Como Atena e Poseidon disputaram Atenas – e o mito do Areópago!

O mito grego em que Atena e Poseidon disputam a cidade que ficaria conhecida pelo nome de Atenas é, sem qualquer dúvida, um dos mais famosos da Mitologia Grega. Ele até aqui já aqui tinha sido contado, há mais de uma década, de uma forma muito simples, com as seguintes palavras:

 

 

Um famoso mito grego fala-nos do dia em que Atena e Poseidon disputaram Atenas. Nesse seu confronto, o primeiro ofereceu à cidade uma fonte, e o segundo ofereceu a oliveira. Obviamente que, como hoje já se sabe, a cidade escolheu a deusa da coruja e das oliveiras, mas Plutarco, algures em uma das suas obras, revela um aspecto curioso deste mito. Em dois textos diferentes da Moralia, ele diz-nos que esta disputa dos dois deuses inimigos foi no segundo dia do mês Boedromion, que provavelmente equivaleria ao nosso segundo dia de Setembro, e que esse dia teria sido retirado do calendário (não faço ideia como isso funcionará, em termos práticos) devido a essa disputa divina.

 

 

 

É esta a história do confronto dos dois deuses, tal como a maior parte das fontes da antiguidade a relataram, e salvo uma ou outra pequena divergência – e.g. alguns autores diziam que a prenda dos deus dos mares não tinha sido apenas uma fonte, mas o primeiro cavalo – este continua a ser, sem dúvida, um dos mais famosos mitos da Grécia Antiga. Mas, o que menos autores nos contam, e o que também menos pessoas parecem saber, é que esta história não está tão completa como costuma ser contada. Ela tem, na verdade, uma espécie de sequela, capaz de a ligar a outro famoso instante da vida da cidade de Atenas.

 

 

Que mito se esconde por detrás do Areópago?

O dia em que Atena e Poseidon disputaram Atenas - e o Areópago

Quem conhecer o lugar, certamente que já ouviu falar do Areópago, ou “colina de Ares”, em referência ao deus grego da guerra… mas que não aparece na história anterior! Isso acontece porque, contrariamente ao que pode ser pensado pela versão acima, a trama não terminou quando esta cidade premiou o dom de Atena e tomou o seu nome! Ela continua com o seguinte:

A cidade foi, de facto, disputada por Poseidon e Atena, e a segunda deusa, pela sua oferta da oliveira, ganhou o lugar de figura tutelar. Anos depois, um tal Halirrotio, filho do deus dos mares, foi ao local do famoso confronto e quis cortar a então-famosa oliveira da deusa. Não é muito claro como isto acontece, presume-se a existência de uma qualquer espécie de milagre, mas a espada (ou machado?), com que ele pretendia executar essa acção, de alguma forma escapou-lhe das mãos e acabou por matá-lo. Isso fez com que Poseidon, posteriormente, acusasse Ares deste crime, e o local em que em que o julgamento do caso tomou lugar ficou, depois, conhecido pelo nome de Areópago. Pelo menos uma fonte sugere que Ares foi isentado de quaisquer culpas.

 

 

Agora, esta breve sequela da famosa história parece levantar mais questões do que aquelas a que nos responde. Como tal, ela pode ser complementada com outra versão do mito de Halirrotio, que diz que ele violou uma filha de Ares, e que foi por essa razão que o deus da guerra o acabou por matar. É por isso provável que tenha existido, numa dada altura, uma versão muito mais completa de toda esta história – como a temos hoje, ela assenta essencialmente em escólios, em breves pedaços de informação provindos daqui e dali, o que torna difícil saber toda a sequência narrativa da história do julgamento de Ares, sendo provável que ela até tenha sido representada em tragédias da sua época.

 

 

Em suma, se o mito do confronto de Poseidon e Atena pela então-futura cidade de Atenas é muito conhecido, parece que ele também teve, em tempos da Grécia Antiga, pelo menos uma espécie de sequela, mais ou menos semelhante à contada acima, que terá envolvido um filho do perdedor da disputa, e Ares, o deus da guerra entre os Gregos. É difícil saber como tudo isso se desenvolveu, mas é difícil de negar que a história teria terminado com um julgamento de Ares na mais famosa colina da cidade.

 

Assim, à história amplamente conhecida da disputa entre Atena e Poseidon, pode mesmo juntar-se este episódio menos conhecido que envolve Halirrotio e Ares. Juntas, essas narrativas mostram como os mitos gregos se entrelaçam e se prolongam, muitas vezes com desfechos bastante inesperados – como um julgamento divino no coração da cidade que escolhera uma importante deusa como a sua protetora…

Ísis em Braga? A Deusa Egípcia que Vive nas Pedras da Sé

Sabias que uma antiga inscrição romana na Sé de Braga revela a presença do culto à deusa Ísis? Descobre como esta divindade egípcia chegou à Bracara Augusta e como deixou marcas na espiritualidade local.

 

Braga é conhecida como uma das cidades mais antigas de Portugal e, ao mesmo tempo, como capital espiritual do país. Mas por entre os sinos e as tradições cristãs, há vestígios de um passado surpreendente: uma inscrição romana dedicada à deusa Ísis, encontrada na própria Sé Catedral. A Sé de Braga foi construída no século XI, mas acredita-se que o local onde se situa era ocupado por um mercado ou por um templo romano dedicado à deusa. A pedra votiva foi assim reutilizada na construção da catedral, fenómeno frequente na época.

 

 

A epígrafe está localizada numa parede exterior voltada para a Rua de Nossa Senhora do Leite. Traduzida, revela:

 

“A Chancelaria Augusta de Braga dedicou este templo à deusa Ísis, sendo sacerdotisa Lucrécia Fida, pelo povo Romano e pelos Augustos.” *

 

Infelizmente, a pedra onde continuava a inscrição está desaparecida, mas o que resta já basta para atestar a presença e importância deste culto na época romana.

Isis com Horus - do artigo ' Ísis em Braga? A Deusa Egípcia que Vive nas Pedras da Sé '

Ísis era originalmente uma deusa egípcia, associada à maternidade, magia e proteção. Era frequentemente representada com o seu filho Hórus ao colo, amamentando-o – uma imagem profundamente maternal e divina. Hórus, por sua vez, era o filho sagrado, herdeiro de Osíris, destinado a restaurar a ordem após o caos. O seu culto expandiu-se além do Nilo com a helenização do mundo antigo, sendo integrada no panteão greco-romano como uma divindade universal, associada à sabedoria, pureza e às forças da natureza. Plutarco relata que lhe era dedicado o pessegueiro [ou a árvore “persea“] — cujas folhas se assemelham a uma língua e os frutos a um coração — como metáfora da castidade em palavras e ações que os seus fiéis deveriam adotar. O culto isíaco ganhou grande popularidade e espalhou-se por todo o Mediterrâneo. Através da presença militar, comercial e administrativa romana, Ísis chegou à Península Ibérica — incluindo a Bracara Augusta, atual Braga.

 

Nossa Senhora do Leite no artigo ' Ísis em Braga? A Deusa Egípcia que Vive nas Pedras da Sé '

 

Quando o cristianismo começou a consolidar-se, muitos dos fiéis ainda carregavam símbolos e emoções associadas a divindades pagãs. A figura da Virgem Maria — mãe de Jesus, pura, compassiva, intercessora — preencheu naturalmente o espaço simbólico que Ísis ocupava. A iconografia da Virgem com o Menino no colo, nomeadamente Nossa Senhora do Leite, venerada em Braga e noutros centros de tradição católica, reproduz diretamente a pose tradicional de Ísis com Hórus. Jesus, como Hórus, também é visto como o filho divino, enviado para redimir e salvar, dotado de uma missão messiânica.

 

Embora o cristianismo tenha reformulado profundamente o conteúdo teológico desses arquétipos, a forma simbólica manteve-se familiar para os povos do Mediterrâneo – ambas são figuras maternais, retratadas a amamentar o filho divino. Essa continuidade facilitou a transição entre crenças e ajudou a construir uma nova espiritualidade enraizada em símbolos já reconhecíveis — agora com novos significados cristãos.

 

 

A inscrição dedicada a Ísis é mais do que uma curiosidade arqueológica. É uma lembrança viva de que Braga sempre foi uma cidade de encontros — entre impérios, entre culturas, entre divindades. E que, nas suas pedras mais antigas, ainda ressoam vozes do passado, prontas a serem redescobertas.

 

 

[Nota: Este artigo foi da autoria exclusiva de Domingos Fernando Barbosa, pertencendo-lhe todos os direitos legais.]

 

*- Nota do editor, para quem tiver interesse em sabê-lo, a inscrição original não é fácil de ler mas parece dizer o seguinte:
“ISIDI AV[G] SACRUM
LUCRETIA FIDA SACERD PERP
ROM ET AUG
CONVENTUUS […]”

Qual é a Origem dos Palhaços?

Falar-se aqui sobre a origem dos palhaços vem de uma pequena coincidência que tomou lugar há algumas semanas. Por vezes contactam-nos em privado para nos pedirem uma opinião sobre determinados livros. Isso aconteceu, recentemente, com uma obra chamada The Nephilim Looked Like Clowns. Já cá falámos antes desses tais Nefilins, como eles são chamados em Português, mas iremos então aqui começar pelo livro, antes de avançar para o tema principal a ele associado…

Qual a origem dos Palhaços?

Sobre o livro “The Nephilim Looked Like Clowns”

 

A uma primeira vista, este livro e toda a ideia que ele defende pode parecer uma loucura. O próprio autor o admite, num dos seus seus primeiros capítulos. E depois, à medida que vai apresentando a sua teoria, surgem pelo caminho algumas coisas mais malucas do que outras. Nem todas têm um suporte forte e credível, mas de uma forma muito simplificada toda a ideia passa pelo seguinte – os tais Nefilins, segundo este autor, foram os descendentes de Caim, aquela figura bíblica que matou o próprio irmão (i.e. Abel), e causaram muitos problemas à humanidade até ao Dilúvio Universal. Depois, nessa altura morreram fisicamente, evoluíram para terem formas mais espirituais e animalescas, e foram adoptando as mais diversas formas. Tornaram-se, por exemplo, Sereias, Sátiros, e outros seres que tais, por temerem os humanos começaram a viver em locais de difícil acesso, etc. Sob a forma de demónios ou seres da floresta, inspiraram a criação da figura de Arlequim, que por sua vez inspirou a maquilhagem dos palhaços nos nossos dias, e portanto… segundo a ideia defendida neste livro The Nephilim Looked Like Clowns, ao longo dos tempos umas figuras pré-bíblicas hoje já quase esquecidas foram, diz-nos o autor, a derradeira origem por detrás dos nossos palhaços.

 

Mas será verdade? Ou é tudo uma fantasia louca do autor, um tal Paul Stobbs? A resposta parece passar mais pelo segundo do que pelo primeiro caminho, já que quem perceber dos temas que vão sendo citados poderá notar, aqui e ali, falhas importantes. Por exemplo, segundo o autor, os nossos palhaços têm essa sua maquilhagem branca porque ela deriva da “Marca de Caim”, a identificadora de prole desse vilão, que recorrendo a este e aquela fonte, quando lida de uma forma muito oblíqua, lá revelam esse suposto facto. E talvez a ideia convença quem percebe menos dos assuntos em apreço? É provável, mas não é uma obra muito fiável, já que o autor até tem de citar diferentes traduções para as mesmas sequências e obras de forma a tentar encontrar alguma que lá sugira o que ele quer. E portanto, deixando então este livro The Nephilim Looked Like Clowns de lado, qual é mesmo a verdadeira origem dos palhaços?

 

 

Qual é (mesmo) a Origem dos Palhaços?

 

Sabemos que, de facto, no seu cerne a represenção física dos palhaços vem da tal figura de Arlequim da “Commedia dell’arte” italiana, mas ela só se tornou muito mais comum já em inícios do século XIX, com um senhor inglês de nome Joseph Grimaldi e o seu alter-ego, um palhaço de nome “Joey”. Mas o porquê de ambos se representarem com uma pele muito branca não é fácil de perceber… talvez tenha sido uma mera convenção pictórica, ou pelo facto, se considerarmos que aquela primeira figura era originalmente um emissário do Diabo, ele provavelmente vivia na escuridão e obteve, como é natural, uma pele pouco ou nada queimada pelo sol. Faz um certo sentido.

 

Ao mesmo tempo, a outra metade que compõe a origem dos palhaços, i.e. as suas acções divertidas, parece vir ainda de tempos da Grécia Antiga, dos chamados “dramas satíricos”, em que os Sátiros tinham uma espécie de papel de divertidores do público, quanto mais não fosse pelo seu aspecto animalesco.

 

Portanto, se pensarmos bem no assunto, parece que a Origem dos Palhaços vem de uma tentativa de representação do “outro”, daqueles figuras que são invulgares nas nossas sociedades, seja pela sua forma física ou pelas suas acções fora do comum. Agora, se isto quer dizer que é mesmo possível ligá-los aos Nefilins mencionados na Bíblia… não, nem por isso, já que o caso apresentado no livro que mencionámos acima tem imensas fragilidades. Talvez seja, portanto, mais correcto dizer-se que este é um daqueles temas para os quais existem várias teorias mas poucas certezas comprováveis…

A lenda do Ninho do Tigre (Paro Taktsang)

Existem lendas que pelo seu próprio nome não podem deixar de suscitar curiosidade. A de hoje refere um suposto ninho de tigre – Paro Taktsang, no original – e na nossa tradição ocidental a ideia suscita, automaticamente, um bom punhado de questões, quanto mais não seja pelo facto dos tigres não fazerem ninhos. A história por detrás desse nome butanês explica, como é natural

A lenda do Ninho do Tigre (Paro Taktsang)

Hoje, quem for ao mosteiro de Paro Taktsang, que pode ser visto na imagem acima, pode ver que ele não é de fácil acesso. Em outros tempos ainda era mais difícil chegar a este local, e nele existia uma caverna em que vivia uma criatura monstruosa. Um dado dia, uma figura que ficou conhecida no budismo local como Padmasambhava viajou para este local por meio de um tigre voador, e depois de meditar na caverna conseguiu vencer o monstro. Assim, o espaço tornou-se famoso, em particular para práticas meditativas, e no século XVII foi lá construído um mosteiro budista.

 

Toda esta breve história poderia ficar por aqui, não fosse o facto de ainda faltar abordar um elemento completamente fulcral – visto que “tigres voadores” não são propriamente frequentes, de onde veio aquele que deu o nome a este local? Essencialmente, parecem existir duas versões. – Numa delas, essa criatura foi somente conjurada pelos poderes místicos de Padmasambhava, sendo uma espécie de símbolo dos seus poderes místicos. Numa outra, aparentemente menos comum, o animal resultou da transformação de uma sua estudante budista, de nome Yeshe Tsogyal (hoje considerada a mãe do Budismo Tibetano), o que sugere que o herói viajou, simbolicamente, do Tibete para o Butão por via deste animal.

 

O “ninho”, esse, parece ter sido metafórico, já que o viajante, depois de derrotar o monstro que vivia neste local, parece ter utilizado a mesma caverna como uma fonte para o nascimento e propagação das ideias budistas entre os cidadãos locais, como que as fazendo voar em todas as direcções ao longo dos anos.

 

 

Ainda, tendo em conta que este local não é de fácil acesso – presume-se que os leitores não tenham tigres voadores à sua disposição – fica aqui um pequeno vídeo que permite ver como ele é, até por se tratar de um dos mais famosos locais de peregrinação religiosa no Butão.

 

O mito do Bulgasari (ou Pulgasari)

O ser conhecido pelo nome de Bulgasari, ou Pulgasari, vem-nos de terras da Coreia, e de um tempo em que a do Norte e a do Sul ainda se encontravam unidas. Agora, o curioso, e certamente aqui até muito digno de nota, é que o seu mito está pejado de diversas versões, sendo impossível determinar qual foi a mais antiga de todas elas. Este é um problema tão significativo que mesmo quando foram feitos filmes sobre este tema, as suas tramas se apresentam como tão diversas que se torna completamente impossível tentar determinar em que consista a história original por detrás desta criatura. E portanto, o que aqui trazemos hoje é uma forma simplificada da história, com apenas aqueles elementos que ou são famosos, ou parecem constar em várias das suas versões.

O mito do Bulgasari (ou Pulgasari)

Diz-se então que a criatura que viria a ser conhecida sob o nome de Bulgasari foi criada por um monge budista num período de perseguição. Talvez apenas para ocupar o seu tempo, ou em alternativa para criar uma espécie de ser que o pudesse proteger, ele pegou em bagos de arroz cozido e com eles formou um ser completamente fictício, onde podem ser reconhecidos sem dificuldade, por exemplo, os dentes de tigre e uma tromba de elefante. Depois, foi alimentando este estranho ser com pequenas agulhas de metal… e isto levou a que ele fosse crescendo, crescendo e crescendo cada vez mais. Até que se tornou um grande problema na região, como é habitual em casos como este (recorde-se, por exemplo, o “nosso” caso nacional da Porca de Murça). Teve de ser chamado o exército local, que atacou este Bulgasari com flechas, espadas, lanças, e outras armas semelhantes, mas por muito que tentassem vencê-lo, ele limitava-se a interpretar todas essas tentativas como um delicioso manjar.

 

Como foi, então, derrotado este monstro? Fruto das muitas versões da história, a completa verdade é que não sabemos. Uns dizem que lhe foi atirado fogo, o que lá destruiu os bagos de arroz que o compunham, matando-o; outros dizem que caiu num buraco e agora vive no interior da terra; e há até quem diga que ele foi espalhando o caos por toda a Coreia e ainda hoje se encontra “algures”, em busca de mais comida metálica para alimentar a sua gula.

 

 

Finda esta breve história do ser que também hoje é conhecido na Coreia por Pulgasari, há ainda aqui um outro curioso elemento a ter em conta. Para quem até já conhecer a lenda japonesa de uma criatura chamada Baku, certamente que terá notado que os dois monstros se assemelham bastante, de um ponto de vista físico. A grande diferença é que enquanto a criatura coreana come metal, a japonesa se alimenta de sonhos (daqueles que se têm durante a noite, e não os bolos desse nome!). É provável que tenham tido uma fonte comum, potencialmente chinesa, mas que esta se tenha perdido ao longo dos séculos, levando ao estado actual das lendas japonesa e coreana, em que pouco de estável se sabe seja sobre a origem destes monstros, ou sobre os seus destinos finais…