A lenda de Baku

A lenda de Baku é Japonesa. Diz, essencialmente, que quando os deuses acabaram de criar todas as outras criaturas animais, viram que lhes tinham sobrado algumas “peças”. Como não sabiam muito bem o que fazer com elas, decidiram juntá-las todas numa só criatura – e assim nasceu este estranho animal.

O Baku a proteger uma criança

O Baku tem uma tromba de elefante, um corpo parecido com o do leopardo, e outras características menos fáceis de discernir, mas a principal razão para contarmos a sua história aqui, hoje, passa não tanto pelo estranho físico desta criatura lendária, mas pela sua característica mais famosa, que até gerou o Pokémon Drowzee – diz-se que este animal tem a capacidade de devorar os sonhos nocturnos das pessoas. Ou seja, imagine-se que têm um pesadelo, tudo o que têm de fazer é evocar esta criatura três vezes seguidas, com uma frase que pode ser resumida como “Baku, Baku, por favor come o meu sonho!”, e ele tomará a tarefa de se livrar do vosso pesadelo, permitindo-vos que continuem a dormir de forma muito mais calma.

 

Será que funciona? Face aos estranhos temas dos últimos dias decidimos tentá-lo, e podemos então garantir que é mesmo verdade, que funciona. Não irão ver um Baku, em si mesmo, mas através da sua intervenção poderão ter algumas noites muito mais descansadas, enquanto ele vos protege de algum sonho menos bom. Mas cuidado (!) – se for invocado incorrectamente, ou na altura errada, ele também poderá comer os vossos bons sonhos, pelo que convém utilizar este processo somente se andarem a ter muitos pesadelos recentemente…

A “Chave do Inferno”

Este pequeno texto, a Chave do Inferno, merece ser referido por cá no contexto das muitas obras associadas a um mesmo São Cipriano. Se já cá falámos do famoso Livro de São Cipriano, bem conhecido em terras de Portugal e do Brasil, esta outra obra, datada de meados do século XVIII ou XIX, é muito mais simples que a “nossa” mas também ligada, falsamente, à mesma figura da Antiguidade.

A Chave do Inferno

Que esta Chave do Inferno se baseia, como o texto anterior, numa mesma tradição mágica que as antecede pode ser inferido através de algumas semelhanças – por exemplo, veja-se a expressão AGLA, aqui em Grego, na imagem acima. Mas essas potenciais semelhanças entre os dois também terminam por aí – este não é um livro de feitiços, mas sim e quase exclusivamente uma pequena obra que permite, através da repetição de algumas expressões, a evocação de demónios, possivelmente por parte de um homem sábio nestas matérias; daí até o seu nome mais completo – a Chave do Inferno, ou Magia Branca e Negra Aprovada por Metatron (um dos anjos da tradição judaica e muçulmana, muito associado à tradição mágica) – já que essa invocação é feita recorrendo ao poder divino de Deus e dos quatro grandes anjos.

 

O livro, em si, contém uma invocação dos poderes divinos, uma conjuração dos espíritos infernais (dos quais a pessoa já deverá saber o nome), uma forma de se endereçar esses espíritos, e finalmente uma forma de os afastar, supostamente após terem cumprido a tarefa que o invocador desejar. É tão simples quanto isso, nas linhas desta Chave do Inferno, mas… será que funciona? Pelo sim, pelo não, decidimos ir tentar o ritual presente na obra, até no espírito desta altura do ano, e não aconteceu absolutamente nada de significativo. Portanto não, não funciona, para quem ainda mantiver curiosidade com essas coisas…

Em busca da Bruxa Évora

Há algum tempo vieram-nos pedir mais informação sobre uma tal Bruxa Évora. Não é uma figura simples, até porque à primeira vista nem é totalmente claro se Évora era o seu nome ou a sua origem (i.e. “Bruxa de Évora”), mas por muito que procurássemos só encontrámos informação pouco fidedigna e muito inconsistente. E isso, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar mais e mais. Portanto, decidimos partir em busca da verdadeira origem dessa figura, hoje ainda famosa no Brasil mas pouco conhecida em Portugal.

Será um deles a Bruxa Évora?

Relembre-se que mesmo no tempo da perseguição das bruxas por toda a Europa nunca foram muitas as figuras culpadas desse crime em Portugal. Mas, curiosamente, entre as poucas condenadas à fogueira contou-se, no ano de 1626, uma pessoa da cidade de Évora, de seu nome… Luís de La Penha – ou seja, não era uma mulher, mas sim um homem, este condenado eborense por bruxaria e feitiçaria.

E que fez ele, para que merecesse um tal castigo? Segundo as sentenças da Inquisição que nos chegaram, essencialmente este homem previa o futuro e fazia feitiços, todos eles com intervenção do Diabo ou de uma figura feminina muito bonita (cuja identificação não é clara nos documentos que lemos). Face a essas ideias anti-cristãs, ele foi condenado uma primeira vez e, eventualmente, perdoado. Mas depois, possivelmente até porque não tinha outra forma de fazer dinheiro, voltou a insistir no mesmo, foi denunciado múltiplas vezes, e voltou a ser preso, sendo desta vez condenado mesmo à fogueira.

Assinatura de Luís de La Penha

Neste contexto, se é possível que tenham existido outras figuras famosas da arte da feitiçaria em Évora, Luís de La Penha é certamente o mais famoso, até em consequência do seu destino. Mas será ele quem está por detrás da figura que procuramos? É muito provável que sim – a figura é famosa no Brasil mas está hoje quase esquecida em Portugal. Se a sua história tiver sido levada para o Brasil no século XVII, é provável que os nativos desconhecessem a cidade de Évora, transformando as menções que ouviam a um famoso “bruxo de Évora” num “bruxo Évora”, que depressa se poderá ter tornado uma “Bruxa Évora” pelo simples facto da feitiçaria ser mais associada ao género feminino.

Ao mesmo tempo, isto poderá explicar o porquê de pouco ou nada se saber sobre a figura da Bruxa Évora – se ela nasceu de um mero nome com uma existência quase fantasmagórica, de uma compreensão incorrecta de algumas palavras, não é possível que tenha por base alguma história real, abrindo caminho a que possam ter sido geradas múltiplas histórias apócrifas associadas a ela, que terão de diferir quase por completo face ao facto de lhes faltar qualquer fundamento de realidade em que se possam basear.

 

Podemos estar errados nesta possibilidade para uma identidade da chamada “Bruxa Évora”, mas frise-se que o nome não é comum – de facto, só existe uma cidade de Évora em Portugal, nenhuma no Brasil, e existiu uma Evora em Queensland (Austrália). Enquanto nome próprio, também é muitíssimo raro – não conhecemos qualquer exemplo do seu uso, além da cidade dos eborenses. Por isso, se a figura existe e é popular no Brasil, terá vindo de Portugal, sendo por isso possível que se tenha baseado em eventos ou figuras do nosso país. E, na ligação entre a bruxaria e a cidade alentejana, Luís de La Penha é certamente o seu exponente mais famoso, podendo ter dado lugar a esta figura numa forma como a que já discutimos acima.

A lenda de La Sayona

A lenda de La Sayona vem-nos da América do Sul, mais particularmente da Venezuela, e se ouvimos bastantes variantes de toda a história, todas elas assentam em dois pontos comuns – que o nome da figura vem de um vestido longo que usa, e que a sua função mitológica é sempre a mesma. Contemos, por isso, o cerne da sua história:

La Sayona

La Sayona tinha originalmente o nome de Casilda, e era uma mulher muito bonita. E, pensava ela, também muito amada pelo seu marido. Mas depois, um dado dia, descobriu que este a andava a trair com outra mulher. Então, movida por uma enorme loucura, matou o marido e a respectiva amante, mas não sem que esta última tivesse uma derradeira oportunidade de a amaldiçoar – assim, Casilda, agora conhecida como La Sayona, ficou eternamente condenada a testar a fidelidade dos homens. Aparece perante eles com um longo vestido branco, com um corpo absolutamente divino, deixa-se seduzir, e depois mata-os, breves momentos antes de atingirem o orgasmo que tanto procuravam.

 

Conforme já dito acima, existem as mais diversas versões de toda esta história, mas todas elas procuram explicar as razões pelas quais a figura conhecida como La Sayona faz a sua tarefa, matando os homens que são infiéis às suas esposas. Nesse sentido, até o grau de culpabilização da jovem Casilda varia – em pelo menos uma das versões, talvez a mais grotesca a que tivemos acesso, a amante do marido da jovem é a própria mãe desta, dando-lhe então mais do que razões para a sua quase inevitável loucura.

Mas, ao mesmo tempo, esta lenda é uma espécie de aviso a todos os homens casados – não se envolvam com outras mulheres, e ainda menos com mulheres que vos pareçam muito atraentes, porque elas podem ser La Sayona disfarçada e estarem mais do que desejosas de vingar a vossa infidelidade! Será que resulta? Será que esta lenda torna os homens mais fiéis? Esse é um aspecto de toda a história que, infelizmente, não conseguimos averiguar, mas é certamente possível que pelo menos alguns homens tenham sentido algum medo, e sido movidos a uma fidelidade adicional…

O que são os Íncubos e Súcubos?

Entre as muitas criaturas que a humanidade foi imaginando ao longo dos tempos contam-se dois grupos conhecidos como Íncubos e Súcubos. São relativamente parecidos – o primeiro é normalmente do sexo masculino, enquanto que o segundo é feminino – na medida em que até podem ser definidos como duas faces, ou distintas transformações, de uma única criatura demoníaca, que depois adopta sexos diferentes mediante aqueles com quem se cruza.

Íncubos e Súcubos

Nascidos do pensamento da Idade Média, acreditava-se que os Íncubos e Súcubos entravam durante a noite no quarto das pessoas, pela mais completa magia, e muitas vezes sentavam-se em cima de quem dormia, causando-lhes uma impossibilidade de se moverem. Isto poderá parecer estranho, mas quem já tiver sofrido pelo menos um episódio de “Paralisia do Sono” saberá que em alguns casos se têm visões estranhas, o que poderá ter originado toda esta crença.

 

Mas, no entanto, não era só isto que se dizia sobre os Íncubos e Súcubos. À medida que a crença foi evoluíndo, passou a acreditar-se também que além de entrarem nos quartos das pessoas, eles tinham relações sexuais – pouco ou nada consensuais – com essas pessoas. E isso explicava, por exemplo e de forma muito conveniente, como é que uma mulher que não vê o marido há dois anos tinha engravidado…

Curiosamente, a tradição também diz que os Íncubos e Súcubos não podiam engravidar nem conceber um filho, por se acreditar que não eram seres físicos. Então, o que estes demónios faziam era – e atenção, frise-se que esta ideia é mesmo defendida em escritos da época – transformarem-se em Súcubos, recolherem a semente geradora de um homem, depois adoptarem a forma de um Íncubo, e nessa altura implantarem essa semente geradora numa mulher com a qual, na verdade, esse homem nunca tinha tido sexo. E isto explicava, por exemplo, como é que o filho de uma determinada mulher era muito parecido com o padeiro da aldeia, por muito que ela afiançasse que jamais traiu o marido…

 

Mas, para terminar, como acabaram estas estranhas crenças? Essencialmente, aquando da perseguição às bruxas começou a acreditar-se que um pacto entre uma mulher e o Diabo tinha de ser feito com uma relação sexual carnal, e que os Íncubos e Súcubos tinham, portanto, de fazer parte de todo esse processo místico. Mas depois, quando se decidiu que as bruxas, afinal de contas, provavelmente até nem existiam, existiram um conjunto de crenças que foram sendo abandonadas como completamente inverídicas, entre as quais se contavam uma crença muito maior nestas criaturas demoníacas de que aqui falamos hoje. E, se mesmo hoje em dia as pessoas continuam a ver “coisas” durante os seus episódios de Paralisia do Sono e se referem muitas vezes a elas como “monstros”, já pouco pensam nestas duas e estranhas categorias de outros tempos, com as violações por demónios a se terem tornado, hoje, uma excepção exclusiva à mente de pessoas muito perturbadas psicologicamente…