As Profecias do Bandarra, o mito do Encoberto e o Quinto Império

As Trovas ou Profecias do Bandarra

O que dizer sobre as Profecias (ou trovas) do Bandarra? Supostamente foram escritas na primeira metade do século XVI por um sapateiro de Trancoso, chamado António Gonçalves Annes Bandarra ou Gonçalo Annes Bandarra, que nos ficou conhecido só pelo seu apelido de “Bandarra” e que fez profecias em verso. De um ponto de vista puramente literário, os versos nesta obra não parecem ter nada de muito digno de nota – na verdade, até admitimos que nem teríamos perdido qualquer tempo a lê-los se não fosse o impacto significativo que tiveram num dado momento da história de Portugal.

 

Explique-se. Numa data já pouco precisa este sapateiro começou a escrever versos supostamente proféticos, que – de acordo com o seu conteúdo – lhe parecem ter sido divulgados em sonhos. E, por razões que não são totalmente claras, esses versos tornaram-se muito populares entre o povo. Se, e como já foi dito acima, de um ponto de vista literário ou académico não têm nada de especial, as trovas de Bandarra também prometem um conjunto de fantásticos eventos futuros associados a uma figura nacional a que o autor chama o “Rei Encoberto”, um monarca que seria então capaz de levar Portugal a tornar-se o Quinto Império, aquele que hoje tão bem conhecemos de alguns poemas de Fernando Pessoa.

 

Agora, o seu autor nunca diz, de uma forma totalmente clara e indiscutível, quem viria a ser esse rei, mas passado algumas décadas um acidente do destino trouxe essa figura lendária de volta à ribalta – o desaparecimento de D. Sebastião em Ceuta, no ano de 1578. Na ausência de um corpo, naquele inesperado choque pela perda de um monarca, e confrontado com um novo domínio de Espanha, gerou-se um problema entre a população – ou as famosas Trovas de Bandarra eram falsas, ou o rei desaparecido teria de voltar a Portugal para cumprir o seu destino e se tornar a figura profetizada em versos como os seguintes:

Ja o Leaõ he experto
Mui alerto.
Ja acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto,
Do Leaõ, e seu bramido,
Demostra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.

 

Até a um leitor dos nossos dias, que queira acreditar minimamente em profecias, poderá ver nestes versos uma ténue alusão ao que aconteceu a Dom Sebastião. E, por isso, algumas pessoas pensavam mesmo que o rei ia voltar um dia. Já outros, algumas décadas depois, pensavam que essa profecia se aplicava era a D. João IV, o primeiro monarca após o domínio filipino, com base nos seguintes versos:

Saia, saia esse Infante
Bem andante,
O seu nome he D. Fuão [ou D. João, mediante a edição consultada],
Tire, e leve o pendão,
E o guião
Poderoso, e tryunfante.

 

Se a suposta profecia se devia aplicar a Dom Sebastião, a Dom João IV, a outro monarca futuro, ou até se tratava de uma mera ficção do sapateiro-poeta, é algo que já não podemos ter a certeza, mas o povo parecia acreditar que as profecias compostas por Bandarra, como tantas outras da mesma época, eram completamente verdadeiras e, como tal, algum monarca teria de vir a transformar Portugal num Quinto Império. Primeiro pensou-se no Sebastião desaparecido; após a ocupação castelhana em João IV; mas à medida que os anos foram passando voltou-se à ideia de um D. Sebastião… não do rei desaparecido em Ceuta, visto que ele já só poderia estar morto, mas numa versão puramente lendária dessa figura. E assim se criou, em parte, aquela grande lenda de que ele voltaria numa manhã de nevoeiro, para conduzir o país ao ideal do Quinto Império…

 

Para terminar, o grande sapateiro por detrás de toda esta história, para quem tiver essa curiosidade, após a morte foi sucessivamente visto como um grande herói ou como uma figura muito negativa, mediante o tempo e a quem fossem pergutando. No melhor dos seus tempos após ter falecido, esteve enterrado na Igreja de São Pedro, em Trancoso, e fez-se-lhe homenagem uma lápide com o seguinte texto:

Aqui jaz Gonçalo Annes Bandarra, que em seu tempo profetizou a restauração deste reino, e D. Álvares de Abranches lha mandou fazer sendo General da Beira, ano de mil seiscentos e quarenta e um.

Porque se diz que as aranhas dão sorte ou dinheiro?

Aranha e dinheiro

Em Portugal é comum dizer-se que as aranhas não devem ser mortas, porque estão associadas a uma crença simbólica em que elas dão sorte e/ou dinheiro, ou que matar aranhas dá azar. Mas de onde vem essa ideia?

 

Sobre a origem deste crença, contaram-nos esta história há já alguns anos, que supostamente vem da região de Bragança. Quando Herodes desejou matar todos os recém-nascidos, a família de Jesus Cristo fugiu para o Egipto – e esse é um momento que está no Novo Testamento. Contudo, a história seguinte já é completamente apócrifa:

 

No seguimento do episódio bíblico, através de um delator judeu alguns soldados romanos foram informados da fuga e decidiram perseguir Maria, José e Jesus a cavalo. Então, para poderem escapar aos perseguidores, esta família escondeu-se no interior de uma caverna. Nesse momento teve então lugar um pequeno milagre – uma aranha que habitava o local apressou-se a tecer uma enorme teia que cobriu toda a entrada. Assim, quando os soldados lá chegaram e a viram coberta por teias de aranha, foram levados a pensar que seria impossível que alguém aí tivesse entrado recentemente, e continuaram então a sua busca para outro sítio.

Como agradecimento por esta ajuda, Deus depois recompensou as aranhas, dando sorte, felicidade e dinheiro a todos aqueles lugares em que elas decidam construir as suas teias.

 

Esta é uma tradição popular que une o sagrado e o profano, como também acontecia na história de Nossa Senhora e o Linguado. Como esta existem muitas outras, histórias que procuram unir tradições populares a momentos bíblicos; na verdade, já existiam no tempo da Grécia Antiga – recorde-se, a título de exemplo, o mito de Aracne – e provavelmente continuarão a existir no futuro. O que não se sabe é o que terá existido primeiro, se a tradição popular ou uma história que possa servir para a justificar…

A lenda de Jesus Malverde, santo padroeiro dos traficantes

A lenda de Jesus Malverde, santo padroeiro dos traficantes, vem-nos de terras do México, e é uma que desde o primeiro momento se nos mostrou como muito problemática. Na verdade, por muito que procurássemos não conseguimos encontrar uma versão totalmente estável desta lenda, cujos contornos parecem variar de fonte para fonte, quase certamente por ter nascido e se ter desenvolvido com base em tradições orais. Por isso, o que contamos abaixo não provém de nenhuma fonte específica, mas de uma breve sintetização dos elementos comuns que fomos conseguindo descobrir.

Um poster de Jesus Malverde

Jesus Mazo terá nascido no seio de uma família pobre na segunda metade do século XIX. Quando os seus pais faleceram dedicou-se a uma vida de crime, não por maldade ou por desejos exorbitantes, mas pura e simplesmente porque nem tinha o suficiente para comer. Por isso roubava aos mais ricos e ficava só com o que verdadeiramente precisava, dando o restante aos pobres. É natural que tais acções o tenham posto em confronto com os mais poderosos e com as entidades governamentais, que lhe foram dando o apelido de “Malverde”, levando à sua morte de uma forma que varia entre as versões da lenda, mas que em comum costumam ter uma mesma lição moral – não se pode confiar na polícia, que de alguma forma foi responsável pela morte deste (santo?) homem.

 

O que é curioso em toda a lenda desta figura mexicana é o facto da sua história poder ser vista de dois lados. Claro que ninguém gosta de ser roubado, como parecerá mais que natural, mas o acto de roubar também costuma ter uma outra face em que raramente pensamos, que é a de algumas pessoas roubarem para conseguirem suprir as suas necessidades mais básicas. E, nesse contexto, ainda para mais numa cultura em que muitas vezes é difícil ao cidadão comum sobreviver, o exemplo moral deste Jesus Malverde tem um peso significativo. Claro que ele não é um santo reconhecido pela igreja católica, mas é aquilo que poderíamos chamar um “santo popular”, uma figura reverenciada como se de um santo católico se tratasse em virtude das suas boas acções em vida e milagres após a morte.

 

É, para nós, demasiado fácil dizer que não se deve roubar, ou que não se deve traficar droga, mas poucos são os que o fazem “porque sim”; demasiadas vezes fazem-no por razões monetárias, porque precisam disso para poderem sobreviver, como também este Jesus Malverde roubava tanto para si como para aqueles que via na pobreza, e só roubava de quem ele via que tinha mais do que precisava. E, numa cultura em que são muitos os que até precisam, como descartar o apelo de uma figura assim?!

O “Sonho do Quarto Vermelho”, de Cao Xueqin

O Sonho do Quarto Vermelho, também conhecido como Sonho da Câmara Vermelha ou A História da Pedra, é uma obra chinesa do século XVIII que é hoje conhecida como a maior obra-prima da literatura da China. “Maior” ou, se quisermos ser completamente honestos, possivelmente uma das obras mais complicadas que já passaram por aqui; na verdade, quando um dos nossos colegas viajou por todo o mundo em busca de conhecimento, na China mostraram-se curiosos com o facto de ele, um ocidental, ter lido diversas obras chinesas, a que se seguiu quase sempre uma mesma questão – “Mas leste [também] o Sonho do Quarto Vermelho?”

O Quarto Vermelho

Passados todos estes anos compreendemos o porquê – após semanas e semanas a lê-la, descobrimos que não é uma obra de difícil leitura, mas sim uma com centenas de personagens, em que se torna muito fácil perder o fio à meada. O Sonho do Quarto Vermelho não é uma obra como a Divina Comédia, cuja complexidade se prende num misticismo velado e na apresentação de centenas de pequenas personagens que um leitor comum terá dificuldade em reconhecer, mas sim uma com um número enorme de personagens principais, que junta prosa e poesia, que contém um conjunto de ideias que um leitor ocidental terá dificuldade em compreender, entre outros desafios.

 

Mas então, qual a história deste Sonho do Quarto Vermelho? Uma pedra mágica foi deixada de parte numa reconstrução do céu, e quando um dia encontrou dois monges orientais pediu-lhes que a levassem a ver o mundo. Pouco depois, reencarna no corpo de Jia Baoyu, uma das personagens principais, e viverá no seio de uma família opulenta que ao longo dos anos vai caindo em desgraça, fruto não só de várias circunstâncias culturais chinesas mas igualmente das acções das mais variadas personagens da história.

Desenganem-se aqueles que, considerando a referência a uma pedra mágica, pensam que o Sonho do Quarto Vermelho é uma história de fantasia ou da mais pura ficção. Não o é, pelo contrário – é uma história quase real, em que se até existem alguns elementos mais fantasiosos, ocorrem num contexto e numa trama muito realista; por exemplo, logo no quinto capítulo Jia Baoyu tem um sonho em que visita o quarto vermelho que dá título à obra, e em que tem acesso, sem que o saiba, a referências proféticas de alguns dos eventos que irão tomar lugar no resto da narrativa – poderá parecer fantasia, mas o sonho dele pouco se afasta daqueles que cada um de nós poderemos ter esta mesma noite. Mais que fantasia, nesta obra há traições, corrupção, amores desencontrados, desenlaces imprevisíveis, e outras tantas coisas que tais.

 

Será, então, o Sonho do Quarto Vermelho uma obra que recomendamos aos leitores? Dificilmente o faríamos, não só porque é difícil de encontrar numa forma completa (Cao Xueqin escreveu os primeiros 80 capítulos, mas a história foi terminada – talvez até corrompida? – com 40 capítulos de Gao E), mas porque implica recordar um conjunto de personagens e tramas infindáveis, muitas vezes com desenlaces que dificilmente agradarão aos gostos ocidentais, já tão habituados a histórias em que tudo acaba bem. É, sem qualquer dúvida, uma obra interessante, este Sonho do Quarto Vermelho, mas uma que também não é para todos…

Os filhos de Afrodite – os Erotes (Anteros, Eros e Himeros)

Na Mitologia Grega foram muitos os filhos de Afrodite, deusa do amor. Porém, hoje falamos é daqueles com pai incógnito, e que são hoje conhecidos colectivamente sob o nome de Erotes.

Afrodite e dois Erotes

Quem são então estes Erotes? São um conjunto de filhos de Afrodite frequentemente indistinguíveis de Eros/Cupido, com quem até se confundem. Para explicar isto de uma forma simplificada, quando vemos numa qualquer imagem Afrodite acompanhada por Cupido e outras figuras semelhantes a ele, um deles é esse famoso filho da deusa mas os restantes são os Erotes, que são aspectos particulares do amor, e que aparentemente nasceram da mesma forma que Afrodite, i.e. da espuma do oceano ou de um qualquer pai incógnito. Eles são os seguintes:

  • Anteros, deus do amor retribuído*;
  • Eros, mais conhecido como o Cupido dos Romanos, deus do desejo;
  • Hímero (ou Himeros), deus do amor que não é retribuído.

 

Porquê estes, e não outros? Se são diversos os autores que parecem dar vários outros constituintes aos Erotes, só estes nasceram de Afrodite e de um pai incógnito (apesar de Ares ser, por vezes, considerado o pai de Eros…), e estão ligados de uma forma muito directa ao atributo essencial da deusa – note-se que até todos têm eros no nome. Além disso, é frequente serem três os Erotes representados nas suas brincadeiras, por vezes até com a mãe Afrodite a seu lado. Assim, se entre este grupo se quisessem introduzir Pothos (a paixão) ou Himeneu (deus do casamento), entre outras possíveis figuras, esse padrão triplo seria quebrado.

 

Uma última curiosidade – quando hoje vemos os chamados “anjinhos papudos” em pinturas, normalmente eles são herdeiros dos Erotes da Antiguidade, uma espécie de novos filhos de Afrodite, não só pela sua forma física semelhante mas igualmente pelo facto de ainda partilharem o carácter brincalhão dessas antigas figuras, que não eram mais que filhos de Afrodite com pai incógnito, muito brincalhões e bastante associados ao amor.

 

*- Pausânias conta-nos outra versão da história desta divindade. Quando o ateniano Meles declarou o seu amor a Timágoras, este segundo gozou com a situação e pediu-lhe que se atirasse de uma rocha. Meles fê-lo mesmo, e então acabou morto. Depois, vendo a tragédia que tinha causado, também Timágoras se atirou da mesma rocha, e então Anteros seria – pelo menos para este autor, e aqueles que lhe passaram essa informação – uma versão divinizada de Meles, destinado desde esse momento a vingar todos os amores não correspondidos.