O mito do Poço do Inferno

O Poço do Inferno é mais um daqueles mitos que são muito famosos em diversos países do mundo (em particular nos Estados Unidos da América e na Rússia), mas pouco conhecidos em terras de Portugal e do Brasil. E, sendo assim, decidimos que podíamos dedicar-lhe algumas linhas na publicação de hoje.

O mito do Poço do Inferno

Durante a segunda metade do século XX surgiram ideias em diversos países do mundo de se tentarem criar artificialmente buracos muito profundos. Ainda os existem, por exemplo, nos EUA e na China, com o mais profundo a ser o Poço Superprofundo de Kola, na zona que separa a Rússia da Noruega e Finlândia, e que tem mais de 12 Km de profundidade. Até aqui tudo isto é verdade, mas o mito começa quando se afirma que a Rússia também escavou um bocado de mais de 14 Km de profundidade, até chegar a alguma espécie de caverna. Não conseguiriam, como é óbvio, enviar qualquer humano ao local, mas baixaram um microfone e um termómetro pelo buraco adentro e, diz-se, que a temperatura era superior a 1000 ºC, e nesse local podiam ser ouvidos gritos horrendos. Esta conjunção de factores levou à ideia – puramente mítica – de que estes exploradores tinham sido capazes de encontrar uma entrada para o Inferno. Pelo menos uma versão, de entre as muitas que lemos ao longo dos anos, adiciona que foi baixado um homem ao local e ele faleceu, do mais completo medo, poucos minutos depois de  conseguir regressar ao pé dos seus companheiros de exploração.

 

 

Não foi possível encontrar a derradeira origem desta história – relatos com características semelhantes existem um pouco por todo o mundo, desde o Purgatório de São Patrício irlandês, até à “nossa” Boca do Inferno, passando pelas lendas medievais que inspiraram o Inferno de Dante – mas dado que supostamente atesta a existência do Inferno – e, portanto, de parte da mensagem cristã – esta história tornou-se popular e foi sendo disseminada em fontes cristãs por todo o mundo, sem que ainda se consiga afirmar a sua derradeira origem. Encontrámo-la em fontes finlandesas, o que pode sugerir uma origem na zona em que se acha que estes eventos tomaram lugar, mas sem que exista hoje qualquer prova de que este “Poço do Inferno” alguma vez tenha sido real. Portanto, é mais seguro tratar toda a história como o verdadeiro mito que nos parece ser, mas que continua a passar de mão em mão nestes nossos dias de hoje…

O sapo e o escorpião, a fábula e a sua moral

É provável que a fábula do sapo e do escorpião se encontre entre as mais famosas dos nossos dias, e portanto vale a pena recontá-la aqui juntamente com a sua moral. Mas, antes disso, talvez importe explicar que esta não é uma das muitas histórias que se atribuíam a Esopo, nos tempos da Antiguidade, ou fruto de alguma obra famosa como o Panchatantra indiano. Toda a ideia, e até mesmo a respectiva moral, já existia antes do século XX, mas esta pequena história, na forma como a temos agora, apenas surgiu quase já nos nossos dias, de uma fonte literária russa que pouco parece ter de importante fora ter sido a primeira versão do tema a que ainda temos acesso. Feita, portanto, essa breve introdução, foquemo-nos agora na história em si mesma:

O sapo e o Escorpião, uma fábula e sua moral

Um dia, um Escorpião viu um Sapo à beira de um ribeiro. Visto que queria cruzar esse curso de água para o lado oposto, chamou este animal verdinho e pediu-lhe que o ajudasse. Mas o Sapo, desconfiado, reconheceu em quem o interpelava um seu inimigo mortal e a sua grande prudência fez, inicialmente, levá-lo a pensar que não poderia confiar nele. Porém, o Escorpião disse-lhe que nada tinha a temer, que não lhe ia fazer nenhum mal, até porque se o picasse colocaria ambos no mais mortal perigo. E o Sapo, coitadinho, acreditou nessa ideia, colocando o Escorpião sobre as suas costas enquanto se movimentava para o lado oposto do rio. E tudo parecia correr bem, até que este segundo lá ferrou quem o transportava… conduzindo-os ambos à morte, mas não sem que antes o Sapo tivesse pedido explicações. A ele, o Escorpião disse apenas “Desculpa, não pude evitá-lo, é apenas a minha natureza”…

Esta fábula do sapo e do escorpião é relativamente simples, não tem muito para contar, mas o que alguns parecem ter mais dificuldade em compreender é a sua moral. Se ela é um pouco discutível, normalmente pode ser interpretada para significar que todos nós temos uma natureza intrínseca que não podemos contrariar. Até podemos tentar argumentar contra ela, afastar o cerne do tema por aqui e por ali, desviar as atenções com esta e aquela ideia, mas tal como o Escorpião da história tem um poderoso ferrão na sua cauda, também cada um de nós tem uma parte de si mesmo que não consegue contrariar, e que em limite até poderá levar-nos à nossa destruição, como aconteceu com o Sapo.

 

Assim, se, por exemplo, alguém decidisse dar o nome de O sapo e o escorpião a um programa de televisão ou rádio, talvez o fizesse para dizer que tudo na vida tem a sua própria natureza, que em limite ninguém é capaz de contrariar. E, portanto, para moral da conhecida fábula, esta é uma ideia que nos chega…

São Cirilo e a origem do Cirílico, uma breve história

Hoje, em virtude do conflito na Ucrânia, falamos sobre São Cirilo e a origem do Cirílico, i.e. as estranhas letras que agora podemos muitas vezes ver na televisão.

São Cirilo e a origem do Cirílico

Nesta imagem podem ser vistas as principais letras dos alfabetos latino, grego e cirílico. Como descrito em inglês na própria imagem, existem formas de algumas letras que são exclusivas de algumas línguas, enquanto que outras – como o “A”, “B”, “M”, etc. – são comuns a todas elas. Mas se, como já cá foi mostrado anteriormente, a maior parte das letras gregas e latinas têm uma evolução histórica relativamente fácil de constatar, de onde vêm os caracteres que são exclusivos do Cirílico? Para o explicar, falemos então de São Cirilo e a origem do Cirílico.

 

Segundo uma lenda cuja relação com a realidade não é completamente clara, em meados do século IX da nossa era dois irmãos, de nomes Cirilo e Metódio, foram evangelizar as muitas terras do leste. Enquanto o faziam, depararam-se com um problema muito significativo, que era o facto de alguns sons das línguas orais da região não poderem ser representados com letras da língua nativa de ambos, o Grego. Por isso, foi necessário criarem novas letras, umas capazes de conseguir captar por escrito os sons originas, e foi daí que nasceram as letras cirílicas mostradas acima – isto, apesar do facto de não se saber, em toda esta história, onde termina a ficção de toda a história e começa a sua realidade… Mas frise-se que qualquer que seja a verdade por detrás da origem destas letras, a origem deste alfabeto, que ficou conhecido como Cirílico, é quase sempre atribuída a este São Cirilo e seu irmão. 

As letras e sons do Alfabeto Cirílico

Para quem não o conhecer, nesta segunda imagem podem ser vistas as respectivas letras, a sua equivalência aos sons do nosso alfabeto latino, bem como a forma de ler cada uma delas, recorrendo-se para tal aos seus sons na língua inglesa. A imagem não é nossa, como habitualmente foi retirada da internet e sofreu algumas alterações para gerar a versão acima, mas a título de pura curiosidade terá de servir, e esperamos que ajude potenciais leitores a compreender melhor a relação entre os alfabetos ditos “latinos” e estas, para nós estranhas, letras de vários países do leste, entre eles a Ucrânia.

O mito de Ak Molot e Bulat

O mito de Ak Molot e Bulat vem-nos das terras dos Tártaros e tem um elemento muito curioso, que também ocorre igualmente em outros mitos da mesma cultura, em que a destruição directa da alma de um opositor leva à sua morte indirecta. Por isso, e até porque toda a história não é muito famosa nos nossos dias, podemos recordá-la aqui.

Os pássaros da alma

Conta-se que Ak Molot e Bulat estiveram envolvidos num longo combate, mas que como ambos eram essencialmente indestrutíveis o seu confronto estava como que destinado a nunca terminar. E, na verdade, uma e outra vez Ak Molot desferiu golpes completamente mortais ao seu opositor, apenas para o ver levantar-se e continuar a combater. Passar-se dias, semanas, meses, anos, mas todo o combate nunca deu quaisquer sinais de acabar.

Depois, um dia, Ak Molot – ou um dos seus amigos, segundo outra fonte – apercebeu-se de algo de estranho, que um caixão de ouro estava por perto, ligado ao céu por um ténue fio. Quando quebrou esse elo de ligação com uma flecha, o caixão caiu ao chão e no seu interior foram encontrados dez pássaros brancos. À medida que o herói matou cada um deles Bulat pareceu enfraquecer, até que finalmente morreu.

 

A uma primeira vista, a morte de Bulat parece ser misteriosa, mas há que esclarecer que um dos pássaros era, metaforicamente, o da sua alma (a identidade dos restantes não é explicada na história original, caso alguém tenha essa curiosidade). A ideia não é completamente nova – já no tempo dos Poemas Homéricos a psukhé, ou alma, era frequentemente representada como uma espécie de pássaro ou figura alada, como pode ser visto na imagem acima – mas é curioso constatar que se foi mantendo ao longo dos séculos, ao ponto de, muito mais tarde, ser estabelecida esta ligação ainda mais directa entre a alma, sob a forma de um pássaro, e a própria vida da pessoa a quem esta estava associada. Quando Ak Molt destruiu a alma/pássaro do seu opositor indestrutível, destruiu-o também a ele, e por muito estranha que a ideia, hoje, nos possa parecer, de um ponto de vista do contexto literário e cultural original ela também faz todo o sentido.

As lendas de dois buracos muito grandes

Um buraco muito grande e perigoso

As duas pequenas lendas de hoje falam-nos de dois locais completamente distintos, mas até têm um elemento comum que os une – são dois buracos muito, muito grandes e profundos. De facto, dois buracos tão grandes que acabariam por se tornar famosos em virtude de nos ser completamente impossível ver o seu fim com os nossos próprios olhos.

 

Um buraco muito grande na Rússia

O primeiro destes buracos foi na Rússia, e foi alegadamente escavado numa data imprecisa dos últimos anos do século XX. Com mais de 12 Km de profundidade, a lenda diz-nos que em dada altura quem o escavou – com uma máquina, obviamente – se deparou com um espaço oco. Quando baixaram uma câmara e um microfone nesse local, encontraram então algo completamente inesperado – o buraco era tão profundo que tinham chegado ao Inferno! Sim, aquele Inferno em que se diz que os pecadores serão punidos após a morte, e pouco depois um demónio até saiu do buraco e atacou os responsáveis por todo este prodígio.

 

Um buraco muito grande nos EUA

O segundo buraco, e respectiva lenda, vem-nos dos Estados Unidos da América, e ficou conhecido como o Buraco de Mel [Waters], que é o nome do homem a quem pertencia o terreno em que alegadamente estava localizado. Segundo ele, na sua propriedade havia um buraco sem fim, que até tinha a propriedade miraculosa de trazer animais de volta à vida, mas nunca ninguém conseguiu localizá-lo, e procuras pelo mesmo no Google Maps também falharam.

 

Agora, o que têm estes dois buracos em comum? Mais que tudo, o facto de não existirem quaisquer provas reais e palpáveis da sua existência. Na verdade, até se sabe que o primeiro deles – e a respectiva história – é pura e simplesmente fictício, enquanto que mesmo aqueles que afirmam já terem visto o segundo não conseguem localizá-lo quando lhes é pedido que o façam. E isso poderá levar-nos a crer, de forma muito bem justificada e compreensível, que ambos os buracos são pura ficção, nada mais que uma lenda dos nossos dias.