“O Cavalo de Tróia foi real?”

Cavalo de Tróia

Hoje, convém começar por assegurar aos leitores que alguém perguntou mesmo isto ali na secção de pesquisa – “O Cavalo de Tróia foi real?” É como quem diz, “será que o Cavalo de Tróia existiu mesmo?”

 

Se quiserem uma resposta simples e rápida, não temos quaisquer provas de uma existência real do Cavalo de Tróia, nem do que lhe aconteceu depois da suposta conquista da cidade (presume-se que tenha ardido no fogo?). Mas, de uma forma mais leve, propomos um exercício pouco vulgar neste espaço – imaginem que vivem na Tróia de Homero e, num dado dia, após 10 anos de guerra, encontram um enorme cavalo de madeira estacionado às portas da vossa cidade. Não se esqueçam de ter em conta que esse cavalo é tão grande que, no mínimo dos mínimos, cabem lá dentro dez homens. Ao lado dele está um homem que vos assegura, repetidamente, que é totalmente seguro levarem um tal prodígio para o interior das muralhas da cidade. O que fariam?

Mapa de (algumas) criaturas mitológicas europeias

Mapa de (algumas) criaturas mitológicas europeias

Na imagem acima, da autoria de investigadores da Universidade de Vilnius (na Lituânia), poderão “ver” um mapa em que estão representadas algumas das principais criaturas mitológicas europeias. Contudo, há um pequeno problema – a imagem é gigantesca, nunca caberia no ecrã, pelo que poderão carregar nela, ali em cima, para descarregar uma versão em pdf do documento (é um pouco grande, a transferência poderá demorar algum tempo), que poderão ampliar e explorar como desejarem.

 

O documento contém informação bastante interessante, desde os locais em que as criaturas mitológicas vivem até uma pequena informação biográfica. Ainda assim, está um pouco incompleto e tem algumas incorrecções mínimas – por exemplo, em relação às criaturas portuguesas, apenas são apresentadas o Duende (definido como “um anão da floresta, que atrai jovens raparigas para esse local, fazendo com que percam o caminho para casa”) e a Moura Encantada (ou seja, “uma jovem sobrenatural com belos e longos cabelos. Guarda castelos, cavernas, pontes, poços, rios e tesouros”), quando até existem muitas mais, de que o Tritão da zona de Lisboa é uma das mais evidentes. Mas, apesar disso, este não deixa de ser um recurso muito interessante para quem se interessa pelos mitos e lendas da Europa, aqui apresentados através de algumas das criaturas mitológicas europeias que neles aparecem.

Floris, Brancaflor, e o copo de Vulcano

A história de Floris e Brancaflor parece ter sido uma das mais populares na Idade Média, com os seus amores a serem até imortalizados em várias outras obras. Mas se nessa obra o episódio dos confrontos de xadrez entre Floris e o guarda da torre que aprisiona Brancaflor, representado na imagem acima, até tem uma maior importância, existe uma referência na trama que, para os amantes dos antigos mitos, não poderá deixar de ser mencionada. Quando Brancaflor é vendida por dois mercadores, a sua beleza era tal que eles mereceram incontáveis recompensas em troca, uma das quais um copo de valor incalculável, assim descrito numa das versões do poema:

 

Vulcano tinha feito este copo, e nele tinha representado como Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, tinha raptado Helena, e foi perseguido pelo raivoso Menelau, senhor de Helena, juntamente com o seu irmão Agamémnon, ao comando de um poderoso exército; e como os Gregos cercaram e atacaram a cidade de Tróia, que os Troianos defenderam, e quando a cidade foi tomada Eneias trouxe o copo e deu-o ao irmão da sua amada Lavínia.

 

São diversas as questões que este invulgar copo nos pode suscitar, mas ele é, mais que tudo o resto, uma recordação dos mitos de Tróia em plena Idade Média. É uma invenção completamente medieval, até porque normalmente Eneias escapa da cidade em chamas apenas com o pai ás costas e o filho pela mão, mas não deixa de ser um elemento que, na história deste Floris e da sua Brancaflor, nos remete para conquistas de outros tempos.

Os alfabetos do nosso passado

Nunca pensaram de onde vêm as letras do nosso alfabeto? Há bem mais de 3000 anos que o ser humano sente a necessidade de colocar alguma informação por escrito, mas desconhecemos quem terá sido o primeiro a fazê-lo. Claro que existem mitos sobre isso – entre os egípcios, por exemplo, o deus Thoth foi o seu criador – mas a identidade do primeiro dos homens a escrever uma letra será, provavelmente para todo o sempre, um dos grandes mistérios da humanidade.

 

O que sabemos é que, qualquer que tenha sido a sua origem, os alfabetos foram evoluindo ao longo dos séculos. Ainda há menos de 30 anos que as letras K, W e Y não eram consideradas como parte integrante da língua portuguesa, e poucos anos passaram para que todos nós as conheçamos. Nesse sentido, o diagrama abaixo, da autoria de Matt Baker, apresenta-nos numa só imagem um conjunto de informações interessantes.

Vários alfabetos

Como podemos constatar, os alfabetos ocidentais parecem ter evoluído com vista a uma simplificação dos seus símbolos gráficos, mas também para que as suas sonoridades sejam mais fáceis de perceber.

Mas, ao mesmo tempo, isto também acaba por levantar um número enorme de questões. Por exemplo, como é que o lamba grego (Λ ou λ) deu o nosso L? Porque foram alguns símbolos caindo pelo caminho e outros tornados quase irreconhecíveis? A que se devem rotações que em nada simplificam os originais? Não sabemos; até poderemos vir a ter as nossas opiniões, aqui e ali, mas as certezas são muito poucas, porque também foram poucos os que sentiram a necessidade de preservar essa informação até aos nossos dias…

A história de Áquila de Sínope

Códice antigo

Sobre este Áquila, a que já aludimos há alguns dias atrás, sabemos que fez uma tradução do Antigo Testamento para a língua grega. Terá sido por essa altura que corrompeu parte do texto original, criando um novo, cujo significado se distanciava bastante do judaico. Mas porque o fez? Essa é uma história curiosa, e que já vem, pelo menos, do século IV d.C. …

 

Áquila de Sínope foi um pagão que se converteu ao Cristianismo. Gostava bastante da sua nova religião, mas mesmo assim não queria deixar de lado a mesma Astrologia que tanto o tinha apaixonado até então. Por isso, e após ter sido avisado por diversas vezes que não podia continuar a seguir essas práticas, foi expulso da fé cristã. Com o seu espírito repleto de sentimentos de vingança, decidiu então converter-se ao Judaísmo e corromper o texto bíblico, para assim se vingar da religião cristã.

 

Mas… será esta história verdade? A alusão mais antiga que encontrámos a ela provém de um texto de Epifânio de Salamina, cerca de 200 anos após os acontecimentos originais, sendo possível que se trate de uma ficção. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que existem diferenças entre o texto judaico e o grego do Antigo Testamento; serão fruto das alterações de Áquila, meros erros de traduções (traduttore, traditore), ou terão surgido por uma qualquer outra razão? Isso é que já não sabemos; caberá ao leitor pensar no problema e chegar às suas próprias conclusões.