Como é que Maria engravidou e se manteve virgem?

A forma como Maria engravidou e se manteve virgem é um dos grandes mistérios do Novo Testamento, tal como o temos nos nossos dias. Claro que existiram, ao longo dos séculos (e até nos nossos dias), outros exemplos de mulheres que engravidaram ainda virgens de quaisquer relações sexuais, mas se a cesariana já existia nos inícios da nossa era (Solino diz-nos que o nome foi popularizado por César ter nascido através dessa técnica), nada no texto bíblico nos diz que foi assim que o filho nasceu. O que nos leva, por isso, a uma questão intrigante – como foi Jesus concebido, e como foi possível que ele nascesse sendo mantida a virgindade de Maria?

Maria e o Anjo

A resposta que um padre vulgarmente nos dará é que “foi milagre”. Sim, a um deus omnipotente tudo seria possível, até a manutenção da virgindade de uma mulher após um nascimento, mas essa pseudo-resposta é também muito pouco satisfatória, até porque se abriria a caricata possibilidade de se poder dar igual resposta a toda e qualquer outra questão bíblica.

Em alternativa, ao longo dos séculos foram sugeridas alternativas. A mais interessante delas, e aquela que trazemos aqui hoje, diz que Maria engravidou pela orelha, e que o próprio filho nasceu, também ele, pela mesma orelha da mãe, tornando possível a manutenção da sua prezada virgindade. E porquê pela orelha? Essencialmente, porque se acreditava que o pecado de Eva tinha entrado pela orelha, quando a Serpente falou com ela, e assim fazia um estranho sentido que a salvação do mundo nascesse do mesmo local de onde veio a sua condenação. A ideia, que não tem quaisquer fundamentos biológicos reais, já aparecia em autores como Efrém da Síria (século IV), numa dada altura até apareceu muito representada na arte, e o nascimento de Jesus de uma forma semelhante a esta, ocorre pelo menos num texto cátaro (i.e. da Idade Média).

 

Como é que Maria engravidou e se manteve virgem? Claro que esta é uma resposta muito estranha para essa pergunta, mas parte do cumprimento de uma pseudo-profecia presente no Antigo Testamento. É, por isso, uma possibilidade como qualquer outra, rementendo-nos, como é muito frequente nestes casos, para o reino exclusivo da fé…

A história de Lugalbanda, com 4100 anos

Pássaro Anzu

Falar da história de Lugalbanda tem um significado extra para nós, pelo facto de ser um dos mais antigos que já passou por este espaço. A versão a que tivemos acesso, apesar de fragmentária, tem cerca de 4100 anos e permite-nos conhecer parte da história de uma figura suméria chamada Lugalbanda. Vamos a isso?

 

Lugalbanda era um soldado do Rei Enmerkar. Adoecendo durante uma guerra, foi levado por alguns companheiros para uma caverna numa montanha, onde se esperava que vivesse ou morresse. Após rezar a três deuses recuperou a sua saúde. Alguns dias depois capturou três animais e, num sonho, foi-lhe comunicado que os sacrificasse aos deuses. O que acontecia em seguida está parcialmente perdido, mas a história do herói ainda não acabou para nós.

 

Algum tempo depois Lugalbanda ainda estava a viver nas montanhas. Num dado dia encontrou uma cria do Pássaro Anzu [uma criatura famosa dos mitos suméricos, uma grande águia com cabeça de leão, que pode ser vista na imagem anterior], que alimentou e de quem cuidou durante algum tempo. Quando o respectivo Pássaro Anzu voltou, ficou tão feliz com os actos do herói que decidiu recompensá-lo com um dom semelhante à super-velocidade, mas que ele não deveria divulgar a ninguém.

Voltando então à civilização, Lugalbanda reencontrou os seus companheiros do exército, que ainda estavam a tentar atacar a mesma cidade. Face à lentidão do confronto, o Rei Enmerkar decidiu procurar o auxílio da deusa Inana [i.e. Ishtar], enviando o herói em busca dela. A deusa respondeu-lhe com uma parábola, mas o resto da história está perdido.

 

Pouco mais sabemos sobre este Lugalbanda, com excepção de uma informação um tanto ou quanto curiosa – no Épico de Gilgamesh, o famoso herói refere-se a si mesmo como “filho de Lugalbanda” (e de uma deusa). É provável que esse matrimónio tomasse lugar depois dos episódios que nos chegaram nas fontes da Suméria, com mais de 4100 anos, mas é pouco mais do que uma suposição. Mas, pelo menos, este mito não foi totalmente perdido nas areias dos tempos…

“Henriqueida”, um poema épico pouco conhecido

A Henriqueida, um poema épico pouco conhecido, é um exemplo perfeito de um problema significativo da literatura mundial. Quando pensamos em poesia épica temos em mente obras como a Ilíada, a Odisseia, a Eneida… ou, num contexto português, quase certamente Os Lusíadas de Camões. Porém, raramente se pensa é que para esses poemas se tornarem particularmente famosos existiram muitos outros que tiveram de ficar pelo caminho, de que os Anais de Énio são provavelmente o exemplo mais famoso, mas não o único.

Capa da Henriqueida

Nesse contexto, hoje falamos da Henriqueida, um poema épico português de meados do século XVIII. Quase nada conseguimos descobrir sobre ele online, mas quando o fomos ler acabámos por perceber o porquê dessa grande ausência de informação – é, pura e simplesmente, uma obra bastante desinteressante. E a opinião não é somente nossa – pelo menos um outro leitor dela disse que se trata de uma “obra de merito mediocre, na opinião dos criticos, apezar da summa diligencia com que o auctor pretendeu reduzi-lo ás regras e preceitos epicos, de que era perfeito sabedor. O que lhe faltava unicamente era genio e gosto” (fonte).

 

O problema começa logo com o próprio tema – quem será o “Henrique” que dá título à obra? Talvez um épico sobre o Infante D. Henrique até fosse uma ideia muito interessante, mas o escolhido é aqui um outro Henrique, o de Borgonha, pai de Afonso Henriques.

Depois, se a Henriqueida até tem alguns instantes notáveis, parecem ser ainda mais aqueles que não o são. Por exemplo, no segundo canto Henrique encontra uma caverna secreta perto do Porto e Gaia, em que está escondida a Sibila e onde estão presentes algumas estátuas dos futuros monarcas portugueses. A ideia é interessante, mas relatada de uma forma tão cansativa, enfadonha.

É, talvez mais que tudo, essa grande falha desta obra. O autor parece ter estado tão preocupado com seguir um conjunto de regras formais, e em demonstrar o seu conhecimento da Antiguidade, que se parece ter esquecido de tornar o seu poema interessante para o leitor. Na verdade, o próprio autor, ao escrever este seu poema, sentiu a necessidade de o adornar com copiosas notas explicativas – mais de 700, ao longo dos 12 cantos – porque parecia saber que só assim os leitores o poderiam compreender…

O final da Guerra de Tróia num desenho animado de 1960

Estamos a considerar conduzir alguns períodos temáticos neste espaço. Como experiência, Setembro de 2019 será um mês dedicado a um único tema – durante as próximas semanas iremos falar de alguns dos mais curiosos mitos, lendas e histórias que chegaram aos nossos dias. Preparados?

 

Enquanto ajeitamos a proverbial toga, aqui fica um pequeno desenho animado de 1960, que conta, de uma forma adaptada para crianças e muito breve, a história dos últimos dias da Guerra de Tróia. Como um comentador online disse, “naturalmente que deixaram de lado as incontáveis mortes e a violação de Cassandra”, o que nos parece bem justificável.

Os amores do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, ou um destino da Arca da Aliança

Poucas histórias parecem fascinar tanto a humanidade como a do destino final da Arca da Aliança, a tal onde estavam encerradas as duas tábuas dos Dez Mandamentos. A sua redescoberta poderia provar a veracidade dos textos bíblicos, mas pouco se sabe da sua localização após a perda do Primeiro Templo de Jerusalém, o mesmo que foi eregido pelo Rei Salomão. Existem, aqui e ali, uma e outra hipótese, mas a que apresentamos aqui hoje é intrigante quanto pouco conhecida na cultura ocidental.

Os amores do Rei Salomão e da Rainha de Sabá, ou um destino da Arca da Aliança

Segundo o Kebra Nagast, um épico etíope que poderá datar do século XIV (o texto diz tratar-se de uma suposta tradução do copta para o árabe e depois para a língua local), quando o Rei Salomão e a Rainha de Sabá se encontraram em Jerusalém – como nos diz o Antigo Testamento – aconteceu também algo que o texto bíblico não preserva – a rainha, aqui chamada Makeda, engravidou e teve um filho do monarca, a que viria a dar o nome de Menelik. Será que, então, Salomão casou com a Rainha de Sabá? Não – segundo o texto desta obra, esta gravidez aconteceu apenas porque, entre outras razões, Salomão queria engravidar o maior número possível de mulheres, de forma a propagar a crença em um deus único (e não estamos a brincar, é mesmo isso que o texto afirma).

 

Alguns anos depois, Menelik foi a Jerusalém conhecer o pai. Quando voltou à Etiópia trouxe consigo a Arca da Aliança. Não se tratou de um roubo (!), o texto deixa claro que a Arca apenas foi levada por vontade divina, em parte devido à piedade do jovem e em parte porque Salomão andava a transgredir as regras que Deus lhe tinha imposto.

 

As aventuras mencionadas no Kebra Nagast poderiam tratar-se de histórias lendárias como muitas outras, mas a Igreja de Santa Maria de Sião, na cidade etíope de Axum, supostamente ainda tem no seu interior a Arca da Aliança, a mesma que dizem que Menelik trouxe do reino de Salomão. Porém, antes que se metam num avião para a re-encontrar, convém frisar que o local não está aberto ao público, nem é possível ver o tão famoso ítem. É possível que Edward Ullendorff a tenha visto durante a Segunda Guerra Mundial e afirmado que é uma cópia sem muito valor, como detalha este artigo, mas pouco mais sabemos sobre ela. É, por isso, uma possibilidade, mas também um beco sem saída.

 

Se existem várias outras histórias apócrifas que unem em laços amorosos a Rainha de Sabá e o Rei Salomão, chegando ao ponto de existirem até livros e filmes sobre o tema (como o da imagem ali em cima), esta parece ser uma das mais antigas referências a um potencial filho de ambos. Mas, se esse é o episódio central e fulcral do Kebra Nagast, esta obra também tem menções a vários outros mitos cristãos, desde a criação do Homem no Paraíso até às muitas sequências do Antigo Testamento que previam a vinda de um Messias (e que o texto descrimina de uma forma inesperadamente directa). Tem alguns momentos puramente belos (como as frases de Salomão sobre a natureza do conhecimento humano), mas, talvez mais que tudo, é notável pela forma como re-escreve e adapta alguns mitos bíblicos a um contexto africano.