Os poemas de Sidónio Apolinário

Um vitral que mostra este bispo e santo

Sidónio Apolinário foi um autor cristão do século V, de nacionalidade francesa (nasceu em Lugduno, hoje Lyons). Chegou a santo, e por razões como essa seria fácil presumir que os seus trabalhos fossem de natureza religiosa. Porém, de uma forma um tanto ou quanto inesperada, os seus poemas – ou Carmina – contêm bastantes referências mitológicas (e algumas históricas, acrescente-se), apesar de serem significativamente limitadas – o autor refere os mesmos mitos uma e outra vez, até de formas semelhantes. Por exemplo, numa dada altura ele resume o mito de Hércules da seguinte forma:

 

Não irei aqui embelezar os trabalhos de Hércules, a quem o javali, o leão, o Gigante, a Amazona, o visitante, o touro, Erix, os pássaros, Lico, o ladrão, Nesso, o Líbio, os jugos, as maçãs, a virgem, a serpente, o Monte Eta, os cavalos da Trácia, as vacas da Ibéria, o rio lutador, o cão de três formas e o carregamento do céu deram a fama.

 

Claro que quem conhecer os mitos do famoso herói saberá reconhecer estas referências, e ver até um certo charme nelas, mas quando um mesmo autor se refere ao herói de forma muito semelhante em vários outros poemas, a novidade e beleza do original depressa se perde. Mas, por outro lado, a obra também tem alguns momentos mais notáveis, como quando na sexta composição nos descreve o nascimento da deusa Atena.

 

É um obra interessante? Dificilmente; talvez seja mais correcto dizer-se que tem alguns momentos interessantes, aqui e ali, mas que o uso que Sidónio Apolinário faz dos mitos da Antiguidade já não é o mesmo dos autores dos séculos anteriores, na medida que os temas que tinha acessíveis poderão parecer, a um leitor mais informado, significativamente limitados e, por isso, um tanto ou quanto repetitivos.

A “Torre de Pedro Sem” e a respectiva lenda

A breve viagem de hoje leva-nos ao Porto, mais precisamente à Rua da Boa Nova, número 52, em que existe uma tal Torre de Pedro Sem – uma pequena torre acastelada, semelhante a uma torre de menagem (), que nos nossos dias continua a ser associada ao nome desta figura lendária, mas que também é conhecida pelo nome de Torre da Marca:

A Torre de Pedro Sem

A existência deste local, e da própria personagem a que se ficou a dever o nome de Torre de Pedro Sem, poderiam levar-nos a um caminho em que lenda e realidade se entrecruzam repetidamente, mas o que nos interessa hoje e aqui é somente a breve história portuense que se associa a ela. Vamos a isso.

 

Pedro Sem – ou Petersen (?) – era uma personagem portuense, possivelmente do século XVII, que ganhava muito dinheiro a não fazer quase nada – tinha bastantes propriedades alugadas, emprestava dinheiro a juros elevados e possuía navios que lhe traziam muitas riquezas de terras do ultramar. Um dia, estando no topo da sua torre com a esposa e alguns amigos, viu ao de longe os seus navios prestes a chegarem à cidade. Risonho e sem qualquer pudor, por três vezes repetiu que agora nem mesmo Deus o poderia tornar pobre.

Porém, certamente que Deus não deixaria passar um tal ultraje sem punição. Momentos depois, o dono da Torre de Pedro Sem viu os seus navios afundarem-se no Douro; passados alguns dias as suas muitas propriedades arderam sem explicação; e, finalmente, as riquezas que guardava nesta sua – agora famosa – torre foram roubadas durante a noite. As estas grandes punições se seguiram outras, mais pequenas mas igualmente causadoras de sofrimento, até que o herói caiu na mais completa ruína. E então, nesse seu tempo podia ser visto pelas ruas do Porto, pedindo esmola a quem passava e repetindo, como um louco, sempre e somente a mesma frase – “Dai uma esmola a Pedro Sem, que tudo tinha e agora nada tem…”

A casa assombrada mais famosa de Portugal, e o Castelo do Estoril

Há alguns dias, quando falámos de um mito urbano português, na brincadeira uma leitora levantou a possibilidade de se tratar de um esquema maluco de alguma agência imobiliária. Até é possível que sim, mas aproveitamos essa deixa e contamos o mito por detrás daquela que será provavelmente a casa assombrada mais famosa de Portugal.

 

Quem viver na zona de Lisboa e cruzar a Avenida Marginal no sentido Cascais -> Oeiras poderá encontrar, entre as zonas de São João e São Pedro do Estoril, uma pequena casa amarela, vulgarmente conhecida como o Castelinho de São João do Estoril. Diz o mito que é assombrado – por perto existia uma escola de cegos (o edifício entretanto já foi reconvertido), e é então dito que numa dada altura uma estudante desse local caiu ao mar e agora assombra o belo castelinho que se encontra por perto. Será verdade? Há uns anos considerámos comprar o local, e aquando de uma visita inquirimos sobre essa história; a funcionária da imobiliária riu-se, disse que era uma questão de crença, mas nunca confirmou – ou desmentiu – os episódios fantasmagóricos. Por isso, quem tiver curiosidade poderá ler toda a história do local aqui, antes de tentar formar a sua própria opinião.

 

Entretanto, já que estamos com a proverbial mão na massa, achámos que podíamos contar a história de outro “castelo” na mesma zona.

O "castelo" do Estoril

Quando se pretende promover a região da Costa do Estoril é usada frequentemente uma imagem do local acima, uma espécie de castelo que pode ser encontrado próximo da praia. Conhecido como Palacete Barros, foi construído sobre as ruínas de um antigo forte por um pai que queria que a sua jovem filha, doente, frequentasse umas termas que na altura existiam por perto. Porém, o preço desta construção acabaria por se revelar tão elevado que o seu dono foi levado à falência… e o que aconteceu à sua filha? Será que também ela hoje assombra o local…? Seria preferível que o fizesse, face à utilização actual do espaço…

O que significa “nolite te bastards carborundorum”?

Há já alguns tempos que nos vieram perguntar o significado de nolite te bastards carborundorum, uma frase que aparece na série The Handmaid’s Tale (ou, em Português, A História de Uma Serva), e que, a uma primeira vista, parece estar em Latim, mesmo quando bastardes é lido incorrectamente como bastards. Assim sendo, qual é a tradução desta expressão?

Nolite te bastards carborundorum na série...

Não conhecemos a série, não sabendo portanto em que medida a língua latina compõe, ou não, uma parte significativa da sua trama (se algum leitor souber isso, por favor deixe essa informação ali nos comentários), mas podemos, antes de mais, deixar claro que esta não é uma frase ou uma ideia provinda dos tempos da Antiguidade, da Idade Média, ou até do Renascimento, ao contrário de muitas das que falamos por cá. E isso torna-se particularmente importante porque, apesar de ser uma construção semi-latina, ou seja, uma frase com palavras em Latim e outras completamente inventadas, não tem qualquer significado real na sua tradução.

 

Nolite significa “recusai”. Te significa “a ti”. Mas o que dizer das restantes palavras, que não aparecem em qualquer dicionário de Latim? Bastardes é muito semelhante ao Inglês “bastards”, ou seja, “bastardos”. Mas… e carborundorum, o que significa…?

Felizmente, desta vez temos parte do nosso trabalho facilitado – numa entrevista, a autora Margaret Atwood como que confirmou que a frase não significava nada, era uma espécie de piada, mas que deveria significar algo como “don’t let the bastards grind you down”, que pode ser adaptado nesse contexto original como “não deixem os bastardos afectarem-vos”. E, em casos como estes, a palavra da autora basta-nos, porque ela saberá a sua intenção melhor do que cada um de nós!

A lenda da Cuca, Coca e Coco

A figura conhecida em Portugal e no Brasil como Cuca, Coca ou Coco é tudo menos simples. Na verdade, há meses e meses que pretendemos falar da sua lenda, mas deparámo-nos repetidamente com um problema, que é o facto de existirem diversas criaturas com este nome, que nem sempre são fáceis de sintetizar ou interligar. Por isso, já que agora estamos a falar de alguns temas da Mitologia do Brasil, achámos que esta figura seria perfeita para uma breve referência ao tema. Pergunte-se então – quem é a figura conhecida sob estes vários nomes?

Uma Cuca, Coca ou Coco

Uma primeira versão da lenda da Cuca, ou Coca, faz dela uma mulher misteriosa com que os pais assustavam os filhos, uma espécie de “papão”. E, como este, também não parece ter qualquer lenda associada, sendo uma figura quase fantasmagórica, sobre a qual absolutamente nada se sabe. Porém, podemos deixar uma curiosidade – quando usamos a expressão “estar à coca”, essa é uma referência ao acto principal desta figura, que se escondia e espreitava pelas crianças, aguardando que estas adormecessem.

A segunda Cuca é uma espécie de dragão associada ao norte de Portugal e de Espanha, que segundo a lenda foi derrotada pelo próprio São Jorge ou pelos populares de uma qualquer vila nortenha. Esta versão está hoje imortalizada, por exemplo, na festa portuguesa de Monção que pode ser vista no vídeo acima.

Uma Cuca, Coca ou Coco

A terceira lenda da Coca, ou Cuca, é a de uma figura brasileira que nos chegou especialmente atrás da obra de Monteiro Lobato, uma espécie de feiticeira nocturna que tem cara de jacaré e rapta crianças, bem conhecida dos leitores ou espectadores do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Os mais atentos poderão ver na terceira figura uma espécie de fusão das duas anteriores, mas poderá tratar-se de uma mera coincidência. Que a figura brasileira deriva de alguma antiga lenda portuguesa é claro, mas infelizmente já pouco se sabe sobre os limites das outras duas para que se possa concluir algo de muito fiável – seriam elas originalmente uma só? Será que o dragão resulta de uma conflação de vários mitos anteriores, de uma possível tentativa de associar uma nova lenda a uma figura que ainda não tinha nenhuma? Será que eram, originalmente, figuras completamente distintas, que se foram fundindo em virtude da evidente semelhança dos seus nomes?

Não sabemos, sendo até possível que tenham existido outras figuras que partilhem este nome (ou algum outro semelhante a ele), e que entretanto foram sendo sendo esquecidas pelas pessoas – de facto, aquando da escrita destas linhas confrontámos várias pessoas em Portugal com o nome da Cuca (ou Coca, ou Coco), e nenhuma delas parecia saber do que falavamos…