“Vi veri veniversum vivus vici”, origem e significado

Vi veri veniversum vivus vici é uma daquelas frases que apesar de estar em Latim se tornou famosa apenas já nos nossos dias, essencialmente através dos comics V de Vingança e do filme que neles se baseou. Se a expressão utilizada nesses meios não é completamente correcta – na verdade, deveria ser provavelmente Vi veri universum vivus vici – qual é a sua verdadeira origem e o seu significado?

A frase 'Vi veri veniversum vivus vici' em filme

Nos meios ficcionais acima esta ideia aparece associada a um [João] Fausto, mais comummente conhecido como Doutor Fausto, uma figura interessante da cultura europeia de que já cá falámos anteriormente. Agora, não se pode ter toda a certeza se ele algum dia a proferiu, mas – e contrariamente ao que outras fontes pouco credíveis dizem – ela não aparece na peça de teatro de Christopher Marlowe, mas somente já em finais do século XX e sempre em obras totalmente ficcionais. Como tal, é quase certo que nunca foi proferida num contexto puramente latino, mas é somente uma invenção já dos nossos dias, e que pelo seu significado é colocada, falsamente, na boca de um homem, ou personagem, que na verdade nunca o disse.

 

Mas o que quer mesmo dizer vi veri veniversum vivus vici? Algo como “pelo poder da verdade, ao viver eu conquistei o universo”, uma frase que, no contexto em que é proferida, faz sentido que se associe seja a Fausto, seja a uma das personagens principais do V de Vingança. Mas, ainda assim, deixe-se claro que não é uma expressão que venha da Antiguidade ou mesmo da literatura latina da nossa era; em vez disso, e como acontece em outros casos dos nossos dias, é uma expressão em Latim mas significativamente recente, como et in Arcadia ego ou nolite te bastards carborundorum, que também foram popularizadas de uma forma semelhante, seja na arte, em filmes ou em livros…

A lenda de Rama (e o “Ramayana”)

Falar da lenda de Rama, famosa entre os Hindus, implica necessariamente falar do épico Ramayana (ou Ramáiana, em forma aportuguesada), em que esta figura tem um papel principal. Os dois temas até se confundem, como se fossem um só – esta lenda é o tema principal apresentado nesse poema épico, apesar de também existirem outras versões da mesma história. Iremos então contá-la aqui, de forma demasiado breve, mas só podemos fazê-lo depois de apresentarmos duas clarificações iniciais, importantes para a maior parte dos leitores ocidentais, que poderão desconhecer estas coisas:

Os Avatares de Vishnu

Primeiro, é importante clarificar o conceito de avatar. Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares, alguns dos quais podem ser vistos na imagem acima), para trazer benefícios à humanidade – por exemplo, tomou a forma deste Rama, mas também a de Krishna (possivelmente a mais amada das suas formas), a de Sidarta Gautama (uma história muito interessante, mas que terá de ficar para outro dia), ou a de Vamana, entre várias outras.

 

Depois, temos também de introduzir, de uma forma breve, o próprio poema épico do Ramayana. Atribuído ao sábio Valmiki, que não só escreveu este poema como até é uma das suas personagens, este é um dos grandes poemas épicos da Índia (o outro é o Mahabharata, que já recordámos num mito), que narra as aventuras de Rama, um dos avatares de Vishnu, enviado ao mundo para derrotar Ravana, rei dos rakshasas (i.e. “demónios”), que entre os seus vários crimes andava a raptar milhares de mulheres bonitas e levá-las para a sua ilha, a do actual Sri Lanka. Face a estas duas introduções, resuma-se agora, muito simplificadamente, a história do Ramayana.

Personagens do Ramayana

Por influência de uma madrasta, Rama foi exilado por 14 anos do reino que iria herdar um dia, e foi viver para uma floresta acompanhado pela sua esposa, Sita (que era um avatar de Lakshmi, a consorte de Vishnu), e pelo irmão Lakshmana. Um dia, Ravana soube da beleza desta mulher e decidiu tomá-la para si, mesmo sabendo que ela já era casada com outro homem; para o conseguir, enviou um belíssimo veado de ouro para a floresta, e enquanto os dois irmãos se afastaram sucessivamente, para capturar uma tão bela criatura, o poderoso inimigo raptou então a formosa esposa do herói.

A parte mais significativa da história é, depois, aquela em que Rama tenta encontrar e recuperar a sua amada Sita. Pelo caminho, ele e Lakshmana conhecem Hanuman, o poderoso rei dos macacos, que os ajuda bastante nas suas aventuras, chegando a levantar uma montanha enorme nos seus ombros só por não encontrar uma pequena erva mágica que lhe foi pedida.

Como não poderia deixar de ser, Rama lá encontra Sita e derrota Ravana após uma longa batalha. Finalmente, tem-na nos seus braços, e… é aqui que surge aquele que, repetidamente, nos foi apontado como o momento mais controverso da obra. O herói parece amá-la verdadeiramente, num primeiro instante, mas depressa a rejeita. E fá-lo tratando-a até bastante mal, porque se recusa a acreditar que ela se tenha mantido fiel nos meses em que esteve a viver no palácio de Ravana – e mesmo quando ela prova, por influência divina, que lhe foi totalmente fiel e que o ama mais do que a qualquer outro homem, o herói ainda chega depois a duvidar dela uma segunda vez, antes de a perder para sempre neste mundo…

 

Não podemos, sem qualquer dúvida da nossa parte, captar toda a beleza deste épico num punhado de linhas. Nem conseguimos resumi-la com grande destreza assim, sendo que acima deixamos apenas um traçado demasiado breve do seu conteúdo. No seu cerne existem alguns momentos belíssimos, como o momento em que Rama vê Sita pela primeira vez, ou as muitas aventuras de Hanuman, ou a hybris repetida e estonteante do quase-invencível Ravana. E, por isso, talvez estas sejam aventuras que os leitores merecem conhecer em primeira mão, por muito pouco conhecida que esta obra seja em Portugal e no Brasil. Existe, pelo menos, em tradução inglesa, disponível gratuitamente online, pelo que o convite para quem a quiser conhecer melhor já está aqui feito!

Richard Williams e um prólogo da “Lisístrata”

A comédia Lisístrata, da autoria de Aristófanes, certamente que não tem muito que se dizer de um ponto de vista mitológico. É, muito sucintamente, uma peça de teatro em que as mulheres de Atenas tentam acabar com uma guerra, recusando ter relações sexuais com os respectivos maridos até que estes deixem de lutar. O que pode, sem muita dificuldade, suscitar uma questão intemporal – porque queriam elas fazê-lo?

Podem ser muitas as possíveis respostas, algumas até mais sugeridas que outras na própria peça, mas uma resposta pode ser vista, de forma indirecta, na curta-metragem Prologue, de Richard Williams (director do igualmente belíssimo, mas perpetuamente inacabado, The Thief and the Cobbler), datada de 2015 e que até foi nomeada para um Óscar:

Apesar de, por definição, este ser um vídeo bastante curto, preserva-nos a animação que se pretendia que, um dia, tivesse vindo a fazer parte de uma sequência animada baseada na Lisístrata. Mostra a beleza da natureza e a forma como a sua ténue serenidade é interrompida pela brutalidade da guerra, numa sequência de combate em que só existem vencidos. Como sempre, e como em qualquer guerra… Sofrem aqui as crianças e as mulheres, dando-lhes mais do que razões para pedirem, nos tempos de Aristófanes como ainda nos nossos dias, o fim de qualquer conflito bélico. É pena que Richard Williams tenha falecido, em 2019, antes de concluir esta sua possível Lisístrata, que só por este breve, mas nem por isso menos belo ou cativante, prólogo já valeria a pena ir ver a um qualquer cinema…

Breve história da origem do Pão por Deus

Contemos uma breve história da origem do Pão por Deus… Ainda há dias nos perguntaram de onde vem a tradição do Dia das Bruxas, mas o que já poucos parecem perguntar é sobre a história da tradição bem portuguesa para essa mesma época do ano. E, honestamente, até há poucos dias talvez não soubéssemos o que lhes responder, até que um colega se deparou com um livro de meados do século XX, Festivals of Western Europe. A obra em questão tem algum interesse, na medida em que detalha alguns feriados europeus e as respectivas histórias. Entre os vários feriados nacionais presentes nesse texto de Dorothy Gladys Spicer conta-se o Dia de Finados, a 2 de Novembro, em que é feita uma breve alusão aos eventos do dia anterior:

On November 1 bands of children go about singing for “bread for God,” and are rewarded with food and drink. Sometimes the singers receive bolas de festa, special Day of the Dead sugar cakes, flavored with cinnamon and herbs.

 Broas do Pão por Deus

Apesar de sucintas, estas linhas dão-nos três informações importantes – há pouco mais de 50 anos as crianças cantavam “algo” (que, infelizmente, o texto não nos preserva), recebiam comida e bebida em troca, e até existia um bolo “doce, de canela e ervas”, potencialmente característico da época. Que esses bolos se tratam das broas que hoje podem ser adquiridas em qualquer supermercado é difícil de duvidar, dados os seus ingredientes, mas o que dizer sobre a origem do Pão por Deus, bem como a cantiga associada a esse dia?

 

Em relação ao primeiro ponto, o da origem do Pão por Deus, ouvimos muitas opiniões, a mais contundente das quais diz que terá nascido com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, em que supostamente as pessoas que sobreviveram ao cataclismo teriam andado pela cidade a mendigar “[dêem-nos] pão, por Deus”. Mas essa é uma falsa origem, já que existem referências a um evento com este nome anterior à data, em que pão cozido era oferecido aos pobres. Por isso, se pensarmos na data a que está associado, é muito mais provável que a tradição tenha vindo de sucessivas adaptações de antigos cultos aos santos e aos defuntos, em que a oferta de pão (e bolos) aos mortos, que já existia na Antiguidade e até antes do Cristianismo (e de que até São Martinho de Dume se veio a queixar), foi sendo substituída pelas mesmas ofertas aos vivos – algo que, na verdade e de forma comprovada, até está por detrás de outras celebrações da mesmo época do ano, como o Halloween.

 

Agora, em relação à cantiga característica da época, encontrámos várias versões, possivelmente de diferentes locais de Portugal, mas que parecem ter todas algo em comum – a uma sequência estática de versos rimados, em que era pedido o tal “Pão por Deus”, era dada uma resposta positiva ou negativa, consoante se gostasse, ou não, da oferta. Um documento da DGPC sobre património imaterial até dá exemplos tanto positivos – “Esta casa cheira a broa/Aqui mora gente boa!” – e negativos – “Esta casa cheira a alho/Aqui mora um espantalho!”, “Esta casa cheira a unto/Aqui mora algum defunto!”.

E isto é fascinante, verdadeiramente fascinante, porque denota que existe uma linha condutora semelhante entre o festival nacional do Pão por Deus e ideias (internacionais) presentes no Halloween, sendo possível ver o segundo como uma espécie de simplificação do primeiro. À medida que as pessoas foram saindo dos campos para as grandes cidades, foram esquecendo as ideias dos seus antecessores e os versos originais foram-se perdendo (há excepções, claro…), e uma simplificação dos rituais levaram ao que temos hoje, duas celebrações com um cerne muito semelhante, que competem pelos mesmos recursos, quando nem são assim tão diferentes, só pecando pela substituição de um património nacional, que está a ser progressivamente mais e mais esquecido, por um que é claramente estrangeiro.

 

Por isso, deixamos um pequeno desafio – caso alguém que leia estas linhas ainda conheça os versos da sua região relativos a este feriado, por favor deixe um comentário abaixo com os mesmos, tendo o cuidado de referir em que concelho os aprenderam. Talvez assim possamos ver as semelhanças, e diferenças, que existem nesta tradição em diversos pontos do país…

As bruxas são feias? E porque têm gatos? Explicamos…

Dois temas muito próximos – será que as bruxas são feias? E porque têm gatos? Claro que uma feiticeira com um gato a seu lado, muito feia – de riso assustador, verrugas, um nariz estranho, pele muito branca, olhos assustadores, uma corcunda, cabelos brancos, mãos muito finas e enrugadas, etc. – faz parte da cultura popular dos nossos dias, mas de onde vêm essas ideias? Porque imaginamos estas figuras mágicas com esses contornos em particular?

Uma bruxa feia

Essencialmente, e em ambos os casos, a resposta vem de finais da Idade Média, da altura em que existiram bastantes perseguições às bruxas em diversos países europeus. Se as sociedades da altura eram essencialmente masculinas, as mulheres que não casavam, ou que já estavam sozinhas no mundo, acabavam por ser postas à margem da sociedade. Viviam não se sabe muito bem como, mas a realidade é que sobreviviam, que tinham alguma forma de o fazer. E, muitas vezes, os seus vizinhos não entendiam bem como isso tinha lugar. Talvez por inveja, talvez por vingança de algum conflito mais pessoal, ou mesmo para roubarem as suas propriedades, muitas vezes acusavam-nas de fazerem magia… e então começou a gerar-se uma ideia destas magas como mulheres com um conjunto de características muito particulares (entre eles o facto de serem menos bonitas), que até podemos associar a essa ideia geral da solidão da velhice – de facto, as características que descrevemos ali em acima até se confundem com as de uma idosa não-mágica, não é verdade?

 

E é aí que entra a ideia das bruxas terem gatos. Mesmo nos nossos dias existem mulheres que, muitas vezes por solidão, enchem as suas casas com estes animais – até há uma expressão anglófona para isso, as crazy cat ladies. Isto nada teria de errado, até pelo contrário, não fosse o facto de numa dada altura ter surgido em Inglaterra a ideia de “espíritos familiares”, entre os quais se contavam um conjunto de animais mais ou menos domésticos que se dizia que eram, na verdade, demónios disfarçados e que ajudavam as bruxas nas suas artes malévolas. Entre outras formas, eles podiam ser gatos, sapos, cães, ratos, pássaros, elefantes (neste caso estamos a brincar, seria um pouco difícil guardá-los, não é?!), rãs e lebres, que a possuidora supostamente alimentava como podia, e que viviam num pequeno recanto fechado na casa desta.

Agora, quem já tiver tido gatos depressa saberá reconhecer que eles adoram pequenos recantos fechados, o que poderá ter contribuído para fomentar a ideia de que estes animais eram os principais “espíritos familiares” por eleição. E porque são eles pretos, na maior parte dos casos da cultura popular? Pura e simplesmente para defender a ideia de que faziam os seus trabalhos durante a noite, sendo assim mais difícil detectá-los – é tudo uma questão de prática, de adequar a fantasia do oculto a uma praticalidade do dia-a-dia, como quando se diz que elas usavam vassouras para voar.

 

Resumindo e concluíndo, hoje em dia pensamos que as bruxas são feias e têm gatos porque no tempo da caça a estas feiticeiras, em finais da Idade Média, se foram criando um conjunto de estereótipos cujos significados originais se foram depois perdendo ao longo do tempo. Isto não quer dizer que elas eram sempre fisicamente feias e tinham imperativamente estes animais em suas casas, mas que quando as mulheres correspondiam a esses padrões (que ainda hoje não são propriamente raros, admita-se), tendia a ser mais fácil aceitar-se a ideia de que elas eram mesmo bruxas, até porque esta era quase sempre uma acusação bastante fácil de fazer pelos acusadores e muito difícil de refutar por parte dos acusados.