A lenda das Marias do Mar

A lenda das Marias do Mar é medieval, mas como tantas outras da mesma época tem uma base bíblica, e ainda hoje é celebrada no sul de França, na comuna com o justíssimo nome de Saintes-Maries-de-la-Mer.

Três Marias do Mar

Conta-nos então a sua história que as Marias do Mar são umas santas, vulgarmente três, que após a crucificação de Jesus Cristo escaparam da Terra Santa por barco, acabando depois por desembarcar no sul de França, onde passaram a viver. Contudo, dada a imprecisão da identidade das santas – pelo menos uma delas terá sido Maria, mãe de Jesus, mas quem eram as restantes? – a que se junta uma igual imprecisão na identidade de potenciais acompanhantes, esta lenda foi depois fonte de exploração para várias lendas adicionais, algumas mais famosas que outras.

 

Por exemplo, uma das lendas associadas às Marias do Mar é a de Santa Sara, uma figura um tanto ou quanto misteriosa (seria uma empregada das restantes, como dizem algumas versões?), que, segundo se dizia, recolhia esmolas para os pobres, razão pela qual passou a ser vista como uma espécie de santa padroeira dos Ciganos. Outra, mais famosa já nos nossos dias por influência do Código Da Vinci, é que entre elas se contava uma Maria Madalena grávida, que posteriormente viria a dar à luz um rebento gerado por Jesus Cristo. Uma terceira diz que entre os acompanhantes se contam São Lázaro (o tal que foi trazido de volta à vida por Jesus Cristo), ou mesmo José de Arimateia (a figura que forneceu o túmulo em que o filho de Maria foi sepultado). E existem outras, mas só pretendemos recordar aqui três das principais.

 

Mas relativamente a esta lenda das Marias do Mar, é questão para se dizer, seguindo a sabedoria popular, que quem conta um conto aumenta sempre um ponto, e dadas as muitas imprecisões da lenda original, este acaba por ser um daqueles casos em que a ausência de informação mais concreta acabou por fomentar muitas imaginações, adicionando cada vez mais detalhes e pormenores a uma história apócrifa que, originalmente, era muito mais simples do que agora o é, fruto de séculos de especulações e novas – e, por vezes, até estranhas – adições à trama basilar…

A defesa de Cecília Faragó e a refutação da magia

Em meados do século XVIII uma mulher que vivia na Córsega, de seu nome Cecília Faragó, foi acusada de praticar magia e de ter morto um padre por essas suas supostas artes mágicas. Este poderia ser um caso como tantos outros do passado, não fosse o facto de Giuseppe Raffaelli ter decidido escrever sobre toda a estranha situação, numa obra que depois até foi traduzida para Português.

Defesa de Cecília Faragó

É através dessa obra que sabemos mais sobre toda a situação, e no seu contexto dizer que Cecília Faragó foi acusada de feitiçaria é muito redutor. Talvez seja mais correcto dizer-se que ela se encontrava, após a morte do seu filho, num disputa de heranças com alguns párocos, e estes decidiram acusá-la de praticar magia como mero subterfúgio para resolverem toda a situação e anteciparem a sua recompensa de mais algum vil metal. Por isso, os acusadores decidiram argumentar que enquanto Cecília Faragó estava a rezar no altar, um padre que tocava órgão e cantava ficou sem voz. Clara magia, não é?!

 

Parece ter sido para mostrar o absurdo de toda esta situação que Giuseppe Raffaelli escreveu o seu texto, dividido em três grandes capítulos. O primeiro, e provavelmente o mais famoso e interessante, refuta que a magia nefasta exista verdadeiramente. O segundo mostra que o padre, o mesmo que Cecília Faragó supostamente matou, morreu por simples negligência médica. Já o terceiro foca-se em mostrar que a acusada não tinha quaisquer poderes mágicos.

 

Por isso, somos levados a perguntar – será que Cecília Faragó era mesmo uma feiticeira? Há um argumento no terceiro capítulo que é completamente demolidor de toda a acusação – se ela tinha mesmo poderes mágicos, porque os utilizou contra um padre com o qual não tinha qualquer disputa, em detrimento de o fazer com os dois párocos que tanto a molestavam? Ou, se preferirem um argumento mais religioso, se a magia realmente existia porque teria Deus permitido a sua utilização no mesmíssimo local que era tantas vezes ocupado pelo metafórico Corpo de Cristo? Face a argumentos como esses depressa se torna claro que a acusação desta mulher não se devia a qualquer prática mágica, mas sim a um mero interesse económico dos acusadores.

 

Uma outra obra da mesma época tem uma frase perfeita sobre todo este tema – “a Arte Mágica é a Arte da Comedoria”, i.e. de enganar os outros para proveito próprio, mas mesmo assim continua a existir ainda hoje gente menos informada que acredita na feitiçaria, no tarot, nas cartomantes e em outras coisas que tais. Seguindo as palavras de Cícero, não podemos deixar de nos interrogar como é possível que dois “adeptos” dessas artes não se riam, quando se cruzam num qualquer caminho deste mundo…

A verdadeira história da origem da Páscoa

A história da origem da Páscoa é, verdadeiramente, um daqueles temas que dá um grande e proverbial pano para mangas. Na verdade, durante dias até tentámos contá-la de uma forma muito completa nestas linhas mas, de uma forma inesperada, depois o sistema disse-nos, pela segunda vez em seis anos, que a publicação era longa demais. Por isso, conte-se toda esta história mas de uma forma muito mais sucinta e simplificada.

 

Os primeiros passos do ritual da Páscoa vêm dos tempos relatados no Antigo Testamento, quando os Judeus ainda viviam em terras do Egipto. Quem se recordar das famosas “dez pragas” saberá que a última foi a morte dos primogénitos dos Egípcios; para que se salvassem os filhos dos Judeus, Deus ordenou-lhes que, entre outras coisas, sacrificassem um cordeiro e untassem as suas portas com o sangue do animal, de forma a que o espírito divino os reconhecesse e poupasse. Por essa passagem divina é que o festival que viria a comemorá-la ficou conhecido em hebraico como Pesach, i.e. “passagem”.

 

Saltando agora alguns séculos no tempo, importa recordar que Jesus Cristo era Judeu. Ele celebrava esse festival da Pesach. Na verdade, é possível – mas não totalmente certo – que a Última Ceia tenha tido lugar nessa altura. E, se tivermos em conta o seu sacrifício e os paralelismos com a história acima, é fácil compreender aquela metáfora de Jesus como um cordeiro que (também) se sacrificou pela humanidade. Nesse sentido, se os primeiros crentes cristãos tinham praticado a religião judaica, pareceu fazer-lhes sentido celebrar o sacrificio do seu “novo” cordeiro na mesma altura em que tinham celebrado o sacrifício de um outro, o “antigo”.

Última Ceia e a Páscoa

Esta imagem mostra de uma forma muito interessante essa interrelação entre a Pesach e a Páscoa. Para os crentes cristãos, é aqui fácil reconhecer Judas com a bolsa do dinheiro na mão, acompanhado pelos outros apóstolos e Jesus com o pão e o vinho da Eucaristia… porém, quem também olhar para a mesa, poderá aperceber-se que está lá um (pequeníssimo) cordeiro, pães redondos espalmados (o chamado matzá) e alguns copos de vinho – todos eles directamente relacionados com o ritual dos Judeus. Quando Jesus ofereceu o pão e o vinho, i.e. o seu corpo e o sangue, fê-lo num contexto em que esses elementos eram muito significativos para os Judeus, e em que a Eucaristia até pode ser vista como uma celebração diária do seu sacrifício, enquanto novo e segundo cordeiro de Deus. E se até existem outras semelhanças entre os dois rituais religiosos, detalhá-las a todas vai além do nosso objectivo actual.

 

Mas tudo isto faz sentido, certo? Porém, a história ainda não acaba por aqui. Esta interrelação entre o ritual judaico e o cristão levou a um problema significativo – quando e como celebrar a Páscoa do Cristianismo? Se, em relação ao segundo elemento, na Páscoa cristã ainda existem múltiplas interrelações com a Pesach judaica, já a sua data levou a imensas discussões ao longo dos séculos, mas acabou por ficar definido que seria celebrada na data do primeiro domingo após a primeira lua cheia seguinte ao equinócio da Primavera. Quem fizer as contas notará que este ano é daqui a alguns dias, a 12 de Abril. A Pesach judaica, para quem estiver com curiosidade, é este ano celebrada entre os dias 8 e 16 de Abril.

Dúvidas, será que alguém as tem?

A lenda do Incêndio de Meireiki

A dois de Março de 1657 tomou lugar na cidade japonesa de Edo (hoje Tóquio), um incêndio tão grande que ficou conhecido pelo nome da era em que tomou lugar – o Grande Incêndio de Meireiki. É um facto histórico indisputável que esse flagelo aconteceu mesmo, mas a razão pela qual falamos dele aqui hoje é o facto de uma pequena lenda também se esconder por detrás de toda essa ocorrência real. Não sabemos se esta história também é tão real como o fogo que ardeu na altura, mas diz que tudo começou quando um sacerdote decidiu tentar queimar um kimono que estava amaldiçoado e que acabava por matar todos aqueles que o viessem a possuir. Mas as palavras desta lenda do Incêndio de Meireiki, hoje, deixamo-las para Niall de Burca, que um dia tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente, e a cujas histórias já cá fizemos alusão anteriormente.

A estranha história de Santa Demetra

Pura coincidência...

Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, uma mulher chamada Demetra que vivia em Atenas. Tinha uma filha, cujo nome já há muito foi esquecido, que era a mais bela mulher de toda a região. Um Turco, infiel ás leis cristãs e adepto de magia, viu-a e apaixonou-se por ela, mas a filha de Demetra nunca lhe mostrou qualquer interesse. Então, um dia esse Turco raptou-a de sua casa…

Demetra, horas depois, chegou à casa onde vivia com a filha e não encontrou ninguém lá. Também os vizinhos não sabiam da jovem. Perguntou ao Sol, ás Estrelas, e a tantas outras pessoas, mas ninguém lhe sabia dizer onde estava a sua filha. Até que uma Cegonha, que vivia na casa do lado, lhe contou o que se tinha passado.

Triste, Demetra partiu em busca da filha… por tudo quando viajou, ninguém lhe sabia dizer onde ela estava. Até que um dia, cansada de caminhar sobre a mais fria neve, caiu ao chão. Teria morrido, não fosse o facto de um casal de idosos a terem salvo e levado para a casa em que viviam.

(…) Mais tarde, a filha de Demetra foi salva do horrendo Turco pelo filho desse casal. Juntas, partiram de volta a Atenas, mas Demetra recompensou o casal garantido que a cidade em que estes viviam, Elêusis, teria sempre boas culturas.

 

Em momentos como estes apetece até dizer “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”*. Este podia ser um mito da Antiguidade, mas foi ouvido já em inícios do século XX, em terras da Grécia…