Onde está a Excalibur?

O seu nome é indubitavelmente famoso dos romances medievais, mas quem nunca se interrogou onde está a Excalibur, a famosa espada do Rei Artur, nos nossos dias de hoje? Poderia pensar-se que se trata de uma mera ficção, que esta arma – e, potencialmente, até o seu conhecido portador – nunca existiram verdadeiramente, mas o mais curioso é que existem outros exemplos de espadas medievais famosas que ainda podem ser vistas nos nossos dias.

A Durandal de Rolando - mas onde está a Excalibur?!

Por exemplo, a espada que se diz ser a de Rolando, a Durandal (ou Duridana) do herói do poema épico medieval La Chanson de Roland, pode ser vista na comuna francesa de Rocamadour, e até há uns anos estava presa numa fenda de uma rocha (a corrente que a prenda seria, obviamente, posterior). Diz a lenda que foi o próprio herói que a atirou para lá, com as suas últimas forças, poucos instantes antes de falecer – ainda a vimos há uns anos, mas segundo lemos agora já foi levada para um museu, o que faz perder um pouco do seu charme e encanto original.

No mesmo país, a Joyeuse, a espada lendária do Imperador Carlos Magno, também pode hoje ser vista no Museu do Louvre.

 

Em Espanha, dizem as lendas que El Cid, herói de um famoso épico com o seu nome, possuiu duas espadas famosas, a Tizona (ou Tizón) e a Colada. Desconhecemos a localização da segunda, se ainda existir, mas a primeira pode, hoje, ser vista num museu na cidade espanhola de Burgos.

Já em Portugal, a espada de Afonso Henriques, cuja lenda não nos parece preservar nenhum nome mais específico, diz-se estar no Museu Militar do Porto, mas não tivemos a oportunidade de o confirmar pessoalmente.

 

Apesar de serem, todas elas, espadas lendárias, a história não reza que tenham qualquer espécie de poderes especiais, como é comum naquelas que recebem este tipo de designação em jogos de computador. O seu factor lendário vem não de uma qualquer característica especial que possam ter, mas da identidade do mais famoso dos seus possuidores – de forma semelhante, mesmo que a Excalibur fosse encontrada, é provável que se tratasse de uma espada como qualquer outra, com a excepção do filho de Uther Pendragon a ter possuído anteriormente.

 

Mas então, onde está a Excalibur? Onde pode, agora, ser ela encontrada? Quem tiver lido os romances medievais com alguma atenção já saberá que a espada do Rei Artur foi forjada em Avalon, mas após o final das aventuras do herói acabou por ser depositada no mesmo lago em que, por magia, lhe tinha sido confiada anteriormente pela misteriosa Dama do Lago. Talvez ainda esteja por lá… ou já pode ter sido recuperada, se tivermos em conta que uma menina de sete anos encontrou uma espada no local em 2017 (a notícia pode ser lida aqui); se era mesmo a famosa arma de Artur, ou não, não temos forma de o saber, mas em caso negativo é provável que esse lago no sul de Inglaterra ainda seja um bom ponto de partida para a conseguir reencontrar…

O mistério do Cantchal das Letras

Há cerca de 100 anos o etnógrafo Jaime Lopes Dias visitou um local a que chamou o Cantchal das Letras ou a Pedra do Gato. Localizou-o quase em frente da localidade (portuguesa) de Segura, mas do lado espanhol do Rio Erges. Ou seja, tendo por referência estas indicações (que são relativamente vagas), talvez algures no local mostrado nesta fotografia:

O mistério do Cantchal das Letras

Segundo ele, este tal Cantchal das Letras era uma espécie de “grande penedo” em que se encontravam inscritas muitas letras. Algumas eram antigas, outras eram mero fruto de brincadeiras do século XX, mas o mais curioso é que, admitidamente, alguns habitantes locais admitiram que tinham feito novas inscrições no local, mas que ao fazê-lo degradaram as verdadeiras inscrições que já lá existiam antes, que continham caracteres que, aparentemente, ninguém sabia decifrar… o que parece ter levado, em alguma altura, a uma lenda local, segundo a qual quem conseguisse ler essa mensagem poderia encontrar enormes tesouros nas redondezas!

 

Será verdade? Que antigas inscrições eram essas? Será que verdadeiramente escondiam o local de algum tesouro? Gostaríamos bastante de o vir a saber, mas parece que já ninguém sabe onde ficava esse tal Cantchal das Letras. Terá sido destruído? Será que a sua degradação progressiva, ao longo do último século, levou a que o penedo perdesse todo o seu interesse? São perguntas que terão de ficar mesmo sem resposta, porque já não conseguimos encontrar o local em questão, nem Jaime Lopes Dias preservou as antigas letras a que se referia a lenda… por isso, se algum dia alguém vir estas linhas e tiver mais alguma informação para oferecer sobre o tema, por favor deixe-a nos comentários ou envie-a para nós ali por e-mail!

O mito de Ônfale

Apresentar aqui o mito de Ônfale implica, antes demais, fazer uma pequena viagem no tempo, até a uma publicação que cá fizemos sobre os Trabalhos de Hércules. Na altura apresentámos uma imagem com as doze façanhas do heróis, que reproduzimos novamente abaixo:

O mito de Hércules e Ônfale, ao centro

Quem tiver prestado atenção poderá ter notado que apesar de nos termos referido aos doze trabalhos do herói, na verdade a imagem tem representadas treze façanhas distintas, com uma cena que não pertence às que aqui recontámos antes ao seu centro. Se em cada um dos quadrados o herói que os Gregos conheciam como Héracles está do lado direito, faz sentido que também aqui ele esteja desse lado, mas… porque está ele com um vestido feminino? E porque está, sentada num trono, uma figura feminina com a maça do herói e a pele do Leão da Nemeia às costas?

 

Podemos agora explicar que esse episódio central do mosaico se refere ao mito de Ônfale. Conta-nos que numa dada altura das suas aventuras o maior dos heróis gregos enloqueceu e matou um dos seus conheiros. Consumido pelo arrependimento, foi ao Oráculo de Delfos em busca de uma solução, e o deus Apolo ordenou-lhe que fosse vendido para escravo durante 10 anos, devendo dar o dinheiro resultante dessa transacção comercial ao pai do falecido – consta que ele recusou o vil metal, mas que os irmãos do jovem o aceitaram de muito bom grado.

As ordens do deus de Delfos foram então cumpridas. Hércules foi vendido para escravo de Ônfale, rainha da Lídia, e durante 10 longos anos fez o que esta lhe ordenava. Infelizmente já não nos chegaram todas as aventuras que tomaram lugar nesse período de tempo, mas sabemos que a rainha teve vários filhos do herói, e as fontes existentes referem um pormenor muito curioso – ela fez questão de vestir as famosas roupas do herói, enquanto que o forçou a usar roupas femininas e a realizar tarefas características do sexo oposto, como fiar ou tomar conta de crianças, levando-o até quase a ser violado pelo deus Pã

 

O que podemos acrescentar ao relato de todo este mito? É difícil ter muitas certezas, já que ele não nos chegou numa forma mais completa, mas é provável que fosse composto por um conjunto de histórias em que os vários poetas e autores de comédias gozavam com os papéis que os dois géneros tinham na cultura grega de então. Será que, por exemplo, a rainha Ônfale vencia algum monstro, inspirada pelas vestes do herói? Será que este era, de uma forma satírica, criticado por ser incapaz de fazer (bem) as tarefas femininas, mostrando-as como mais difíceis que as muitas tarefas que ele tinha feito no passado? Ou será que exaltavam, no seu geral, o sexo feminino sobre o masculino? Já não sabemos, mas por si só a idea-base por detrás de todo este mito é bastante divertida, e certamente que existiram produções literárias que tomaram partido de toda esta curiosa oportunidade mitológica.

“Viriato Trágico”, de Brás Garcia de Mascarenhas

Se existem obras de autoria portuguesa que foram imerecidamente esquecidas ao longo dos séculos, como a Gaticanea, já outras parecem ter sido muito bem esquecidas. Este Viriato Trágico, de Brás Garcia de Mascarenhas, pertence a esse segundo grupo. E não o dizemos de ânimo leve – quando se tenta ler uma obra do século XVII e, repetidamente, ela faz o leitor pensar algo como “meu deus, isto é profundamente aborrecido, porque estou mesmo a ler este poema?”, o que mais podemos sequer dizer sobre ela?

Viriato Trágico

Bem, o Viriato Trágico, de Brás Garcia de Mascarenhas, é um poema épico que só foi publicado após a morte do seu autor, em 1699 (ele faleceu em 1656), e que narra as aventuras de Viriato, aquela figura da história ibérica de que já cá falámos anteriormente. Para o escrever, o autor parece ter-se apoiado em fontes da Antiguidade, mas também recorrido, muito significativamente, à sua própria imaginação. É um poema de exaltação nacional, de defesa contra um invasor – Romano, no caso de Viriato, ou Espanhol, já no caso do poeta – com tudo aquilo que esperaríamos encontrar num épico. E até aí tudo bem, o tema é interessante e o contexto em que o poema foi escrito também, MAS já o próprio poema, a forma como foi escrito, é completamente aborrecida. Mesmo quando surge uma ideia mais interessante – um colega apontou, a título de exemplo, o instante em que o herói tem um sonho em que vê o futuro de Portugal – o tratamento que o poeta lhe dá é aquilo a que os anglófonos chamariam um snoozefest, um aborrecimento tal que numa sala de aula dificilmente um único aluno permaneceria acordado e disposto a ouvir uma leitura.

 

Talvez seja até possível ler este Viriato Trágico em extratos, em breves momentos aqui e ali, mas de um modo geral esta parece ser uma das obras poética mais aborrecidas alguma vez escritas em Português, quase tornando a Elegíada, do século XVI, uma construção em verso bem digna de ser apresentada e lida a todos os alunos do nosso país. Não a lemos por completo, pelas razões já tornadas claras acima, mas mencionamo-la aqui pelo simples facto de relembrar a existência de um poema épico nacional sobre Viriato…

A lenda de Beowulf

Para quem tem interesse nos mitos e lendas da Idade Média, a lenda de Beowulf é provavelmente uma das mais conhecidas. Só nos chegou num único manuscrito, do século XI da nossa era, mas a grande importância desta história na literatura europeia pode ser vista pelo facto de ter sido uma das inspirações mais significativas por detrás do Senhor dos Anéis, de Tolkien. Mas de que fala toda a história?

A lenda de Beowulf e o dragão

De forma sucinta, a lenda de Beowulf fala de um herói que se dirigiu a terras da Escandinávia para ajudar um rei, cuja corte e domínios andavam a ser atacados por Grendel, uma criatura gigante e monstruosa, “descendente de Caim [i.e. a figura bíblica, filho de Adão]”. O herói derrota-o sem dificuldades de maior, mas é posteriormente atacado por um novo monstro, a própria mãe de Grendel – que nunca parece receber um nome verdadeiramente seu – que procurava vingar a morte do filho. Também ela é derrotada pelo herói, antes de este regressar a casa e se tornar rei.

Passam-se depois muitos anos. Talvez 50, talvez até um pouco mais, e um dos súbditos de Beowulf roubou um cálice do interior da caverna de um dragão. Esse novo monstro, evidentemente incomodado com o furto, começou a devastar as terras próximas, até que o monaca-herói interveio e passou pela mais difícil de todas as suas batalhas. Acabou, sim, por derrotar e matar o dragão, mas não sem que este lhe desse igualmente um golpe fatal. Ambos falecem, e o breve poema épico termina pouco depois, com o funeral do monarca. A história não nos preservou se o dragão tinha quaisquer descendentes.

 

Como é fácil compreender por esta breve sinopse, a lenda de Beowulf não é muito complicada – pode até ser resumida em três capítulos, cada qual com cerca de 1000 linhas – mas o poema épico que nos chegou associado ao seu nome não é tão simples como poderia parecer a uma primeira vista. Isto porque não sabemos se, originalmente, esta era uma história oral, com potencial origem no século VI, ou se apenas foi composta mais tarde e por um autor agora desconhecido. Ela tem alguns elementos evidentemente cristãos; será que já faziam parte da história original, ou foram adicionados apenas quando a história foi colocada num manuscrito?

Ainda hoje se debatem questões como estas, entre muitas outras, mas deixando de lado as controvérsias académicas, o facto de J. R. R. Tolkien ter traduzido esta obra e a considerar como uma das fontes mais importantes para as aventuras que escreveu deverá bastar para afiançar a sua qualidade. Por isso fica, como já é costume, um convite à sua leitura na primeira pessoa!