Polidoro Virgílio e a Origem da Comédia

Origem da Comédia

Outra pesquisa que tem sido feita de uma forma relativamente frequente neste local passa pela Origem da Comédia. E, na realidade, são poucos os autores da Antiguidade que nos dão informações concretas e fiáveis relativas à origem desse género de ficção. Como tal, não pretenderemos fazer o impossível, mas sim demonstrar a mesma dificuldade que já outros sentiram antes. Vamos, por isso, a um exemplo particularmente curioso.

 

Polidoro Virgílio nasceu nas últimas décadas do século XV. Entre as suas obras conta-se uma obra, hoje com um total de oito livros, chamada De Inventoribus Rerum, em que pretendeu dissertar sobre as origens das coisas. Tem, por exemplo, um capítulo sobre a origem dos deuses, outro sobre a espécie humana, outro sobre os obeliscos egípcios, e assim por diante, todos eles escritos com base em informações que lhe tinham chegado por via de autores e obras da Antiguidade. Relativamente à origem da comédias, escreveu estas linhas sucintas:

“As Comédias começaram numa altura em que os Atenienses ainda não se tinham associado numa cidade. Os jovens desse país, habituados a cantarem versos solenes nos festivais, fizeram-no [i.e. cantaram] nas vilas e nas ruas mais populares para ganharem dinheiro. (…) No entanto, é incerto sobre quem de entre os Gregos as terão criado primeiro.”

 

Certamente que existiu um momento de Origem da Comédia, em que esta passou a existir, mas o que as linhas de Polidoro Virgílio nos revelam é precisamente aquilo que poderíamos dizer a um qualquer leitor, e pouco mais – não sabemos como, ou quando, nasceu a Comédia!

O mito de Ariadne, ou de Teseu e o Minotauro

O mito de Ariadne, ou de Teseu e o Minotauro na Mitologia Grega, liga intimamente essas três grandes figuras, razão pela qual achámos que deveríamos falar de todas elas nesta mesma publicação.

O mito de Ariadne, Teseu e o Minotauro

O Minotauro, para quem ainda não o saiba, foi um monstro que nasceu do amor de uma mulher, Pasifae, por um touro. Não era um amor natural, obviamente, mas sim uma maldição dos deuses, que só pôde ser consumada num acto sexual com a ajuda de Dédalo, que inventou uma espécie de máquina onde a rainha se pôde colocar para ser possuída sexualmente pelo bovino. Assim nasceu esta figura meio-homem, meio-touro*, que alguns até pensavam ter-se chamado Astérion, e que posteriormente foi encerrada num labirinto, como já cá contámos antes.

O labirinto de Teseu e o Minotauro

O tempo foi passando, e ao longo dos anos foram repetidamente sacrificados grupos de jovens atenienses, sete rapazes e sete raparigas, a este monstro. Isso continuou até que Teseu se voluntariou para fazer parte de um desses grupos. Chegando à ilha de Creta, foi visto por Ariadne, filha do rei Minos, que rapidamente se apaixonou por ele e se prontificou a ajudá-lo em toda a tarefa. Assim, para que o herói ateniense pudesse encontrar o caminho no labirinto do monstro, Ariadne deu-lhe um pequeno fio (i.e. uma espécie novelo de lã) e alguns conselhos sobre como matar o monstro. Em troca, apenas lhe pediu que depois a levasse para longe e casasse com ela, algo que o herói aceitou de bom grado, até dada a grande beleza da jovem.

Com esta preciosa ajuda, Teseu entrou no labrinto do Minotauro e matou a horrenda criatura de uma vez por todas. Depois, escapou da ilha com esta jovem, mas em vez de casar com ela – como tinha prometido explicitamente, relembre-se – abandonou-a numa ilha. Foi aí que ela posteriormente encontrou o deus Dioniso, que casou com ela e colocou a sua coroa entre as estrelas.

 

Todo este grande mito de Ariadne e Teseu e o Minotauro, é-nos hoje bastante conhecido em virtude do estranho monstro, e muito mais poderia ser escrito sobre ele, mas há que deixar claro que existem várias versões para explicar as acções de Teseu após as aventuras em Creta. A heroína é sempre abandonada, nunca se casa verdadeiramente com ele, mas nem sempre por decisão do próprio herói, já que o seu grau de culpabilidade parece variar bastante – por vezes, ela até só é abandonada para poder casar com Dioniso, que a tinha visto anteriormente e que queria casar com ela! Por isso, ela até poderá assemelhar-se a Medeia, mas neste caso a culpa dos acontecimentos nem sempre é do herói que jurou casar com ela…

 

O mito do Minotauro

*- Posteriormente, encontrámos a rara imagem acima, em que Pasifae, então já mãe, pode ser vista com um Minotauro bebé ao colo. É uma ideia belíssima, mas que encontra pouco eco nos mitos da Antiguidade, já que não nos parece ter chegado qualquer história da juventude deste monstro. Ele teve-a, ficcionalmente, mas poucos autores parecem ter pensado nisso…

Sobre o amor, uma belíssima passagem da “Gesta Danorum”

Já cá falámos anteriormente sobre a Gesta Danorum, mas este momento da obra é tão belo que não poderíamos deixar de o recordar por cá:

Cisnes e o amor

As mulheres desejam as proezas dos homens jovens e aceitam o mérito em vez de uma boa aparência. O amor tem mil e uma entradas: para alguns, uma bela figura abre o portão ao prazer, para outros um coração valente, enquanto que certos outros o devem à sua proficiência nas artes; para um menor número a cortesia oferece uma oportunidade ao amor, enquanto que muitos se tornam elegíveis pelo esplendor da sua reputação, e a coragem pode até ferir os corações das mulheres de uma forma tão profunda como a graciosidade.

“Salomão e Saturno [em prosa]” e “Adriano e Riteu”

livro

Associamos estes dois livros pelo facto de, essencialmente, se tratarem de um só, em que quase só mudam os nomes dos seus intervenientes. E, nesse seguimento, são obras relativamente simples, em que uma das personagens coloca algumas questões àquela que lhe é superior. Vejamos três exemplos particularmente curiosos:

 

  • Quais são as quatro coisas que jamais estarão satisfeitas?

A terra, o fogo, o inferno e um homem que deseja as riquezas do mundo.

  • Qual foi o homem que morreu mas não nasceu, e depois da morte foi sepultado no ventre de sua mãe?

Foi Adão, o primeiro homem, porque a terra foi a sua mãe, e depois da morte foi aí sepultado.

  • Como é que Cristo nasceu da sua mãe, Maria?

Pelo seio direito.

 

Além destes pequenos exemplos, existem nestas obras alguns elementos que não deixam de ser curiosos. Numa dada altura é referido, indirectamente, que o fruto da famosa árvore do Paraíso era o figo. Porquê este, e não a maçã? A resposta é fácil de compreender se  recordarmos que no Evangelho Segundo São Marcos Jesus amaldiçoou uma figueira. De facto, é essa mecânica de ideias que pauta o conteúdo da obra – é feita uma questão e depois é apresentada uma resposta que, em muitos casos (mas nem sempre!), pode ser subentendida do texto bíblico ou de alguns elementos da cultura cristã medieval. E, nesse sentido, se não é uma obra muito interessante para um leitor leigo, aqueles que tenham interesse na evolução das crenças cristãs poderão aqui encontrar muito material que lhes dará que pensar.

São Pedro e o cão falante

São Pedro e o cão

Muitos e curiosos são os episódios atribuídos a personagens bíblicas mas que não têm lugar na Bíblia. Este, de São Pedro e do seu cão falante, que hoje aqui resumimos numa das suas versões (existem mais, deixe-se isso bem claro), é um deles:

 

Um dia, estando São Pedro na cidade de Roma, procurava Simão Mago. Ouvindo dizer que este se encontrava na casa de um nobre romano, de seu nome Marcelo, foi aí em busca dele. Próximo da porta de entrada viu um cão preso com uma coleira. Decidiu soltá-lo, ao que o animal lhe respondeu dizendo, com voz humana, “O que posso fazer por ti, ó servo do deus vivo?”. Pedro simplesmente lhe pediu que entrasse na casa e fosse buscar Simão Mago. O animal fê-lo, mas o choque de o ouvir a falar entre os presentes foi tão grande que levou à conversão de Marcelo.

 

Presume-se que esta seja uma história puramente ficcional, até porque não aparece nas fontes mais antigas para o confronto de S. Pedro com Simão Mago, mas enquanto milagre que demonstra o poder divino, não podemos deixar de ver todo o episódio como curiosíssimo. Nada era impossível a Deus, pensava quem compôs esta sequência, e por isso… fazer com que os cães falassem com voz humana dificilmente lhes pareceria estranho. Quem não se converteria face a tamanho milagre?!