Os Antigos acreditavam que a Terra era plana?

Poderíamos responder a esta pergunta com os mais diversos argumentos, mas desta vez deixamos aqui uma citação de Stephen Hawking, na sua Breve História do Tempo, com tradução e adaptação da nossa autoria:

 

Por volta de 340 a.C. o filósofo grego Aristóteles, no seu livro Sobre os Céus, foi capaz de apresentar dois bons argumentos para se acreditar que a Terra era uma esfera redonda, em detrimento de um prato raso.

Primeiro, notou que os eclipses da lua eram causados pela Terra se interpor entre o sol e a lua. A sombra de Terra na lua era sempre redonda, o que apenas seria verdade se a Terra fosse esférica. Se a Terra fosse um disco raso, a sombra alongaria e seria elíptica, a não ser que o eclipse ocorresse sempre numa altura em que sol estivesse directamente no centro do disco.

Segundo, os Gregos sabiam, pelas suas viagens, que a Estrela do Norte aparecia mais baixa no céu quando vista no sul do que nas regiões a norte. (…) Da diferença na posição aparente da Estrela do Norte no Egipto e na Grécia, Aristóteles até mencionou que a distância em redor da Terra seria de 400.000 estádios.

Os Gregos até tinham um terceiro argumento em favor da Terra ser redonda – porque outra razão veríamos primeiro as velas de um navio no horizonte e só mais tarde o seu casco?

 

Também Plínio o Velho diz, no primeiro livro da sua famosa obra enciclopédica, que a Terra era redonda. Poderão ter existido algumas excepções, claro está, mas de uma forma geral os autores gregos e latinos de maior importância nunca parecem argumentar que a Terra era plana… mas, então, de onde vem essa ideia? É mais tardia, só surgindo já na Idade Média, por influência de autores que nem sempre é fácil precisar.

A origem de “amante” (e “zeloso”)

Hoje, quando pensamos numa palavra como amante, tendemos a dar-lhe um sentido completamente pejorativo. Um, ou uma, amante é vista como alguém com quem se trai uma relação legítima. E isso nada teria de errado, até que se pense que, no seu cerne, a palavra nada tem de errado, podendo ser usada para designar, pura e simplesmente, aquela pessoa que ama outrém. Mas então, de onde nasceu aquele sentido negativo que a palavra tem nos dias de hoje?

A origem de amante e zeloso

Démos por nós a pensar nisto por mero acaso, enquanto líamos um romance português de meados do século XIX, em que uma mulher, de nome Henriqueta (não, não é A famosa Henriqueta Emília da Conceição e Sousa!), deixou o legítimo marido para fugir com outro homem, Carlos. O que isto tem de notável é o facto da trama construir uma oposição entre o homem com quem ela tinha casado e esse outro, que amava e por quem achava ser amada. A heroína foge, e vivem depois por alguns anos uma tórrida paixão em terras do Brasil, mas o curioso é que quando é empregue na trama a palavra “amante”, isso parece ser feito exclusivamente por oposição ao amor legítimo do marido. Ou seja, esta personagem principal tinha dois homens na sua vida – um primeiro, com quem casou, e um segundo, com quem vivia numa situação que se pensava ser de amor.

 

Admita-se que Henriqueta, de Maria Peregrina de Souza, não é uma obra muito interessante, mas permitiu-nos compreender como nasceu a visão negativa da palavra hoje em questão. Nos tempos em que os casamentos se celebravam por razões além do “amor”, era certamente comum que as pessoas tivessem uma relação legítima, mas que depois também se envolvem com outras pessoas com as quais tinham mais afinidade, e a quem chamavam “amante”, por ser aquele, ou aquela, por quem nutriam sentimentos amorosos.

 

Ao mesmo tempo, isto poderá levar-nos a outra palava que é relativamente comum no romance em questão – zelo, zeloso e zelosa. Quem pegar num dicionário como o da Priberam poderá ver que essa palavra tem um sentido duplo, “que mostra cuidado” VS “que sente ou mosta cíumes”. Ou seja, esta palavra, hoje mais comum em inglês sob a forma jealous, vibra entre dois pólos, entre cuidado e cíume, mediante a forma como é sentida e aplicada. É muito digno de nota, esse jogo de como os significados das palavras evoluem ao longo do tempo…

“Paracelsus – Selected Writings”

Há algumas semanas uma leitora revelou-nos que chegou a este espaço através das obras de Paracelso. Na altura prometemos-lhe que iríamos escrever sobre pelo menos um dos textos desse autor, mas cedo nos deparámos com a dificuldade em encontrar uma (boa) edição moderna dos mesmos. Acabámos por nos ficar por Paracelsus – Selected Writings, que apresenta algumas das suas ideias em relação a diversas questões filosóficas, mas que também quase nada nos diz sobre os temas que mais o popularizaram, como a medicina, a astrologia ou a alquimia. De facto, não é uma obra que, a nosso ver, capte a verdadeira importância do autor. Por isso, se alguém conhecer (boas) edições das obras de Paracelso, por favor deixe aqui um comentário com essa informação.

Um exemplo de sexualidade na Bíblia

Ao longo dos séculos poucas obras literárias terão sido tão discutidas como a Bíblia. Nada de mal haveria nisso, mas poucos são aqueles que a lêem nas línguas originais, e isso leva a um problema – como ter a certeza de que a tradução à nossa frente corresponde ao que dizia o original? Como brincadeira, fizémos uma pequena e imperfeita tradução do Cântico dos Cânticos 4:10, baseado no texto semi-original da Vulgata. Diz mais ou menos o seguinte:

 

Quão belas são tuas mamas, senhora minha esposa!
Mais belas são as tuas úberes [que] vinho,
E o odor de teus perfumes [está] acima de todas as especiarias.

 

A muitos poderá parecer estranho que comentários desta natureza surjam na Bíblia, mas bastará apontar que a Septuaginta contém, no primeiro e segundo versos da mesma sequência, a palavra “μαστοί” (mastoí), que essencialmente significa “os seios”. É inegável que eles estejam no texto, mas como pode ser visto nesta página muitas das traduções fazem, em vez disso, referência a um “amor”. A alteração até poderá ser defendida pelas mais diversas razões, mas é inquestionável que, pelo menos nesta situação em concreto, o original não diz o mesmo que a maior parte das traduções.

 

Este problema leva, por isso, a uma questão de suma importância – como argumentar “A Bíblia diz X” quando nem se tem a certeza de que essas palavras estão realmente no original? Não vos parece perigoso fazê-lo?