Já conheces o segredo de Peter Pan?

A história de Peter Pan é bastante famosa nos dias de hoje, mas também esconde um grande segredo de que poucas vezes ouvimos falar. Se, tanto quanto nos foi possível apurar, a figura e as suas histórias não são baseadas em qualquer mito, lenda ou tradição oral – serão, portanto, somente uma criação do inglês J. M. Barrie nos primeiros anos do século XX – a forma como a história chegou aos nossos dias, em versões como a da Disney, está muito sanitizada, censurada, esquecendo “misteriosamente” alguns elementos mais estranhos da obra original.

O sinistro Peter Pan

Esta agora-famosa história é contada em duas obras da autoria exclusiva de J. M. Barrie, Peter Pan in Kensington Gardens e Peter and Wendy. Quem quiser conhecê-la por completo deverá ler ambas, mas quando o fizer acabará por encontrar faces muito sinistras da história que, naturalmente, parecem ir desaparecendo ou sendo amenizadas nas versões mais modernas.

 

Por exemplo, o primeiro desses livros conta as origens de toda esta figura. E quem é ele? Uma criança com menos de um ano de idade que fugiu de casa da mãe, esvoaçando, e que passou a viver escondido nos Kensington Gardens londrinos. Até aqui tudo bem, é apenas uma história de fantasia, mas mais à frente o herói começa a sentir falta da sua mãe e decide visitá-la. Encontra-a ainda a chorar, com a janela de casa ainda aberta, etc., e então decide fazer uma derradeira aventura e voltar mais tarde. Retornando depois, encontra a mãe no mesmo quarto, já feliz, com um novo filho nos braços – e, repita-se, até aqui tudo bem – mas tendo posto barras de ferro na janela do quarto, para que nada possa entrar ou sair. Nesse sentido, o herói sente que a mãe se esqueceu dele, tal como o leitor provavelmente já se terá esquecido que está a ler uma história para crianças.

 

Na mesma história, Peter Pan conhece também uma menina de quatro anos, chamada Maimie Mannering, e têm algums aventuras juntos. Trocam dedais e beijos, até que o herói lhe pede para casar com ele. Ela rejeita, dizendo que iria ter saudades da mãe, mas continua a voltar aos jardins de tempos a tempos, deixando prendas ao antigo amado. E vai crescendo… mas o herói, esse, continua sempre com a idade que tinha originalmente – ou seja, acabaram de testemunhar uma história de amor entre um menino com menos de um ano (recordem-se, ele não envelhece!), e uma menina de quatro anos que, quando vai crescendo, mantém uma espécie de paixão por uma figura estranha que conheceu há anos e que se mantém igual ano após ano.

 

Poderíamos estar a tentar ver mal onde não o há, mas quem conhecer a história presente na segunda obra notará que estes temas se mantêm – Wendy terá cerca de 12 anos, o herói não envelhece (será que continua com um ano de idade?! Não é claro), eles têm aventuras juntos na Terra do Nunca, no final os restantes Meninos Perdidos acabam adoptados pela família Darling, mas a figura que dá o nome a estas histórias, essa, volta sozinha para o local de onde vinha e parece esquecer esta jovem. É novamente abandonada (quantas mais vezes o terá sido?!), e parece esquecer também esta companheira. Isto até que, muitos anos mais tarde, quando Wendy já é mais velha e tem uma filha, aparece subitamente e parece querer levar a menina em novas aventuras… quantas mais crianças terá ele levado consigo, e trazido depois de volta à medida que se tornam mais velhas?!

 

Quando os Irmãos Grimm censuraram muitas das histórias que recolheram, talvez tenham tido uma certa razão no que faziam. Há um conjunto de possíveis leituras muito inquietantes em algumas histórias infantis, um vector muito sinistro nestas histórias de Peter Pan, que se até podem levantar várias razões para debate nos mais velhos, poderão inquietar as crianças. A nós, sinceramente, levaram-nos a muitas questões – por exemplo, há um subtexto nestas obras que levanta a possibilidade de que quase todas as personagens estejam mortas… mas será que essa era uma das leituras pretendidas pelo autor? Fica a questão…

O Mito de Tífon e Equidna

Contar o mito de Tífon e Equidna implica, talvez mais que tudo, ter de o inserir no contexto da Mitologia Grega em que ele ocorria originalmente. Explique-se então o seguinte – existem muitos mitos gregos e latinos que se foram perdendo ao longo dos séculos, e que apenas nos chegaram em breves referências aqui e ali. Entre eles contam-se um conjunto de histórias em que os deuses do Olimpo defrontam em combate figuras igualmente poderosas, como os Gigantes e os Titãs. E, se nos chegaram algumas referências a esses eventos, que vão desde os poemas de Hesíodo até à Gigantomaquia de Claudiano, é difícil reconstruir toda a sua trama de uma forma contínua. Por isso, o que contamos aqui hoje é parte de um desses grandes confrontos, mas focamo-nos em dois dos seus intervenienes, em vez das batalhas, em si mesmas.

Tífon

Tífon – também conhecido como Tífão ou Tifeu – tinha um corpo composto por infindáveis serpentes e a capacidade para voar. Terá sido o mais poderoso opositor que os deuses do Olimpo alguma vez defrontaram. E até os venceu temporariamente, forçando-os a fugir para o Egipto, mas ás tantas Zeus lá recuperou o controlo das suas famosas armas e, utilizando-as em seu favor, foi capaz de derrotar – mas não matar, tenha-se em atenção – este opositor, ocultando-o depois em algum lugar, que alguns autores dizem ter sido o Monte Etna. A melhor fonte para este mito, aqui apenas resumido, é a Dionisíaca de Nono.

Equidna

Equidna era uma figura semelhante mas feminina, com um corpo que era um misto de serpente e de mulher, e que parece ter sido muito pouco representada na arte (até só encontrámos dois exemplos da Antiguidade – a escultura acima é já do século XVI). Uma versão muito ténue diz-nos que ela foi morta por Argos, mas não explica em que circunstâncias isso aconteceu, e pouco mais ainda sabemos sobre ela.

 

Então, mas porque unimos os mitos de Tífon e Equidna num só? Na verdade, porque eles partilham de uma característica única na Mitologia Grega – segundo Hesíodo (entre outras fontes mais secundárias), estes dois monstros amavam-se muito e até tiveram vários filhos! Entre essas figuras, nascidas do estranho amor deste casal, contavam-se Orto (i.e. o cão de Gerião), Cérbero (o cão de guarda dos Infernos, com três cabeças), a Hidra de Lerna, e a Esfinge (que defrontará Édipo numa famosa história), entre várias outras. São, por isso, um casal monstruoso que teve filhos igualmente monstruosos, sendo essa a principal razão pela qual estas duas figuras se encontram tão unidas, como uma só – se os seus mitos originais já não nos chegaram de uma forma mais completa, o que até poderia contribuir para os individualizar mais, são muitas as aventuras que ainda conhecemos em que os seus filhos têm um papel significativo – e essas sim, que ainda podemos ler, de uma forma bem mais completa, entre a literatura dos Gregos e dos Romanos que chegou aos nossos dias.

O “Picatrix” e a ciência dos talismãs

Se o Picatrix é muito mencionado no contexto da magia da Idade Média, há que esclarecer que ele não é um livro de magia. Não contém feitiços (ou algo que se assemelhe a isso), mas é, talvez mais que tudo, um livro sobre talismãs, um pouco à semelhança da Chave de Salomão. E à primeira vista isso até poderá parecer simples – hoje, tendemos a ver esses acessórios mágicos como meras peças de bijuteria com um determinado símbolo gravado – mas, na verdade, parece existir toda uma ciência por detrás da sua construção.

Uma página do Picatrix

Não basta – como parecem indicar uns determinados anúncios que passam na CMTV – pegar numa pulseira, adicionar-lhe um trevo para boa sorte, um elefante para ter prosperidade, um coração para obter amor eterno, ou mesmo uma “mão de Fátima” para afastar o mau olhado. Em vez disso, segundo este Picatrix, é necessário que ele seja construído com base numa ciência muito específica, que implica o estudo de conceitos complexos de Astrologia e o uso de símbolos misteriosos (como os que são mostrados no canto superior direito da imagem acima). Interrogamo-nos se a Maya, a Maria Helena e as outras tantas astrólogas da televisão também dominam estes temas, ou se algum telespectador já as contactou para pedir, por exemplo, um talismã que afaste as baratas lá de casa (que, frise-se, é mesmo um dos talismãs que este livro ensina a construir)…

 

Deixando as brincadeiras de lado, este Picatrix é certamente um livro interessante para quem acredite nestas coisas e queira aprender a fazer, de forma devida, os seus próprios talismãs. Se um qualquer leitor estiver nessa posição tão invulgar, é provável que este livro até lhe interesse. Porém, para todos os outros, ele tem um grande problema – é uma obra enfadonha, que mistura constantemente ideias e conceitos de Filosofia, Astrologia, Misticismo, e uma pequenina migalha de Magia (mas, infelizmente, não contém nada de mitos ou lendas). Mesmo que se pretenda lê-la a simples título de curiosidade, é muito provável que o leitor acabe por encontrar nela nada mais do que isso, uma obra aborrecida com um tema que, agora, provavelmente apenas interessa a muito poucos.

 

Resta uma pergunta – será que os talismãs funcionam? Será que a ciência por detrás da sua construção é algo de real? Quem for ler este livro depressa descobrirá que todo o conceito dos talismãs assenta, imperativamente, na ideia da Astrologia e de que os astros celestes têm um impacto significativo nas nossas vidas. Ainda hoje há pessoas que acreditam nisso, e outras a quem toda essa ideia parece nada mais que um enorme absurdo. Por isso, se estiverem no primeiro grupo, é provável que também acreditem que os talismãs funcionam mesmo e nos podem trazer os maiores benefícios ás nossas vidas; caso contrário, se não acreditam em nada dessas coisas, esta será uma ciência tão verdadeira e útil como a da Astrologia, e o Picatrix terá sido aqui mencionado como uma mera curiosidade, e nada mais, de um tempo que já passou há muito…

Duas lendas da Dama dos Pés de Cabra

Existem, em Portugal, pelo menos duas lendas associadas a uma Dama dos Pés de Cabra. Uma é mais famosa que a outra – na verdade, até foi preservada por Alexandre Herculano – mas achámos que se íamos recordar uma delas também o poderíamos fazer para a outra.

O Castelo de Marialva

A primeira lenda de uma Dama dos Pés de Cabra vem da Beira Alta, de uma vila chamada Marialva, e fala-nos de uma mulher que viria a dar o nome a esse local. Ela vivia num pequeno castelo, e a sua beleza sempre atraiu uma infinidade de pretendentes, mas a cada um deles ela repetia sempre a mesma coisa – “Só caso com quem me trouxer uns sapatos que me sirvam.”

Um dado cavaleiro, querendo então casar com ela, contactou um sapateiro local… mas como podia este fazer sapatos para alguém cujos pés nunca viu? Com ajuda externa de uma aia da desejada, decidiu espalhar farinha no quarto da jovem; depois, quando esta acordou pela manhã, saiu da cama e a forma dos seus pés ficou marcada no chão, possibilitando a criação de um sapato com essa forma.

Depois, o cavaleiro ofereceu esses estranhos sapatos à sua amada Maria Alva… mas esta, horrorizada pelo facto das pessoas já conhecerem o seu segredo, atirou-se da torre do castelo e desapareceu misteriosamente!

Pés de Cabra

Já a segunda lenda de uma Dama dos Pés de Cabra é muito mais famosa, pelo que apenas será aqui apresentada de uma forma muito breve. Segundo ela, enquanto um nobre caçava pela floresta encontrou uma mulher lindíssima e apaixonou-se instantaneamente. Querendo casar com ela, pediu-a automaticamente em casamento, e ela aceitou-o com uma única condição – que o futuro marido jamais voltasse a fazer o sinal da cruz.

Casaram e tiveram filhos. Anos mais tarde, enquanto estavam a jantar, um dos cães do casal matou o outro, em disputa por um pedaço de javali. Chocado com toda a situação, o nobre bateu três vezes num pedaço de madeira e fez o sinal da cruz. Nesse momento ouviu-se então um grito horrendo e a estranha esposa desapareceu… e se se seguiram outras aventuras, ela nunca mais voltou aos braços do seu marido!

 

O que podemos acrescentar sobre estas duas lendas da Dama dos Pés de Cabra? Se no primeiro caso Maria Alva tinha pés de cabra, esse facto é tratado apenas como um defeito genético, sem nada de sobrenatural. Já no segundo caso, que até é o de uma lenda medieval, tudo é diferente – essa Dama dos Pés de Cabra, que prima pela ausência de um nome mais real, é efectivamente uma criatura das trevas, o Diabo ou um dos seus demónios, sem qualquer dúvida. Por isso, apesar de serem lendas que partilham um mesmo nome, elas são muito diferentes, referindo-se quase certamente a figuras distintas com uma única característica que as une.

 

Se existiam outras mulheres e histórias semelhantes nas lendas da Idade Média (recorde-se, por exemplo, o mito de Melusina), porque têm estas duas figuras pés de cabra? Não é fácil explicá-lo horizontalmente, mas, muitas vezes, as figuras medievais com pés de cabra são transformações do Diabo ou alguma outra figura demoníaca, como os eventos da segunda lenda facilmente nos mostram. A ideia geral vem até de tempos da Antiguidade – o Diabo tem pés de cabra por relação com o deus Pã, os Sátiros e os Faunos, que habitavam nas florestas e também tinham essa forma grotesca – e continua a ser reutilizada até aos nossos dias, em que figuras demoníacas como Baphomet continuam a ser representadas com diversas características caprinas. Mas, pelo menos em relação a Maria Alva, sabemos que essa característica não se devia ao oculto, mas a um mero defeito congénito, cuja razão de presença em toda a história já não nos parece ter chegado…

A lenda de Santo Ovídio

Santo Ovídio é uma de aquelas figuras santas que são populares no norte de Portugal, mas também muito pouco conhecidas em outros locais do mesmo país. Assim, podemos contar aqui brevemente a sua história, ou pelo menos o pouco que ainda hoje se sabe sobre este homem, e até revelar de que ele é padroeiro:

Santo Ovídio

Segundo as poucas fontes literárias que ainda temos, o homem que ficaria conhecido como Santo Ovídio nasceu na Sicília com o nome latino de Auditus, ainda no primeiro século da nossa era. Por ordem do Papa Clemente I foi enviado para Portugal, mais precisamente para Braga, para pregar a mensagem de Jesus Cristo. Foi aí que se tornou o terceiro bispo da cidade (antecedido por Pedro de Rates e Basílio de Braga, se alguém tiver essa curiosidade), acabando por se tornar mártir de uma forma incerta – de facto, todas as fontes que consultámos referem esse martírio, potencialmente falso, mas nenhuma delas nos diz, na verdade, como isso teve lugar.

 

É isto, quase apenas isto, que parecemos saber sobre este homem de inícios da nossa era, mas se o seu nome original era “Audito”, então de onde vem o seu nome de Ovídio? Pode ser explicado se tivermos em conta que a palavra auditus em Latim significa, nada mais nada menos, que “ouvido” em Português, i.e. uma das partes do nosso corpo. Assim, ao longo dos séculos o seu nome entre o povo passou de Auditus a “Ouvido”, e posteriormente a Santo Ovídio – que, frise-se, nada tem a ver com o famoso poeta romano, imortalizado perante alguns como um falso, e agora quase completamente esquecido, São Naso.

 

Resta, porém, uma pequena questão adicional. Afinal, de que é este figura, o agora-famoso Santo Ovídio de Braga, padroeiro? Possivelmente até só em virtude do seu nome, ele foi sendo associado às doenças dos ouvidos, bem como da respectiva cura!