altura, Narizinho, que é uma das personagens principais, diz às suas familiares mais velhas que aceitou um pedido de casamento do Príncipe dos Peixes. Elas insurgem-se contra a ideia, não pela idade da criança (que devia ter mais ou menos uns 10 anos nessa altura?), mas pela dificuldade que seria ter um genro peixe, ou até porque poderiam, sem querer, acabar por fritar um dos seus próprios netos (e, na verdade, uma personagem do reino dos peixes até acaba frita por acidente).

 

Nestas histórias existem alguns momentos para rir, outros mais tristes, uns para os pais (que criança dos nossos dias conhecerá o “Cavaleiro da Triste Figura”?), e outros para os filhos (que traquinices fariam eles com uma varinha de condão?). Mas, de uma forma geral pareceram-nos histórias bastante bonitas, um misto de realidade e fantasia que entrelaça mitos, lendas e famosas histórias de ficção com criações totalmente originais por parte do autor. Mereciam estar mais divulgadas neste lado do oceano, essas aventuras de personagens do Sítio do Picapau Amarelo como as que podem ser vistas naquela imagem ali em cima – respectivamente o Saci, o [Marquês de] Rabicó, a Emília, a Narizinho, o Pedrinho, a Dona Benta, o Tio Barnabé, o Visconde de Sabugosa, e tantos outros…

 

Bem, mas, para terminar, acima referimos uma série de televisão do Sítio do Picapau Amarelo que deu em Portugal. Aqui fica o seu primeiro episódio, para quem a quiser recordar dos tempos de infância. Para quem gostar deste, os restantes episódios também podem ser vistos no mesmo canal do Youtube, de uma forma completamente gratuita!

(E não, frise-se que não recebemos um cêntimo por nada do que está escrito ou apresentado aqui)