Os Pós de Perlimpimpim são uma daquelas expressões em que muita pouca gente ainda parece pensar nos dias de hoje. Como os “Fenómenos do Entroncamento“, o “sexo dos anjos“, ou o “conto do vigário“, talvez alguém até pense nisso quando ouve a expressão na televisão, ou a lê de passagem num qualquer livro, mas é, sem qualquer dúvida, mais uma ideia curiosa da língua portuguesa. No Brasil, é sobejamente conhecida dos livros de Monteiro Lobato, em particular do Sítio do Picapau Amarelo, mas é natural e previsível que ela aí tenha chegado através da cultura portuguesa. E, se assim o é, de onde nasceu essa expressão, tal como ela ainda é utilizada nas nossas terras lusitanas?

Em busca de uma resposta, fomos à procura das mais antigas referências à expressão, que depressa descobrimos que provém da língua francesa. Por exemplo, em 1750, o Dictionnaire comique, satyrique, critique, burlesque, libre et proverbial já se referia à expressão “poudre de perlimpinpin” (ou pó de perlimpimpim, se o preferirem, no nosso português) como algo que se dizia “des choses qui n’ont aucune vertu” (i.e. “das coisas que não têm qualquer virtude”). Uma espécie de banha da cobra, se preferirem, o que facilmente nos explica o significado que ainda tem nos dias de hoje. Mas, então, de onde provém o próprio “perlimpimpim”, que deve ser uma das palavras mais incomuns da língua portuguesa dos nossos dias?
Partindo dessa mesma língua francesa e tomando por pista a sua composição em pó, descobrimos então que essa estranha palavra, na língua original, nasceu da junção de “prêle” com “pimpin“. São duas plantas distintas, respectivamente de nomes científicos Equisetum e Pandanus Montanus, e o contexto sugere que se fossem reduzidas a pó e aplicadas com um propósito medicinal, não teriam qualquer espécie de efeito. Admita-se que não fomos testar, por motivos de tempo, mas a ideia dos Pós de Perlimpimpim remete-nos, portanto, para um tempo em que se acreditava mais numa medicina assente na virtude das plantas e na sua capacidade para curar (quase) tudo. É natural que isso tenha levado, na altura, muita gente a criar “pós” e “mistelas” sem quaisquer efeitos reais, mas que soavam muito bem a quem delas ouvia falar!
Os tais Pós de Perlimpimpim são, portanto e para se esclarecer o tema de uma vez por todas, uma mistura de duas plantas que, na verdade, não surtia qualquer efeito medicinal. Não é fácil apontar precisamente quando surgiu a expressão, mas pelo menos já existia na França de 1750. E, no fim de contas, talvez os tais pós sejam mesmo e apenas isso: o mito perfeito de uma poção que não serve para nada, mas que resiste há séculos só porque todos, no fundo, ainda gostamos de acreditar num bocadinho de magia nas nossas vidas.



