Será que o Rei Artur existiu mesmo?

Há alguns dias foi cá deixada esta pergunta – Será que o Rei Artur existiu mesmo?

Rei Artur e a espada

É uma boa questão, mas a grande dificuldade em responder a ela passa por definir aquilo que se considera uma existência do Rei Artur. Por exemplo, um episódio como o da espada presa numa pedra, mostrado na imagem acima numa versão da Disney, apesar de ser muito famoso dificilmente terá sido real. Se removermos esse episódio, certamente fictício, da vida do herói, abre-se a possibilidade de que outros também possam ter sido mera ficção, o que, por sua vez, nos transporta para uma questão adicional – se essa tal figura existiu, o que podemos verdadeiramente saber sobre ela?

 

É esse o grande cerne da questão. É possível que um monarca conhecido sob o nome de Artur até tenha existido, num dado momento da história da Grã-Bretanha, mas não temos forma de distinguir os seus feitos reais daqueles que foram tornados lendários.

Para dar um exemplo concreto, na Vida de Merlim, de Geoffrey de Monmouth (ou, se preferirem, Godofredo de Monmouth), é dito que Uther fugiu para a Grã-Bretanha quando “Constante”, supostamente seu irmão, foi traído (i.e. Constante II, ou seja, por volta de 411 d.C.). Sabendo que este Uther é o pai deste Rei Artur, isso permite-nos colocar a vida do herói que procuramos no século V d.C., mas somos rapidamente levados para elementos lendários quando é acrescentado que foi ele que derrotou o Procurador Lúcio Hibério (ou Tibério), uma figura quase certamente fictícia. Ou seja, até num mero punhado de linhas de um mesmo documento a potencial realidade e a ficção por detrás da figura de Artur fundem-se numa só, o que torna bastante difícil traçar onde acaba uma e começa a outra; de facto, o problema até se complica mais se tivermos em conta que o mesmo autor, na sua História dos Reis da Bretanha, também diz que Artur abandonou o trono, por ter sido ferido mortalmente em combate, em 542 d.C. – cerca de 130 anos depois da fuga do seu pai para a Grã-Bretanha, o que dá uma idade prodigiosa a pelo menos um deles!

 

Por isso, será que o Rei Artur existiu mesmo? É possível que sim, mas face aos dados que temos nos nossos dias é-nos difícil reconhecer onde acaba uma possível figura histórica e onde começa a sua lenda. O Artur lendário pode ser encontrado nas mais diversas histórias da Idade Média, mas a figura potencialmente real por detrás dele parece estar, hoje, irremediavelmente perdida.

O infeliz mito do Colar de Harmonia

O infeliz mito do Colar de Harmonia surge-nos num contexto muito particular. Há algumas semanas atrás, quando escrevemos sobre o Copo de Vulcano, uma leitora veio-nos perguntar que poderes mágicos tinha esse copo. Na altura tivemos de lhe dizer que este não tinha quaisquer poderes e que, de facto, os objectos terem poderes era algo pouco frequente nos mitos gregos. A Caixa de Pandora, o Escudo de Aquiles, a Armadura de Mémnon, e outros que tais, eram conhecidos em virtude da fama dos seus possuidores iniciais, mais do que por vias de um qualquer poder que pudessem ter. Mas, aqui e ali, até existem algumas excepções, de que o Colar de Harmonia é, muito provavelmente, uma das mais famosas.

Colar de Harmonia a ser oferecido

 

Conta-nos o mito que, num dado dia, Hefesto apanhou a mulher, Afrodite, a traí-lo com o deus Ares, e por isso decidiu amaldiçoar toda a prole que os dois amantes viessem a ter. Dessa traição nasceu Harmonia, a quem Hefesto deu o mais belo colar alguma vez feito, que até tinha o poder de dar beleza e juventude eterna a quem o possuísse (o que o tornou, diga-se, muito popular entre o sexo feminino). Mas, antes que nos perguntem onde o obter, havia também um pequeníssimo senão – a possuidora ficava amaldiçoada e condenada a sofrer tormentas sem fim.

Ainda assim, o Colar de Harmonia foi passando de mão em mão, causando repetidos sofrimentos. Na imagem acima, por exemplo, ele pode ser visto no momento em que Polinices o usou para subornar Erifile, para que esta convencesse o marido a juntar-se à Guerra de Tebas. Ela aceitou-o e acabou por sofrer as consequências expectáveis.

Depois, este colar continuou a passar de mão em mão, até que alguém teve a sensatez de o oferecer a um templo em Delfos. Aí ficou durante bastante tempo, até que o tirano Fáilo, provavelmente no século IV a.C., o retirou do local e ofereceu à amante. Em seguida, o seu filho mais novo enloqueceu, deitou fogo à casa em que viviam e morreu juntamente com a própria mãe.

 

Caso alguém deseje ir procurá-lo, onde está agora este Colar de Harmonia? A verdade é que não sabemos… a amante de Fáilo parece ter sido a sua última possuidora, e depois dessa altura a peça de joalharia parece ter desaparecido de todas as histórias que nos chegaram. E, a acreditarmos na veracidade dos seus poderes mágicos, esse até é um desaparecimento que em nada prejudica a humanidade!

“Gods & Monsters”, um possível novo jogo baseado na Mitologia Grega?

Na conferência de videojogos E3 foi apresentado, há já algumas semanas, um novo jogo intitulado Gods & Monsters. Ainda pouco se sabe sobre ele, mas no trailer acima já podem ser vistas duas criaturas mitológicas, uma Górgone e uma Harpia. A página do jogo acrescenta alguma informação adicional, revelando que a aventura terá lugar nas Ilhas Afortunadas, que o antagonista será Tífon, e que os jogadores também irão lutar contra outras criaturas, como hidras e ciclopes.

Agora, é esperar para ver, pode ser que o jogo venha a ser interessante…

Sobre o Mabinogion

O Mabinogion é uma colecção de algumas histórias orais bretãs compilada por volta do século XII. São, todas elas, histórias belíssimas de cavalaria e de magia, com alguns momentos completamente imprevisíveis e que certamente agradarão aos amantes da ficção. Porém, o que as torna particularmente relevantes para este espaço é o facto de entre estas histórias se contarem algumas versões antigas de aventuras arturianas, que autores posteriores, como Thomas Malory, potencialmente readaptaram para os seus livros.

O Mabinogion

Para darmos um exemplo concreto, no romance de Perceval, da autoria de Chrétien de Troyes, surge uma famosa sequência em que o herói vê uma espécie de parada num castelo, onde está incluído o Santo Graal. Perceval até sente curiosidade, mas nada pergunta sobre esse evento. Uma sequência semelhante aparece na história de Peredur (um dos romances do Mabinogion), sem o Graal, sem o “Roi Pécheur”, também sem a pergunta ser feita, e com uma personagem principal ligeiramente diferente. A ligação entre ambas as sequências é notória, seria bastante difícil negá-la, mas não sabemos qual delas surgiu primeiro.

 

Porém, nem tudo é bom nestas histórias do Mabinogion. Alguns dos seus traços de oralidade tornam-nas, em determinados momentos, enfadonhas para uma leitura nos nossos dias. Também, parece existir pouca ligação entre as histórias; com excepção da sequência chamada “Quatro Ramos do Mabinogi”, não existe uma continuidade notável entre elas. Além disso, estão repletas de elementos mitológicos que se perderam ao longo dos séculos e sobre os quais, infelizmente, hoje temos pouca informação.

Por razões como estas, este Mabinogion é uma obra que dá prazer ler, mas que também é melhor aproveitado numa edição crítica, com comentários e anotações, para que possa ser compreendida devidamente por todos os leitores.

O mito de Pandora (e a origem da Caixa de Pandora)

Os mitos de Pandora e da Caixa de Pandora são certamente dos mais conhecidos da Grécia Antiga. Nesta história, e como poderá ser lido já em seguida, aquela que era a primeira mulher é culpabilizada pelos muitos males que afectam toda a humanidade. Curiosamente, esta mesma temática seria abordada em muitas outras mitologias e religiões, com uma das mais famosas referências a aparecerem na Bíblia, em que Eva, esposa de Adão e primeira mulher, seria também ela a culpada pelos males que hoje afligem o mundo. Segue-se então um pequeno resumo de toda a história:

O mito e a Caixa de Pandora

Resumo do mito de Pandora

Segundo o mito, a história de Pandora surge na sequência de alguns logros perpetrados por Prometeu, que viriam a privilegiar a humanidade em detrimento dos deuses do Olimpo.
Para se vingar, Zeus criou Pandora, a primeira mulher, os outros deuses deram-lhe todos os dons (justificando o seu nome), e depois o seu rei enviou-a a Epimeteu , que a deveria tomar como esposa.
Contrariamente ao que o irmão, Prometeu, lhe tinha aconselhado, Epimeteu aceitaria este presente vindo do Olimpo. Infelizmente, Pandora viria também com um objecto, no qual estavam contidos todos os males, dos quais a humanidade estava ainda liberta.
Vítima da sua curiosidade, esta primeira mulher abriria o objecto que lhe está associado, libertando todos os males e deixando, curiosamente, um simples dom por libertar – a esperança.

 

O mito de Pandora é normalmente terminado por aqui, mas esta personagem também se tornaria a mãe de Pirra , cujo matrimónio com Deucalião acaba por ser a base para um outro mito. Infelizmente, pouco se sabe em relação ao matrimónio desta importante figura com Epimeteu , além do que já foi referido acima.

 

Origem da Caixa de Pandora

Mas toda esta história ainda não fica por aqui, já que existe um outro pormenor que vale a pena explorar. Apesar do objecto normalmente associado a Pandora ser uma caixa, existe alguma iconografia em que ela também aparece com outros objectos, entre eles uma jarra. Porquê?

De facto, a expressão caixa de Pandora é uma das mais famosas que nos chegaram da Mitologia Grega. Na versão mais antiga que temos desse mito, a de Hesíodo, e que aparece na sua obra Os Trabalhos e o Dias, é referido que o objecto dado a esta mulher foi um πίθος (píthos), o que não é uma caixa, mas cuja forma seria provavelmente assim:

Seria esta a verdadeira Caixa de Pandora?

Isto faz sentido, porque o mito diz-nos que no seu interior estavam todos os males do mundo, e um píthos era precisamente o tipo de vaso em que os Gregos armazenavam coisas. Que o mito se referia a um recipiente como estes é particularmente perceptível num vaso hoje presente no British Museum, que num dos lados tem pintado a criação desta figura feminina, e num outro tem uma pintura de uma figura feminina totalmente contida dentro do recipiente (se esta será a própria heroína, ou a esperança personificada de que nos fala o mito, é mais discutível). Em suma, segundo a versão de Hesíodo os males estavam, originalmente, contidos no interior de algo que podemos definir como um grande jarro. Mas como se tornou isto uma caixa de Pandora?

 

Como se passou de um jarro para uma caixa de Pandora?

São várias as possibilidades, mas a mais famosa diz-nos hoje que Erasmo de Roterdão, ao traduzir a agora-famosa expressão, confundiu o significado de duas palavras – πίθος (píthos) e πυξίς (pyxis) – transformando aquilo que era originalmente uma espécie de grande jarro em algo com uma forma bastante diferente:

Um exemplo de pyxis

O erro de Erasmo, queiramos ou não, é bem justificado. Quando ele leu o texto em Grego, o contexto de todo o mito poderá ter-lhe sugerido a ideia de uma pequena caixa, mais do que um enorme jarro, que Pandora destapou. Até porque, tradicionalmente, a pyxis tem uma tampa, enquanto que um píthos não… mas se este segundo era um recipiente para guardar algo, faz sentido que em algumas alturas tivesse uma qualquer espécie de cobertura, que a heroína teve de remover para ver o que estava no interior.

 

Este erro aparece nos Adágios de Erasmo, uma obra muito interessante que depressa se tornou famosa por toda a Europa, espalhando com ela a ideia de que a caixa de Pandora era uma pyxis, uma espécie de pequena caixa com tampa, mais do que um píthos, um enorme vaso, e daí a ideia foi-se espalhando e prolongando até aos nossos dias de hoje…

 

O mito e a caixa de Pandora, uma conclusão

Para terminar estas linhas sobre o mito de Pandora deve também notar-se aquele que considero como sendo um dos pormenores mais importantes deste mito – a presença da “esperança” no interior de um objecto que, alegadamente, só continha males. Deixando de lado a hipótese de erros na tradução do mito (se pensarmos bem, isso poderá ser dado como uma desculpa para justificar seja o que for, o que poderá ser perigoso), esta presença parece quase injustificável. É possível, talvez, que a esperança fosse considerada como uma perdição, ao incitar a sociedade grega a lutar por ideais que, segundo as leis imutáveis das Moiras, seriam ridículos. Se o Destino realmente existia, sob a forma das três Moiras, que sentido teria a esperança de uma vida melhor? É uma mera hipótese, mas talvez uma das mais interessantes que tenho para apresentar. Caso alguém tenha outras, obviamente que está à vontade para as deixar por cá…