As duas lendas da Cruz Quebrada (na Linha de Cascais)

A ponte em Cruz Quebrada

Muitos são os topónimos portugueses cuja verdadeira origem se encontra envolta em mistérios. Hoje iremos falar de outro local problemático, a Cruz Quebrada. De onde vem esse nome? Existem pelo menos duas lendas associadas a ele:

 

Numa delas, um moleiro local sofreu várias desilusões de amores. Procurando uma solução para os seus males do coração, aproximou-se de um herético que lhe disse que deveria fazer um dado ritual, no qual um dos passos passava por mutilar uma cruz que estava exposta em público. Imprudentemente, fê-lo mas foi apanhado; em seguida foi julgado e queimado numa fogueira, mas o acto que tinha cometido pareceu tão horrendo entre os fiéis que acabou por dar nome à povoação em que teve lugar.

 

Uma outra lenda diz algo significativamente diferente. Conta-nos que no tempo das invasões francesas alguns soldados estrangeiros decidiram derreter símbolos religiosos para reaproveitarem os materiais. Com vista a esse objectivo, numa dada altura foram a uma ponte em que existiam duas cruzes e removeram uma delas. Por milagre, a sua companheira começou a gritar, a pedir socorro, e só se calou quando a outra foi reposta no seu local. Tal milagre levou ao nome da “Cruz Que Brada” (i.e. que solta gritos), que mais tarde se tornou “Quebrada”.

 

Porque tem, então, a povoação de Cruz Quebrada esse nome? O elemento miraculoso da segunda lenda é potencialmente problemático, mas não sabemos até que ponto a primeira será digna de maior crédito. Poderá, realmente, preservar a origem do nome da povoação, mas… terá sido verdade, a história que nos conta?

Por favor, cuidado com o que deitam fora…

Fotografia

Hoje, enquanto vinha da universidade para casa, encontrei um quadro próximo do lixo, à chuva. Trouxe-o para casa e ainda tentei salvar o que pude (vejam os maiores danos na parte superior). É um quadro com os bustos e cronologia dos Reis de Portugal, terminando (no topo) com as figuras de D. Fernando e D. Luiz I. Este quadro foi aparentemente impresso por António Joaquim Alves em 1878, ou seja, tem aproximadamente 141 anos.

Não sei se terá qualquer valor monetário, mas provavelmente tem valor histórico. E, ainda assim, alguém decidiu deitá-lo fora, à chuva, como se fosse algo sem qualquer valor. A sério, por favor, tenham cuidado com o que deitam fora!

 

[Editado, em Fevereiro de 2024:]

Dois quadros de Fox Wood Tales

Muitas outras coisas foram sendo encontradas no mesmo local ao longo dos anos. Porém, mais recentemente foram dignos de nota dois quadros relativos à série Fox Wood Tales. Estão ambos assinados pelos autores, e têm uma dedicatória a uma Rita e a uma Sofia. Não foi possível apurar as suas identidades, mesmo após contactar os autores da série (que podiam lembrar-se de os ter assinado em Portugal), pelo que serão doados a uma biblioteca nacional.

O outro “Dom Quixote”, o de Avellaneda

Este livro merece ser referido por cá dado o seu estranho papel na história da literatura ocidental. Quanto Cervantes escreveu o primeiro tomo do seu Dom Quixote, a obra tornou-se tão popular e famosa que os leitores pareciam suspirar por mais aventuras do seu herói. E elas até surgiram algum tempo depois, não pela mão do autor original, mas pela de um tal “Alonso Fernández de Avellaneda”. Essa prática não era proíbida na altura, mas, pelo menos, parecia ser um pouco mal vista, dado que Cervantes ainda estava vivo. Como tal, o autor original depressa escreveu um segundo tomo “oficial”, que ainda hoje é incluído nas edições dos nossos dias e em que também critica as falsas aventuras do “outro” Quixote, o de Avellaneda.

 

Nesse contexto, a versão de Avellaneda foi sendo esquecida – não parece sequer existir em tradução portuguesa – e é hoje vagamente criticada como sendo inferior à de Cervantes. Mas será que o é? É uma questão um tanto ou quanto discutível; essa versão apresenta uma ligação muito maior aos antigos romances de cavalaria, fazendo bastantes referências a aventuras como as de Orlando, Amadis, Palmeirim e outros tantos heróis medievais, enquanto que a do autor original abandona um pouco essa ideia no segundo tomo. Ao mesmo tempo, também é uma espécie de desfilar de desapontamentos, com uma oferta de aventuras em que o leitor é repetidamente levado a pensar uma coisa e depois lhe é dado algo completamente diferente – desde se atrasar para torneios, até defrontar gigantes que depressa se tornam donzelas, ou acabar preso numa espécie de clínica psiquiátrica, este é um Quixote bastante desapontante, apesar de ter alguns momentos reluzentes, que poderão agradar a quem ainda gosta de romances de cavalaria.

“E pluribus unum” – significado e origem

Um dado clube português, o Benfica, tem no seu emblema uma expressão latina – “E Pluribus Unum”. Mas qual a sua origem, e o que significa?

Símbolo do Clube

A sua aparição mais famosa na Antiguidade é no verso 102 de um poema chamado Moretum, atribuído (falsamente?) a um jovem Virgílio. Nesse poema gastronómico, enquanto é preparada a refeição que lhe dá o título, é dito que color est e pluribus unus, algo como “a cor é uma de entre muitas”. Ou seja, enquanto misturava os ingredientes, o sujeito poético vê as cores de cada um deles a se irem dissipando, acabando por formar uma só tonalidade final.

E, na verdade, essa ideia da mistura dos ingredientes, que se vão assimilando para formar uma só refeição, capta perfeitamente o significado de toda a expressão – também dos constituintes se espera que se unam como um só, “de muitos, um”, sob a égide de quem decide adoptar este lema.