Os breves mitos dos dois Ascálafos

Este mês de Fevereiro de 2020 decidimos tentar algo de novo – ás segundas feiras iremos publicar um mito grego, ás quartas um mito ou lenda de Portugal, e ás sextas uma surpresa completamente inesperada. Nesse contexto, começamos hoje com os breves mitos de duas figuras, ambas chamadas “Ascálafo”.

 

Um primeiro Ascálafo era filho de Ares e rei da cidade de Orcómeno. Foi um dos Argonautas, mas não parece ter tido um papel muito grande nessa aventura. Posteriormente, foi também um dos pretendentes de Helena, e acabou por falecer durante a Guerra de Tróia.

 

O segundo Ascálafo parece ter sido uma figura tardia, até porque não conseguimos encontrar qualquer representação dele na arte grega. Filho de Aqueronte, era ele quem cuidava das árvores que (supostamente?) existiam no reino de Hades. Foi ele quem testemunhou que Perséfone tinha comido as sementes de uma romã e, por punição divina, foi depois colocado debaixo de uma enorme rocha. Mais tarde, quando Héracles passou pelo reino dos mortos, libertou-o desse tenebroso local, mas esta figura acabou então por ser transformada em coruja, pássaro cuja relação com o reino dos mortos pode ser facilmente percebida pelas suas muitas aventuras nocturnas.

O mito de Erictónio, filho de Atena

Atena e Erictónio

O mito de Erictónio é muito invulgar. Se há um atributo que bem caracteriza a deusa Atena é a sua virgindade perpétua. Tanto no seu caso, como no de Ártemis, são incontáveis os mitos que referem essa ausência de maternidade. Mas, ainda assim, os Gregos consideravam que a deusa era virgem mas tinha tido um “filho” – Erictónio. Recordamos então o que aconteceu nesse seu mito:

 

Um dia, o deus Hefesto encontrou-se a sós com Atena. Cheio de desejo amoroso, tentou violá-la, mas falhou no seu propósito – não conseguiu penetrar a deusa, caindo a sua semente somente na pele desta filha de Zeus. Naturalmente incomodada, a deusa limpou-se rapidamente, atirando a substância geradora para o chão… e daí nasceu Erictónio!

Estonteada com uma tão invulgar ocorrência, Atena colocou o “filho” dentro de uma enorme jarra e deu-a às filhas de Cécrope, rei de Atenas, deixando-lhes claro que nunca deveriam olhar para o seu interior. Mas, como já é comum em mitos como estes, as jovens não conseguiram suster a sua curiosidade – vendo Erictónio, foram conduzidas à loucura e atiraram-se da Acrópole. E, mais tarde, este Erictónio tornar-se-ia rei de Atenas…

 

Este é um mito curioso, que não pode deixar de suscitar diversas questões. A mais óbvia é, quase certamente, o que terão as jovens visto no interior da jarra? O que as terá conduzido à loucura? Se a imagem acima até mostra Atena com o “filho”, a resposta está aí parcialmente oculta – segundo algumas versões do mito, da cintura para baixo Erictónio tinha o corpo de uma serpente, o que poderá ter traumatizado quem viu essa forma tão grotesca.

Muito mais poderia ser dito sobre este mito, mas ele parece ter tido, essencialmente, a função de unir a deusa com a monarquia ateniense, legitimizando o poder através de uma figura divina que, de outra forma, não poderia ter sido matriarca de uma sequência de reis.

Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Há poucas horas falámos sobre o brasão da cidade de Coimbra, apontando nessa altura a dificuldade que era descortinar o verdadeiro significado por detrás dos seus símbolos. E, nesse sentido, antes de voltarmos a um mito grego, queríamos então cá trazer também um exemplo de uma situação contrária, um caso em que é bastante mais fácil fazê-lo.

Agora, se Coimbra foi a segunda capital de Portugal, achámos que poderíamos igualmente dedicar algum tempo aos leitores “do outro lado do oceano” e falar da segunda capital do Brasil – Rio de Janeiro – cujo brasão pode ser visto abaixo. Qual o significado do brasão do Rio de Janeiro?

Brasão da Cidade do Rio de Janeiro

No topo, como é costume, podem ser vistas as cinco torres que simbolizam o seu estatuto de cidade. Em redor, o louro e o carvalho e duas criaturas marinhas (foi-nos dito que são botos, parecidos com os golfinhos), cada qual com seu significado hieráldico. Mas o que está no centro?

O azul significa a lealdade. A esfera armilar e as três flechas, que já aí constam desde o tempo dos portugueses, remetem-nos para as descobertas manuelinas e a morte de São Sebastião (não confundir com Dom Sebastião). Finalmente, o barrete frigio central é, desde os tempos da Revolução Francesa, um símbolo da república.

 

O que distingue o caso deste brasão do de Coimbra, em Portugal? Se ambos foram sendo alterados ao longo dos séculos, no caso do Rio de Janeiro os símbolos essenciais foram (quase) sempre os mesmos, de uma simplicidade que evita quaisquer confusões. Já os de Coimbra, na sua complexidade tornaram possível que o significado inicial se fosse perdendo, levando a múltiplas interpretações que, por parecerem verdade, contribuíram para o esquecimento de uma simbologia que lá teria existido antes.

Qual o significado do brasão de Coimbra?

Há alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade em questão, perguntaram-nos qual o significado do brasão de Coimbra? Para quem não souber a que nos referimos, aqui fica uma imagem dele:

Brasão de Coimbra

Quem é a mulher na parte superior da imagem? Porque é o elemento central tão vermelho? A que se referem a presença de um dragão, um leão e um cálice?

 

O grande problema em descortinar o significado por detrás de todos estes elementos não se prende tanto com uma ausência de fontes, mas com uma enorme discrepância entre todas elas, cada qual com uma opinião muito distinta, como dá facilmente a entender a obra conimbricense O Brasão de Coimbra, da autoria de Augusto Mendes Simões de Castro. E, por isso, nada como contar duas das versões que nos chegaram.

 

Segundo a Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, de Gil Vicente, o elemento feminino era uma princesa de nome Colimena (ou Cindazunda), que foi raptada por um gigante e aprisionada numa torre, acabando por ser salva por um leão e uma serpente que, inesperadamente, parecia ter amestrado. Poderia ser uma boa resposta ao mistério por detrás de toda a simbologia da cidade, mas na mesma peça a princesa acrescenta que “o cálice está errado, pois devia ser uma torre aprisionadora”. Mas não é uma torre – é um cálice ou uma fonte (em algumas versões mais antigas do brasão da cidade até pode ser vista a figura feminina no seu interior), denotando que o autor da peça já desconhecia a razão verdadeira por detrás desse elemento central do brasão de Coimbra, descartando-o com uma alternativa muito pouco real.

 

Noutra versão, a figura feminina representada no brasão de Coimbra era a Rainha Santa Isabel. Face a séculos de confrontos na cidade (até se poderia dizer que o Mondego foi sendo tingido de sangue, daí o elemento vermelho), a sua vinda veio trazer comunhão e harmonia a dois grandes grupos que aí habitavam (seriam eles, por exemplo, cristãos e muçulmanos, escondidos por detrás das figuras do leão e do dragão?), juntando-os com um mesmo sangue (aqui representado na figura do cálice). É uma metáfora interessante, mas também só parece surgir mais tardiamente.

 

O que sabemos, na verdade, é que estes símbolos no brasão de Coimbra não surgiram por magia. Quando alguém decidiu, por exemplo, que este deveriam conter uma serpente (ou um dragão), isso foi feito com uma determinada intenção. Infelizmente, neste caso particular essa realidade una já se parece ter perdido ao longo dos séculos, como denota o facto de não existir uma só explicação horizontal, mas várias opiniões divergentes. E por isso não sabemos o que este brasão significava, na sua forma original – temos acesso, isso sim, é a diversas opiniões, aparentemente construídas sobre o desconhecimento de aquelas que foram, faz já muitos séculos, as razões reais.

Como é o baptismo das bruxas?

Se já cá falámos várias vezes sobre as bruxas, uma questão pode permanecer – como é que alguém se torna uma bruxa? Como é o baptismo das bruxas? Que juramentos fazem elas, para ganharem os seus agora-famosos poderes? Claro que vemos muito essas coisas na cultura popular, em séries de televisão e em alguns livros, mas serão esse eventos mera ficção, ou até têm um fundo de realidade?

O baptismo das bruxas

Inesperadamente, o juramento ficcional que tanto vemos na cultura popular até tem um fundamento real. Segundo um documento nacional, datado de 1559 e que é conhecido como Confissão de umas bruxas que se queimaram na cidade de Lisboa, aquelas que se diziam feiticeiras tinham de passar por um ritual específico que, depois, as tornava bruxas, numa espécie de pós-graduação. Surgiam-lhes, supostamente, três demónios a transportar um livro que não tinha uma única folha branca, e de onde deviam ler um conjunto de promessas que faziam ao Diabo:

Prometes e juras que nunca servirás, nem adorarás, outro deus senão nós?

Renegas Deus e o baptismo que recebeste? [I.e. supõe-se, naturalmente, que a crente nestas coisas já tinha sido baptizada na Igreja Católica]

Prometes nunca deixares de fazer o nosso mandado?

Prometes não nomear o nome de Jesus de nenhum modo ou maneira, e nunca confessares a verdade, mesmo que te confesses [a um padre]?

Prometes apartares-te de Deus, e nunca teres amizade com ele, e lhe fazeres quando mal puderes?

(…)

 

Naturalmente que a pessoa, quase sempre do sexo feminino, deveria responder afirmativamente a todas estas questões. Depois, tinha relações sexuais com o Diabo, era-lhe dado um sinal corporal do seu juramento, recebia algumas prendas para recordação do que tinha feito, e até jantava sumptuosamente uma comida sem sal. Estes, entre outros, eram os elementos que então faziam parte do baptismo das bruxas, conduzindo-as a uma espécie de mundo alternativo em que se afastavam de tudo aquilo que era o Cristianismo e as suas leis. É curiosa, esta semelhança com os pactos com o Diabo de que cá falámos anteriormente, na medida em que a Bruxaria dos recentes séculos da nossa era, no seu geral, parece ser construída como uma negação ou antítese do Cristianismo e de Deus, mais do que uma entidade díspar.

Ao mesmo tempo, se as bruxas (femininas) tinham de ter sexo com o Mafarrico, esse elemento parece estar sempre ausente dos rituais para o sexo masculino, fazendo crer numa espécie de estranha heterossexualidade do opositor de Deus, que gosta de possuir carnalmente as mulheres, mas nunca faz uma tal exigência aos homens. Estranhas ideias, estas, que os textos de outros tempos nos vão revelando, não só em relação ao baptismo das bruxas, mas também em relação a todas aquelas crenças que os nossos antecessores lhes imputavam…