A lenda da Nossa Senhora da Piedade da Merceana

Numa das suas epístolas, Luís Vaz de Camões diz-nos que vivia em Goa “mais venerado do que os touros da Merceana”. A que se referia ele, e porque eram esses touros assim tão venerados? Podemos contar essa lenda, tal como nos foi contada nas nossas viagens:

Nossa Senhora da Piedade da Merceana

Por volta do século XIV, em terras de Alenquer, um pastor notou que um dos seus touros (de nome Merceano ou Marciano) desaparecia todos os dias, voltando algumas horas mais tarde. Isso acontecia tantas vezes que um dia decidiu segui-lo. Seguiu-o, seguiu-o, seguiu-o, até que encontrou o touro prostrado em frente de uma árvore, como que a rezar. Face a tal prodígio, o pastor decidiu olhar melhor e encontrou, na copa dessa mesma árvore, uma imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Retirando-a do local, levou-a depois ao padre da sua paróquia, que a colocou numa igreja. Porém, por muitas vezes que a imagem fosse levada para essa igreja, tornava a desaparecer de lá e a reaparecer no seu local original. Tantas vezes teve lugar o duplo milagre que o padre acabou por desistir, optando pela alternativa de construir uma igreja no local.

 

Face a tal prodígio, e acreditando-se que o poeta nasceu em Alenquer, é possível que nos tempos de Camões os touros da Merceana ainda fossem famosos graças a este evento miraculoso, levando-o à referência da sua epístola.

E, para quem estiver curioso, o local da igreja chama-se hoje “Merceana” por causa do nome do próprio touro. Conta-se que a miraculosa imagem – uma Nossa Senhora “da Piedade” pelo facto de apresentar o corpo de Cristo nos braços de Santa Maria (i.e. uma pietà) – ainda está no seu interior, mas nunca tivémos a oportunidade de a ver com os nossos próprios olhos.

Encontrado o crânio de Plínio o Velho?

Existem notícias que nunca pensámos em vir a partilhar por cá, mas esta é tão única que achámos que teria de ser passada aos leitores.

 

Há quase 2000 anos, quando teve lugar a mais famosa das erupções do Vesúvio, as epístolas de Plínio o Jovem dizem-nos que o seu tio, hoje conhecido como Plínio o Velho, foi investigar a ocorrência e acabou por falecer, quase certamente pela inalação de fumos.

Agora, segundo notícias muito recentes como esta, acredita-se que foi encontrado o crânio do eminente enciclopedista. A ser verdade, tratar-se-ia da primeira vez que são encontrados os vestígios mortais de alguma figura famosa da Antiguidade – recorde-se que mesmo em casos tão proeminentes como o de Alexandre Magno já se desconhece a localização de um túmulo ou de quaisquer restos mortais.

 

Mas… será verdade? Fica o convite para lerem o artigo e considerarem as evidências.

O mito de Melusina (ou Melusine)

O mito de Melusina (ou Melusine) é de origem medieval, com diversas versões em vários países europeus, que vão adicionando mais ou menos elementos a uma trama-base, que pode ser contada assim:

 

O mito de Melusina, também conhecida como Melusine, é o de uma mulher misteriosa, mas inesquecivelmente bela, que um dado cavaleiro veio a conhecer. Caído de amores por ela, prometeu-lhe que faria tudo o que pudesse para a obter para esposa; mas Melusina, essa, limitou-se a pedir-lhe algo de muito simples – que a deixasse completamente só numa determinada altura.

Inicialmente, o cavaleiro respeitou esse pedido e tudo corria bem. Pelas suas artes mágicas, Melusina deu-lhe até tudo aquilo que ele poderia desejar – amor, riquezas, filhos, um enorme castelo, entre muitas outras coisas. Mas depois, um dado dia, movido pela curiosidade e contrariando a sua promessa original, decidiu vê-la no banho e notou que a sua amada tinha uma forma monstruosa escondida abaixo da cintura. Já ela, mal se apercebeu do gesto do cavaleiro, desapareceu nesse preciso instante e nunca mais foi vista…

Melusina (ou Melusine)

Nesta pequena história podem ser vistos um conjunto de elementos que aparecem em muitas outras lendas medievais, dos quais a promessa não-cumprida é um dos mais óbvios. As versões divergem em relação ao acto proibido por Melusina – o de ser vista a tomar banho, ou o de ser vista num dado dia da semana? – mas todas elas afirmam que o cavaleiro acabou por desrespeitar essa proibição e, como tal, acabou por perder não só o seu grande amor como todos os outros grandes dons que esta lhe tinha propiciado.

 

Poderia perguntar-se… porquê essa proibição? Dever-se-ia a um tabu relativo à nudez feminina, como no mito de Acteon? A razões religiosas, tratando-se o dia da semana de aquele consagrado ao Senhor Deus? A razões anteriores a esta trama, que até prefaciam outras versões? Não sabemos, mas proibições semelhantes aparecem em muitas outras histórias da Idade Média, acabando por ser desrepeitadas em todas elas e levando, quase sempre, aquele que as quebra ao mais completo desespero.

O mito da Porca de Cromion (e a Porca Camoniana)

Quando, há já algumas semanas atrás, discutimos a lenda da “Porca” de Murça, um elemento fulcral da lenda prendia-se com a verdadeira identidade do animal que atacava as aldeias. Porém, no mito grego de hoje, o mito da Porca de Cromion, não há esse problema – a criatura em destaque é, sem qualquer dúvida, uma porca, como até pode ser visto na imagem abaixo!

Porca de Cromion em combate com Teseu

Esta porca, filha de Tífon e Equidna, aterrorizava as populações da aldeia de Cromion, sendo chamada de “Phaia” (que pode ser traduzido do Grego como “Cinzenta”) em virtude da idosa que a tinha criado. Quando um jovem Teseu passou na região derrotou definitivamente a criatura, mas não há registo do que fez ele com a dona.

O momento do confronto pode ser visto na imagem acima, com a idosa (e respectiva bengala) e a Porca de Cromion no lado esquerdo, enquanto que o herói, do lado direito e ainda sem barba dada a sua juventude, se prepara para aquele que seria um dos seus primeiros confrontos com uma criatura mitológica. Será que existiu, na Antiguidade, um poema sobre esta batalha? É bem possível que sim, mas já não nos chegou, apesar do momento inicial desta batalha ainda estar bem representado em diversos vasos.

 

Resta aqui uma última questão – estará esta figura de alguma forma relacionada com uma tal “porca camoniana” – ou, no original inglês, Clazmonian Sow, que rapidamente revela que ela nada tem a ver com o nosso Camões – que aparece nas histórias do herói ficcional Percy Jackson? Apesar da semelhança de nomes, essa porca camoniana nada tem a ver com os mitos e histórias da Antiguidade, sendo apenas uma invenção dos nossos dias, até porque, como já aqui referido anteriormente, se os javalis são raros nos mitos da Grécia Antiga, os porcos são quase inexistentes, com a excepção que aqui abordámos hoje.

A estranha origem de Roger Rabbit

A figura de Roger Rabbit é-nos hoje essencialmente conhecida por um filme lançado em 1988. Ele dá na televisão de tempos a tempos, é um filme muito colorido e apropriado para os mais novos, até em virtude das muitas personagens animadas que nele aparecem, mas parecem ser muito poucos os espectadores que conhecem a origem da sua história. Inesperadamente, o filme foi baseado numa novela que foi publicada em 1981, de título Who Censored Roger Rabbit? e da autoria de Gary K. Wolf, mas as diferenças entre ambos são tantas que essa relação pode ser definida como MESMO muito vaga. Mas, ao mesmo tempo, a obra revela um elemento muito curioso da história, que aparentemente não aparece no filme, e que motivou as linhas de hoje.

A origem de Roger Rabbit

A novela Who Censored Roger Rabbit? é essencialmente uma obra de detectives, em que o herói titular contrata Eddie Valiant, um detective privado, para investigar uma questão inicialmente menor, mas que depois se acaba por tornar muito maior – quem é o que o matou? Pode parecer uma questão absurda, mas clarifique-se que a novela introduz a ideia de que os desenhos animados conseguem produzir cópias de si mesmos que vivem até 48 horas, e quando o herói falece, o detective e o seu cliente “fantasma” partem em busca de quem matou este último. É uma ideia um tanto ou quanto caricata, ainda para mais quando, tendo apenas em conta a história deste livro individual, o herói está verdadeiramente morto… e a resolução do crime, que surge no penúltimo capítulo, é completamente absurda mesmo até no contexto do universo que a obra vai construíndo.

 

Indo ao que interessa. As histórias desta obra literária e do filme são diferentes, mas este texto explica como é que a voluptuosa Jessica Rabbit casou com Roger Rabbit – são evidentes spoilers, mas o segundo, aparentemente por puro acidente, pediu esse desejo a um génio da lâmpada!

Fora essa pequena curiosidade, é preciso admitir que o livro nos pareceu muito pouco interessante. Anda para trás e para a frente por diversas vezes, torna-se aborrecido, e o final é tão absurdo que só pode fazer sentir que toda a obra foi uma pura perda de tempo. Como tal, fica a curiosidade da existência de um livro, mas também a informação de que ele é muito pior que o filme… e talvez tenha até sido por isso que, ao escrever duas outras sequelas, o autor, Gary K. Wolf, ignorou completamente esta primeira obra, optando em alternativa por continuar as histórias propostas no grande ecrã!