A Negação do Holocausto e a censura dos nossos dias

Há alguns dias entregaram-nos um livro curioso. Intitulado Did Six Million Really Die?, foi-nos dito que tinha sido proibido em vários países por “negar o Holocausto”, ou seja, supostamente porque defendia a ideia de que não morreram Judeus nos campos de concentração alemães na Segunda Guerra Mundial. A qualquer pessoa minimamente sana essa ideia da negação (ou negacionismo) do Holocausto parecerá uma abominação, e ela certamente defenderá com unhas e dentes a necessidade de remover deste mundo tais “lixos”, mas… o que raramente parece ser feito é ler esses textos antes de os submeter a uma tão medonha censura.

Capa deste livro

Por exemplo, no caso deste Did Six Million Really Die?, o livro jamais nega que o Holocausto tomou lugar. Questiona, isso sim, é que os números muitíssimo repetidos – i.e. os tais seis milhões de mortos exclusivamente judeus – sejam verdade. E, se alguém a lesse efectivamente, é uma obra que dá que pensar; por exemplo, num dado instante cita uma entrevista curiosa, em que se confrontam duas pessoas que estiveram num mesmo campo de concentração e que escreveram livros sobre as suas experiências. Uma diz que existia lá um fornalha em que eram mortas incontáveis pessoas, a outra diz que não viu nada disso… e quando essa segunda confronta a primeira, ela admite que também não viu nada disso, mas que “ouviu falar”, e que tendo ouvido falar, achou que ficava bem mencionar isso no seu livro, como se até fosse algo que viu mesmo com os seus próprios olhos.

 

Naturalmente que sabemos que a história é sempre escrita pelos vencedores, mas há um enorme perigo em se fazer este tipo de censura, porque dá muito a sensação de que se tem algo a esconder, em vez de se permitir que os outros possam defender as suas próprias ideias, mesmo que se afastem das da maioria. Quer dizer, todos gostamos muito de dizer que vivemos em liberdade, que já não existe censura, que podemos dizer o que quisermos… mas depois, quem procurar verdadeiramente pelo tema, acaba por se aperceber que existem efectivamente um conjunto de obras literárias cujo acesso continua a ser vedado ao público, de que a obra de hoje é um bom exemplo. Existem muitas outras, mas se ali o Sapo já censura este espaço e o impede de aparecer nos seus registos de publicações recentes, certamente que ainda mais nos viria a censurar se fossemos falar mais abertamente de temas como esses e referissemos especificamente que livros ainda hoje continuam proibidos em Portugal e no Brasil…

As “Jatakas”, de autoria desconhecida

Exemplos de Jatakas

As Jatakas, ou Histórias Jataka, de autoria desconhecida, são uma compilação de histórias provindas da Índia. No entanto, por comparação com um texto como o Panchatantra, apresentam uma característica muito curiosa, na medida em que as diversas histórias são todas incluídas em relatos sobre a vida de Buda. Passamos a explicar.

Segundo as crenças budistas a nossa vida é composta por um conjunto repetido de existências, cada uma delas supostamente um pouco melhor que a anterior. Nesse sentido, se o Buda atingiu o Nirvana enquanto vivia como Sidarta Gautama, isso supõe igualmente um conjunto de existências anteriores, em que aquele a que viriam a chamar “O Buda” passou por todo um conjunto de aventuras. O que os Jatakas fazem é ligar essas aventuras anteriores à figura do Buda existente num tempo que lhe era o presente, seguindo um padrão previsível – surge uma qualquer questão ou problem no tempo presente, e o Buda refere-se à forma como causou, ou resolveu, uma situação semelhante numa vida anterior.

 

Sabemos que as histórias existiam antes dessa sua associação ao Buda, possivelmente até em forma oral, porque elas existem em outras compilações anteriores, mas isso não as torna menos interessantes. Bem pelo contrário, a presença desse contexto permite, de alguma forma, apresentar um conjunto de comentários que até enriquecem as histórias originais, tornando mais fácil compreendê-las e explorar melhor os diversos elementos particulares dos seus enredos.

 

Mas será que vale a pena ler estas Jatakas? Para os leitores ocidentais, podemos resumi-las como mais de 500 histórias semelhantes a fábulas, mas com a adição dos pequenos comentários a cada uma delas já referidos acima. E se essa ideia basilar vos intriga, sim, talvez devam efectivamente lê-las.

16 anos que este espaço começou!

Bolo de Aniversário

Passou-se mais um ano e desta vez coube-me a mim a “honra” de escrever alguma coisa sobre este aniversário. Não sabia muito bem o que escrever, até que tive uma ideia – mais do que repetir o que já cá foi dito diversas vezes ao longo dos anos, eu gostaria, mais que tudo, de agradecer a todo e cada um dos leitores. Faço-o porque em dados momentos todos conseguimos compreender que pelo menos parte do nosso trabalho está a ser bem feito – há alguns dias houve uma trovoada aqui na zona de Lisboa e depressa recebemos vários visitantes que procuravam saber aquela oração de Santa Bárbara que afasta as trovoadas, que já nem sempre é fácil de encontrar. São momentos como esses que não podem deixar de nos fazer sentir um certo orgulho pelo trabalho que há mais de década e meia fazemos por aqui.

 

Será que, quando comecei a escrever estas linhas há todo esse tempo atrás, pensei que isto iria durar tanto tempo? Será que eu pensava continuar a escrever aqui passados todos estes anos? Não, claro que não, já há muito que eu teria quebrado, até pelo falecimento da minha melhor amiga (uma publicação que se optou por remover posteriormente), mas… se me pediram que continuasse, então com ajuda externa, tive e tenho de o fazer, porque se uma pessoa quiser saber mais sobre coisas como aquela oração e já não a conseguir encontrar, uma parte significativa do nosso conhecimento comum, enquanto humanidade, seria perdido… e isso seria triste, porque representaria uma perda de conhecimento completamente evitável.

 

Em suma? Quero, juntamente com os meus colegas, agradecer a todos os que lêem estas linhas, seja de uma forma continuada ou apenas porque uma busca por uma qualquer curiosidade os trouxe aqui. Em troca, apenas pedimos que caso o que leram vos interessar verdadeiramente, o partilhem também com outras pessoas – se escrevemos, é para todas e cada uma daquelas pessoas que nos vão visitando. Obrigado!

A lenda de Houyi e o Sol (e Chang’e)

A lenda de Houyi e o Sol, que depois continua com a de Chang’e, surge aqui no contexto da semana passada, em que contámos uma lenda chinesa conhecida sob o nome de Kuafu a perseguir o Sol. Por isso, achámos que também poderíamos começar esta nova semana com uma outra lenda do mesmo país, também sobre o Sol – a lenda de Houyi e o Sol, sendo que o seu herói tem diversos nomes, muitas vezes sendo apenas conhecido como Yi.

Houyi e os vários sóis

É-nos então contado que numa dada altura da história da humanidade existiam dez sóis no céu, cada um deles conduzido por um místico corvo de três pernas, todos eles irmãos. Agora, se por estes dias um só sol nos faz tanto calor, é natural que dez causassem muito mais problemas. Assim, o herói – queiramos chamar-lhe Houyi, apenas Yi, ou qualquer outro nome – decidiu usar o seu arco e flechas para resolver o problema, matando – com autorização divina – nove dos portadores dos sóis, que depressa se apagaram e foram depois precipitados para a terra. O décimo, esse, foi poupado por ordem divina, para que o nosso mundo não vivesse na mais completa escuridão.

 

Existem as mais diversas versões desta lenda, que essencialmente lhe adicionam uma história de fundo e explicam o porquê de Houyi ter poupado um dos sóis, mas na sua forma mais sucinta pode ser contada como o fizemos acima. E, nesta forma, é uma lenda relativamente simples, que essencialmente tenta explicar o porquê de só existir um único sol no céu dos nossos dias. Mas ela não fica por aqui, até porque algumas versões dizem que este herói tinha uma esposa, chamada Chang’e, que é tão ou mais famosa que ele, e cuja lenda também importa aqui recordar.

A lenda de Chang'e

Chang’e era, como já foi explicado acima, esposa de Houyi. Quando o herói destruiu os nove sóis a pedido dos deuses, estes decidiram recompensá-lo com um licor que o tornaria imortal, mas não querendo passar todo esse tempo só, pediu-lhes um pouco mais de líquido, para o poder partilhar com a esposa. O desejo foi-lhe concedido, levando ele uma espécie de garrafa para sua casa, que guardou com todo o cuidado, explicando até à esposa o que esse recipiente continha. E tudo estava bem.

Mas depois, um dia alguém veio a saber desse precioso tesouro que existia em casa de Chang’e. Procurando obtê-lo, invadiu a casa quando esta mulher se encontrava completamente sozinha. Com medo, ela fugiu para o quarto e preferiu, em vez de deixar este malvado homem tomar o precioso líquido, bebê-lo ela. Quando o fez, foi então transportada para os céus, onde acabou na Lua, sem que conseguisse voltar para casa, mas sentindo sempre a falta do seu amado marido. Felizmente, tem na Lua a companhia de um coelho, que se crê – entre outras versões – que para aí foi transportado em virtude da sua bondade, em toda uma sequência de lendas que ainda hoje são muito famosas em terras da China.

 

O que mais adicionar sobre toda esta história? Não são estas as únicas lendas que se associam a estas duas figuras, mas são provavelmente as mais famosas, merecendo por isso ser recordadas com estas linhas de hoje, para que ainda mais pessoas as possam conhecer. Ainda há poucos anos foi feito um filme animado sobre parte destas lendas – com título Para Além da Lua (ou, no original, Over the Moon), ele conta uma espécie de sequela de toda esta história, em que Chang’e – aí quase reduzida a uma deusa da lua – ainda busca o seu amado marido…

Qual a origem do horóscopo chinês?

Já cá foi falado antes sobre a origem do zodíaco ocidental, e quem tiver lido esses outros artigos poderá compreender, sem muita dificuldade, que existia um conjunto de lendas, muitas vezes variáveis, associadas a cada um dos seus signos. Mas depois, ao ler um qualquer jornal dos nossos dias, por vezes podem ser encontradas, aqui e ali, muito breves referências ao horóscopo e signos chineses, sob alguma forma como a representada abaixo.

Exemplo de horóscopo chinês

Quem pensar um pouco no tema depressa se aperceberá que este sistema, como apresentado nos jornais portugueses, é falsamente demasiado redutor, porque dá a ideia de que todas as pessoas nascidas num determinado ano partilham um mesmo destino comum, algo de tão absurdo que nem nos iremos dar ao trabalho de o refutar aqui. Na verdade, além de um animal associado ao ano, os chineses também parece ter animais associados ao mês lunar, aos dias da semana e até ás horas do dia, num esquema curioso em que, por exemplo, das 9h ás 10:59h é a hora da cobra porque é nessa altura que se supunha que ela saía do seu antro, enquanto que já os dragões tinham a hora precendente – 7h ás 8:59h – porque se acreditava ser essa a altura em que esvoaçavam frequentemente nos céus para trazer a chuva, e assim por diante.

 

Agora, claro que isto é tudo muito bonito, mas… porquê aqueles doze animais? Porque não um gato, ou um leão, ou um panda? Qual a origem do horóscopo chinês? Será que existe alguma lenda por detrás dos signos chineses?

 

Na verdade, existe efectivamente uma lenda para justificar a presença de cada um destes animais entre os presentes nos 12 seleccionados. Se o contexto de toda a aventura tende a variar aqui e ali – algumas versões dizem que foi o Imperador de Jade, o deus dos deuses, que fomentou estes acontecimentos, mas outras atribuem-nos ao Buda – diz-se então que numa dada altura existiu uma enorme corrida entre todos os animais, e depois foram premiados com a sua colocação num calendário com base na ordem em terminaram a corrida. Dito assim, isto pode parecer muito pouco interessante – quem irá acreditar que, por exemplo, um boi é mais rápido que um dragão, ou que o cavalo é mais lento que a cobra? – mas o que torna essa lenda especialmente interessante é o facto de existirem pequenos episódios que explicam esses vários problemas.

A corrida dos animais

Por exemplo, se um gato até entrou na corrida, acabaria por se afogar num rio (um rato empurrou-o para a água), nunca chegando ao fim. O dragão até teria sido o primeiro a chegar, dada a sua velocidade e capacidade para voar, não fosse o facto de ter parado para dar chuva a uma aldeia e ter ajudado outro animal. O porco chegou em último lugar porque, como dificilmente poderia deixar de ser, parou pelo caminho para chafurdar na lama e comer tanto quanto podia.

 

É possível que, originalmente, estas pequenas lendas tenham sido criadas numa espécie de mnemónica, para que as pessoas pudessem mais facilmente lembrar-se da ordem dos signos, mas não deixam de ser menos curiosas ou interessantes, até porque nos explicam a origem do horóscopo chinês e contribuem para justificar a presença de apenas alguns animais entre os representados nos signos chineses. Por isso, deixamos até uma pequena sugestão – da próxima vez que olharem para um esquema dos signos chineses como aquele apresentado ali em cima, tentem pensar no porquê da sua ordem, e que aventuras terão tomado lugar entre os vários animais para que , por exemplo, o cão só chegasse depois da ovelha. Até porque isto daria uma actividade muito interessante para a pequenada…