O mito de Aracne

O mito de Aracne não parece ter a sua origem nas histórias dos Gregos. Em vez disso, a versão mais antiga desta história que nos chegou provém dos versos do poeta latino Ovídio, sendo suas as linhas que aqui iremos adaptar:

A morte de Aracne

Aracne era uma jovem que toda a sua vida se dedicou à tecelagem. Cada vez que tecia algo de novo, não podia deixar de admirar a extensa beleza da sua produção. E depois, um dia, isto levou-a até a considerar o seu trabalho melhor do que o dos próprios deuses. Com peito bem inchado, desafiou a deusa Atena – uma das padroeiras da arte que praticava – e, de uma forma completamente inesperada, acabou até por conseguir produzir um trabalho superior ao da própria deusa. Zangada, Atena rasgou a produção da sua opositora; e esta, quando se apercebeu do que tinha feito, da forma imperdoável como tinha desafiado os deuses, decidiu suicidar-se. O mito poderia até ter acabado por aqui, mas Atena, num misto de admiração pelo trabalho da falecida e tristeza pela morte que tinha causado, decidiu transformar Aracne numa aranha, que até aos nossos dias continua a exercer a sua arte.

 

O mito de Aracne é, como muitos outros dos tempos da Antiguidade, uma espécie de alerta aos leitores, instando-os para que não tentem violar os derradeiros limites da condição humana (a chamada hybris). Se, por um lado, é estranho que esta figura tenha verdadeiramente conseguido derrotar a deusa – normalmente o desfecho é o oposto, como no mito de Marsias – há que notar que ela não foi completamente victoriosa, perdendo a sua vida pouco após o confronto. Isso acontece porque, no contexto dos mitos gregos e latinos, as histórias em que os seres humanos desafiam os deuses nunca podem terminar bem para os desafiadores – que estranho exemplo seria esse, dizer-se que eles, no seu quase-infinito poder, podiam ser derrotados por meros mortais?!

Para terminar, a associação de Aracne ás aranhas serve, essencialmente, para tentar explicar o porquê de estas tecerem as suas teias – segundo este mito, elas fazem-no porque descendem dessa heroína e, como tal, continuam a praticar a famosa arte da sua predecessora.

“Alea jacta est”, origem, significado e tradução

A famosa expressão latina alea jacta est tem a sua origem no tempo agora-remoto dos Romanos. Nasceu num evento muito significativo do seu tempo que se acredita ter tomado lugar a 10 de Janeiro do ano 49 a.C., e sobre o qual devemos aqui contar um pouco mais, antes de avançar para a própria expressão, sua origem e significado em Português dos nossos dias.

Alea jacta est, como diz a expressão?

No ano 49 a.C. Júlio César era governador na Gália Cisalpina, e o seu tempo nesse cargo político tinha terminado. Como tal, foi-lhe ordenado pelo Senado que dispersasse o seu exército e regressasse a Roma, sozinho. Porém, em vez de o fazer, em vez de acatar essas ordens muito directas, ele dirigiu-se para as margens do Rio Rubicão, que era o limite até onde deveria poder levar os seus combatentes, e… de uma forma completamente inesperada, cruzou-o, esse derradeiro limite dos seus domínios temporários, entrando por Itália adentro e contrariando as importantes ordens do Senado Romano. Depois, estas suas acções causaram uma guerra civil, mas também geraram duas expressões distintas que ainda são usadas nos nossos dias de hoje.

 

A primeira das duas, que supostamente até foi dita por esta famosa figura histórica no momento em que o evento teve lugar – alea jacta est – não significa mais em tradução portuguesa do que “os dados estão lançados”, numa ideia frequentemente adaptada como “a sorte está lançada”, no sentido de que ele já tinha feito tudo o que podia e, agora, sabia que o controlo de todos os acontecimentos estava então completamente fora das suas mãos. É esse o seu significado. Como alguém que joga craps num casino dos nossos dias, Júlio César lançou os seus metafóricos dados e, agora, encontrava-se somente à espera do resultado que aí vinha, sobre o qual já não tinha quase nenhum poder.

A outra expressão que ele originou não se refere a nenhuma frase latina em específico (ou pelo menos nunca é usada em Latim…), mas a uma ideia muito concreta gerada pela história que contámos acima. Assim, o tremendo acto de “atravessar o Rubicão” é o de, num sentido mais realista para os nossos dias, tomar uma decisão após a qual não há qualquer volta a dar, ou seja, em relação à qual jamais poderemos voltar atrás.

Estão, portanto, estas duas expressões muito intimamente ligadas, não só no seu significado mas também na forma como nasceram de um único evento do tempo dos Romanos, há mais de 2000 anos atrás, mas cujo impacto ainda hoje é sentido nas sociedades ocidentais, até porque foi a “pequena” acção de Júlio César, quando atravessou o Rubicão, que a longo prazo levou à ascensão daquilo que viria a ficar conhecido como o grande Império Romano.

 

Uma última curiosidade, em relação a todo este tema – a expressão Alea jacta est, cuja origem, significado e tradução aqui relatámos, também pode ser escrita com I em vez de J, i.e. iacta est, porque originalmente, e como já cá mostrámos antes, só a primeira das duas letras existia nos primeiros séculos da nossa era, sendo mais tarde desdobrada em dois sons distintos.

O mistério do Flautista de Hamelin

A história do Flautista de Hamelin é provavelmente uma daquelas de que todos ouvimos falar quando éramos mais novos. Aparece em incontáveis livros, sob a forma de um conto ou lenda, mas independentemente do que lhe quisermos chamar por detrás dela esconde-se um verdadeiro e gigantesco mistério, que funde ficção com realidade. Mas já lá iremos, por agora resumimos aqui a versão mais famosa de toda a trama:

O Flautista de Hamelin

Há muitos, muitos anos atrás a cidade alemã de Hamelin estava a sofrer uma enorme praga de ratos. Um dia, os seus habitantes foram visitados por um homem misterioso em roupas coloridas, que se dispôs a resolver a praga que afectava a cidade a troco de algum dinheiro. E então, os cidadãos de Hamelin, felizes com a proposta, depressa a aceitaram, e o homem que viria a ficar conhecido como o Flautista de Hamelin rapidamente resolveu o problema – através do som da sua música de flauta atraiu todos os ratos para um dado local e, conduzindo-os depois para um rio, afogou-os a todos.

O problema estava resolvido, mas quando o honesto trabalhador voltou à cidade e pediu o dinheiro que lhe era devido, os habitantes recusaram dá-lo. Por três vezes insistiu no que era dele por direito, e por três lhe recusaram o que pedia justamente. Então, tocando novamente a sua flauta, desta vez o estranho herói atraiu [130?] crianças para fora da cidade e elas nunca mais voltaram a ser vistas.

 

Esta poderia ser uma história como tantas outras, de flautas mágicas e homens misteriosos que resolvem problemas mundanos com recurso a um qualquer deus ex machina, mas dizem as crónicas que ela efectivamente tomou lugar no dia 26 de Junho de 1284, altura em que um homem que tocava flauta levou as crianças para um monte próximo e, depois, todos eles desapareceram sem deixar qualquer espécie de rasto (a sequência aos ratos parece ser mais tardia). Se isto não for suficientemente intrigante, as crónicas da cidade de Hamelin contaram, durante algum tempo, a passagem dos anos com base neste evento, e.g. “faz agora 32 anos que as nossas crianças desapareceram”. E, se também isto não vos tornar curiosos por mais, existe uma rua nessa cidade, chamada então Bungelosenstrasse, em que a música continua proibida, supostamente porque foi a rua que o Flautista de Hamelin tomou com as crianças, e onde elas foram vistas pela última vez.

 

Face a estas provas, acreditando então que esta história tem um fundo de verdade, o que sabemos sobre ela? O relato completo mais antigo que ainda temos, presente no Manuscrito de Lueneburg (de meados do século XV), diz apenas que a 26 de Junho de 1284 130 crianças foram levadas por “um tocador de flauta vestido com muitas cores”, e que desapareceram para o interior de um monte cuja localização é hoje desconhecida. Só isso. O que lhes aconteceu continua a ser completamente desconhecido até aos nossos dias, um que não pode deixar de nos fascinar – o que acham que aconteceu ao misterioso viajante, que ficou conhecido como Flautista de Hamelin, e às crianças que o seguiram? Alguém tem alguma opinião que gostasse de partilhar, ou alguma ideia do que se poderá esconder por detrás deste estranho mistério?

O Espiritismo é verdade?

Será que o Espiritismo é verdade? Para a maior parte das pessoas que conhecemos, a resposta a uma pergunta como essa é e será provavelmente um ressonante e indubitável “não, claro que não!” E isto porque, salvo algumas raras fraternidades e federações espíritas em Portugal, a crença nos espíritos não é muito comum por cá, apesar de ainda o ser bastante no Brasil (através dos ensinamentos de figuras como Allan Kardec e Chico Xavier), e em países como os EUA. Mas, mesmo que por cá não acreditemos muito nessas coisas, certamente que todos conhecemos – por exemplo, através de filmes ou de histórias literárias ficcionais – a realidade das sessões espíritas, em que várias pessoas se reúnem numa sala escura, de mãos dadas ou em cima da mesa, enquanto dizem comunicar com os espíritos dos falecidos.

Sessão Espírita - será o Espiritismo verdade?

É provável que a maior parte dos leitores nunca tenha experienciado uma coisa destas na primeira pessoa, mas face ao que vemos na televisão certamente que, pelo menos para alguns, a questão sobre a verdade do Espiritismo já lhes terá passado pela cabeça. E, nesse sentido, se a crença na possibilidade de comunicar com os espíritos já vem de tempos da Antiguidade – recordem-se, por exemplo, algumas das histórias de Flégon de Trales – o desenvolvimento de uma forma sistemática para esse contacto foi feito já no século XIX, dizendo-se muitas vezes que começou com Kardec, e as Irmãs Fox nos EUA (que, ironicamente, depois se vieram a provar fraudes). Agora, poderíamos escrever muito sobre tudo isto, mas para evitar repetições podemos dizer que existem dois bons livros que devem ser lidos por quem se interroga sobre estas coisas.

 

O primeiro deles é de Harry Houdini (sim, o famoso mágico). Ele tinha um fascínio com o Espiritismo, que até queria mesmo que fosse verdade e que pode ser visto em filmes como Death Defying Acts, mas depressa se deparou com um grande problema – por muito que quisesse acreditar, uma e outra vez só conseguiu encontrar charlatões que apenas queriam tomar proveito da fraqueza das pessoas. E então escreveu um livro chamado A Magician Among the Spirits, onde mostra que o Espiritismo é todo uma enorme fantasia. É um livro bastante bom, escrito quase em oposição à History of Spiritualism de Arthur Conan Doyle (de quem ele era amigo), em que até chega ao ponto de mostrar os vários estratagemas utilizados por aqueles que se dizem médiuns. É muito interessante, esta obra, mas a ser adquirida deve sê-lo numa edição com todas as fotografias (que, infelizmente, raramente são incluídas, possivelmente porque podem “chocar” alguns leitores mais sensíveis – ver um exemplo, retirado de outra obra, abaixo). Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

Um espírito do outro mundo

Outro livro interessante sobre este mesmo tema é Confessions of a Medium, de autoria anónima. Conta-nos a história, supostamente autobiográfica, de um céptico que passou a acreditar no Espiritismo, e que depois, ao longo do tempo e enquanto se ia envolvendo nessas artes, também se foi apercebendo que, afinal de contas, era tudo apenas uma enorme falcatrua. O livro chega até a contar como se fazem muitas das coisas ditas espíritas, entre elas as famosas mesas flutuantes e as aparições físicas. E deixa uma questão simbólica – e se… nem tudo for o que parece aos mais crédulos? Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

 

E o que dizer das obras de Allan Kardec? Numa delas – pensamos tratar-se do Livro dos Espíritos, mas já não temos cópias das suas obras connosco – o autor adverte que os espíritos são reais mas não se deve falar com eles, visto que podem mentir nas suas respostas apenas para obter a nossa atenção e admiração. Até aqui tudo bem, isso faz sentido, não fosse o facto de, pouco depois, o tema da mesma obra assentar precisamente em se fazerem perguntas repetidas aos espíritos… os mesmos que o autor nos disse que poderão estar a mentir. Irónico, não é? Como conseguir acreditar em algo assim?! Se, para este autor, o Espiritismo é verdade, o acesso aos espíritos apenas deve ser feito num ambiente muito controlado, sempre com o auxílio de aqueles que só têm a ganhar com uma suposta verdade de todos esses processos – estranho, não vos parece?

 

Face a conteúdos como todos estes, não podemos deixar de adaptar as palavras de Cícero num contexto muito semelhante – como é possível que dois espíritas não se riam, quando se cruzam na rua? Deveriam fazê-lo, se ambos sabem, naturalmente, que isto do Espiritismo é verdade apenas na frágil credulidade de pessoas mais desesperadas. Só que elas, infelizmente, não têm as capacidades de um Houdini para mostrar, uma nova vez, que tudo isto é falso, ilusório e uma mera fantasia.

Querem saber se o Espiritismo é verdade? A resposta passa por um teste simples – suponham que um familiar vosso faleceu. Suponham, igualmente, que lhe poderiam fazer uma só pergunta, muito concreta, à qual apenas ele próprio vos saberia responder. Que pergunta lhe fariam, nessa situação? E, honestamente, acham que uma pessoa que supostamente comunica com os espíritos saberia dar-vos essa mesma resposta, sem ter de andar a espiolhar a vossa vida (e as vossas redes sociais)? A resposta a essa potencial experiência deu-a Houdini, quando fez algo de semelhante – mesmo com a ajuda de incontáveis espíritas, ele jamais conseguiu obter a resposta que procurava, que a mãe ficou de lhe dar após a morte, denotando uma falsidade do Espiritismo que também é muito fácil de ver na obra anónima recomendada acima, como em algumas das obras de Kardec (que não recomendamos, de todo, até pela perda de tempo que são).

Por isso não se deixem enganar, o Espiritismo nada tem de verdade, é tão falso quanto a previsão do futuro pelas cartas de tarot e as seitas que prometem as maiores curas de todos os problemas da vida em troca de “um sacrifício” (sempre monetário, claro está)!

Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?

Afinal de contas, entre Apolo ou Hélio quem era o deus grego do sol? Ou, para voltar ao tema de há alguns dias, se escrevemos sobre Selene, e na altura nos referimos a ela como “a Lua”, depois de pensarmos um pouco mais no tema… a Lua não era Ártemis, a Diana dos Romanos?

Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?

Em ambos os casos, a resposta não é simples. É muito fácil encontrar diversos mitos gregos em que nos é dito que o deus grego do sol, ou o próprio Sol em si mesmo, era Hélio – isso acontece no mito de Faetonte, no Rapto de Proserpina, e sabemos até que o chamado Colosso de Rodes, que um dia guardou e entrada do porto dessa cidade grega, era inquestionavelmente este deus.

Mas, ao mesmo tempo, também é possível encontrar diversos mitos em que a mesma função solar era atribuída a Apolo – notavelmente, o facto de ele disparar flechas (como também o fazia a irmã, Ártemis) pode ser visto como uma metáfora para os próprios raios do sol – muitas vezes até sendo este deus designado por “Febo Apolo”, do Grego φοῖβος (phoibos, “brilhante”).

Face a esta dupla dificuldade, quem era o deus grego do sol, Apolo ou Hélio?

 

A resposta poderá surpreender alguns leitores, mas na verdade tanto Apolo como Hélio eram deuses do sol. O erro de se considerar que apenas poderia existir um único deus associado a esse astro – ou até mesmo à Lua – provém de um conhecimento incompleto dos mitos da Antiguidade, já que muitas vezes somos levados a acreditar, falsamente, que não só existia um único deus para cada coisa, como também essa figura divina se manteve completamente estável durante os séculos e séculos em que estes deuses foram venerados. Isso não é verdade!

Sol Invictus, outro deus do sol

Podemos até mostrar um grande exemplo deste problema. Quando, já no Império Romano, o culto a Sol Invictus se foi disseminando, ninguém duvida que essa se tratasse de uma divindade solar, até pelo seu nome. Mas, a acreditar-se que existia um único deus solar, será que os Romanos “expulsaram” um outro do seu panteão, para depois então adicionar este novo deus no seu lugar? A resposta é um óbvio não, até porque existiam pessoas que ainda veneravam o famoso Apolo de Delfos. Em vez disso, o que aconteceu foi que alguns cidadãos romanos veneravam uma dada figura que identificavam como o sol, e outros tinham para esse lugar um outro deus completamente distinto.

Falamos de Roma, sim, mas na Grécia o mesmo se passava. O deus grego do Sol em Rodes era, como não poderia deixar de ser, Hélio. Em Delfos certamente que seria Apolo, como é provável que também o fosse em Atenas, e assim por diante. Apolo, Hélio, Amon Rá (na Mitologia Egípcia), Sol Invictus, eram quatro divindades solares de tempos da Antiguidade, veneradas por pessoas diferentes de locais distintos, e para quem cada uma delas representava aquele sol que vemos no céu. Não havia um só deus grego do sol, uma entidade única com essa tarefa, mas sim um conjunto de figuras divinas que para diferentes pessoas simbolizavam esse mesmo astro. Eu poderia dizer que o Sol era Apolo, o meu colega do lado podia dizer que era Hélio, um familiar distante já podia referir-se antes a Mitra (ou Mitras, se preferirem esse nome), sem que nos zangássemos verdadeiramente por isso. Era tudo uma questão de opinião, pura e simples, e nada mais – e não era apenas uma escolha entre Apolo ou Hélio, Hélio ou Apolo, mas entre vários outros deuses que também podiam simbolizar divindades solares!

 

Não faz então sentido falar-se simplesmente de um deus grego do sol, de um deus do sol grego, ou mesmo de um só deus do sol nos tempos da Antiguidade. Existiam vários, de que Apolo e Hélio eram apenas dois, e cada pessoa era livre de os venerar como se fossem o sol – ou mesmo a lua, no caso particular de Selene e Ártemis – a seu belo prazer. É essa a melhor resposta que podemos dar a Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?, mas se alguém discordar dela pode, como sempre, deixar um comentário abaixo com a sua opinião pessoal, que certamente teremos todo o prazer em debater.