O mito nórdico de Mimir

O mito de Mimir, também conhecido mais geralmente como o do Poço de Mimir, refere-se a uma figura da Mitologia Nórdica que tem, essencialmente, dois mitos associados a ela. Não sabemos se são dois mitos distintos, ou apenas duas versões diferentes de um só evento mitológico, mas não deixam de ser significativamente parecidas na forma como terminam e como estão associadas ao deus Odin.

Odin e o mito do Poço de Mimir

Na versão provavelmente mais famosa do mito de Mimir, este era um gigante que possuía um poço cuja água dava imensa sabedoria a quem a bebesse. Odin, o grande monarca dos deuses nórdicos, aproximou-se do local e queria beber dessa água, mas o gigante disse-lhe que só o poderia fazer se sacrificasse algo em troca. Assim, o deus abdicou de um dos seus olhos, mas ganhou a capacidade de ver o passado, o presente e o futuro.

Mas numa outra versão (ou um mito distinto?), durante uma guerra a cabeça de Mimir foi cortada e enviada – miraculosamente viva – para Odin, que a manteve sempre consigo, usando-a sempre que necessitava de algum conselho, garantindo assim que tomava sempre as melhores decisões.

 

Em qualquer dos dois casos, o mito de Mimir explica a origem da grande sabedoria do deus Odin. Ela não era inata – recorde-se que os deuses nórdicos eram quase humanos nas suas imperfeições, e muitas vezes nem sequer eram imortais (como no caso de Baldur) – mas sim adquirida através de um qualquer evento que ligava estas duas figuras. Não sabemos como isso acontecia nas versões mais antigas de toda a história (o relato destas linhas é da Edda Poética e da Edda em Prosa, entre outras fontes tardias), mas é muito provável que ela já unisse, de uma qualquer forma agora incerta, Odin e Mimir de alguma forma.

A lenda da fundação de Barcelona

A lenda da fundação de Barcelona, como as associadas a tantas outras cidades dos nossos dias, procura essencialmente explicar a razão de ser do seu nome. Tal como a fundação de Lisboa é frequentemente associada a Ulisses, parecem igualmente existir duas lendas que associam esta cidade a figuras e mitos da Antiguidade. O curioso é que não são mitos da Antiguidade, mas sim pequenas histórias (falsamente) derivadas de personagens que associamos ao tempo dos Gregos e dos Romanos, e que em muitos casos apenas parecem ser conhecidas entre os locais. Podemos contar duas delas, provavelmente aquelas que são as mais famosas de um ponto de vista lendário.

 

Segundo alguns, a cidade foi fundada por Hamílcar Barca, por volta do terceiro século Antes de Cristo. A única “prova” apresentada nesse sentido é a semelhança do apelido desse general com o nome da própria cidade de Barcelona.

Hércules, herói da fundação de Barcelona

Segundo outros, quando Jasão e os Argonautas partiram na sua famosa viagem, levaram entre eles o grande Hércules. Se os mitos gregos confirmam essa presença e essa viagem colectiva num navio de nome Argo, já esta lenda altera um pouco a história – ela diz que os Argonautas viajaram em nove barcas distintas. Durante uma tempestade, a nona delas, que transportava Hércules, perdeu-se das restantes e foi parar a uma praia desconhecida. Gostaram tanto desse local que decidiram fundar uma nova povoação no local, a que chamaram Barca Nona em memória do transporte que os levou até ao local.

Mas esta segunda lenda da fundação de Barcelona ainda não fica por aqui – no mesmo seguimento, há até alguns que fazem viajar com este herói grego o deus Hermes. É certo que ele não viajava entre os Argonautas, todos eles meros heróis ou semideuses, mas poderá ter sido adicionado à lenda anterior para associar esse deus e a respectiva influência à mesma cidade – recorde-se que, entre outras áreas, ele era o deus padroeiro do comércio!

 

Quem procurar estas duas histórias da fundação de Barcelona em textos da Antiguidade depressa sairá frustrado. Não estão lá. São, única e exclusivamente, tentativas (posteriores) de associar a cidade a figuras famosas da Antiguidade, como também aconteceu em incontáveis outros locais europeus. Contudo, não deixam de ser mitos dignos de nota no contexto da Tradição Clássica.

Quem foi Frankenstein?

Quem foi Frankenstein? Para alguns leitores, a resposta até poderá parecer mais que óbvia – é um monstro da ficção, ou o próprio doutor que o criou, numa história hoje conhecida em diversos filmes mas, originalmente, de um livro da autoria de Mary Shelley, autora inglesa de inícios do século XIX. Se fosse só esta a resposta nem estaríamos a perder tempo a escrever estas linhas, mas o que menos gente saberá é que existe uma história bem real por detrás de toda essa obra ficcional. Mas já lá iremos.

 

Quem for ler Frakenstein, ou Um Prometeu Moderno, da autoria de Mary Shelley, encontrará na obra uma história significativamente diferente da presente em tantos filmes do nosso dia. É, essencialmente, a história de um homem – o Dr. Frankenstein – que se tendo aplicado ao estudo intenso de autores como Paracelso e Cornélio Agrippa, foi capaz de criar vida – o processo não é retratado no livro (ele não a criou com pedaços de corpos, ou com electricidade, como vemos em tantos filmes), mas o mais significativo é que ele depressa começou a lamentar esse seu estudo e aquele que foi, sem qualquer dúvida, a sua grande criação. As razões para esse arrependimento são contadas na obra, para quem a quiser ler; por agora, voltemos no tempo um pouco mais.

 

Mary Shelley viajou pela Alemanha, e algum tempo antes de escrever este livro passou por um local perto da cidade de Gernsheim e que ainda hoje é conhecido como o Castelo de Frankenstein.

Quem foi Frankenstein?

Frankenstein, que significa algo como “a pedra dos Francos” (possivelmente em honra dos povos bárbaros que um dia aí viveram), acabou por dar o nome ao doutor que criou vida na agora-famosa obra inglesa. Mas toda a história ainda não fica por aqui. Reza uma lenda desse castelo que aí nasceu no século XVII um tal Johann Konrad Dippel, que mais tarde se dedicou ao estudo das artes da Alquimia, e entre as suas criações constava um suposto elixir da vida que era feito através da destilação de ossos. Não sabemos se funcionava mesmo – supõe-se que não… – mas é possível que ele até tenha tentado criar vida com as suas próprias mãos, um dos grandes desejos e objectivos da Alquimia.

Não sabemos se Mary Shelley conhecia toda esta lenda local, mas estando ela familiarizada com o nome alemão que viria a dar ao herói da sua história, é muito provável que sim… e que, depois, a trama da sua novela tenha surgido de uma questão implícita, i.e. o que aconteceria se Dippel tivesse verdadeiramente conseguido criar vida? Daí vem até o subtítulo da obra, com a referência a Prometeu a se dever ao facto de este titã ter criado a humanidade, segundo alguns mitos gregos.

 

Por isso, quem foi Frankenstein? O nome é alemão, mas não parece designar nenhum ser humano do passado em concreto; já a história escrita por Mary Shelley, que ainda hoje é muito conhecida sob esse mesmo nome, poderá ter-se baseado num caso bem real, o de Johann Konrad Dippel, que tal como o doutor da história terá tentado criar vida humana com as suas próprias mãos. A semelhança é demasiado próxima para ser ignorada, sendo por isso provável que a autora se tenha baseado no rumor de uma trama que alguns consideravam real; desconhecemos se o era, mas pelo menos havia uma lenda que apontava nesse sentido – e como qualquer boa lenda, oscila entre a verdade e a mentira…

Em busca dos Olharapos, Olharapas e Olhapins

Para quem ainda não o saiba, os Olharapos, Olharapas e Olhapins são criaturas da mitologia nativa portuguesa, que um dia parecem ter sido bem conhecidas no norte do país. Infelizmente, ao longo dos anos foram-se perdendo, sendo hoje pouco mais do que uma vaga memória de outros tempos. Isso é particularmente visível na compilação do site Lendarium, que regista um – e somente um – registo para a primeira destas criaturas (pode ser visto aqui), mas nenhum para as duas restantes. O dicionário da Priberam define as três criaturas – Olharapos, Olharapas e Olhapins – de forma quase igual, como “Entidade[s] pertencente[s] à superstição popular, equivalente[s] a fantasma, lobisomem ou papão”, enquanto que a Infopédia diz, relativamente ao primeiro, que é um “gigante feroz, com um só olho, que protagoniza diversas lendas populares tradicionais”. Há uns anos, em plena Expo 98, lá se ouviu falar dos seus nomes (uma imagem deles no portfólio do respectivo construtor pode ser vista abaixo), mas com pouca relação com as figuras originais do mesmo nome. Fora estas breves referências, as três classes de criaturas parecem hoje estar muito perdidas, quase olvidadas. Assim, e para que não fossem totalmente esquecidas, decidimos partir em busca delas, numa viagem que foi tudo menos fácil, e que hoje concluímos com as considerações abaixo:

Olharapos na EXPO 98

O Olharapo e a Olharapa estão intimamente ligados, sendo a segunda apenas uma versão feminina do primeiro. Leite de Vasconcelos apenas nos diz que estes seres tinham um único olho e eram antropófagos. Contudo, Ana de Castro Osório preserva algumas menções adicionais a esta criatura, que aqui são especialmente dignas de nota – ao longo de três histórias distintas, em que surge como antagonista ou mero monstro, é dito que ele era é uma espécie de gigante, “alto como uma torre”; que se confundia com lobisomens, feiticeiras e trasgos, seres “que pelo mundo andavam a fazer mal”; que comia carne humana; com filhas feiticeiras; e com “um olho na testa e dois na cabeça, que vêem tudo ao mesmo tempo”, o que até contrasta com outra história da mesma autora, em que ele se confunde com a aventura do Polifemo homérico, sendo aí apresentado como “um gigante conhecido em todo o país por todo o mal que fazia e até o chamavam Olharapo, por ser da raça dos gigantes que têm um grande olho na testa e são considerados os piores.”

Seria este um Olharapo?

Já o Olhapim era uma criatura que, supostamente, tinha quatro olhos, dois na parte da frente da cara e outros dois na nuca, permitindo-lhe ver tudo em seu redor. Essa ideia até está presente no dicionário da Priberam, que define apenas o Olhapim, mas não as outras duas criaturas, como uma “pessoa que tudo vê e observa”, o que dá algum jeito para entender o seu carácter original, até porque já não conseguimos encontrar qualquer história em que eles tivessem um papel significativo.

 

Pior ainda (!) – as histórias de Ana de Castro Osório levam a inferir-se que o Olharapo de que ela ouviu falar não tinha necessariamente uma forma física estável – estes monstros podiam ter entre um e quatro olhos, fazendo deles quase até sinónimos das outras criaturas que aqui referimos hoje. Isso tende a ser, igualmente, um sinal notório de que a sua representação física não era uniforme nas várias aldeias e entre as pessoas que iam partilhando histórias destas criaturas, dificultando a compilação sistemática das suas histórias, porque um relato como o de Ulisses e Polifemo, mesmo que adaptado para a nossa cultura, não funcionaria, como é natural, numa terra em que este monstruoso vilão tivesse mais do que um olho passível de ser cegado.

 

Foi isto que encontrámos, relativamente às criaturas que hoje são conhecidas pelo nome individual de Olharapo, Olharapa e Olhapim. É pouco, muito pouco, sendo provável que as suas lendas originais estejam, hoje, já (quase) totalmente esquecidas. Mais umas décadas e é possível que até os seus nomes sejam completamente esquecidos, como as histórias dos Gambozinos, de Endovélico, de Atégina e de Turiacos, entre tantas outras figuras bem nacionais que o tempo nos foi apagando…

Os mitos de Procusto, Sínis, Cercion e Escíro

Os mitos de Procusto, Sínis, Cercion e Escíro encontram-se intimamente ligados à figura de Teseu. Se o famoso herói grego começou os seus pseudo-trabalhos com o fácil confronto com a Porca de Cromion, depressa se encontrou com opositores talvez menos estranhos mas mais poderosos, entre os quais se contam as figura de que cá falamos hoje – Procusto, Sínis, Cercion e Escíro.

Mito de Procusto

Procusto tinha uma cama que foi construída especificamente para o seu tamanho, e obrigava as pessoas que encontrava na floresta em que vivia a deitarem-se nela. Se fossem altas demais, esta figura cortava-lhes as pernas e a cabeça; se, pelo contrário, fossem baixas, esta estranha figura puxava-lhes os braços e as pernas até à morte. Eventualmente, Procusto cruzou-se com Teseu, que o derrotou, o prendeu nesta funesta cama, e o matou nesse mesmo lugar em que tantas outras pessoas já tinham falecido.

 

Sínis tinha por hábito matar os viajantes com recurso a pinheiros. Mediante a versão do mito, ou os prendia entre duas destas árvores (esticando-os até à morte); ou lhes pedia para segurarem num pinheiro vergado, que depois soltava, atirando a pessoa ao ar para a sua morte. Teseu puniu Sínis de uma forma semelhante a essa, matando-o, antes de fazer amor com a filha do falecido – o mito não parece registar a consensualidade dessa relação sexual, até porque se presume que a jovem estivesse triste.

 

Já Cercion “só” convidava os viajantes para um combate de luta-livre, prometendo o seu reino a quem o vencesse, o que ninguém conseguia fazer – e então era mortos, numa parte do acordo que o combatente se esquecia normalmente de dizer! Isto prolongou-se durante anos, até que Teseu derrotou Cercion com técnicas inovadoras. Depois, violou as filhas do monarca.

 

Para terminar estes pequenos mitos de hoje, Escíro interpelava os viajantes pedindo-lhes apenas que lhe lavassem os pés. Levando-os depois a um local perigoso, dava-lhes um pontapé, precipitando-os para a sua morte num desfiladeiro. A este Escíro, Teseu ou empurrou no mesmo desfiladeiro mortal, ou pegou nos seus pés e atirou-o ao mar. Possivelmente esta figura vilanesca não tinha filhas, o que poderá ter entristecido o herói…

 

Estes quatro mitos – entre outros, que ficarão para um dia diferente – inserem-se numa sequência a que até podemos chamar os Trabalhos de Teseu, por semelhança com os de Hércules. Certamente que não são tão impressionantes como as lutas constantes contra monstros desse outro famoso herói grego, mas denotam igualmente um seu papel de herói civilizador, tema de que já cá falámos anteriormente, mas que aqui mata vilões e viola donzelas para prolongar a sua linhagem… a primeira parte até podemos recomendar, a segunda nem tanto!