O segredo da Pedra Amarela, em Sintra

A lenda da Pedra Amarela, em Sintra, é bastante conhecida, mas por detrás dela esconde-se igualmente um segredo lendário. Mas adiantamo-nos. Há algumas semanas passeávamos pela floresta, com todo o cuidado necessários nestes dias, quando nos levantaram uma questão – “porque tem a Pedra Amarela esse nome? Não é por causa do Campo Base?”

Naturalmente que não, tentámos explicar, referindo então sucintamente a famosa lenda sintrense – uma velha tinha ouvido uma profecia segundo a qual, caso se conseguisse derrubar uma gigantesca rocha atirando-lhe exclusivamente ovos, por baixo desse local seria encontrado um enorme tesouro. Claro que nunca o conseguiu fazer, mas é isto que diz a lenda da Pedra Amarela – também conhecida como “Penedo dos Ovos” – associada à Serra de Sintra. Mas que verdade se esconde por detrás de toda essa história?

Pedras amarelas em Yellowstone

Por todo o mundo existem locais com nomes semelhantes. Desde o Yellowstone estado-unidense (o tal parque em que viviam o Zé Colmeia e o Catatau), até à montanha Guri i Kuq no Kosovo, passando pela Wong Shek chinesa, entre vários outros locais, são muitos os sítios que adoptaram este nome nas línguas locais e que, em comum, parecem ter a presença de rochas de uma cor amarela. Desconhecemos se todos esses locais têm, também eles, lendas individuais que explicam a origem dessa cor, mas em caso positivo é apenas natural que tenham nascido dos habitantes locais se interrogarem sobre este mesmo tema.

 

E é isso que é particularmente curioso nesta lenda da Pedra Amarela. O local que obteve esse nome não está muito longe da povoação mais próxima, a Malveira da Serra [de Sintra], e sabemos – através de outras lendas, como a da Peninha, que ficará para um outro dia – que os habitantes tinham por hábito pastorear os seus rebanhos pelos montes e vales. Pelo menos um deles se terá interrogado sobre a cor amarela de determinadas rochas, criando, talvez para acalmar a grande curiosidade de um familiar mais jovem ou para o incentivar ao trabalho (e.g. “vai lá levar as cabras a pastar, e vê se encontras o tesouro!”), uma pequena história que acabou por se tornar lenda oral, chegando aos nossos dias. A simplicidade da trama, bem como um conjunto de características que remetem para a cultura popular – o tesouro de origem desconhecida, uma crença muito tácita no oculto, a necessidade de se usar ovos na tarefa, a ausência de um início ou final concretos, etc. – fazem notar que esta lenda parece ter nascido para explicar a cor pouco frequente da chamada Pedra Amarela.

 

Então, primeiro foi encontrada uma pedra com um tom amarelo, algures na floresta de Sintra. Depois nasceu a lenda, procurando explicar essa cor, então vista como pouco comum. Ao longo do tempo foi-se perdendo o rasto da pedra original, mas sabia-se mais ou menos onde ela tinha estado, o que contribuiu para popularizar o seu nome numa dada região. E, finalmente, permanece agora o nome e a lenda, mas sem que ambos já se consigam ligar de uma forma mais concreta. Assim, o nome da Pedra Amarela permanece, também se sabe mais ou menos onde é essa zona, conhece-se a lenda, mas… onde está a pedra de que ela nos fala? Aquela à qual, segundo a famosa história, a velha atirou os seus ovos, procurando revelar um grande tesouro? Será que, a ter existido, esse tesouro ainda lá está, entre os muitos segredos escondidos em Sintra? Gostaríamos de ir procurá-lo, mas a sua localização já há muito que foi esquecida, face ao grande peso dos séculos…

A verdadeira lenda de Mulan

A figura de Mulan é conhecida na sociedade ocidental essencialmente devido a um filme da Disney que foi feito há alguns anos e sofreu um remake recentemente. Mas o que talvez muita gente ainda não saiba é que a trama dos filmes, de um modo geral, se baseia numa lenda chinesa. Por isso pergunte-se, o que diz a verdadeira lenda de Mulan?

Verdadeira lenda de Mulan

Esta figura, conhecida na China como 花木蘭 (ou Hua Mulan), aparece pela primeira vez num poema do século IV-VI d.C. que hoje toma o nome de Balada de Mulan. É um poema muitíssimo simples, cuja trama até pode ser resumida em meia dúzia de linhas – o pai de Mulan é convocado para a guerra, mas não tem filhos do sexo masculino que possam tomar o seu lugar. Então, esta personagem feminina compra o que necessita, junta-se às batalhas vindouras e luta durante 10 anos. Quando lhe oferecem uma recompensa pelos seus bons serviços, limita-se a dizer que apenas pretende um transporte rápido para casa. Voltando então a casa passado 12 anos, os seus companheiros notam pela primeira vez uma verdade que lhes estava oculta até então – Mulan era uma mulher! E assim, o poema termina com uma sequência que até faz pensar – “quando dois coelhos [de sexos opostos] correm lado a lado, quem sabe distinguir as suas formas?”

 

É esta a verdadeira lenda de Mulan, sobre a qual posteriormente serão construídas novas histórias e adicionados novos elementos. Por exemplo, nesta versão original nunca é dito o porquê da heroína se juntar à guerra, sendo apenas revelado que, na ausência de um irmão mais velho do sexo masculino, ela pretendia ocupar o lugar do seu pai. Depreende-se, muito vagamente, que de alguma forma ele estivesse incapaz de combater, mas o poema nunca diz isso. E o que as tramas posteriores fazem é tomar sugestões como estas e amplificá-las, sugerindo, por exemplo, que ela se possa ter apaixonado por alguém, ou que tenha tido algumas dificuldades iniciais em tornar-se guerreira, um conjunto de características que não aparecem, na verdade, nesta primeira e inicial versão de toda a história.

 

A verdadeira lenda de Mulan é, assim, pura e simplesmente a de uma jovem que decide ocupar o lugar do seu pai numa guerra, e que o faz durante mais de uma década sem que o seu verdadeiro sexo de nascença seja descoberto. Tudo o resto são adições posteriores a uma lenda original dos primeiros séculos da nossa era, que nunca dizia – como já referido acima – que ela se tivesse apaixonado por algum dos seus companheiros, ou tivesse tido dificuldades na guerra…

A não-lenda da Arranca-Pregos

Esta não-lenda da Arranca-Pregos é, pelo menos para nós, um pouco triste. Quem viver em Alcabideche, no concelho português de Cascais, poderá já ter visto, próximo de um cruzamento em terra-batida, um pequeno poço que está hoje totalmente coberto com uma espécie de laje de pedra. Os locais dizem tratar-se do Poço da Arranca-Pregos, mas a que se deve um nome tão singular?

Poço da Arranca-Pregos

Infelizmente, já ninguém nos soube dizer a sua história. Informaram-nos, isso sim, que existia na zona uma mulher que era conhecida por “Arranca-Pregos”, e que este poço foi um dia parte da sua propriedade. Disseram-nos igualmente que, faz já cerca de 80 anos, ela podia ser vista, idosa e sozinha, na companhia dos seus cães e dos seus porcos. Uma pessoa até nos disse, com um misto de cepticismo e de estranha certeza, que alguns anos após a morte desta figura alguém foi a casa dela e no seu interior, apesar da pobreza aparente, encontrou grandes riquezas. Mas o porquê do nome, a razão pela qual esta senhora era chamada assim, já ninguém sabe. Insistimos, uma e outra vez. Dizem-nos então que não sabem, não sabem mesmo, sempre a ouviram a ser tratada por esse nome, mas ela nunca falava com ninguém – ou, para sermos mais precisos, já não conseguimos encontrar ninguém que nos dissesse que tinha mesmo falado com ela.

 

É um pouco triste que já ninguém pareça saber porque a Arranca-Pregos tinha esse nome. Já ninguém se recorda sequer do nome com que essa mulher nasceu. E já ninguém se lembra de mais do que o que contámos acima. E assim, o Poço da Arranca-Pregos lá continua, na sua pedra semi-eterna, com o mesmo nome que um dia teve, mas sem que já ninguém saiba as verdadeiras razões por detrás da designação que agora tem…

A lenda do Castelo de Faria

A lenda do Castelo de Faria, uma antiga localidade de Portugal hoje no concelho de Barcelos, é relativamente simples, mas mostra-nos, como muitas outras – relembrem-se até casos como o de Monsanto ou da Padeira de Aljubarrota – a antiga paixão dos Portugueses face à defesa do país contra os muitos invasores que se nos aproximaram ao longo dos séculos.

Lenda do Castelo de Faria

Primeiro, alguma história bem real. No tempo do rei Dom Fernando I, na segunda metade do século XIV, Castela tentou invadir Portugal. Foram conquistando terreno pelo norte do país, até que se depararam com o (pequeno) castelo de Faria, que já então tinha esse nome. Contudo, se até aqui os eventos parecem ser completamente factuais, o que se passou nessa altura já é composto por um misto de lenda e história, sendo difícil saber-se os limites reais de cada um desses dois polos.

Diz o povo que nessa altura Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do castelo local, pegou no seu pequeno exército e tentou parar a invasão castelhana. Falhou a missão a que se propunha, sendo até nessa altura capturado pelos invasores. E então, de uma forma que só poderá ter sido muito inesperada, pediu aos seus captores que o levassem até às portas do castelo de que era alcaide, dizendo-lhes que pretendia aconselhar a rendição do local. Mas depois, escudado por esse subterfúgio, pediu foi ao seu próprio filho, Gonçalo Nunes de Faria, que jamais rendesse o local, devendo defendê-lo até à última gota do seu sangue – por essa imprudência foi logo morto no local, mas inspirado pela coragem deste seu pai, o filho defendeu o castelo com todas as suas forças, e este até jamais foi conquistado pelos invasores.

 

Hoje já quase nada resta do castelo de Faria medieval, aquele de que nos fala toda esta lenda e que pode ser visto na imagem ali em cima, mas os actos destes dois homens, pai e filho, ainda perduram na imaginação popular, ao ponto de ter sido colocada no local, em 1959, uma pequena placa a homenagear as acções honradas do alcaide, que muito contribuíram para a defesa nacional.

“Das Heresias”, de Santo Agostinho

Este Das Heresias, de Santo Agostinho, conhecido no original latino como De haeresibus ad Quodvultdeum, é particularmente digno de nota pelo facto de nos apresentar, de uma forma muito sucinta, as ideias em que acreditavam cerca de 88 heresias cristãs. O trabalho de compilação dessa informação não é só deste autor – ele admite explicitamente que utilizou conteúdo das obras de Epifânio de Salamina e de Filástrio, entre outros – mas a sintetização da informação recolhida parece ser exclusiva dele, permitindo ao leitor saber bastante sobre as crenças heréticas de uma forma bastante sucinta, sem que tenha a necessidade de ler páginas intermináveis para saber, por exemplo, a origem do nome dos Luciferianos.

Santo Agostinho, autor desta obra

Era possivelmente esse o objectivo do amigo que convidou Santo Agostinho a escrever este Das Heresias – tinha uma intenção de saber, sucintamente, em que acreditavam os heréticos, e a verdade é que entre as muitas seitas constantes nesta obra se contam opiniões verdadeiramente fascinantes. Por exemplo, um tal “Retório” – de que nem Santo Agostinho tem a certeza do nome – dizia que todos os heréticos tinham a sua razão; outros diziam que a Virgem Maria tinha tido mais filhos após o nascimento de Jesus; um terceiro e quarto grupos veneravam Caim e Seth; outro dizia que o Espírito Santo era filho de Jesus Cristo; pelo menos um acreditava que as águas primordiais eram co-eternas com Deus; uma estranha heresia já dizia que as partes mais baixas do corpo humano (i.e. os órgãos sexuais?) tinham sido criados pelo Diabo; outros recusavam exclusivamente o Evangelho Segundo São João; enquanto que ainda outros veneravam a cobra do Jardim do Éden. Em suma, as opiniões presentes aqui são mais que muitas, cada qual com a sua leitura muito particular de leitura das ideias bíblicas.

 

Quais estariam certos? Quais estão errados? É tudo uma grande questão de opinião, na medida em que foram as ideias católicas que subsistiram e, por isso, os que as praticavam tiveram de demonizar todas as outras, fazendo-as parecer o mais absurdas possível. E é, na verdade, isso que este Das Heresias nos permite ver, a forma como os textos bíblicos podiam ser interpretados para defender um conjunto de ideias muito distintas, sempre ao abrigo da “opinião”, aquela faca de dois gumes que o Cristianismo católico cedo tentou exterminar…