A lenda do Tesouro ou Ouro de Yamashita

A lenda de hoje, relativa ao tesouro ou ouro de Yamashita, provém das Filipinas. Foi-nos contada há já vários anos, quando perguntámos a uma jovem qual considerava ela ser a lenda mais famosa do seu país-natal. É uma lenda muito simples, mas com uma espécie de plot twist muitíssimo invulgar e cuja realidade vai muito além de uma história que, em circunstâncias semelhantes, se suporia apenas ficcional.

A lenda do Tesouro ou Ouro de Yamashita

O nome deste Tesouro ou Ouro de Yamashita provém de um homem chamado Tomoyuki Yamashita, que foi um general japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo se diz, algures durante esse conflito foram juntados todos os tesouros capturados pelos japoneses e este homem foi encarregado de, entre outras tarefas aqui menos importantes, os esconder num local seguro algures nas Filipinas. Depois, em 1945 a guerra terminou… mas começou a espalhar-se o rumor de que algures nestas ilhas estavam escondidos tesouros inimagináveis, desde importantes obras de arte até milhares e milhares de barras do mais puro ouro. Seria verdade? Mera lenda? Pura fantasia? Não sabemos, nem a jovem que nos contou esta história o sabia, pelo que em condições habituais o tema ficaria por aqui, mas neste caso até existe algo mais a adicionar.

 

Em 1971 um tal Rogelio Roxas, entretanto já falecido, disse ter encontrado uma caverna com imensos tesouros, entre eles muitas barras de ouro – e sabemos que essa parte é verdade, pelo facto de ele ter vendido algumas delas – e um estátua de Buda em puro ouro com mais de uma tonelada. Essa imponente estátua foi depois roubada por ordem de Ferdinand Marcos, na altura ditador local, e nunca mais foi vista… e se o derradeiro destino da estátua também tem algumas lendas associadas – nomeadamente, que a original foi substituída por uma réplica com muito menos valor, que posteriormente foi devolvida a este senhor – o que não é de todo disputável é o facto deste senhor ter encontrado alguma espécie de tesouro nas mesmas Filipinas em que nasceu, com algumas das informações que tinha a deixarem claro que datava dos tempos da Segunda Guerra Mundial.

 

Não sabemos de Rogelio Roxas encontrou o lendário(?) Tesouro ou Ouro de Yamashita, ou apenas alguns pequenos tesouros que alguém tinha guardado em alguma caverna na ilha, mas mesmo nos dias de hoje as lendas locais continuam a falar da possibilidade de se encontrar estes tesouros perdidos. Algumas pessoas ainda procuram por eles, nunca mais foi reencontrado nada de semelhante ao que Roxas diz ter visto na sua primeira pessoa, e daí se ter propagado ainda mais a lenda a que dedicamos as linhas de hoje. Se é verdade, ou mesmo pura lenda, é algo que caberá ao leitor decidir…

“Bishops who dissented from the Christological findings of the First Council of Nicea”?

Na internet pode encontrar-se todo o tipo de coisas, algumas delas verdadeiramente fascinantes. Uma delas pode ser vista na imagem abaixo, em que a um qualquer viajante virtual foi pedido para seleccionar, numa representação bizantina do Primeiro Concílio de Niceia, os quadrados em que estejam representados bispos que discordaram da Cristologia estabelecida nesse concílio. É uma mera brincadeira, só uma pessoa com conhecimentos muito específicos seria capaz de cumprir esta estranha tarefa, num sistema que habitualmente até só pede para seleccionar sinais de trânsito, autocarros, etc., mas… na verdade, se não se tratasse de uma brincadeira, qual seria a resposta correcta para a questão “Bishops who dissented from the Christological findings of the First Council of Nicea”? E, ainda melhor, será que ela estava acessível aos “comuns mortais”?

"Bishops who dissented from the Christological findings of the First Council of Nicea"?

Curiosamente… é até possível a qualquer pessoa responder com sucesso a esta questão! Para isso basta prestar-se alguma atenção à imagem – mesmo que se desconheça a identidade de qualquer uma das figuras representadas, é possível ver que na parte inferior da imagem se encontra uma figura caída no chão, numa espécie de expressão de mais plena derrota. Ela não tem qualquer auréola, ou coroa solar, o que é raro nesta imagem. Depois, quem continuar a olhar bem para ela, poderá ver do lado esquerdo uma segunda figura sem auréola, com umas vestes esverdeadas; à direita do centro uma terceira, com um chapéu estranho e o que parece ser um bastão, também sem essa distinção; e em quarta do lado direito, de que apenas o chapéu pode ser visto na imagem. Bastaria seleccionar esses seis quadrados e toda a questão ficaria resolvida, é tão simples como isso!

 

Mas… afinal de contas, quem foram essas quatros figuras, os tais “Bishops who dissented from the Christological findings of the First Council of Nicea”? O mais evidente de todos eles é aquele que está no chão – só pode ser Ário, o fundador da doutrina dita-“herética” do Arianismo, que lhe tomou o nome (e nada tem a ver com Hitler). Esta ideia, muito sucintamente, dizia que Deus e Jesus Cristo não são apenas um só e o mesmo, e foi o principal inimigo do Primeiro Concílio de Niceia – para a combater, foi então adicionado à oração do Credo que Jesus era “consubstancial ao Pai”.

Os restantes três não são tão simples de descobrir… dois deles têm chapéus semelhantes ao de Ário, mostrando que vinham da mesma zona geográfica, e portanto é provável que sejam Theonas de Marmarica e Secundus de Ptolemais. Ao centro, e até por parecer ser jovem, é provável que esteja o diácono de nome Euzoios.

 

Como se sabe tudo isto? No concílio em questão estiveram pelo menos 200 bispos, e quando se tratou de aprovar o agora-famoso “Credo Nicénico”, apenas três deles se recusaram a fazê-lo, nomeadamente Ário [de Ptolemais], Theonas de Marmarica e Secundus de Ptolemais (Euzoios era apenas diácono, por isso não votou). Agora, se alguém quiser arriscar a identidade de todas as outras figuras representadas na imagem, com a natural excepção do Imperador Constantino (ao centro, com coroa e vestes vermelhas), aí é que toda a tarefa se torna muito mais complicada, e certamente que não iremos aqui fazê-la.

 

Claro que toda esta imagem, e a estranha “captcha” que lhe está associada, são meras brincadeiras. Presumimos que nunca ninguém tenha tido MESMO de realizar esta curiosa tarefa antes de enviar uma mensagem a uma empresa, ou de aprovar um pagamento bancário, mas é digno de nota que apesar dessa brincadeira, a questão até tem – como demonstrámos acima – uma resposta completamente real, bem como a presença de pistas que poderiam ter sido seguidas por quem nada perceba de todo este tema. É até provavelmente isso que uma boa brincadeira faz, “delectare et docere“…

“Comentário à Eneida de Virgílio”, de Sérvio – agora disponível em tradução!

O Comentário à Eneida de Virgílio, de Sérvio, já cá tinha sido falado em breves linhas há uns anos atrás, mas hoje regressamos ao tema para anunciar que, finalmente, já tornámos disponível a nossa tradução da obra para Inglês. Ela está disponível na Amazon a um valor puramente simbólico, mas sofre de um problema muito significativo… ao qual já voltaremos!

Comentário à Eneida de Virgílio, de Sérvio

Então, de que fala esta obra, para que ainda não a conhecer? Escrita por volta do século IV ou V da nossa era, este Comentário à Eneida de Virgílio pega na famosa obra latina e tenta explicar as suas sequências menos simples, quase verso a verso. Em alguns instantes o autor conta mitos que foram entretanto esquecidos (como o do Cavalo Ulisses!), naquela que é – para nós – sem dúvida a parte mais interessante de toda a obra. Mas, além disso, ele também tenta explicar o significado de determinadas expressões que pareciam ter caído em desuso, alguns pontos culturais menos simples, e mesmo identificar recursos estilísticos que, se até existem, a maior parte de nós nem sequer ouviu falar nos bancos de escola.

Não é, admita-se, uma obra que dê muito prazer em ler numa forma sequencial (seria como tentar ler uma enciclopédia…), mas é muito única e repleta de um saber frutífero, que a torna imprescindível não só para o estudo da Eneida, mas também para a compreensão das múltiplas fontes literárias que tanto Virgílio como Sérvio tinham à sua disposição. Se muitas delas estão hoje perdidas, como os Anais de Énio ou os poemas do Ciclo Épico, pelo menos este texto permite-nos ter um acesso limitado a elas, em especial nos momentos em que se intersectam com os temas abordados por Virgílio no seu famoso poema épico.

 

São, para nós, foram os momentos mitológicos deste Comentário à Eneida de Virgílio que nos conduziram a uma necessidade da sua tradução (o texto ainda não existia traduzido em nenhuma língua moderna), também houve um problema muito significativo no decurso deste trabalho. De facto, e na verdade, não foi apenas um… mas sim uma sequência de problemas que, uma e outra vez, durante mais de cinco anos foram levando ao adiamento do projecto. Ele chegou a estar proverbialmente fechado numa gaveta, quase esquecido, sem que ninguém lhe tocasse, até que tivemos de tomar uma decisão – ou ele ficava lá para sempre, ou deveríamos publicar o que já estava feito. Isso implicaria, neste caso, publicar uma tradução incompleta para uma obra da qual até já existiam diversas traduções igualmente incompletas. Isso seria uma perda de tempo, razão pela qual optámos por publicar esta tradução na forma como estava – ela cobre o livro completo, mas a tradução, em si mesma, não foi editada e revista extensamente verso a verso, mas foi editada apenas com recurso a Inteligência Artificial, que comparou a tradução com o original e nos foi avisando do que estava bem e mal. Foi um processo muito pouco fiável, mas o único que nos pareceu possível para gerar esta tradução tosca mas completa, a que provavelmente voltarmos no futuro com esperança de a melhorar.

 

Vale então a pena ler este Comentário à Eneida de Virgílio? A resposta, neste caso específico, depende muito do contexto do próprio leitor, mas podemos deixar uma sugestão – se for lido em paralelo com o próprio poema épico latino, ele permite conhecer mais e melhor um conjunto de pontos que escapam aos leitores comuns. É, por isso, uma obra que anda de braços dados com a Eneida, e que talvez mereça ser lida juntamente com ela por todos aqueles que têm interesse em conhecer melhor essa grande obra dos Romanos!

 

P.S.- A obra estará na Amazon 100% grátis durante o dia de amanhã, por isso… aproveitem a oportunidade para a descarregar sem qualquer custo, se assim o desejarem!

Os mitos de Tages e Vegóia

Tanto o mito de Tages, como o de Vegóia, parecem ser quase completamente desconhecidos nos nossos dias de hoje. Assim, se a semana passada falámos aqui sobre a civilização etrusca, mais especificamente sobre a forma como os Etruscos interpretavam os sinais divinos, faz hoje sentido que aqui falemos de duas figuras que tanto esse povo como, posteriormente, os Romanos associavam a essas antigas artes.

O mito de Tages e Vegóia

Sobre a primeira das duas figuras, Tages, contava-se que num dado dia um agricultor estava a abrir sulcos no seu terreno quando, pelo mais completo acidente, abriu um buraco demasiado grande. Nesse momento saiu de lá uma espécie de estranha criança com cabelos brancos, que depressa evidenciou o seu enorme conhecimento das artes humanas e divinas. Face a um tão estranho monólogo, bem como à estranha figura do relator, algumas pessoas das redondezas juntaram-se ao local e foram anotando o que ele ia dizendo, gerando um conjunto de conteúdos que posteriormente se tornaram parte dos livros sagrados da civilização etrusca. Infelizmente, não só esses livros estão agora quase perdidos, mas também o derradeiro destino do próprio herói desta história parece desconhecido – presume-se, portanto, que tenha desaparecido de uma forma tão misteriosa como primeiro apareceu, ou que tenha ascendido aos céus como Rómulo / Quirino.

 

Sobre Vegóia ainda menos se sabe, mas existem na literatura que nos chegou da Antiguidade algumas breves referências a ter sido ela a profetisa ou ninfa que trouxe ao povo etrusco um conjunto de conhecimentos, ou até livros físicos, relacionados com a interpretação do futuro, então realizado seja pelos órgãos internos dos animais ou pelas trovoadas. Assim, por esse seu papel religioso, ela até se confunde um pouco com a figura anterior, desconhecendo-se os limites dos papéis de ambos na literatura religiosa dos Etruscos.

 

Tanto o mito de Tages como o de Vegóia já remetiam para um passado muito remoto no tempo dos Romanos, o que pode explicar o porquê de nos ter chegado muito pouca informação sobre cada um deles. No entanto, não pode deixar de ser apontada uma curiosa relação destas duas histórias com uma mais tardia, da mitologia latina, ainda hoje bastante conhecida e que opunha a Sibilia de Cumas a Tarquínio. Terá sido essa uma adaptação de um antigo mito associado a uma ninfa, como a que dá título ao artigo de hoje, e muitas outras histórias que essa civilização tomou dos Gregos? Ou será que nessa altura existiam diversos mitos semelhantes a estes, em que figuras mais ou menos divinas apareciam e divulgavam o que se viriam a tornar ideias religiosas?

É difícil sabê-lo hoje em dia, dado se terem perdido tantas das fontes originais, pelo que resta apontar, sem quaisquer dúvidas, que tanto os Etruscos como os Romanos tinham diversas crenças religiosas cuja origem atribuíam a figuras misteriosas de um passado remoto, mas cujos ensinamentos continuavam a impactar as sociedades romanas até à ascensão do Cristianismo.

A origem dos Pontos Cardeais

Falar da origem dos pontos cardeais, ou da chamada “rosa dos ventos”, pode ser um pouco complicado. Quem tentar fazer uma pesquisa por essa informação na internet encontra, aqui e ali, informações muito variadas e vagas, essencialmente dizendo que estas coisas foram todas elas criadas pelos Gregos da Antiguidade, mas sem que se explique ora sobre o porquê dessa criação, ou se apresentem quaisquer tipo de provas reais. Visto que não gostamos muito que se teorizem as coisas só “porque sim”,

A origem dos Pontos Cardeais ou da Rosa dos Ventos

Na imagem acima pode ser visto o chamado “Fígado de Placência”, que obteve esse nome pelo local em que foi reencontrado em finais do século XIX. A sua data de origem não é completamente clara, mas a cidade, em si, parece ter sido fundada no século II a.C. Agora, o que isto tem de interessante e de relevante para todo o tema é que este se trata de um modelo de um fígado de uma ovelha em tamanho real, com alguma escrita – em Etrusco – com intenções lectivas. Já não é claro como os fígados, e outros orgãos internos dos diversos animais, eram utilizados na altura para prever o futuro, mas o que pode ser visto, sem muita dificuldade, ali em cima é que existe uma tentativa de divisão do orgão em diversas partes.

Isto é importante porque, segundo ainda se sabe, os Etruscos acreditavam numa interpretação de sinais divinos com base no local em que tinham lugar. Assim, uma trovoada a nordeste teria um significado diferente de uma a sudeste, ou de uma a norte; um pássaro que cantava a sul devia ser interpretado de forma diferente de um que o fazia a leste, e assim por diante.

 

Esta necessidade religiosa de uma divisão dos céus e do mundo, na altura com um total de 16 partições, levou à criação de algo que poderíamos chamar os pontos cardeais por parte dos Etruscos. Nessa sua forma inicial, isto nada tinha a ver com os ventos, como outros artigos insistem em fazer crer, mas com a necessidade de compreender que deus enviava um determinado sinal divino. Uma dada subdivisão pertencia ao Sol ou a Jano, outra pertencia a deuses quase esquecidos como Fufluns ou “leθns“… e para poderem interpretar correctamente todos esses presságios, os sacerdotes de altura tinham de ter um conjunto de vocabulários para designar cada uma dessas posições, o que levou tanto àquilo que chamamos pontos cardeais, mas também – e muito posteriormente – à chamada rosa dos ventos.

 

O que é muito curioso, mas também muito digno de nota, em toda esta história é que ela não está escrita. Não existe qualquer prova indisputável que diga, contrariamente ao que aconteceu com a origem dos nossos dias da semana em Portugal, que a direcção anteriormente associada a Fufluns agora ia passar a ser denominada “Sul”. O que sabemos, sem dúvidas e porque alguns autores latinos nos foram legando essa informação, é que os Etruscos previam o futuro com base nas tempestades e suas localizações, bem como através da utilização de fígados de animais, e a existência de vestígios como os mostrados ali na imagem acima atestam o seu interesse no estudo dessas divisões. Daí até à alteração de nomes de cada uma das divisões vai um passo muito pequeno, e se não sabemos quando ele teve lugar, o processo parece ter resultado de uma readaptação de um conjunto de pesquisas, outrora religiosas, ao mundo secular… e a sua associação aos ventos, necessária para a navegação marítima, também faz bastante sentido.

 

Portanto, em suma, qual é a mesma a origem dos pontos cardeais e da rosa dos ventos? Na nossa opinião – mas frise-se que, como já apontado acima, não existem provas 100% concretas – essas ideias nasceram dos Etruscos, e da sua comprovada necessidade religiosa de subdividir tanto o mundo terreno como os orgãos internos dos animais em diversas secções, cada uma delas associada por este antigo povo a uma entidade divina diferente.