Isaac Newton e o problema das cronologias

Há umas semanas atrás celebrou-se mais um aniversário da chegada de Vasco da Gama à Índia. Mas, realisticamente, como podemos ter a certeza de que o navegador chegou mesmo a Calecute a 17 de Maio de 1498? Ou, de uma forma muito mais geral, como podemos nós ter a certeza de que qualquer cronologia do passado está mesmo correcta?

 

Muitos foram os autores que ao longo dos séculos se dedicaram a esse problema, chegando a opiniões mais ou menos lógicas. Existem, por exemplo, autores que argumentam que a Antiguidade nunca existiu, tendo sido “falsificada” durante a Idade Média; outros dizem que nada existiu antes do nosso nascimento, sendo todo o conhecimento uma espécie de ilusão. Seria interessante que fossemos escrever sobre isso, mas por agora foquemo-nos numa obra pouco conhecida, The Chronology of Ancient Kingdoms Amended, da autoria de Isaac Newton, a mesma figura muito mais conhecida pelas suas conquistas na área da Física.

 

Então, nesta obra o autor argumenta que existiu um erro nas cronologias da Antiguidade. Ao longo de vários capítulos percorre diversas civilizações e diz-nos, afinal de contas, como os eventos tomaram lugar, explicando, por exemplo, que terá existido um erro na contagem dos anos que cada reinado teve. Seguindo uma lógica que nem sempre é muito fiável, numa prosa enfadonha e que poucos terão interesse em ler, como que revela a verdade dos acontecimentos, humanizando a mitologia dos Gregos e dos Romanos. Claro que a ideia não era nova – já vinha até dos tempos da Antiguidade! – mas é curioso que um cientista tão eminente se tenha focado numa tarefa como esta, mesmo que a obra só tenha sido publicada após a sua morte.

 

É, então, a cronologia de Newton, que se propaga até à morte de Alexandre Magno, fiável? Certamente que não, não é sequer necessário grande conhecimento histórico para encontrar múltiplos problemas nas ideias aqui defendidas, mas pelo menos apresenta uma cronologia que faz algum sentido, do ponto de vista teórico. E, se não sabemos até que ponto Vasco da Gama terá mesmo chegado à Índia numa determinada data, pelo menos uma certeza podemos ter – foi após a sua partida de Lisboa, por muito que autores como Fomenko queiram tentar discordar!

O mito de Gleipnir

O Gleipnir do mito

Sucintamente, nos mitos nórdicos Gleipnir era uma espécie de trela que prendia o lobo Fenrir (visto acima já agrilhoado), até ao momento do fim dos tempos. É esse o significado da palavra Gleipnir, e isto absolutamente nada teria de especial, nem sequer seria mencionado por cá, não fossem os estranhos ingredientes com que ela foi construída:

 

  • O som da queda de um gato;
  • A barba de uma mulher;
  • As raízes de uma montanha;
  • Os nervos de um urso;
  • A respiração de um peixe;
  • O cuspo de uma ave.

 

A dificuldade de arranjar todos estes ingredientes até é parcialmente gozada no Gylfaginning, dando-nos a entender a falta de realismo de todos estes pedidos, mas acaba por ser mesmo esse aspecto invulgar que merece referência aqui. Se a barba de uma mulher, ou os nervos de um urso, nem são hoje assim tão difíceis de arranjar, fica aqui um pequeno convite aos leitores – como conseguiriam arranjar os restantes ingredientes? Alguma ideia?

Conselhos de um pai moribundo

Na sua história Dois Irmãos, Giambattista Basile apresenta-nos a figura de um pai moribundo que, escassos momentos antes da morte, deixa um conjunto de conselhos aos seus filhos. Não sabemos até que ponto estes ainda virão dos tempos da Antiguidade (várias das suas histórias têm, pelo menos, uma inspiração inegavelmente latina), mas pela sua simplicidade e eterna actualidade alguns deles merecem aqui ser relembrados:

 

  • “Primeiro, e acima de tudo, temam os céus, porque tudo vem de lá e se perderem o vosso caminho irão acabar mal”;
  • “Poupem, quando têm algo para poupar, porque aquele que poupa ganha”;
  • “Não falem demasiado, porque apesar da língua não ter ossos pode quebrar um par de costas”;
  • “Contentem-se com pouco, porque feijões que duram são melhores do que bolos que rapidamente se esgotam”;
  • “Associem-se àqueles que são melhores que vocês e ajudem-nos naquilo que possam – digam-me com quem andam e dir-vos-ei que tipo de pessoas vocês são”;
  • “Pensem e depois ajam, porque é má ideia fechar o estábulo depois do gado ter saído”;
  • “Fujam das disputas e das querelas, não pisem todas as pedras, porque aquele que salta demasiadas barreiras acaba por ficar com uma presa nas suas costas”;
  • “Não tenham orgulho em demasia, porque precisam de mais do que de uma toalha branca para pôr uma mesa”;
  • “Afastem-se do rico que se tornou pobre e do pobre que subiu na vida, do pobre desesperado, da mulher invejosa, daquele que adia tudo, [entre tantos outros]”;
  • “Façam um esforço para perceber que aquele que tem um objectivo tem um lugar no mundo e aquele que tem senso na sua cabeça pode até sobreviver numa floresta”.

 

Estes conselhos são hoje tão actuais como no tempo daquele que os pôs por escrito, mas a humanidade tende a esquecê-los, uma e outra vez. Demasiadas vezes achamos que sabemos melhor, que o nosso caso particular será bem diferente, que a sabedoria daqueles que vieram antes de nós já há muito que está ultrapassada. Mas, infelizmente, tendemos a olvidar que aquele que não aprende com os seus erros está condenado a repeti-los…

O mito de Apófis

Apófis e o sol

Os mitos do Egipto chegaram-nos quase sempre de uma forma fragmentária, e o mito de Apófis é um bom exemplo disso mesmo, já que sabemos alguns elementos gerais sobre esta figura, mas de uma forma que também nos deixa diversas interrogações.

Sabemos que Apófis, também conhecido como Apep, era nestes mitos dos Egípcios uma enorme serpente que combatia Rá, a divindade solar, acabando por devorá-lo ao final de cada dia. Na manhã seguinte, Rá vencia-a e acabava por matá-la, emergindo da barriga do monstro, apenas para o ver ressuscitar algumas horas mais tarde, num ciclo eterno e que se repetia, sempre sem cessar, dia após dia.

 

Assim, apesar de simples, este é um daqueles mitos que servia claramente para explicar a existência do dia e da noite, da luz e das trevas, naquela que é provavelmente a mais famosa de todas as dualidades. Mas, ao mesmo tempo, deixa questões por responder – por exemplo, se era tão fácil aos deuses pura e simplesmente voltarem à vida, como explicar o caso de Osíris? Talvez pelo facto dos mitos do Egipto se terem prolongado ao longo de infindáveis séculos, dando-lhes menos consistência do que esperaríamos? É possível, porque dificilmente eles continuariam a acreditar em Apófis século após século…

O Homem de Taured – e a sua verdadeira identidade!

Se viajam bastante pela internet é provável que já tenham lido a história do Homem de Taured. Sucintamente, ela conta que em meados do século XX um homem misterioso foi encontrado num aeroporto de Tóquio, no Japão. Quando lhe pediram os documentos, mostrou um passaporte de um local completamente desconhecido, “Taured”. Quando ligaram para a empresa onde ele dizia trabalhar, ninguém o conhecia lá. Quando ligaram para o hotel onde ele tinha uma reserva, não havia nenhuma em nome dele. E, depois, ele desapareceu de forma tão misteriosa como primeiro surgiu… o que levanta a possibilidade, como é frequente mencionar-se em artigos sobre esta história, que existam multiversos e que ele tenha vindo de um outro mundo, no qual um país com aquele estranho nome até existe mesmo. Mas, como quem tiver por hábito ir lendo estas linhas já saberá, é comum haver aqui uma introdução, pelo menos uma imagem, e depois um desenvolvimento… pelo que o tema de hoje, e toda esta história como ela é apresentada em muitos outros lugares, ainda nem chegou a meio!

Quem foi o Homem de Tuared?

Estranhamente, conseguimos apurar que esta história é, quase toda ela, verdade – o que, infelizmente, não é o mesmo que admitir a existência de multiversos. Em vez disso, é uma curiosa história sobre a forma como as lendas nascem, crescem, se reproduzem e, em alguns casos, acabam até mesmo por morrer.

Em 1959 foi preso num aeroporto de Tóquio um viajante com um passaporte que se viria a provar falso, e que supostamente tinha sido emitido em “Tamanrasset, capital de Taured”. O seu nome reportado era “John Allen Kuchar Zegrus”, mas dada a dificuldade de apurar a sua verdadeira identidade ele ficou conhecido no país como “ミステリー・マン”, i.e. “o Homem Misterioso”. Posteriormente, foi levado a tribunal em virtude dessa falsificação de documento, condenado a um ano de cadeia, e finalmente deportado para Hong Kong. Mas, aparentemente, a verdadeira identidade deste Homem de Taured, então ainda bem real, nunca foi descoberta.

 

E então, para colmatar algumas das fraquezas de toda esta narrativa, é que parece ter surgido a versão lendária de toda esta história do Homem de Taured. Ele parecia ser, de facto, de Taured – possivelmente uma versão mal escrita de “Tuareg”, um povo da Argélia, país no qual até existe uma cidade de nome “Tamanrasset”. Provavelmente foram tentados diversos meios de confirmar a sua verdadeira identidade, mas falharam (todos?). E se, no final, ele desapareceu mesmo, isso aconteceu não por uma qualquer viagem interdimensional, como muito se argumenta, mas porque ele esteve preso e mais tarde foi deportado, aparentemente sem que a sua identidade real algum dia tenha sido descoberta. Como tal, para completar o que a história não nos diz, gerou-se uma espécie de grande mito urbano, que ainda hoje vai sendo contada pelos cantos da internet… mas sem que o seu fundamento, de facto bem real, seja contado aos possíveis leitores. Por vezes uma boa história parece importar muito mais do que a realidade…