“O Livro dos Seres Imaginários”, de Jorge Luis Borges

Capa do livro

O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, pode ser sucintamente resumido como um bestiário dos nossos dias. Contém informação breve – desde um parágrafo até duas ou três páginas – sobre mais de uma centena de criaturas. Em comum, e como nem poderia deixar de ser em virtude do título da obra, têm o facto de serem imaginárias, que ocorreram na literatura e ficção desde os tempos do Épico de Gilgamesh até quase aos nossos dias.

 

Agora, a grande questão terá de ser… será que este Livro dos Seres Imaginários é uma obra literária recomendável? Aí é que a proverbial porca já torce o rabo – quem já conhece as criaturas que aparecem no livro pouco de novo aprenderá aqui; quem ainda não as conhece, e salvo raras excepções, só em muito poucos casos é que são dadas informações bibliográficas suficientes para que se possa desenvolver essa exploração adicional. Nesse sentido, é um livro um tanto ou quanto inconsistente, que num momento chega a dizer em que verso de Orlando Furioso primeiro surgem os hipogrifos,  e momentos depois menciona criaturas chinesas que poucos ocidentais conhecerão sem que nos seja informado onde podemos vir a saber mais sobre elas. Por razões como essas, esta é uma obra digna de nota, mas não tanto uma obra que recomendemos.

A “Visão de Túndalo” e o inferno medieval

Um episódio da Visão de Túndalo

A Visão de Túndalo, conhecida no original latino como Visio Tnugdali, pode ser vista como a grande predecessora medieval da visão do inferno de Dante Alighieri. Na verdade, quem for ler os dois textos poderá, sem muita dificuldade, notar que existe uma relação notória entre eles, sendo muito possível que o poeta italiano até conhecesse este poema do século XII. Mas, se a obra italiana é muito famosa, qual é a trama desta Visão de Túndalo? Podemos resumir este poema de uma forma breve:

 

Túndalo era um cavaleiro rico que conduzia a sua vida cometendo os maiores e mais brutais pecados. Depois, um dia, enquanto jantava, caiu num enorme torpor e sentiu-se a morrer. Foi parar ao inferno, onde, acompanhado por um anjo, não só viu as muitas torturas que existiam por lá como até teve – não porque o quisesse, mas porque a isso foi obrigado – que participar nelas, sentindo parte dos sofrimentos que os pecadores também passavam.

A essa visão do inferno – certamente o elemento mais famoso da obra – segue-se uma pequena visão dos penitentes e do feliz destino daqueles que tinham seguido uma vida conforme os preceitos do Cristianismo. E, face a todas essas visões, Túndalo fica tão impressionado que quando volta ao mundo dos vivos, corrige por completo todos os seus comportamentos negativos, dá as suas riquezas aos pobres e torna-se um homem santo.

 

Mesmo por esta breve sinopse, quem conhecer a Divina Comédia conseguirá entender as semelhanças. Porém, o que Dante parece ter adicionado ao tema é um elemento particularmente curioso, em que a punição dos diversos pecadores é ligada de uma forma directa aos seus próprios crimes, enquanto que neste poema essa relação ainda não era assim tão consistente e notória. Além disso, o próprio sofrimento de Túndalo pode ser resumido num simples e repetitivo “ele viu X, depois passou por isso, e finalmente o anjo salvou-o desse castigo”, tornando a obra significativamente formulaica.

 

Enfim, a Visão de Túndalo não é uma obra literária muito interessante para o leitor comum, essencialmente porque nos apresenta um conjunto de ideias que depois foram reutilizadas, com um resultado muito mais digno de nota, na Divina Comédia. Porém, é uma obra notória para quem tiver curiosidade relativamente à forma como o conceito do pós-vida cristão foi evoluindo ao longo dos séculos.

O mito da deusa Éris, personificação da discórdia

A deusa grega Éris podia ser só mais uma personificação como tantas outras. Podia ser uma daquelas figuras de que raramente nos lembramos, como Fobos (o medo), Deimos (o pânico), ou até os Erotes, mas bastou uma só participação na Mitologia Grega para a tornar uma das mais famosas deusas da Antiguidade Clássica.

Uma maçã na mesa dos deuses

Conta-nos o mito que numa data incerta os deuses celebraram o casamento do mortal Peleu com a ninfa Tétis. Todas as figuras divinas foram convidadas, da maior à mais pequena, com uma única excepção – a deusa Éris, a discórdia personificada.

Naturalmente zangada pela ausência de convite para um banquete em que até seres disformes estiveram presentes, a deusa rapidamente decidiu vingar-se – enviou ao banquete uma prenda, uma maçã (ou pomo) com a inscrição “Para a mais bela”. E o resto, como se costuma dizer, é história.

 

O que não pode deixar de ser particularmente fascinante neste mito é o facto de esta deusa Éris, personificação da discórdia, ter um único papel e presença real nos mitos gregos, mas é um papel fulcral na instigação da Guerra de Tróia, cuja fama até chegou aos nossos dias. O seu nascimento aparece em Hesíodo, a deusa é mencionada como uma mera personificação em diversas outras histórias, mas esta sua intervenção directa no casamento de Peleu e Tétis é hoje o único instante em que ela age por si mesma. E talvez isso até explique o porquê dos Romanos venerarem a deusa Concórdia, não fosse o proverbial diabo tecê-las e Éris, a Discórdia sob o seu nome grego, voltar a fazer das suas…

Fenghuang, a Fénix Chinesa, e como se distingue da ocidental

Fenghuang, a Fénix Chinesa, tem nas obras de mitologia um papel parcialmente enganador, porque as referências a ela induzem um pouco o leitor ocidental em erro. Na verdade, há alguns dias, enquanto líamos um dado texto chinês, deparámo-nos com esse problema – o texto, lido em tradução inglesa, mencionava uma “fénix”. Estranhámos a referência, porque isto poderia levar a uma (falsa) ideia de que diversas culturas por todo o mundo acreditavam numa mesma criatura com características análogas à da nossa Fénix. Mas, na verdade, o que o texto mencionava em chinês era uma criatura que hoje é conhecida como Fenghuang, e que pelas razões que mostraremos abaixo tende a ser traduzida entre os ocidentais como “fénix”.

Será Fenghuang?!

Deixe-se muito claro que Fenghuang é uma criatura significativamente diferente da fénix ocidental. O seu nome nasceu da junção de uma espécie em que o elemento masculino era chamado Feng e o feminino Huang – juntando-se ambos num só corpo, assim nasceu esta Rainha dos Pássaros e símbolo chinês do nosso ponto cardeal sul. Este animal, também conhecido em Japonês como Ho-ho, é um dos quatro animais sagrados chineses e um símbolo da imperatriz (por analogia ao dragão Yinglong, símbolo do imperador), com cada uma das suas cores a ter uma simbologia muito específica.

 

Mas então, porque é o nome deste pássaro normalmente traduzido como “fénix”? Não tem qualquer relação simbólica com o fogo ou ressurreição, mas essa convenção poderá ter vindo do facto de só existir uma Fenghuang, tal como a Mitologia da Antiguidade nos diziam que só existia uma única fénix – ou seja, eram ambas criaturas únicas e do sexo feminino. No entanto, a relação entre estes dois pássaros parece terminar precisamente nessa coincidência, sendo esta portanto uma tradução muito imprecisa…

O “Cantar de Mio Cid” – e qual é o mais antigo poema épico português?

Cavaleiro

O Cantar de Mio Cid é o mais antigo poema épico espanhol (e ibérico). Conta-nos parte da história de um famoso herói espanhol, Rodrigo Díaz de Vivar, que viveu no século XI e ficou conhecido para a história como “El Cid” e “Campeador“. A história começa com o exílio deste herói da corte de Afonso VI (de Castela, obviamente), e prossegue com várias aventuras até à morte do herói.

 

Claro que os combates abundam neste épico, mas o que é particularmente digno de nota é que este poema se inspira em múltiplos factos bem reais, salvo um ou outro elemento ficcional menor – por exemplo, nunca é mencionado que El Cid teve um filho, e a trama só lhe associa duas filhas, que são dadas em casamento a dois irmãos (ficcionais). Porém, e apesar desse grande carácter real, esta não é uma criação poética enfadonha, puramente histórica, mas uma que até dá algum prazer de leitura, mesmo na completa ausência daqueles elementos mágicos e fantasiosos que acabarão por caracterizar as aventuras de cavalaria mais recentes.

 

Após a leitura dos seus versos temos agora uma curiosidade para oferecer. Perto do final da trama deste Cantar de Mio Cid tem lugar um momento numa espécie de tribunal, em que é dado um papel de juiz a um membro da corte castelhana chamado “Henrique” – é provável que se trate de Henrique de Borgonha, pai do “nosso” Afonso Henriques, unindo de uma forma ténue este escrito de nuestros hermanos ao nosso país.

Mas, ao mesmo tempo, isto suscita-nos uma grande dúvida – se este é o mais antigo poema épico espanhol, qual foi o primeiro composto em Portugal? Já ouvimos vários especialistas teorizarem um possível épico sobre os grandes feitos de Afonso Henriques, que já não chegou aos nossos dias e que possivelmente até seria o primeiro da pátria portuguesa, mas então… qual é o mais antigo poema épico português que ainda podemos ler? Será que alguém sabe?