A origem e o mito de Puck e Oberon

Quem já tiver lido, ou assistido, ao Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, certamente que se terá interrogado sobre a origem das personagens do reino místico – Oberon, Puck, Titânia, etc. Têm uma mitologia parcialmente palpável, mas ao mesmo tempo pouco se fala de cada uma delas fora dessa peça de teatro específica. É como se surgissem para essa peça e desaparecessem pouco depois, mas tendo por detrás delas, estranhamente, muito mais do que nos é dito, um conjunto de histórias que apenas podem ser subentendidas através de alguns instantes dos diálogos e da trama. Mas, então, qual é a origem de Puck e Oberon? E, na verdade, que mitos têm associados?

Puck, filho de Oberon

Segundo um pequeno panfleto do finais do século XVI, Robin Good-Fellow: His Mad Pranks, and Merry Jests, tanto Puck como Oberon têm a sua origem no folclore inglês, existindo até alguns poemas e cantigas que narram a relação entre ambos. E ela é relativamente simples, sendo possível resumir toda a história – que já de si não é muito longa – em meia dúzia de linhas:

 

Oberon era uma fada (do sexo masculino) que amava uma mulher mortal. Costumava visitá-la e “dançar” com ela durante a noite, até que a engravidou. Puck nasceu pouco depois, e enquanto era jovem fazia sempre muitas traquinices. Um dia, a mãe ia dar-lhe uma tareia enorme, e então ele decidiu fugir de casa. Pouco depois, o seu pai apareceu-lhe e contou-lhe que, como seu filho, tinha o poder de se transformar. Seguiram-se muitas aventuras, em que este jovem usou os seus poderes mágicos para ajudar vários injustiçados e punir alguns malvados, até que, finalmente, se juntou ao seu pai na floresta, onde ambos dançam todas as noites com o resto das fadas.

 

Um colega professor de teatro alertou-nos que, curiosamente, esta história até pode servir como uma pequena introdução ao Sonho de uma Noite de Verão, explicando de onde vêm as personagens e como se encontraram na floresta em que, depois, toma lugar a história de Shakespeare. E é verdade, mas também prova é que quando este dramaturgo inglês escreveu a sua peça, fê-lo num contexto em que a audiência já estava bem familiarizada com as personagens necessárias para que se entendesse a totalidade da trama. E sabiam-no porque, muito provavelmente, estas eram personagens famosas na sua época, mas que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos, deixando a trama da peça agora parcialmente incompleta para nós.

 

Em forma de sumário, Robin Good-Fellow, hoje mais conhecido simplesmente como Puck, era filho de Oberon e são ambos entes da floresta, uma espécie de fadas, com poderes mágicos de transformação, e possivelmente muito bem conhecidos do folclore da época de William Shakespeare. Supõe-se, pelo contexto, que Titânia, enquanto rainha das fadas, venha do mesmo sistema de mitos, mas é um ponto que já não conseguimos atestar verdadeiramente, estando ela ausente das histórias que fomos consultando.

A lenda de Kaguya e o Monte Fuji

A lenda de Kaguya, também conhecida como a do Cortador de Bambu, vem-nos de terras do Japão. É conhecida sob vários nomes diferentes, mas damos-lhe este em particular pelo facto de, entre várias versões que encontrámos, a princesa com este nome e o início da sua história serem os seus grandes elementos constantes. Nesse sentido, contamos duas versões, cuja ligação ao famoso Monte Fuji depressa se tornará evidente:

O Monte Fuji, símbolo da lenda de Kaguya

Na primeira versão, um cortador de bambu estava a trabalhar quando encontrou uma mulher belíssima, a quem chamou Kaguya (i.e. “brilhante”), e que adoptou como se fosse sua filha. À medida que ela foi crescendo, tornou-se cada vez mais bela e acabou por atrair incontáveis pretendentes. Casou, e foi feliz até ao dia em que os seus pais falecerem. Depois, revelou a estranha verdade ao seu marido – ela não era um ser terreno, mas a divindade do Monte Fuji, que tinha sido enviada para trazer alguma felicidade ao casal de falecidos (para outro exemplo deste estranho tema, ver a Lenda de Momotaro), e que agora, cumprida a sua tarefa, tinha de ir embora. Antes de o fazer, deu-lhe uma pequena caixa memorial e disse-lhe que podia ser sempre encontrada no topo dessa montanha. Ele abriu a caixa, mas não a encontrou; foi ao topo do monte, mas também não a encontrou; então, em enorme desespero, atirou-se do local e juntou-se ao espírito da sua amada após a sua morte, onde continuam hoje como divindades do local.

 

A segunda versão começa de uma forma semelhante, mas à medida que Kaguya se vai tornando mais bela vai atraindo infindáveis pretendentes, que afasta propondo-lhes tarefas quase impossíveis de realizar. Isto, até que atrai a paixão do Imperador do Japão, com quem também se recusa a casar, mas trocam cartas. Depois, progressivamente, quando esta jovem se apercebe da lua cheia, vai chorando. Depressa se percebe o porquê – ela afirma que não é deste mundo, e que o momento do seu retorno a casa estava a chegar. E então, chegado o momento, escreve uma derradeira carta e dá um elixir da imortalidade ao homem que tanto a parecia amar, antes de viajar de volta para a Lua. E depois, o Imperador escreve-lhe uma nova carta, viaja para o cume do Monte Fuji – aqui considerado o local mais próximo da Lua – e queima a missiva (esperando que a sua nova mensagem chegue à amada), destruindo também o elixir da imortalidade (i.e. por não querer viver para sempre sem a poder ver).

 

As semelhanças entre as duas versões é clara, mas o que não conseguimos descobrir foi se existe alguma relação real entre elas, ou se se tratam de meras coincidências. Uma versão aparece num texto do século X, outra num do século XII, sendo provável que o segundo autor estivesse familiarizado com a versão do primeiro, mas será que se tratavam de versões regionais, que alguns conheciam com uma trama e outros com outra? É certamente provável e possível, mas não absolutamente certo.

 

Deixando de lado esse problema, estas são duas faces de uma lenda que tenta explicar, de uma ou outra forma, a importância do Monte Fuji. Será pelo facto de imortalidade, que os Japoneses podem escrever como 不死 (fushi), ter uma relação de semelhança sonora com 富士 (fuji)? Será uma forma de explicar alguma característica particular da famosa montanha nipónica? Será, até, que tem algum fundo de verdade, num qualquer elemento entretanto esquecido? Ou será que toda a trama tem alguma relação com as lendas chinesas, em que um licor da imortalidade lunar é famoso? Não sabemos, mas esta lenda de Kaguya não deixa de ter uma certa beleza e de dar que pensar…

O mito de Príapo em resumo

Falar sobre o mito de Príapo implica necessariamente uma espécie de auto-censura, na medida em que o principal atributo deste deus poderá ser considerado ofensivo para algumas das audiências dos nossos dias. Isto porque esta figura divina é muito fácil de reconhecer na maior parte das suas representações iconográficas, devido ao facto de ser sempre representado com um órgão sexual que faria inveja aos maiores actores pornográficos masculinos das sociedades de hoje.

O mito de Príapo, deus dos Romanos

Mas então, quem é este deus Príapo? Era um deus menor, filho de Afrodite e Dioniso (entre outras versões), associado essencialmente aos campos de cultivo, jardins e ás outras actividades ligadas a estes. Essa relação será fácil de explicar, dada a facilidade que o deus teria em fertilizar tudo o que se lhe cruzasse, muitas vezes sem qualquer respeito pela palavra “consentimento”. E, na verdade, dois mitos associados a este deus até falam desse seu carácter violador!

Num deles, Príapo encontrou uma deusa a dormir num campo. Motivado pelo seu apetite sexual infindável, pensou em violá-la, e estava até prestes a fazê-lo quando um burro se pôs a zurrar, acordando-a e fazendo-a fugir, gerando igualmente um ódio eterno do deus por esse animal. Num outro, o deus quis violar a ninfa Lótis, e esta fugiu dele até que acabou por se transformar numa flor – é, naturalmente, mais um mito de Ovídio, e que até poderia não existir antes da escrita das suas Metamorfoses.

 

Outro aspecto interessante ligado ao deus Príapo é o facto do seu culto – se é correcto chamar-lhe isso – ter continuado muito após a queda de Roma. É muito provável que já não se conhecessem os seus antigos mitos, mas a singular forma como era utilizado nos campos – seja como um homem com um pénis enorme, ou apenas como um pénis parcialmente antropomórfico – continuou a ser utilizado com um carácter mágico, que se supunha proteger os campos das doenças, dos ataques das pestes e pássaros… quase como se de um antigo espantalho se tratasse!

 

Por fim, quem quiser mesmo saber mais sobre o deus Príapo na Mitologia Grega e Latina pode sempre ler uma colecção de poemas (pornográficos) que lhe é dedicada, a Carmina Priapea, em que esta figura divina tem sempre um papel muito principal. É uma colecção que nos deixa muito claro o verdadeiro carácter da figura original, bem como a forma como a sua própria sexualidade se ligava aos campos de cultivo que defendia…

A lenda do Tanuki (e Bunbuku Chagama)

São, essencialmente, três as maiores figuras do folclore japonês. Já falámos do Kappa e da Kyubi no Kitsune, pelo que resta o Tanuki, que não é nada menos interessante que as anteriores. Pode, no entanto, é causar alguma estranheza numa audiência ocidental. Veja-se um exemplo:

À medida que este anúncio se aproxima do fim pode ser visto uma criatura com uns tomatinhos enormes, que até suscita um “Uau!” por parte da menina. Possivelmente, essa é a característica física mais notável do Tanuki, com uma das lendas que encontrámos a dizer que ele tem a capacidade de fazer crescer os seus tomatinhos até um total de doze (12) metros quadrados, e este seu estranho encanto a ser imortalizado em canções infantis do Japão:

Tan tan Tanuki no kintama wa
Kaze no nainoni, bura bura~~.

Porém, não é só isso que o caracteriza – também tem poderes mágicos, sendo capaz de se transformar e adoptar as mais diversas formas só para enganar as pessoas e causar repetidas confusões.

Agora, não existe uma só lenda do Tanuki, mas sim um conjunto muito variado de histórias em que ele intervém directamente. Contudo, neste caso em particular, existe é uma lenda específica que é a mais famosa de todas as que envolvem este estranho animal, a de Bunbuku Chagama. De facto, ainda hoje quem for ao templo de Morinji, na cidade japonesa de Tatebayashi, poderá encontrar lá algo muito especial:

Onde está Bunbuku Chagama, o Tanuki?

Quem olhar para esta imagem com atenção poderá ver que, do lado esquerdo, a chaleira tem um rabo e uma pequena cara. Diz então a lenda que um Tanuki se transformou numa chaleira e viveu neste templo durante algum tempo, até que alguém a tentou meter ao lume – como se faria com qualquer outra chaleira, não é? – e queimou o pobre animal, irritando-o bastante. Pouco depois, mas não antes de muitas confusões, os monges lá decidiram vender a estranha chaleira, e este Bunbuku Chagama foi viver para um circo, onde as suas brincadeiras foram muito apreciadas pelos muitos visitantes!

 

Esta pequena lenda de um Tanuki, que ficou conhecido como Bunbuku Chagama, em função da principal forma que aqui adoptou, apresenta-nos um conjunto de características da mesma criatura – o facto de adoptar outras formas, de ser brincalhão, mas – talvez até mais que tudo? – de querer que lhe dêem bastante atenção. Não é, aqui como em muitos outros possíveis exemplos, uma criatura maldosa, mas sim uma que gosta de se divertir às custas dos seres humanos que se vão cruzando com ele, algo que continua a fazer até aos nossos dias.

Kitsune, ou a Lenda da Raposa de Nove Caudas

Esta lenda da raposa de nove caudas, muitas vezes conhecida apenas como Kitsune, vem-nos de terras do Japão. Contudo, ela é hoje bem conhecida por todo o mundo devido à presença, seja ela directa e indirecta, desta singular criatura em várias séries manga e anime japonesas, como Naruto (onde é conhecida como Kurama, segundo nos foi dito), Pokémon ou Digimon, entre muitas, muitas outras vindas do país do sol nascente e baseadas na mitologia local. Mas então, que lenda, ou mito, se esconde por detrás de toda essa famosa figura e do seu significado?

Kitsune, a raposa das nove caudas

Se o nome desta raposa de 9 caudas costuma ser Kitsune, há que esclarecer que essa é uma palavra que não significa muito mais do que “raposa” na língua japonesa, e que derivou da ligação das sílabas “kitsu” (o barulho que se diz que ela faz, em terras do Japão) e “ne” (neste contexto, talvez signifique algo como “o animal que faz…”). E esse significado geral permite-nos compreender um factor muito importante na busca por esta potencial lenda – não existe um mito individual único desta criatura, que para alguns até é uma espécie de espírito, mas sim um conjunto muito diverso de histórias, fruto da sua extensa presença no folclore japonês, que se estende mesmo até aos nossos dias de hoje. Por exemplo, vejam-se estes vários anúncios de televisão do país do sol nascente, em que uma destas criaturas tem um papel principal:

Agora, se na cultura ocidental pensamos nas raposas como animais matreiros, fruto de obras literárias como as Fábulas de Esopo ou a Canção de Reynard, no Japão as Kitsune têm características adicionais – são igualmente matreiras, sim, mas são-no também com uma infinidade de poderes mágicos e místicos, nomeadamente o de se transformarem em seres humanos, por associação com Inari, deusa protectora dos arrozais (e que em diversas representações até monta uma delas). É até por isso que no vídeo acima a jovem tem orelhas e cauda – ela é mesmo uma raposa disfarçada, que se transformou em humana para seduzir ou enganar algum homem, como o do anúncio!

 

Um exemplo de lenda de uma Kitsune

Podemos até dar aqui um exemplo de uma lenda japonesa bastante famosa e que inclui esta criatura. Segundo ela, um homem andava em busca de esposa quando encontrou uma mulher muito bonita num campo de cultivo. Ela disse-lhe que também andava em busca de um marido, ele aceitou com prazer essa espécie de oferta, depois casaram e tiveram um filho. Ele nasceu quando a cadela da família também teve um cachorrinho. Depois, esse cachorrinho nunca parava de ladrar quando estava perto desta misteriosa mulher… e então, um dia atacou-a e mordeu-lhe pelas costas! Assustada, a mulher tomou a sua forma real – a de uma raposa – e fugiu para um bosque próximo, mas segundo algumas versões continuou a visitar a sua antiga família pontualmente, fazendo até amor com o (ex-?)marido.

 

Seguindo todo este contexto, se existem outras criaturas a que nas terras do sol nascente são atribuídas características mágicas semelhantes – o Tanuki, o Neko, e assim por diante – esta raposa tem uma característica muito sua, que é o facto de passar a ter mais caudas à medida que se vai tornando mais velha e poderosa (isto só acontece nas lendas, não é mesmo verdade na vida real, para quem estiver curioso e quiser procurar uma raposa oriental com muitas caudas). O seu limite é um total de nove – e este número em específico, porque este é considerado um que na cultura japonesa dá muito má sorte, indicando então que essa Kyuubi no Kitsune, ou raposa de nove caudas (a sua forma celestial, dizem algumas fontes), é capaz de estar no auge do seu poder místico – segundo alguns, após 1000 anos – e, por isso, pode causar infindáveis problemas a quem com ela se cruze.

 

É deste conjunto de características que as lendas associadas a uma raposa de nove caudas tomam proveito. Por isso, se estiverem a ver uma série japonesa, ou a ler algum livro vindo desse país, e algum herói se cruzar com este animal – ou, mais precisamente, com uma forma dele que até já tem nove caudas – saberão que se trata de uma figura muito poderosa. Infelizmente, não sabemos em que medida isto surge na história de Naruto (a sua influência nos Pokémons Vulpix e Ninetales, ou no Digimon Kyubimon, é bastante evidente), mas caso algum leitor o saiba pode, como sempre, deixar uma mensagem ali nos comentários e explicá-lo, para que possamos ficar todos mais esclarecidos.

 

P.S.- Para quem quiser saber mais sobre esta mesma criatura nas culturas chinesa e coreana, poderá também ler uma publicação posterior a esta, que fala mais especificamente sobre a Huli Jing da China e a Gumiho da Coreia.