O mito de Pirra e Deucalião (e o dilúvio universal)

Pirra e Deucalião

O mito grego de Pirra e Deucalião é particularmente famoso por conter a referência a um dilúvio semelhante aos de histórias como as de Gilgamesh e Noé. No seu cerne conta-nos que Zeus, cansado dos constantes erros da humanidade, decidiu destruir tudo o que existia por meio de uma enorme cheia, poupando exclusivamente o casal constituído por Deucalião e Pirra em virtude da sua devoção religiosa. Depois dessa destruição os animais foram (magicamente?) recriados da própria terra, enquanto que os seres humanos tornaram a nascer de pedras lançadas pelo casal – as atiradas por Deucalião criaram novos homens, enquanto que as atiradas por Pirra geraram novas mulheres.

 

Estes são os elementos básicos do mito, mas é curioso que as fontes que o recontam adicionam, aqui e ali, outras informações, como a possibilidade do casal também ter levado alguns animais consigo, ou ter escapado num enorme barco, fazendo com que a história se assemelhe ainda mais ao nosso famoso dilúvio de Noé.

 

Face às semelhanças dessas diversas histórias, somos sempre levados a perguntar se teriam alguma fonte comum. Será que existiu, em tempos muito antigos, um dilúvio de proporções quase inimagináveis, depois preservado pelas diversas culturas nas suas histórias particulares? Muitas são as evidências de que isso até possa ter acontecido, mas não podemos ter a certeza absoluta. Pelo sim, pelo não, mais vale termos algum cuidado com os efeitos do aquecimento global…

Uma estranha ideia gnóstica

No passado já cá foram discutidas diversas seitas gnósticas. Algumas parecem mais interessantes que outras, mas também parece ter existido no seio do Gnosticismo algumas ideias muito estranhas. Epifânio de Salamina, por exemplo, conta-nos de uma seita que tinha vários escritos alusivos a Maria Madelena. Em si, isto nada teria de inapropriado, mas um dos seus livros continha uma ideia que nos poderá parecer chocante – as linhas seguintes devem ser lidas com alguma cautela:

 

Segundo Epifânio (e frise-se que não temos qualquer outra fonte que ateste a veracidade destas informações), nesse texto era dito que Jesus criou uma nova mulher da sua própria costela. Depois, fez sexo com ela, recolhendo parte do seu próprio sémen. Engolindo-o, disse então a Maria Madalena algo como “É isto que temos de fazer para viver”. Maria desmaiou, e Jesus parece ter criticado a sua pouca fé.

 

Este não é, deixe-se muito bem claro, um relato que ocorra em qualquer fonte primária que nos tenha chegado, sendo provável que se tenha tratado de uma aberração de um grupo gnóstico obscuro. E esse é um dos grandes problemas de considerar o “Gnosticismo”, em si, como uma corrente contínua – implicaria admitir que ideias como estas poderiam ser de tanto valor e aceitação como as ideias “ortodoxas”, ou as de Marcião, quando, no entanto, são chocantes até para as audiências dos dias de hoje.

Que transformações adoptou Zeus para seduzir o sexo feminino?

As muitas seduções de Zeus são provavelmente um dos aspectos mais conhecidos dos mitos gregos. Porém, este deus raramente encantava as mulheres ou os homens na sua forma real – de facto, quando Sémele pediu para o ver em toda a sua glória olímpica acabou destruída. Mas então, que transformações adoptou Zeus para seduzir as suas muitas conquistas? Ovídio, nas suas Metamorfoses, faz uma pequena lista, a que aqui adicionamos informações de outras fontes:

– Uma águia, para Ganimedes;

– Uma formiga, para Eurimedusa (e daí nasceu Mirmídon, mas pouco nos chegou sobre este mito);

Um touro, para Europa;

– Uma águia, para Astéria (esta forma do mito não nos chegou);

– Um cisne, para Leda;

– Um sátiro, para Antíope;

– A forma de Anfitrião, para Alcmena;

– Uma chuva de ouro, para Dánae;

– Uma chama, para Égina (esta forma do mito não nos parece ter chegado);

– Um pastor, para Mnémosine (esta forma do mito não nos parece ter chegado);

– Uma serpente, para Proserpina.

 

Pouco sabemos sobre três destes mitos, mas a forma como o poeta os entrelaça nos restantes leva-nos a acreditar que se teriam tratado de histórias famosas na sua época, bem conhecidas dos seus conterrâneos.

O mito de Licáon

Licáon, também conhecido como Licaão, Lycaon ou Licaonte, foi o primeiro rei da Arcádia (no Peleponeso) na Mitologia Grega. O mais famoso de todos os seus mitos conta-nos como esta figura, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda coexistiam num mesmo plano, matou o próprio filho e serviu-o num banquete a Zeus, tentando testar os poderes deste deus. Como é natural, a figura divina rapidamente se apercebeu do que se passava, transformando o rei num lobo e trazendo de volta à vida o falecido.

 

Se a identidade do jovem até varia entre versões do mito, existe quase sempre uma relação directa entre o rei e o sacrificado, sendo até possível que a história tenha um fundo de verdade, preservando vestígios de um tempo em que os seres humanos ainda eram sacrificados aos deuses (ver, por exemplo, esta notícia).

 

Outro aspecto curioso deste mito é o facto de se dizer que este monarca, Licáon, tinha 50 filhos – a Biblioteca de Apolodoro lista os seus nomes, mas não reconta as aventuras de cada um deles, sendo possível que tenham estado mais associados a mitos etiológicos.