A morte de Íbico

Íbico foi um famoso poeta da Antiguidade, mas uma pequena história (provavelmente fictícia) conta-nos as condições em que teve lugar a sua morte.

 

Quando Íbico ia numa estrada foi atacado por ladrões e deixado a morrer. Olhando os céus, o poeta viu alguns grous e pediu-lhes que vingassem a sua morte. Alguns dias depois, num teatro a céu aberto, surgiram alguns grous, levando um homem, naturalmente muito preocupado, a gritar “Os vingadores de Íbico estão aqui!”. Claro que foi rapidamente capturado, confessando o seu crime e divulgando a identidade dos seus companheiros, fazendo com que todos os perpetradores pagassem pelo seu crime com a morte.

 

Terá Íbico realmente sido vingado pelos seus amigos alados? É uma questão que fica – não temos quaisquer provas a favor ou contra esta versão dos acontecimentos.

Porque é que os padres não podem casar?

Um dos elementos da religião cristã que ainda hoje tem muita discussão nos nossos dias é a impossibilidade de os padres casarem. Mas afinal, porque é que os padres não podem casar? Podem ser dadas muitas justificações em favor e contra essa ideia, mas aqui interessam-nos é especialmente as razões históricas para essa decisão.

Padre a casar

Essencialmente, a ideia parece dever-se ao facto de, tradicionalmente, se considerar que os apóstolos (com excepção de Pedro) não casaram nem tiveram filhos. Eles dedicavam-se quase somente a espalhar a mensagem de Jesus Cristo. De igual forma, também se dizia que o próprio fundador do Cristianismo nunca casou nem teve filhos (e nenhuma fonte completa da Antiguidade argumenta o contrário). “[A necessidade de castidade] foi ensinada pelos apóstolos e a antiguidade [assim o] preservou”, é até dito no Sínodo de Cartago, ainda nos primeiros séculos da nossa era.

 

Além disso, um passo especialmente importante pode ter sido dado no Primeiro Concílio de Niceia, em que foi decretado que nenhum clérigo poderia ter uma mulher a viver em sua casa, excepto se se tratasse de alguém acima de qualquer tipo de suspeita (como uma mãe ou uma irmã). As razões para tal? “Com essas armas o diabo mata religiosos (…) e incita neles os fogos do desejo”. Se, nessa altura, alguns religiosos (em função da sua baixa posição na hierarquia, i.e. se fossem subdiáconos, diáconos ou presbíteros) até podiam ser casados, tinham de o fazer antes de seguirem a vida religiosa, já então se pondo a questão do que, posteriormente, deveria acontecer ás respectivas esposas. Pelo menos um tal Pafnúcio de Tebas parece ter argumentado que apenas deviam continuar o celibato aqueles que já o tinham antes de seguirem a via religiosa, e nesses primeiros tempos a sua opinião foi crucial…
 

Mas será esta uma proibição que faz sentido? De um ponto de vista teórico cremos que sim – se um clérigo se deve dedicar à Igreja e a toda a humanidade, seria um pouco difícil que o conseguisse fazer de uma forma justa e imparcial se também tivesse uma família, somente sua, de quem cuidar. Mas trata-se – deixe-se muito claro – de uma mera questão de opinião pessoal, bastante discutível e fixa em séculos de história e tradição religiosa.

O destino de Ismena

Ismena (ou Ismênia) é irmã de Antígona, uma figura que nos foi tornada particularmente famosa através de uma peça de Sófocles. Mas se o destino dessa sua irmã é muito bem conhecido, o que terá acontecido a esta outra filha de Édipo? Não há qualquer menção a esse destino de Ismena nas versões mais famosas do mito, mas através dos versos fragmentários de poemas épicos quase totalmente perdidos – o chamado “Ciclo Tebano” – sabemos que em pelo menos uma fonte ela terá sido morta por Tideu, provavelmente aquando do término da segunda Guerra de Tebas.

O mito de Clitia, ou a lenda do girassol

O mito de Clitia, a que também podemos chamar a lenda do girassol, apresenta-nos uma ninfa que se apaixonou pelo deus grego Hélio. Se inicialmente o deus até pareceu retribuir esse sentimento, depois acabou por deixá-la em favor de outra mulher parcialmente divina. E então, se a ninfa até conseguiu separar este novo casalinho, depois também nunca recuperou o amor divino; mesmo assim, olhou o seu deus amado nos céus durante tempos e tempos infindáveis, acabando por se metamorfosear numa flor que durante o dia contempla sempre os raios do seu eterno amado – o girassol, que ainda nos nossos dias continua o seu comportamento apaixonado!

O mito de Clitia, ou a lenda do girassol

Este mito de Clitia, ou a lenda do girassol, não é uma história de amor, mas uma de desilusão e sofrimento. No entanto, de um ponto de vista puramente mitológico, que outra razão teria essa flor para fitar sempre o astro-rei, se não pelo facto de o amar sem fim até ao final dos tempos?

O segredo do “Credo” cristão

Independentemente da versão do Cristianismo que se conheça, uma das orações mais famosas é certamente a do Credo. É recitada na missa, como se de uma verdadeira ladainha se tratasse, mas muito poucos são aqueles que se interrogam sobre o seu conteúdo. Portanto, este artigo começa com um pequeno convite à reflexão – caro leitor, se conhece esta oração, pense nela. Pense, em particular, no que é dito nas suas linhas.

 

O que queremos dizer quando dizemos que “[Jesus foi] gerado do Pai antes de todos os séculos”? “Luz da luz”? “Gerado, não criado”? “Consubstancial”? Ou que a igreja é “una, santa, católica e apóstolica”? Explicar cada matiz não é simples (fazê-lo implicaria, muito provavelmente, levar a maior parte dos leitores a uma sonolência evitável), mas podemos explicar de onde vêm essas diversas ideias, no seu modo geral.

 

O essencial do Credo nasceu de um conjunto de tradições orais que, alegadamente, vinham ainda do tempo dos apóstolos, e que principiavam por “Creio em Deus, o Pai omnipotente, e em Cristo Jesus o seu único filho, nosso Senhor”. Uma versão provavelmente posterior, conhecida como Credo dos Apóstolos, começava por “Creio em Deus, o Pai omnipotente, criador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo, o único filho de Deus, nosso Senhor”. São semelhantes, mas não iguais. Estas eram as orações basilares da época, que se destinavam a dizer algo como “eu acredito em X”.

 

O grande problema começou quando dizer “eu acredito em X” deixou de ser suficiente. Algumas pessoas começaram a interrogar-se, por exemplo, se Jesus teria sido criado antes ou depois do primeiro dia da criação bíblica – se Deus é eterno, será que este seu filho também o era? E o Espírito Santo, precede-o? São, hoje e para nós, questões bastante secundárias, mas existiu um período de tempo em que eram de uma suma importância, já que a fé cristã ainda se estava desenvolver.

 

Então, voltando às duas linhas citadas acima, tenha-se em conta que nunca é dito que só existe um deus – as pessoas acreditavam em Deus, mas segundo aquelas linhas nada implicava que não venerassem outras figuras divinas. Quando Valentino, no segundo século da nossa era, propôs que os deuses do Antigo e Novo Testamentos não eram o mesmo, nada existia explicitamente no Cristianismo que o impedisse de afirmar isso. Portanto, mais tarde foram adicionadas sequências como “[Creio] em um só deus” e “criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”, para formalizar que o verdadeiro cristão só podia acreditar em Deus (o que afasta ideias basilares do politeísmo, mas também a infinidade de divindades da religião de Valentino), e que essa figura divina tinha criado tudo o que existe – mesmo coisas que não conseguimos ver, como as figuras dos anjos.

 

Mais tarde surgiram ideias de que Jesus podia ter sido a primeira de todas as criaturas. Novamente, nada de muito explícito contra isso existia na doutrina da altura, e então foi adicionada a ideia de que ele teria sido “gerado, não criado”, sendo por isso “consubstancial” a Deus, por oposição à matéria (fosse ela qual fosse…) que revestia a criação de todos os outros seres.

 

Em suma, podemos dizer que às orações originais, atribuídas aos apóstolos, foram sendo adicionadas novas cláusulas para proceder à defesa de uma ideia muito particular do Cristianismo. Quando, na liturgia cristã, se recorre ao Credo, é essencialmente para afirmar um conjunto de fórmulas que deveriam dizer “enquanto cristão, hoje e agora eu acredito em X”, mas cada vez menos pessoas parecem pensar nessas afirmações que fazem, tornando-se as fórmulas originais em pouco menos do que palavras vazias.