Porque era Medusa mortal?

Um dos elementos mais invulgares do mito que une Perseu a Medusa é o facto de nos ser dito, repetidamente, que apesar de esta figura feminina ter outras duas irmãs, apenas ela era mortal. A que se deverá essa distinção? Porque era Medusa mortal? Podíamos pensar que, como numa versão de Ovídio, esta figura foi originalmente uma mulher que em virtude do orgulho excessivo nos seus cabelos acabou transformada no monstro, mas isso não explicaria a existência de irmãs.

 

Esta é uma questão tudo menos fácil. As duas outras irmãs górgones, Esteno e Euríale, não são mencionadas em qualquer outro mito, e a sua relação com Perseu prende-se somente com o facto de terem perseguido o herói quando este atacou Medusa. Nunca mais são referidas, se tivermos em conta que já eram conhecidas nos tempos da poesia de Hesíodo, é possível que tivessem tido outros papéis em mitos/religiões mais antigos. Qual era esse papel já não fazemos qualquer ideia, e nenhuma prova nos chegou da Antiguidade que nos permita discortinar esta questão.

O mito de Io

Sobre o mito de Io… Originalmente uma sacerdotisa de Hera, Io acabou por se tornar uma das mais famosas amantes de Zeus. Se, inicialmente e como tantas outras mulheres, parece ter rejeitado os avanços amorosos do deus, acabou por sucumbir ao amor deste. Todas as versões do mito apresentam estes elementos basilares, mas depois a trama do mito complica-se um pouco.

 

Por uma qualquer razão (seja pela intenção de Zeus em ocultar Io, ou de Hera em puni-la), esta figura foi transformada numa vaca, sendo posta sob a guarda de Argos. Posteriormente, o rei dos deuses do Olimpo enviou Hermes para libertar Io – a versão mais famosa do episódio, constante na obra de Ovídio, diz-nos que este deus adormeceu Argos contando-lhe histórias, cortando-lhe o pescoço após ter adormecido os seus muitos olhos. Após este episódio Hera enviou um moscardo que, noite e dia, incomodava a bovina Io; tentando escapar dele, a heroína passou da Grécia para o Egipto (nessa passagem dando o nome ao Bósforo) e acabou por voltar à forma humana, tendo filhos de Zeus e casando com um rei do Egipto.

 

Este mito é um bom exemplo das atribuladas vidas que tiveram as mortais que se envolveram amorosamente com os deuses gregos.Casos como os de Alcmena e Europa são disso um igualmente bom exemplo. Dados os justificáveis cíumes de Hera e a diferença de estatutos entre os amantes, estas eram relações que nunca poderiam correr bem.

Quando morreu Jesus Cristo?

Esta é uma daquelas perguntas que muitos se fazem – quando morreu Jesus Cristo? Vulgarmente, hoje costuma pensar-se que ele foi crucificado por volta dos 33 anos, mas é curioso notar que essa não era a única opinião nos tempos da Antiguidade. No segundo livro da sua obra Contra as Heresias, Santo Ireneu – que viveu no século II d.C. – diz que Jesus só morreu após ter passado os 50 anos. É uma sequência um pouco invulgar, mas essencialmente o autor argumenta contra a ideia de que Jesus foi baptizado aos 30 anos e só pregou durante um máximo de 12 meses. Depois, diz o seguinte, que aqui foi traduzido para português:

Um santo da Antiguidade

Jesus passou por todas as idades, sendo um bebé para os bebés, assim os santificando; uma criança para as crianças, assim santificando os que são dessa idade (…), um jovem para os jovens, tornando-se um exemplo para eles (…); um velho para para os velhos, para que Ele pudesse ser um Mestre perfeito para todos, não apenas ao apresentar a verdade, mas também em relação à idade, santificando ao mesmo tempo os idosos e sendo também para eles um exemplo.

(…) Agora, o primeiro estádio da vida é de trinta anos, e prolonga-se até ao quadragésimo ano, como todos admitem; mas do quadragésimo e do quinquagésimo ano um homem começa a declinar até à velhice, que o nosso Senhor possuía quando ainda ensinava, como o Evangelho e os mais velhos testemunham; aqueles que falaram na Ásia com João, o discípulo do Senhor, afirmaram que ele lhes deu essa informação. E ele ficou entre eles até aos tempos de Trajano. Além disso, alguns deles viram não só João mas também outros apóstolos, e ouviram a mesma história deles, e testemunham em relação a esta informação.

 

O que fazer destas linhas? Estarão elas correctas, ou estaria Santo Ireneu enganado neste ponto em particular, mas correcto em relação a muitos outros que vai apresentando nos seus livros? Fica, como muitas outras vezes, a questão, e uma potencial resposta que nos mostra que uma pergunta como Quando morreu Jesus Cristo? nem sempre é tão simples como poderá parecer.

A origem dos dias da semana (e São Martinho de Dume)

Em diversos países europeus os nomes dos dias da semana, e a sua respectiva origem, remetem-nos directamente para divindades pagãs com um grande significado local. Isso já não acontece em Portugal (“segunda-feira”, …, “sexta-feira”, “sábado”, “domingo”), pelo que achámos que poderíamos explicar sucintamente o porquê, e qual a verdadeira origem dos dias da semana.

Calendário

No século VI da nossa era S. Martinho de Dume (também conhecido por Martinho de Braga) escreveu uma epístola Da Correcção dos Rústicos, em que instava os leitores a abandonarem os erros da cultura pagã. Segundo ele, se eram muitas as pessoas que já se tinham convertido ao Cristianismo, estas também continuavam ainda a aderir a diversos costumes pagãos, como celebrar os dias da semana associados aos vários deuses ou depositar pequenas pedras em altares a Mercúrio. O título da epístola vem, naturalmente, da necessidade cada vez maior em “corrigir” esses antigos costumes, que o autor insere num contexto religioso e descreve de forma breve.

 

Não sabemos que efeito real terão tido as palavras de S. Martinho, mas há que frisar que ele não propõe qualquer solução real para o problema, apenas dizendo que os dias deveriam ser dedicados a Deus. No entanto, certamente que poderá ter influenciado a busca por essa solução, já que menos de 100 anos após a escrita das suas linhas surge-nos a primeira referência a uma “segunda-feira”, que ainda hoje pode ser vista na Igreja de S. Vicente, em Braga – a mesma cidade associada ao santo. Estaria essa nova designação já em uso no seu tempo? Até é possível que sim, mas não temos provas directas que o atestem com uma total certeza.