O mito de Ak Molot e Bulat

O mito de Ak Molot e Bulat vem-nos das terras dos Tártaros e tem um elemento muito curioso, que também ocorre igualmente em outros mitos da mesma cultura, em que a destruição directa da alma de um opositor leva à sua morte indirecta. Por isso, e até porque toda a história não é muito famosa nos nossos dias, podemos recordá-la aqui.

Os pássaros da alma

Conta-se que Ak Molot e Bulat estiveram envolvidos num longo combate, mas que como ambos eram essencialmente indestrutíveis o seu confronto estava como que destinado a nunca terminar. E, na verdade, uma e outra vez Ak Molot desferiu golpes completamente mortais ao seu opositor, apenas para o ver levantar-se e continuar a combater. Passar-se dias, semanas, meses, anos, mas todo o combate nunca deu quaisquer sinais de acabar.

Depois, um dia, Ak Molot – ou um dos seus amigos, segundo outra fonte – apercebeu-se de algo de estranho, que um caixão de ouro estava por perto, ligado ao céu por um ténue fio. Quando quebrou esse elo de ligação com uma flecha, o caixão caiu ao chão e no seu interior foram encontrados dez pássaros brancos. À medida que o herói matou cada um deles Bulat pareceu enfraquecer, até que finalmente morreu.

 

A uma primeira vista, a morte de Bulat parece ser misteriosa, mas há que esclarecer que um dos pássaros era, metaforicamente, o da sua alma (a identidade dos restantes não é explicada na história original, caso alguém tenha essa curiosidade). A ideia não é completamente nova – já no tempo dos Poemas Homéricos a psukhé, ou alma, era frequentemente representada como uma espécie de pássaro ou figura alada, como pode ser visto na imagem acima – mas é curioso constatar que se foi mantendo ao longo dos séculos, ao ponto de, muito mais tarde, ser estabelecida esta ligação ainda mais directa entre a alma, sob a forma de um pássaro, e a própria vida da pessoa a quem esta estava associada. Quando Ak Molt destruiu a alma/pássaro do seu opositor indestrutível, destruiu-o também a ele, e por muito estranha que a ideia, hoje, nos possa parecer, de um ponto de vista do contexto literário e cultural original ela também faz todo o sentido.

A lenda de Kuchisake-onna

A lenda de Kuchisake-onna é japonesa, mas talvez seja tão actual hoje como no dia em que primeiro foi contada entre os nativos desse país. É um pouco difícil saber quando nasceu verdadeiramente, mas tem um aspecto cultural muitíssimo interessante, que até motiva esta publicação de hoje. Mas já lá iremos!

A lenda de Kuchisake-onna

Imagine-se que, nos dias de hoje, vamos pela rua fora e encontramos uma mulher como a da fotografia acima. Isso parece-nos completamente normal, face à situação actual do Covid-19, mas ao mesmo tempo é uma espécie de tradição cultural japonesa, que as pessoas que estão constipadas utilizem esse tipo de máscara para protegerem os outros (infelizmente, é uma moda que nunca pegou em Portugal – talvez venha a ser instituída no futuro?). E, nesse sentido, Kuchisake-onna é quase só uma mulher que usa máscara na rua… e raramente a tira em público, dando um excelente exemplo a seguir nestes tempos de Covid-19.

 

Porém, Kuchisake-onna também esconde um terrível segredo. Conhecem-na, vão falando com ela, e um dia ela pergunta-vos, sem nunca tirar a máscara, “Achas-me bonita?”

Se a resposta for negativa, ela rapidamente vos ataca de uma forma brutal, potencialmente até causando a vossa morte.

Mas, se a resposta for positiva, ela remove a máscara, mostrando uma boca largamente desfigurada (como a do Joker/Coringa, para quem conhecer as histórias do Batman), e repete a pergunta. E depois, seja qual for a resposta, sofrem sempre um ataque, de uma forma mais ou menos chocante. A única solução, segundo lemos, é fugir – fugir, sem jamais lhe responder a alguma dessas duas perguntas!

 

A lenda de Kuchisake-onna é, talvez mais que tudo, uma que expressa um grande medo inter-cultural do desconhecido. Aquele mesmo medo que, face a um caminho obscuro numa noite sombria, nos faz voltar para trás… o medo de não sabermos o que esconde, o que pode vir a esconder, algo que não conseguimos ver com os nossos próprios olhos. E se o uso de máscaras deste tipo no Japão já tem mais de um século, é relativamente novo na cultura ocidental, sendo provável que pequenas histórias semelhantes à apresentada aqui hoje comecem, agora, a surgir entre os mitos urbanos ocidentais. Só o tempo o dirá.

As fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek

Dadas as semelhanças dos temas, hoje apresentamos aqui as fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek. Foram ambos autores da Arménia que viveram nos séculos XII e XIII da nossa era, e entre os seus trabalhos contam-se dois livros com estas pequenas histórias. Agora, se este género literário é relativamente simples, a forma como estes dois autores reaproveitaram as regras que tinham de seguir é digna de nota.

O cordeiro e o lobo

As fábulas de Vardan de Aygek, também conhecidas como O Livro da Raposa (pelo facto de muitas das suas histórias terem como personagem esse animal), tratam-se, na sua grande maioria, de histórias de animais, algumas mais famosas que outras – se terão sido interpolações na colecção original, tramas perdidas do tempo da Antiguidade, ou algo completamente diferente, já não sabemos… mas pelo menos algumas delas são bem conhecidas de quem já tenha lido este género literário. Porém, entre as já-famosas histórias de animais, contam-se também algumas indubitavelmente novas, e até um conjunto em que os seres humanos têm o papel principal. Entre este último grupo conta-se, por exemplo, a fábula da mulher orgulhosa, que podemos parafrasear aqui:

Um filho chega a casa e vê a sua mãe – grande, gorda, e de pele muito branca – a rezar, totalmente nua, enquanto chora copiosamente. Achando que esta teria ficado louca, pergunta-lhe o que está a fazer. “Ouvi dizer que os Serafins e os Querubins se apresentam assim [i.e. nus], e rezam assim, perante a Divindade; queria imitá-los, enquanto dirijo a minha prece à Divindade.” Face a essa resposta, o filho, incrédulo, não pôde deixar de perguntar “E então, o teu corpo é mais parecido com o dos Serafins, ou dos Querubins?”

 

Esta pequena trama da autoria de Vardan de Aygek, que quase se assemelha a uma piada, é seguida por uma moral – “quando alguém se enche de orgulho, gaba-se e tenta sempre elevar-se acima do que lhe é próprio.” Presume-se, nesse sentido, que o autor pretendesse criticar quem toma essa postura na sua vida, mas é curioso que cada uma das historietas presentes nesta compilação – e contrariamente ao que acontecia na Antiguidade e nas criações atribuídas a Esopo – tenha agora uma moral totalmente explícita, talvez para evitar o problema, muito significativo neste género, de se ter de discutir qual é a verdadeira moral por detrás da “lebre e a tartaruga“.

 

Também as fábulas de Mkhitar Gosh apresentam morais explícitas, mas na sua compilação parecem ser as lições, mais do que as próprias histórias, o que mais importa. Nesse sentido, parafraseamos então um exemplo emblemático:

Um elefante quis que a sua cria aprendesse Filosofia, e entregou-a a Platão para tal. Mas, depois, o jovem elefante não conseguia entrar na sala de lições, nem ler um livro, nem tocar com a sua cabeça no chão. Então, Platão levou-o de volta ao seu pai, dizendo-lhe que este não tinha qualquer vocação para aquilo a que se tinham proposto.

[E a lição é:] Cada pessoa deve escolher fazer algo apropriado para si mesma.

 

Estamos, naturalmente, a parafrasear o conteúdo original, mas as muitas histórias de árvores, vegetais, animais e até seres humanos, presentes nesta compilação de Mkhitar Gosh são, de um modo geral (e talvez salvo uma única excepção), tão simples quanto isto. Podem quase sempre ser lidas em menos de um minuto. Presume-se, portanto, que a intenção seja a reflexão por parte do leitor, mais do que uma possível diversão na leitura de uma história ficcional.

 

Para terminar, o que dizer sobre estas fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek? Cada uma destas duas compilações tem os seus pontos fortes e fracos, mas quem os quiser averiguar na primeira pessoa depressa se deparará com um problema – ambas as obras são bastante difíceis de encontrar. As fábulas do primeiro autor estão traduzidas para Inglês, as do segundo apenas existem numa tradução francesa parcial (e em Inglês, mas numa obra que ainda não foi publicada), mas presume-se que não se possa entrar numa qualquer livraria, mesmo online, e adquirir alguma delas sem dificuldade. O que é pena, porque as lições que os textos desta natureza têm para nos transmitir raramente passam de moda, e são tão importantes hoje como no dia em que foram escritos…

“Pés de barro”, significado e origem

A expressão pés de barros é hoje usada na nossa cultura quase sempre em referência a alguém ou alguma coisa, e.g. “aquele deputado tem pés de barro”. No entanto, qual é o significado e a origem de toda a expressão?

Essencialmente, esta metáfora vem do Antigo Testamento, de um sonho do rei Nabucodonosor II, a que se segue uma interpretação feita pelo profeta Daniel:

Pés de Barro, o significado e o ídolo

Tu, ó rei, estavas vendo, e eis aqui uma grande estátua; essa estátua, que era grande, e cujo esplendor era excelente, estava em pé diante de ti; e a sua vista era terrível. A cabeça daquela estátua era de ouro fino; o seu peito e os seus braços, de prata; o seu ventre e as suas coxas, de cobre; as pernas, de ferro; os seus pés, em parte de ferro e em parte de barro. Estavas vendo isso, quando uma pedra foi cortada, sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou. Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o cobre, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a pragana das eiras no estio, e o vento os levou, e não se achou lugar algum para eles; mas a pedra que feriu a estátua se fez um grande monte e encheu toda a terra.

Daniel 2:31-35

 

Se o verdadeiro significado por detrás de todo este sonho de Nabucodonosor II é complexo, daria pano para muitas mangas e até nos poderia levar àquele famoso mito nacional do Quinto Império, o mais importante, aqui e no tema de hoje, é o facto de a estátua que o monarca viu nos seus sonhos ser feita de vários materiais completamente distintos, com os pés, os pontos de apoio de toda a grande estrutura, a serem feitos do material mais frágil, o barro.

No seguimento de toda essa história bíblica, ter pés de barro significa, essencialmente, possuir uma fraqueza pouco visível num grande conjunto que, a uma primeira vista, poderá até parecer muito impressionante e invencível. Ou seja, voltando-se ao exemplo que já demos acima, dizendo-se algo como “aquele deputado tem pés de barro”, estará a querer dizer-se que essa pessoa até parece muito bom, incorruptível, que todos gostam muito dele, mas que ao mesmo tempo ele anda também – por exemplo – a fazer negócios sujos com um determinado clube de futebol nacional.

É, portanto, simples, este significado e origem!

“Sobre o Cosmos”, de Pseudo-Aristóteles e Apuleio

O texto Sobre o Cosmos merece ser referido aqui em virtude de alguém – que se identificou, falsamente, como Aristóteles – ter escrito sobre esse tema em Grego Antigo, e depois esse seu texto ter sido traduzido para Latim por Apuleio, o famoso autor do Burro de Ouro. As duas obras, nos seus originais respectivamente Περὶ Kόσμου e De Mundo, são muito semelhantes, com a excepção de algumas breves adaptações que parecem ter sido feitas para os leitores latinos.

Mas de que falam elas? Essencialmente, apresentam-nos a visão que os Gregos da Antiguidade tinham do seu mundo, em particular como imaginavam que as coisas funcionavam – o tratado começa com algumas considerações sobre o mundo, depois continua com elementos relativos à Física, e termina com referências a uma derradeira figura divina.

 

Mas, para quem estiver mais curioso face à relação real entre as duas obras, e como se ligam textualmente, há pouco tempo foi feita uma tradução paralela de ambas, que pode ser vista no site oficial e numa página da Academia.edu.