As Musas da Mitologia Grega (e o seu número)

Se o nome de musa é hoje associado quase exclusivamente a uma figura inspiradora das artes, a designação de Μοῦσαι vem das musas da Mitologia Grega. No seu geral, referia-se a um conjunto de irmãs divinas que eram uma espécie de padroeiras das artes, cada uma com um seu domínio individual. Mas quantas eram as musas gregas, qual era o seu número?

As Nove Musas Gregas

Por esta altura há sempre uma espertalhão que gostaria de poder gritar “nove, NOVE!”, mas essa ideia vem essencialmente de Homero e de Hesíodo, que pelo facto de se tratarem daqueles dois poetas mais eminentes acabaram por ter um enorme impacto nos autores que se lhes foram seguindo. Porém, existiam também duas outras grandes opiniões, com alguns autores a dizerem que elas eram apenas três, enquanto que outros afirmavam que o seu número era sete. Tenha-se em atenção que em qualquer um dos casos tratam-se de números puramente simbólicos, sendo muito provável que a sua quantidade tenha nascido antes dos seus nomes e identidades individuais.

 

Deixando de parte essa ressalva, dada a fama dos dois grandes poetas épicos gregos o número das musas, como já foi dado a entender acima, tende normalmente a ser considerado como nove, com as seguintes identidades, que ao longo dos séculos se foram tornando mais ou menos estáveis:

  • Calíope tinha o controlo da Poesia Épica.
  • Clio, a da História.
  • Erato era associada à Poesia Lírica.
  • Euterpe era a patrona da Música.
  • Melpomene estava ligada à Tragédia.
  • Polímnia era a figura associada aos Hinos (i.e. a música para os deuses).
  • Tália, a que estava por detrás da Comédia.
  • Terpsícore associava-se à Dança.
  • Urânia, finalmente, era a regente da Astronomia.

 

Agora, certamente que seria muitíssimo interessante deixar aqui alguns mitos associados a cada uma dessas figuras, mas raramente os há. Na verdade, salvo uma ou outra excepção menor (por exemplo, segundo uma versão do mito foram elas que julgaram um concurso musical entre Apolo e Marsias), as referências a elas provêm normalmente ou de evocações (e.g. “Canta, ó Musa, a cólera de Aquiles…”), ou de referências genealógicas (e.g. Orfeu era tão bom na sua arte que só podia ser filho de Calíope). Nesse sentido, podemos dizer que as Musas Gregas, mais do que figuras meramente mitológicas – em número de 3, 7 ou 9 – são, talvez mais que tudo, figuras simbólicas, como o Caos ou aqueles famosos 10000 deuses dos Romanos.

“Em Busca do Sobrenatural”, de Gan Bao

Um animal estranho

Gan Bao foi um autor chinês do século IV da nossa era. O que o torna digno de nota para estas linhas é uma obra que compilou e cujo título original pode ser traduzido como Em Busca do Sobrenatural, em que reporta muitos dos eventos ditos sobrenaturais que foram tomando lugar em terras da China ao longo dos anos. Agora, se essa ideia até nos poderá parecer interessante, a forma muito sucinta como o autor vai relatando a maior parte das ocorrências – mas frise-se que existem excepções, momentos em que ele até conta pequenas histórias com princípio, meio e fim – torna toda a obra muito maçuda. Por isso, nada como ver três pequenos exemplos do conteúdo da obra:

Além dos Mares do Sul existem sereios, que vivem na água e parecem peixes, mas eles sabem coser e tecer, e quando choram as suas lágrimas transformam-se em pérolas.

 

Uma dama que pertencia a Fu Han deu à luz um dragão, uma menina e uma pomba. O Comentário às Mudanças de Ching Fang diz “Quando alguém dá à luz alguma coisa nunca antes vista pelo Homem irão existir disputas no império.”

 

Yu Tang foi caçar à noite, encontrou um enorme veado e acertou-lhe com uma flecha. O veado falou com voz humana, dizendo “Yu Tang, tu mataste-me!” Quando o próximo dia nasceu ele encontrou o veado e levou-o para casa. Quando chegou, Tang morreu imediatamente.

 

Pequenas sequências como estas até nos permitem saber mais sobre a cultura chinesa da época, e sem dúvida que nos deixam muitíssimas perguntas engraçadas/estranhas por responder, mas… será que os leitores dos nossos dias acham piada a ler “curiosidades” desta natureza durante mais de 200 páginas? Normalmente a resposta tende a ser negativa, acabando esta Em Busca do Sobrenatural, de Gan Bao, por ser uma obra melhor consumida em quantidades moderadas e por uma audiência muito específica.

A lenda de Kuafu a perseguir o Sol

A lenda de hoje vem de terras da China e parece ser tão popular que existem múltiplos livros infantis chineses em que é recordada. Porém, serão provavelmente poucos aqueles que a conhecem em países lusófonos, razão pela qual achámos que a poderíamos contar nestas linhas.

Kuafu e o Sol

Kuafu era um gigante que numa dada altura da sua vida decidiu seguir o Sol. Segundo alguns fê-lo porque queria desafiá-lo para uma corrida, enquanto que outros dizem que ele queria era capturar esse astro celeste. Mas, independentemente dessa razão, Kuafu perseguiu o Sol durante dias e dias; pelo caminho, sentindo-se a desfalecer, foi bebendo as muitas águas dos muitos rios com que se cruzou, mas nem todos eles conseguiam afastar a sua sede. Então, cada vez mais cansado, acabou mesmo por falecer, enquanto que o Sol, esse, continuou o seu caminho como antes – impávido, sereno e inabalável.

 

Esta lenda parece ter gerado uma expressão proverbial entre os habitantes da China, definindo-se “Kuafu a perseguir o Sol” como alguém que se propõe a uma tarefa inatingível e em que tem demasiada confiança injustificada nas suas próprias capacidades. Claro que o gigante jamais poderia vencer o imenso poder do astro-rei, e talvez seja mesmo essa a lição a retirar desta lenda, a necessidade que todos temos de não nos propormos a tarefas demasiado inatingíveis.

A freguesia de Fafe que mudou de nome – Passos VS Paços

“Como é que Pharmácia se tornou Farmácia?” É provável que já tenham sido muitos os que se interrogaram sobre questões sobre estas, mas o que trazemos cá hoje é um exemplo português bem real que demonstra a forma como os nomes das coisas se podem ir alterando ao longo dos tempos.

 

No concelho de Fafe, no norte de Portugal, existe uma pequena freguesia que tinha o nome de Passos, mas que recentemente o mudou para Paços.

O brasão de Passos, em Fafe

Os corvos mantêm-se na bandeira, as uvas também, e tudo o restante continua por lá, mas o nome da localidade foi então alterado de Passos para Paços. E porquê? Segundo a informação que nos foi prestada, em tempos antigos existiam nesta região um conjunto de residências que poderiam ser definidas como torres ou uma espécie de palácios. Depois, ao longo dos séculos, esses locais foram desaparecendo e as pessoas começaram a perder o verdadeiro significado por detrás do nome, confundindo, talvez por ignorância, paços com passos. Ás tantas, lá se descobriu que o nome certo era verdadeiramente Paços, pelo que se optou por corrigir o problema…

 

Queiramos ou não, este tipo de problema é muito frequente. De onde vem o nome de Campa do Preto, do Estoril, de Freixo de Espada à Cinta, de Pé de Cão, de Solteiras, de Terra da Gaga, e de tantas outras terras espalhadas por Portugal? Qual a verdadeira origem desses nomes? Normalmente quem lá vive até tem uma certa ideia da resposta, mas demasiadas vezes a razão do nome original acaba por se perder, ficando as terras órfãs de significado. E depois, com nomes que parecem já não fazer qualquer sentido, ou mudam de nome (recorde-se, por exemplo, a transformação da Porcalhota em Amadora, ou o caso de Cintra e Sintra…), ou são recriadas histórias, nem sempre verdadeiras, para os justificar. E assim, Passos lá voltou a Paços, agora com um nome que se pensa ter sido o original e mais verdadeiro…

Izanagi, Izanami e a primeira relação sexual

Izanami e Izanagi na Ponte do Céu

Nos mitos do Japão Izanami e Izanagi são parte das sete gerações de deuses primordiais. Foram eles os criadores de muitas outras divindades, entre as quais se contam os famosos Susanoo e Amaterasu e as diversas ilhas do arquipélago do Japão, mas o foco de hoje é na forma como essa sua prole, muitíssimo diversa, foi concebida. Claro que existem, por todo o mundo, diversos relatos da forma como as relações sexuais foram inventadas, desde a Inana da Suméria até a diversos mitos regionais do Brasil, mas raramente são tão claros, ou tão poeticamente belos, como o que o Kojiki nos diz. Segundo esta fonte nipónica, num dado momento da sua vida Izanagi aproximou-se a irmã-esposa e disse-lhe o seguinte:

O meu corpo, formado da forma que o foi, tem um local em que foi formado em excesso. Então, eu gostaria de pegar nesse local que foi formado em excesso e inseri-lo naquele local do teu corpo no teu corpo que foi formado de forma insuficiente, e assim conceber a terra. Que te parece isto?

 

Izanami limitou-se a responder-lhe que lhe “parecia bem”, ao que o seu irmão-esposo lhe respondeu depois:

Então, andaremos em círculos em redor deste pilar celeste e iremos encontrar-nos e ter uma relação conjugal.

 

Os resultados deste primeiro episódio de sexo acabariam por mostrar-se parcialmente imperfeitos, mas essa é uma história que terá de ficar para um outro dia. O que não pôde deixar de nos fascinar, nesta descrição daquela que se tornou a primeira relação sexual dos mitos japoneses, é a forma tão simples, quase digna de uma criança, como todo o processo é definido, desde aquela que poderia ser vista como uma “imperfeição” presente nos dois géneros até à forma como, posteriormente, contornando um pilar por lados opostos os amantes se reencontraram face-a-face e fizeram amor. Parece-nos, como já referido acima, um momento poeticamente belo; mesmo que supostamente falsa, não é deixa de ser um bonito momento para explicar como os deuses inventaram o acto de fazer amor ou sexo.