O outro castelo de Sintra

Hoje, quando pensamos num castelo de Sintra, a nossa mente é imeditamente levada àquele que é chamado o “Castelo dos Mouros”. Mas, ainda assim, talvez sejam já poucos aqueles que sabem que em outros tempos existia um segundo castelo, ou uma espécie de fortaleza, associada à mesma vila. Infelizmente, são já poucos os vestígios palpáveis desse segundo recinto, mas o Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas, datado de inícios do século XVI e que pode ser consultado aqui, preserva-nos duas imagens muito interessantes.

O Castelo de Sintra

Aqui, o Castelo dos Mouros pode ser visto no topo da montanha, circundado a vermelho, enquanto que algumas muralhas, num estado de destruição já muito notório, estão assinaladas a verde. É certamente possível que estas segundas se tenham tratado, em tempos agora já demasiado esquecidos, de uma primeira cerca de protecção em redor da vila.

O Castelo de Sintra

Nesta segunda imagem, desenhada do lado oposto, estão o famoso castelo a azul (no topo da montanha) e a Igreja Paroquial de São Martinho de Sintra, a vermelho, que ainda existe e cuja entraa continua a ser muito semelhante à mostrada aqui. Mas, a verde, pode ser vista uma espécie de muralha, que ainda existe (mas talvez não totalmente igual?), e que trai a função defensiva original de todo o complexo a que hoje se chama o Palácio Nacional de Sintra.

 

Os mais puristas poderão dizer que estas imagens, do século XVI, não mostram verdadeiramente um segundo castelo de Sintra. E isso é verdade, não conseguimos encontrar imagens reais em que essa fortificação ainda se encontrasse completa – o que provavelmente ainda acontecia no século XII, quando o local foi conquistado pelos Cristãos – mas dão-nos é a entender que existiu um período em que existia uma muralha defensiva em redor de toda a vila, um espécie de outro castelo de Sintra, com os seus contornos hoje perdidos em função do peso dos séculos. Já pouco sabemos sobre ele, mas pelo menos estes desenhos de Duarte de Armas permitem-nos ter consciência, de uma forma muito vaga, dos contornos que Sintra tinha em outros tempos…

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A lenda do Lobisomem (a que depois juntámos a figura portuguesa do Tardo), conta-se entre as três maiores lendas brasileiras, juntamente com as das figuras do Saci e da Mula Sem Cabeça. Agora, se já aqui falámos das outras duas figuras anteriormente, é natural que também fossemos falar desta, antes de discutirmos se esta criatura verdadeiramente existe.

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A ideia de toda esta criatura, de uma figura humana que em determinadas condições adopta a forma de um lobo ou de outro animal, poderá até vir da pré-história. No entanto, a sua primeira referência mais significativa que temos a ela surge no mito grego de Licáon, em que um rei é transformado em lobo como punição divina. Agora, isto pouco assustaria fosse quem fosse – se tais acontecimentos apenas acontecessem por punição divina, poucos ou nenhuns lobisomens existiriam no mundo – mas Marcelo de Side, um autor da Antiguidade que escreveu uma obra chamada Da Licantropia (que apenas nos chegou num fragmento), considera esta uma doença bem real, dizendo sobre ela o seguinte:

Os que sofrem da doença chamada Cinantropia ou Licantropia saem durante toda a noite no mês de Fevereiro, imitando lobos e cães, passeando em redor dos cemitérios durante a noite. Podem reconhecer quem está afectado por ela pelos seguintes sinais: são pálidos, parecem fracos, têm olhos secos e não choram. (…) Também têm muita sede e feridas incuráveis nas pernas, por causa das quedas contínuas e das mordidelas dos cães. (…) [No fragmento segue-se informação, aqui irrelevante, sobre como essa doença pode ser curada.]

 

Isto não revela muito sobre a criatura que também pode ser conhecida como Licantropo, excepto pelo facto de nos fazer compreender que no primeiro século da nossa era, altura em que viveu este Marcelo de Side, esta era uma doença quase puramente psicológica, não configurando uma transformação verdadeira de ser humano em lobo (ou cão). Por isso, pense-se no tema por um breve momento – nos filmes e livros dos nossos dias como é que nascem estas criaturas? É frequentemente mencionada a lua cheia, a mordidela de um lobo, o simples nascimento de um pai (ou mãe) que também partilha deste poder místico, algum outro método mais mágico… mas nem sempre assim o foi, e nesse sentido a lenda do Lobisomem no Brasil é derivada de uma antiga lenda portuguesa e europeia. Segundo ela, quando uma mulher tem sete filhos consecutivos de um mesmo género sexual (sete filhas geram uma bruxa ou uma Peeira, para quem tiver essa curiosidade), esse sétimo rebento irá sofrer de Licantropia, uma ideia que não vem da Antiguidade!

 

A mesma lenda acrescenta, depois, que em determinadas noites essa pessoa iria ficar como louca, devendo ser trancada em casa na mais completa solidão. Não é dito que isso acontecia em noites de lua cheia, como é comum nas histórias literárias e cinematográficas, mas algumas versões que ouvimos de idosos dos nossos dias em Portugal referem que isso acontecia nas noites de sexta-feira para sábado, com pelo menos uma idosa a nos dizer que o marido de uma amiga já falecida, que era lobisomem, um dia não foi trancado nem o deixaram sair de casa, e então entrou numa espécie de coma profundo, de que só saiu já na noite seguinte. Um elemento curioso – em nenhum momento nos foi dito que a transformação em lobo era literal, mas simplesmente que quem sofria dessa espécie de “doença” ficava com o carácter metafórico de um lobo – vicioso, feroz, a uivar, etc.

 

Nesse contexto, a lenda brasileira, com mais ou menos detalhes, parece derivar parcialmente de uma lenda portuguesa que também existiu por toda a Europa. Contudo, hoje em dia, fruto de uma cultura cada vez mais global, este monstro no Brasil, como o de Portugal e o de tantos outros países, está a perder as suas origens e a tornar-se uma criatura com feições horizontais por todo o globo…

 

Mas, para terminar, será que a criatura de todo este mito ou lenda existe mesmo? Como é fácil ver pelas palavras escritas acima, a forma como hoje vemos esta criatura, hoje, resulta de um sincretismo de diversas crenças diferentes ao longo de muitos séculos. É uma ideia que se foi alterando ao longo dos tempos, sendo por isso impossível que alguma vez tenha tido uma existência real – se assim o fosse, como explicar as formas tão diversas e inconsistentes como foi sendo representada na literatura? Isso não faria qualquer sentido, excepto se se tratar de uma criatura que só nasceu da imaginação humana, e à qual cada nova geração foi adicionando um pouco mais à história, como é comum em relatos puramente ficcionais, que não assentam numa realidade física.

 

[Adicionado posteriormente:] Porque acrescentámos ao artigo acima esta sequência sobre uma figura puramente portuguesa, o Tardo? Porque, mais tarde, viemos a encontrar um curioso documentário nacional que não só mostra as muitas semelhanças entre as duas figuras, como também fala extensamente sobre as crenças relativas à figura a que se refere este artigo de hoje! Podem vê-lo abaixo, em três sequências relativamente curtas, que permitem ao leitor saber mais sobre o Tardo – e outras figuras dos mitos populares de Portugal – do que nós poderíamos dizer em algumas breves linhas:

Na verdade, se nem concordamos com tudo o que é dito nestes três vídeos, há que admitir explicitamente que eles apresentam o Tardo, entre outras figuras da Mitologia Popular Portuguesa, de uma forma rápida, interessante, e até com algumas histórias na primeira pessoa, o que é sempre de elogiar no nosso panorama ibérico!

A lenda da Mula Sem Cabeça

Hoje falamos da lenda da Mula Sem Cabeça, também conhecida como Cavala-Canga ou Cavala-Acanga, inspirados pelo Sítio do Picapau Amarelo, em que muitas criaturas do folclore brasileiro aparecem quase lado a lado e interagem entre si. Nos próximos dias também falaremos de algumas outras de terras do Brasil!

Mula Sem Cabeça

A primeira delas, a de hoje, é a lenda da Mula Sem Cabeça, também conhecida ainda com os nomes de Burrinha-de-Padre ou Burra-de-Padre. É uma lenda que parece ter sido famosa – é muito mencionada no inquérito conduzido por Monteiro Lobato, juntamente com a do Saci e a do Lobisomem, como parte das grandes lendas do Brasil – mas cujos contornos variam um pouco de região para região brasileira. O que têm em comum todas essas versões? Dizem-nos que esta criatura era originalmente uma mulher que tinha sido sido metamorfoseada nessa estranha figura devido a um enorme pecado que cometeu, e depois condenada a vaguear todas as noites enquanto deitava fogo ardente pelas ventas e relinchava de forma assustadora*.

 

O pecado cometido por esta mulher, essa futura criatura mitológica, varia significativamente – na versão de Monteiro Lobato ela é apanhada num cemitério a comer o corpo de crianças falecidas. Noutra versão ela apaixonou-se por um padre. Numa terceira, teve relações sexuais com um antigo pároco. Ou, se preferirem uma resposta mais geral e horizontal, o que a mulher transformada fez foi transgredir de alguma forma significativa as leis e preceitos da Igreja. E, como tal, sofreu uma punição divina.

 

Porém, o que não encontrámos foi uma história fiável que explicasse o porquê da transformação numa mula, ou a razão para esta não ter cabeça. Porque se transformou a mulher numa Mula Sem Cabeça, nesta lenda, em vez de em qualquer outra criatura? Segredos dos deuses, ou talvez uma associação com uma outra lenda já há muito perdida? Uma estranha opinião que ouvimos entretanto diz apenas que a mula se devia ao facto de esse ter sido, na Idade Média, o animal normalmente usado nas viagens dos padres, mas será mesmo por isso? E será que esta criatura não tem cabeça porque, de uma forma metafórica, “perdeu a cabeça” quando foi conduzida ao seu pecado original? Ou porque, na escuridão da noite, um equídeo a pastar pode parecer que não tem essa parte do corpo? Ou mesmo porque deixava, metaforicamente, a cabeça em casa com o marido? Não sabemos, mas são certamente algumas possíveis explicações para todo o problema da origem desta criatura puramente brasileira…

 

 

*- Como é que um ser que não tem cabeça relincha e tem narinas é algo que nos escapa por completo, mas são várias as versões da lenda que mencionam que o fogo sai desse preciso lugar – outras referem simplesmente o pescoço como fonte das chamas! Todas as fontes que consultámos nunca explicam este enorme mistério…

A origem do nome de Benfica, e o seu animal – o pavão?!

Quando pensamos no nome de Benfica, a termos de lhe associar um animal seria quase certamente a águia, por causa do clube de futebol. Porém, face à recente e irónica fuga de um pavão nessa zona lisboeta, lembrámo-nos de algumas breves histórias que podemos deixar por aqui.

Origem do nome de Benfica

Quem olhar para o brasão de Benfica (a freguesia lisboeta) encontrará lá uma coroa mariana e duas árvores de Monsanto. Porém, na mesma cidade, uma outra freguesia contígua – a de São Domingos de Benfica – tem um brasão significativamente mais interessante, que pode ser visto acima, em que estão representados dois pavões, uma laranjeira e uma flor-de-lis estilizada. Os dois primeiros elementos remetem-nos, naturalmente, para o Jardim Zoológico (movido para a Quinta das Laranjeiras em 1905, a freguesia data de 1959), talvez até num duplo sentido heráldico do orgulho por essas árvores, hoje já raras no local. Assim, a termos de associar um animal a esta freguesia, seria o pavão.

 

Já o nome de Benfica, o clube de futebol, vem da própria freguesia em que está localizado o seu estádio – São Domingos de Benfica. Por sua vez, o nome da freguesia vem do facto de ter sido fundado um Convento de São Domingos no local (já lá voltaremos), que naturalmente teria no seu nome “de Benfica” pela sua localização, para o distinguir de outros que possam ter existido associados ao mesmo santo. E, nesse contexto, de onde vem então o nome de Benfica?

 

No passado lemos várias lendas destinadas a explicar este nome. Por exemplo, quando um monarca fez uma visita ao local, teve lugar algum evento que o fez dizer duas palavras, “Bem fica”, que pela passagem dos séculos acabaram depois comprimidas numa só, “Benfica”. Mas que evento foi esse, poderiam perguntar?

Numa versão, o rei D. João I diz que num dado local “bem fica[ria]” a construção de um convento proposto por João das Regras (e em que este até viria a ser sepultado).

Numa outra, D. Pedro I encontrou uma tal Maria Rousada, assim chamada* por ter sido violada por um homem que até acabou por casar com ela – o que não deixava de ser crime, e assim o rei mandou enforcá-lo, dizendo ainda que ela “bem fica” sem ele. Para quem quiser uma terceira, bastará inventar algum evento em que um rei seja posto a dizer essas palavras. Já outros dizem apenas que o nome actual vem de um (possível) nome árabe, o que nos parece improvável, já que nada de significativo parecia existir no local aquando da construção do convento (e assim sendo, porquê dar-lhe sequer um nome?). Qual destas versões é a verdadeira história por detrás do nome já é algo que nos escapa por completo.

 

Como é que uma águia foi parar ao emblema do Benfica, em vez de um pavão, é uma história que ficará para um outro dia…

 

 

*- Neste contexto, “rousada” ou “roussada” significa o mesmo que “violada”.

A misteriosa Casa do Medo, um exemplo de mito urbano português

A Casa do Medo

No contexto da publicação anterior achámos que poderíamos, naturalmente, dar um pequeno exemplo de aquilo a que até se poderia vir a considerar parte dos mitos urbanos portugueses.

 

Quem passar pelo distrito de Lisboa – a falta de uma identificação mais precisa é completamente intencional – poderá já ter visto a casa acima. Captada em duas fotografias num espaço de quatro anos, a casa mantém-se significativamente igual. Isto pouco teria de notável, não fosse o facto de, segundo os habitantes locais, esta ser conhecida como a Casa do Medo.

Porquê esse estranho nome, de Casa do Medo? O melhor que nos conseguiram explicar foi que, supostamente, essa casa está igual há mais de 70 anos, sem que alguma vez se tenha visto alguém a entrar ou a sair dela, alguma luz a acender, ou algum estore a abrir. Por isso, criou-se a ideia de que só tinha um único habitante, o Medo, e os locais parecem ter um verdadeiro receio do local. Curiosamente, se até existem criaturas mitológicas portuguesas sob o nome de “Medos”, não conseguimos encontrar qualquer associação deles a este lugar, sendo por isso e provavelmente uma mera coincidência de nomes.

 

Será verdade, essa ideia de que a casa está – aparentemente – desocupada há mais de meio século? Por um lado, existem nela ténues evidentes vestígios de ocupação, quanto mais não seja pelo facto das sebes terem sido aparadas e uma árvore ter sido cortada; por outro, os vizinhos confirmam e reafirmam a ideia de que nunca viram ninguém lá e que nem sabem a quem pertence a casa. E assim se geram mitos…