A lenda da Gruta da Moeda

A lenda da Gruta da Moeda remete-nos para um espaço muito próximo da cidade portuguesa de Fátima. É, como o respectivo site nos informa, uma gruta com extensão visitável de cerca de 350 metros, cuja beleza nos pode ser apresentada parcialmente nesta fotografia panorâmica tirada por um dos seus visitantes:

Porém, o que nos interessa particularmente é a sua lenda. O site já mencionado acima relata a seguinte:

Em tempos idos, um homem abastado destas redondezas ao passar por um bosque, em torno de um algar, foi assaltado por um bando de malfeitores que lhe tentaram saquear a bolsa de moedas que trazia à cintura. Com a confusão do assalto, o homem caiu para dentro do algar, levando consigo a bolsa de moedas tão cobiçada pelos assaltantes. Pelo precipício se espalharam e perderam irremediavelmente as moedas, dando ao algar o nome pelo qual ainda hoje é conhecido – Algar da Moeda.

 

Contudo, há já alguns anos contaram-nos uma versão popular significativamente diferente. Segundo ela, a “Gruta da Moeda” tinha esse nome porque quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, numa das viagens para o seu encontro com os Três Pastorinhos deixou cair a sua carteira numa gruta próxima do local, onde viria a ser encontrada alguns anos mais tarde.

 

É possível que esta segunda versão se trate de um mero mito, ou de uma versão um tanto ou quanto satírica da outra lenda da Gruta da Moeda, mas o que ambas nos mostram é um aspecto das lendas e mitos que foi sendo repetido ao longo dos séculos – um local tem um determinado nome (ou característica), a razão original perdeu-se com o tempo, e então surgem tentativas de justificar o nome conhecido de diversas formas, algumas mais naturais do que outras.

As estranhas cabeças dos deuses do Antigo Egipto

Não é preciso perceber-se muito sobre estes temas para reconhecer que existem elementos característicos em todas as mitologias. Por exemplo, os santos cristãos têm auréola; os deuses gregos podem transformar-se; os deuses índicos reencarnam múltiplas vezes; e os deuses do Antigo Egipto tinham estranhas cabeças de animais.

Parada de deuses egípcios

Talvez essas estranhas cabeças dos deuses egípcios tenham nascido de uma necessidade de preservar sob forma humana a sua divinização dos animais. Talvez tenham nascido de visitas de extraterrestres. Talvez tenham vindo de mitos já há muitos perdidos (já voltaremos a esse tema). Não sabemos qual é a resposta correcta, mas o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que quando imaginamos um qualquer deus do Antigo Egipto, fazemo-lo com corpo humano mas cabeça de animal. Agora, catalogar todas essas cabeças dos deuses seria difícil, até porque variam (i.e. um deus não tem sempre a mesma cabeça), mas o que poucos parecem saber é que os atributos dos deuses são frequentemente dois – a cabeça de animal e outro elemento  a ela externo.

 

Olhando para a imagem acima, o deus Rá pode ser visto com cabeça de falcão, mas igualmente com um círculo solar engolido por uma cobra, relembrando o mito de Apófis. O deus Sobek, com cabeça de crocodilo, tem uma espécie de coroa com duas penas de avestruz, por razões que já desconhecemos. Thoth tem cabeça de íbis, juntamente com o círculo lunar sobre a sua cabeça.

 

Mas de onde vêm todas essas ideias? Porque têm estes deuses do Egipto tanto cabeças de animais como outros atributos? Já não se conhece qualquer mito que o explique, mas existe uma pequena pista nos mitos da Grécia – quando Tífon atacou o Olimpo, é-nos dito que os vários deuses fugiram para o Egipto e adoptaram a forma de animais, de que o exemplo dos peixes é o mais famoso. A ideia permitia um sincretismo religioso, mas pode igualmente levar-nos a considerar que terá existido um tempo em que os deuses ainda não tinham as suas estranhas cabeças, tendo-as recebido após algum episódio mítico hoje perdido.

 

Será verdade? Será que o mito grego preserva parte de um mito egípcio hoje esquecido? Não sabemos, até porque, por definição, um “episódio mítico hoje perdido” implica que não tenhamos qualquer acesso a ele. O que sabemos, no entanto, é que como já foi dito acima os deuses do Antigo Egipto não tinham sempre as mesmas estranhas cabeças. Os deuses e as suas formas variavam, evoluíam, como é natural numa cultura que se prolongou por vários milénios.

 

Talvez seja essa a grande lição a retirar destas linhas, o facto de, numa cultura que subsistiu por vários milénios como a do Antigo Egipto, não se dever esperar uma consistência horizontal inesgotável. Mais do que dizer que Sobek tinha cabeça de crocodilo e Anubis a de um chacal, é mais correcto dizer-se que um dos atributos desses deuses é o facto de, em dadas alturas, serem representados com as estranhas cabeças desses animais.

Qual a verdadeira origem do hipogrifo?

A criatura conhecida por este nome é-nos hoje famosa das aventuras do Harry Potter, mas qual é mesmo a verdadeira origem do hipogrifo? Talvez sejam agora poucos os leitores que ainda o sabem, mas esta criatura não foi totalmente criada por J. K. Rowling, tendo até uma origem literária significativamente ilustre, que já vem do século XVI da nossa era.

Harry Potter e o Hipogrifo

Mas, antes de nos focarmos nesse ponto em concreto, há que perguntar – afinal, o que é um hipogrifo? Não pode ser encontrado num jardim zoológico, mas, essencialmente, é uma criatura híbrida, composta por partes de três animais distintos – um cavalo (do grego hippos) e um grifo, este segundo por sua vez um híbrido composto pelo corpo de um leão e uma águia. Tanto na sua constituição física como no seu carácter, ele retira alguns aspectos particulares de cada um desses três animais – por exemplo, pode voar como a águia, tem a força do leão e a velocidade do cavalo. A origem do hipogrifo, ou do seu aspecto físico, prende-se então com as características conjuntas desses animais.

 

E então, qual foi a origem e a primeira aparição literária do hipogrifo? Se a ideia de acasalar grifos com cavalos já aparece na literatura da Antiguidade para significar algo que é certamente impossível de fazer (até pela dificuldade em encontrar os primeiros…), a aparição mais famosa deste animal é na obra italiana Orlando Furioso, em que um dos heróis (e um vilão, se a memória não nos está a enganar, que já lá vão alguns anos…) até o monta no decurso das suas aventuras de cavalaria. Será que J. K. Rowling leu essa obra, ou terá conhecido esta criatura fantástica através de algum outro texto mais recente? Não sabemos, mas é um bom exemplo de como essa autora reutilizou o património cultural e literário dos séculos passados para as suas aventuras, como também aconteceu nos casos do Basilisco,, da Manticora e de expressões como Avada Kedavra

As lendas de dois buracos muito grandes

Um buraco muito grande e perigoso

As duas pequenas lendas de hoje falam-nos de dois locais completamente distintos, mas até têm um elemento comum que os une – são dois buracos muito, muito grandes e profundos. De facto, dois buracos tão grandes que acabariam por se tornar famosos em virtude de nos ser completamente impossível ver o seu fim com os nossos próprios olhos.

 

Um buraco muito grande na Rússia

O primeiro destes buracos foi na Rússia, e foi alegadamente escavado numa data imprecisa dos últimos anos do século XX. Com mais de 12 Km de profundidade, a lenda diz-nos que em dada altura quem o escavou – com uma máquina, obviamente – se deparou com um espaço oco. Quando baixaram uma câmara e um microfone nesse local, encontraram então algo completamente inesperado – o buraco era tão profundo que tinham chegado ao Inferno! Sim, aquele Inferno em que se diz que os pecadores serão punidos após a morte, e pouco depois um demónio até saiu do buraco e atacou os responsáveis por todo este prodígio.

 

Um buraco muito grande nos EUA

O segundo buraco, e respectiva lenda, vem-nos dos Estados Unidos da América, e ficou conhecido como o Buraco de Mel [Waters], que é o nome do homem a quem pertencia o terreno em que alegadamente estava localizado. Segundo ele, na sua propriedade havia um buraco sem fim, que até tinha a propriedade miraculosa de trazer animais de volta à vida, mas nunca ninguém conseguiu localizá-lo, e procuras pelo mesmo no Google Maps também falharam.

 

Agora, o que têm estes dois buracos em comum? Mais que tudo, o facto de não existirem quaisquer provas reais e palpáveis da sua existência. Na verdade, até se sabe que o primeiro deles – e a respectiva história – é pura e simplesmente fictício, enquanto que mesmo aqueles que afirmam já terem visto o segundo não conseguem localizá-lo quando lhes é pedido que o façam. E isso poderá levar-nos a crer, de forma muito bem justificada e compreensível, que ambos os buracos são pura ficção, nada mais que uma lenda dos nossos dias.

Porque é que os Egípcios construíram pirâmides?

A Pirâmide de Unas

Hoje fizeram-nos uma pergunta que não podemos deixar de considerar fascinante – porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Já todos ouvimos falar das pirâmides como túmulos, como portais para outras dimensões, como naves espaciais escondidas, entre outras tantas ideias muitíssimo estranhas, mas porquê pirâmides? Porque não cubos, ou simples buracos no chão, ou enormes templos, ou até qualquer outra forma geométrica?

 

Existem várias teorias, mas uma das possibilidades mais interessantes para ser abordada neste espaço poderá ter a ver com um mito da criação egípcia. Segundo ele, originalmente só existiam águas sem fim… até que um dia, por razões hoje desconhecidas, surgiu um monte no meio da água, como se da barriga de uma mulher grávida se tratasse. Desse monte foi dado à luz um enorme ovo. Finalmente, desse ovo primordial nasceram os primeiros deuses.

 

A forma das pirâmides, enquanto elevação pouco natural na superfície da terra, poderá remeter-nos de volta para esse mito inicial da criação. O faraó morreu, é sepultado num local que relembra essa gravidez inicial da terra, e depois nasceria dela, de forma sobrenatural, entre os próprios deuses, numa espécie de repetição teatral do mito da criação.

 

Será esta a resposta correcta e verdadeira a porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Não sabemos, nem é possível que se venha a ter qualquer certeza sobre o tema, mas de um ponto de vista da intersecção entre mito e ritual esta é uma razão suficientemente interessante para ser mencionada por cá.