Origem da expressão “Chamas Hilas”, e o mito desse herói

O mito de Hilas (e Hércules) é indissociável da trama da viagem dos Argonautas. Conta-nos essa outra história que quando estes heróis empreenderam a sua demanda, numa dada altura pararam numa ilha. Hilas afastou-se, acabando por ser raptado por umas ninfas de um curso de água próximo. Hércules, que o amava, recusou-se a partir sem o encontrar, abandonando a expedição principal para partir em busca do desaparecido. Enquanto caminhava, gritou repetidamente por Hilas, mas diz a história que nunca mais o encontrou, supondo-se que, eventualmente, tenha abandonado a busca.

 

Este mito é mencionado pelos mais diversos autores, sendo difícil saber qual a sua fonte mais antiga, mas é particularmente famoso do poema de Apolónio de Rodes já mencionado asim. Nesse contexto, “Chamar Hilas” é portanto uma tarefa totalmente impossível, na qual qualquer espécie de progresso real é impossível.

Origem da expressão “Uma mão lava a outra”

Uma mão lava a outra

Sobre a origem desta expressão famosa nos nossos dias, uma mão lava a outra, ela poderá provir de Axíoco, um texto apócrifo atribuído a Platão no qual é dito que “uma mão esfrega a outra, dá e recebe”. Porém, também está intimamente ligada a uma ideia muito presente nos provérbios gregos, que nos dizem que “A cidade preserva a cidade, o homem [preserva] o homem, a mão lava a mão, o dedo [lava] o dedo”. Trata-se, portanto, de uma referência a uma espécie de troca de favores necessária à existência humana; não era tanto, como nos nossos dias, uma alusão à concessão ilegítima desses favores, mas sim uma admissão de que nenhum ser humano poderia viver sem os demais. Hoje, porém, nas culturas lusófonas ela significa algo como “tu fazes-me um favorzinho a mim, e eu faço-te outro em troca.”

 

[Adicionado posteriormente:]

Parece que a frase “A mão lava a mão: dá algo e poderás receber algo” já aparecia em fragmentos de Epicarmo de Siracusa, algumas décadas antes de Platão. Terá, então, sido essa a verdadeira origem da expressão? Até é possível, mas não temos forma de o afirmar com uma absoluta certeza.

Existe, igualmente, uma expressão caracteristicamente portuguesa, antiga, que diz “uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto”, e que enfatiza ainda mais o facto de uma troca de favores mútua beneficiar todos os seus envolvidos…

Sobre o filme “Thor: Ragnarok”

Fomos ver o filme “Thor: Ragnarok” há alguns dias atrás e deixamos aqui uma breve referência. Cuidado, contém alguns pequenos “spoilers” relativamente à história do filme!

A mitologia nórdica, contrariamente à grega e latina, tem um final dos tempos há muito anunciado. Já disso cá foi falado há muitos anos (ver aqui), e somente pelo título poderíamos assumir que o filme falaria dessa derradeira aventura. E, de facto, Odin até relata a famosa profecia, mas depois o filme faz muito pouco com ela. Claro que se trata de um filme baseado num comic americano, não é – nem se supõe que queira ser – baseado nos mitos nórdicos, mas se pretendiam usar uma palavra tão emblemática no título, parece-nos que poderiam ter feito muito mais com o tema. O Ragnarok até ocorre, mas fica muito aquém das expectativas, e os heróis acabam por evitar consequências piores, contrariando todas as expectativas de quem conhecer os mitos. Contudo, visto que é, repita-se, baseado nos comics americanos e não nos mitos originais, é um filme relativamente bom, que até dá para rir em alguns momentos.

 

Deixamos um exemplo que apesar de ter pouco peso na trama, nos pareceu invulgar. Quando Thor primeiro chega a Asgard, tem a oportunidade de ver breves instantes de uma peça de teatro, “A tragédia de Loki de Asgard”, uma reimaginação de um evento que, se a memória não nos engana, teve lugar num filme anterior. A sequência não ocupa muito tempo da trama, mas leva-nos à ideia de que existem temas que, pela sua beleza, só podem ser captados no teatro – era a morte de Loki, mas também podia ser uma representação, por exemplo, das desventuras de Édipo ou as façanhas de Aquiles.

 

Em suma? Este filme merece ser visto por quem estiver interessado nos respectivos comics, mas muito pouco tem da mitologia nórdica (o que, dadas as especificidades, não pode ser visto como um defeito).

O significado da “Vingança de Neoptólemo”

O significado da Vingança de Neoptólemo começa aqui um período de algumas semanas em que irão ser abordados, mais consistentemente, alguns provérbios da Antiguidade que, em grande parte, ainda são usados em Portugal nos nossos dias (se alguém souber do uso destes provérbios no Brasil, por favor deixe algum comentário a indicá-lo). Se a “Vingança de Neoptólemo”, ou Neoptolemi vindicta, nem é um deles – de facto, pensamos que poucos ainda saberão a história desse herói – pareceu-nos que nada melhor do que um mito e um provérbio a ele associado para iniciar toda a sequência.

Na imagem acima pode ser vista uma das versões da morte de Príamo, segundo a qual este rei teria sido agredido até à morte com o corpo do próprio neto. Como se esta cena não fosse suficientemente horrenda (de facto, não ocorre tão cruelmente em nenhuma das fontes literárias que nos chegaram), Neoptólemo ignora todos os pedidos de clemência do rei e mata-o sobre o altar de um deus (frequentemente Zeus, mas varia). Tal abominação não poderia ficar sem uma qualquer espécie de punição divina. Por essa razão, quando mais tarde o mesmo herói foi a Delfos, acabou por ser morto da mesma forma que tinha morto Príamo, no altar do deus Apolo – a identidade do seu assassino já parece divergir, sendo um dos mais famosos provavelmente Orestes.

 

A “vingança de Neoptólemo” remete-nos então para uma ideia central do mito – que o culpado de um crime grave possa vir a sofrer na pele esse mesmo crime.

O último centauro?

 

No seu Livro das Maravilhas Flégon de Trales conta-nos o seguinte:

 

Um hipocentauro foi encontrado na cidade de Saune, na Arábia (…). Foi capturado vivo pelo rei, que o enviou para o Egipto juntamente com outras prendas para o imperador. A sua subsistência era carne. Mas não tolerou a mudança de ares e morreu, pelo que o prefeito do Egipto o embalsamou e enviou-o para Roma.

Primeiro foi exibido no palácio. A sua face era mais feroz que uma humana, os seus braços e dedos eram peludos e as suas costelas estavam ligadas às suas pernas da frente e ao seu estômago. Tinha os cascos firmes de um cavalo e uma crina fulva, mas como resultado do processo de embalsamação a sua crina bem como a sua pele estavam a tornar-se escuras. Em tamanho não parecia as representações usuais, mas também não era pequeno.

Dizia-se que também existiam outros hipocentauros nessa cidade de Saune.

Em relação ao que foi enviado para Roma, qualquer céptico o pode ver por si mesmo, já que foi embalsamado e está guardado na tesouraria do imperador.

 

Seria este o último dos centauros? Também Plínio o Velho, melhor familiarizado com a história natural, menciona este mesmo centauro presente na cidade de Roma durante o reinado de Cláudio. Estariam ambos os autores enganados? Tratar-se-ia de um embuste? Ou, pelo contrário, os centauros realmente existiram? As provas que temos tornam essa possibilidade muito improvável, mas não deixa de ser uma história potencialmente real para quem nela quiser acreditar.