“Catecismo Budista”, de Henry S. Olcott

Catecismo Budista, de Henry S. Olcott

Este Catecismo Budista, de Henry S. Olcott, chegou-nos às mãos na sequência da nossa busca pela Teosofia, de que cá falámos há alguns dias atrás, e de que este autor até foi um dos fundadores. Mas este texto em particular não é sobre esses outros temas, mas somente sobre o Budismo; o que se tenta fazer nas suas linhas é ensinar o leitor, sob a forma de um esquema constante de mais de 160 perguntas-e-respostas, sobre as doutrinas dessa religião. Ela é relativamente simples, e aparentemente pode ser hoje comprada em qualquer livraria (ou obtida online gratuitamente, no seu original inglês), mas a título de curiosidade podemos aqui deixar algumas das suas perguntas mais interessantes e esclarecedoras, para um contexto nacional, provindas deste Catecismo Budista:

3- Era Buda um deus?
Não.

5- Era Buda o seu nome?
Não, Buda é o nome da sua condição ou estado mental.

7- Qual era então o verdadeiro nome do Buda?
Sidarta era o seu nome real, e Gautama, ou Gotama, o seu nome de família.

12- Quando nasceu este príncipe Sidarta?
623 anos antes da Era Cristã.

23- O que levou a deixar tudo aquilo que os Homens adoram tanto, e ir viver para a selva?
Um Deva [i.e. uma espécie de entidade divina, que poderíamos equiparar a um anjo na cultura ocidental] apareceu-lhe quando ele estava na sua carruagem, sob quatro formas diferentes em quatro ocasiões distintas.

53- Podes dizer-me, numa só palavra, qual é o segredo da angústia humana?
Ignorância.

54- E a cura?
Afastar a ignorância e tornar-se sábio.

55- Porque é que a ignorância causa o sofrimento?
Porque nos faz prezar o que não devíamos, sofrer pelo que não merece, considerar real o que é ilusão, e passar as nossas vidas em busca de coisas inúteis, deixando de lado o que na verdade é mais importante.

57- Qual é a luz que pode afastar esta ignorância, e todos os sofrimentos?
O conhecimento das Quatro Nobres Verdades [podemos falar delas no futuro, se alguém assim o desejar], como o Buda lhes chamou.

62- Como podemos atingir essa conquista?
Seguindo o Nobre Caminho Óctuplo [também podemos falar deste tema no futuro, se alguém assim o desejar].

65- E quando esta salvação é atingida, o que acontece?
O Nirvana.

81- Podes repetir o resumo de um só verso que o Buda fez da sua religião?
“Cessar todo o pecado; chegar à virtude; limpar o nosso próprio coração; esta é a religião dos Budas.”

100- Se quisesses representar todo o espírito da doutrina de Buda numa só palavra, qual escolherias?
Justiça.

 

Talvez estas breves citações deste Catecismo Budista, de Henry S. Olcott, possam esclarecer alguns leitores sobre as bases de tudo aquilo em que os Budistas acreditam, em particular que o Buda não é um deus (nem gordo, como muitas vezes o imaginamos), e que, na sua essência, a sua doutrina é relativamente simples, apesar de também dar muito espaço para o proverbial pano para mangas.

A lenda da Ilha Encoberta

A lenda da Ilha Encoberta, também conhecida por Ilha Afortunada ou Antília, merece ser contada por cá por se tratar de uma história quase puramente portuguesa. Para aqueles que procuram uma Mitologia Portuguesa, é através de temas como este que podem começar, por se tratar de uma lenda que, apesar de ter alguma ligeira influência de textos castelhanos, é quase somente nossa, e através do nosso povo até foi posteriormente levada para o Brasil, como já cá mostrámos antes, através de uma lenda brasileira em que entra este tema essencial.

A Ilha Encoberta

Explique-se então. A lenda da Ilha Encoberta nasceu até bastante antes da altura dos Descobrimentos, mas só obteve uma espécie de maturidade com a sua associação, posterior, às figuras – agora famosas – de Bandarra e Dom Sebastião. Naquela que será provavelmente a sua versão mais famosa, conta-nos que o último rei dos Godos, um tal Dom Rodrigo, aquando das primeiras invasões islâmicas na península ibérica fugiu de Portugal e, partindo do Algarve, foi viver para uma ilha secreta e misteriosa no Atlântico, que alguns dizem ter-se chamado “Antilha”. O que existe nessa ilha varia de fonte para fonte – por exemplo, uma das suas características mais curiosas é o facto das suas areias serem de puro ouro – mas existe uma característica associada sempre a ela, que é o facto de esta ser uma Ilha Encoberta (o que lhe deu o nome…), ou seja, uma espécie de ilha que está envolta num eterno nevoeiro mágico e nem sempre pode ser vista por quem lá passar.

A lenda do Encoberto?

Mas onde entra o Encoberto? Existiam algumas profecias que mencionavam um misterioso “encoberto”, mas à medida que o tempo foi passando começou a surgir a ideia de que essa figura – que ainda não se sabia muito bem quem era – tinha esse nome porque vivia na ilha que referimos acima, essa espécie de Ilha Afortunada onde o tempo passava muito devagar, ou as pessoas viviam muito mais tempo (quem lá ia até dizia que os locais falavam um dialecto de português que se via que era muito antigo). Eventualmente, à medida que mais e mais supostas profecias se foram associando, alguns começaram a achar que essa figura misteriosa era, só podia ser, uma – Dom Sebastião – que um dia lá viria de volta desse espaço mágico, montado num cavalo branco numa manhã de nevoeiro, para se tornar o grande monarca secular e religioso. Estranhamente, segundo nos conta um documento nacional, um dos visitantes da ilha disse que falou com o rei e lhe deu boleia para África, mas que a hora do seu retorno ainda não tinha chegado…

 

Quem tiver alguma curiosidade sobre todo este tema poderá ler o segundo e terceiro capítulos da obra O Spiritismo, Ilha Encoberta e Sebastianismo, do Padre Conceição Vieira. Claro que existem muitos, muitos outros tratados sobre este grande tema da ilha e do misterioso Encoberto, mas esta obra específica apresenta-o de uma forma muito simples e com as ideias essenciais para que se perceba toda a lenda.

O mito de Rómulo e Remo

A lenda ou mito de Rómulo e Remo, que une os dois gémeos a uma loba de nome Luperca, é provavelmente um dos mais conhecidos de toda a Mitologia Romana, não existindo hoje qualquer prova completamente fidedigna de que já existisse nesta forma actual nos mitos gregos. Agora, se esta pequena história tem diversas versões, até porque foi sendo significativamente alterada ao longo dos séculos, iremos contar aqui a sua versão mais comum:

O mito de Rómulo e Remo, e a loba

Conta-nos a lenda que Rómulo e Remo nasceram da violação da vestal Reia Sílvia por Marte, deus da guerra. Seriam então herdeiros de tudo aquilo que se viria a tornar o Império Romano, não fosse o facto de um rei vingativo, Amúlio, querer o trono para si mesmo; para o conseguir, prendeu esta sua sobrinha e abandonou os recém-nascidos no Tibre, como que condenando-os à morte. E o seu plano funesto teria resultado, mas os gémeos subsistiram ao serem alimentados por uma loba (a tal Luperca), um pica-pau (possivelmente chamado Pico), e/ou outros animais, mediante a versão de toda a história. Algum tempo depois foram encontrados na floresta e levados por um pastor, Fáustulo, que os criou com o auxílio da sua esposa, Aca Larência.

Os gémeos Rómulo e Remo foram crescendo, até que lá derrotam Amúlio num confronto, salvam Reia Sílvia, e decidem criar uma nova cidade no mesmo local em que um dia foram abandonados. Tudo estaria bem, por esta altura, mas surgiu então um conflito sobre que nome dar a essa cidade – iria ela ser Roma ou Rémula? O nome foi decidido com recurso a prodígios divinos, mas o incidente levou a um conjunto de circunstâncias que terminou com a morte de Remo… depois, Rómulo ainda viveu mais uns anos, e passou por muitas outras aventuras (a mais famosa das quais será provavelmente o Rapto das Sabinas), antes de sofrer um desaparecimento misterioso de que já cá falámos antes, tendo-se potencialmente tornado o deus romano Quirino!

 

Sobre este breve relato, há que explicar um problema muito significativo – a grande dificuldade de resumir o mito de Rómulo e Remo passa, como já se deu a entender acima, pelo facto de toda a sua história se encontrar repleta de múltiplas versões, que vão sofrendo alterações ao longo dos séculos. Para dar apenas três exemplos, paradoxógrafos como Palaefato chegam a dizer que Luperca, que se supunha ter sido uma loba real, era na verdade uma prostituta que deu de mamar aos dois gémeos; outros dizem que Roma e Rémula foram ambas fundadas pelos heróis, mas apenas a primeira sobreviveu ao peso dos séculos; e Rómulo tem um papel muito diverso na morte do seu irmão Remo, desde versões que o culpam por completo até algumas que o isentam de qualquer acto que possa ser visto como menos positivo.

Ao mesmo tempo, muitas das figuras que entram neste mito acabaram por ganhar uma grande importância entre os Romanos. Rómulo tornou-se o deus Quirino, como já referimos, mas Remo ainda era celebrado no festival da Remúria/Lemúria; Reia Sílvia foi tornada divina em algumas versões; a loba era celebrada durante a Lupercália; Aca Larência foi tornada divina e era celebrada na Larentária; e assim por diante, num padrão tipicamente romano que foi seguido ao longo de séculos, em que figuras supostamente históricas do passado de Roma foram sendo divinizadas após as suas mortes.

 

Para terminar as linhas de hoje, talvez seja justo concluir que mais do que um só mito de Rómulo e Remo, existem é várias versões de uma história semelhante, que os diversos autores vão adaptando e alterando em virtude das suas necessidades individuais. Assim se explica que apenas alguns digam que Rómulo e Quirino são a mesma figura, que Luperca não era uma loba real, ou que cidades que existiram em outros tempos agora não fossem mais do que meras ruínas cujos nomes já há muito tinham sido esquecidos…

A lenda de Kali e Raktabija

Provinda da Índia, a lenda de Kali e Raktabija é aqui digna de nota em virtude da segunda destas duas figuras, uma espécie de demónio indiano que se multiplicava cada vez que derramava uma única pinga de sangue que fosse.

A lenda de Kali e Raktabija

Os deuses hindus tentaram combater Raktabija com todas as suas maiores forças, mas cada vez que a atacavam e que a faziam derramar algum sangue, de cada pinga surgia mais uma cópia da sua opositora, até que se tornaram dezenas, centenas, milhares os corpos do demónio que estavam a defrontar.

Então incapazes de a derrotar com as suas forças individuais, os deuses juntaram todos os seus poderes e criaram Kali, deusa da destruição. Depois, deram-lhe todas as suas armas e pediram-lhe que destruisse Raktabija. A recém-criada deusa conseguiu fazê-lo – começou por colocar todos os clones da sua opositora na boca, tendo o cuidado de os mastigar sem nunca derramar uma única gota. Em seguida, cortou a cabeça da principal opositora e chupou todo o seu corpo até ao tutano, novamente tendo todo o cuidado de não deixar cair uma gota que fosse. Assim, sozinha mas com o poder de todos os deuses, foi capaz de fazer o que mais ninguém tinha conseguido…

 

Esta lenda de Kali e Raktabija é essencialmente uma das muitas teogonias de uma deusa, aqui ainda “nova”, que se foi tornando bastante popular ao longo do tempo. Existem outras versões que contam como ela foi trazida ao mundo, naturalmente, mas esta em particular cativou a nossa atenção devido ao estranho poder do monstro que é aqui completamente destruído por Kali. Situações semelhantes, de pseudo-super-poderes como estes, são muito frequentes nas histórias do Hinduísmo, e não ficam a dever nada às histórias dos super heróis ocidentais dos nossos dias de hoje.

Luisa Sigea e o primeiro livro pornográfico em Latim

O nome de Luisa Sigea é, hoje em dia, uma espécie de memória distante. Acabou por dar, pelo menos, nome a um colégio em Portugal, mas serão já muito poucos os que ainda pensam nela como uma famosa estudiosa de outros tempos, ou a professora de Latim da infanta Dona Maria de Portugal. Assim, hoje recordamo-la em parte nestas linhas, mas por razões muito pouco comuns e inesperadas.

Luísa Sigea

Entre as obras da autoria de Luisa Sigea contam-se um belo poema sobre Sintra e um texto Duarum Virginum Colloquium de vita aulica et privata, um diálogo entre duas jovens sobre a vida pública e privada feminina, publicado em Lisboa em meados do século XVI. Não tivemos acesso a essa obra, nem parece existir hoje traduzida para Português, mas cerca de um século depois ela parece ter inspirado uma outra, de título De Arcanis Amoris et Veneris, apocrifamente associada à mesma autora, numa espécie de pseudo-sequela da obra que é verdadeiramente dela, em que duas jovens – a mais nova das quais tem apenas 15 anos, e a mais velha cerca de 26 – se parecem envolver numa relação lésbica e discutem vários temas dentro da intimidade e da sexualidade feminina.

Essa segunda obra, de falsa autoria atribuída a Luísa Sigea na sequência de uma que ela indubitavelmente escreveu, é provavelmente o primeiro livro pornográfico famoso em Latim. Se existe um erotismo subjacente em muitas obras latinas da Antiguidade, desde a Arte de Amar ovidiana ou a famosa obra de Petrónio até a alguns dos poemas de Catulo, o que este novo texto tem de diferente é o facto de abordar de uma forma incrivelmente directa, muito nua e crua, toda a temática da sexualidade feminina, desde o prazer que uma mulher pode sentir com outra, até à forma como a virgindade deve ser perdida, passando por breves discussões sobre as palavras gregas e latinas para designar os órgãos sexuais, ou a forma como uma mulher se deve comportar na cama com os homens da sua vida.

 

Agora, como é muito sabido nos nossos dias de hoje, sex sells. Um livro com esse tema, numa altura em que ele ainda era uma enorme raridade e um tema tabu, não poderia senão tornar-se popular… e estando ele (falsamente) associado ao nome de Luisa Sigea, fê-lo igualmente ascender em popularidade – na verdade, hoje é até difícil encontrar referências ao nome desta figura sem que juntamente a elas se encontre menções a essa obra completamente apócrifa, da autoria de Nicolas Chorier e de conteúdo plenamente pornográfico. Não sabemos até que ponto isso será bom, mas pelo menos trouxe o nome da sábia autora de volta às luzes da ribalta, no século seguinte àquele em que viveu, e até aos nossos dias!