“Descoberto esqueleto de rapaz que pode ter sido sacrificado a Zeus”

Um esqueleto descoberto entre cinzas de animais sacrificados no Monte Lykaion, na Grécia, no santuário descrito como o local do nascimento de Zeus, está a intrigar os cientistas e pode ser a prova que faltava para comprovar os sacrifícios humanos ao deus grego.

(…)

 

O resto da notícia pode ser lida aqui. O que dizer sobre ela? É verdade que existem nos mitos gregos diversas menções ao sacrifício de humanos – na tragédia Ifigénia na Táurida, para dar um exemplo bastante conhecido, Orestes e Pílades quase são sacrificados à divindade local – mas é quase sempre no contexto de uma abolição dessas mesmas tradições, então já vistas como tão bárbaras quanto horrendas. Se até nos parece provável que tais rituais tenham tomado lugar na Grécia, só poderão ter ocorrido em tempos mais remotos; nos poemas de Homero ainda existiam, aqui e ali, referências a sacrifícios humanos – pense-se nos casos de Ifigénia e Políxena – mas sempre como uma conotação negativa e com os deuses a castigarem frequentemente quem ainda os realizava. Tanto Agamémnon como Neoptólemo, figuras ligadas a essas duas mortes, acabam por ser punidos, como o são várias outras figuras que sacrificaram humanos (Tântalo, o Licáon mencionado no artigo, etc).

 

Somos então levados à ideia crucial de que esses sacrifícios humanos só poderão ter sido vistos como aceitáveis numa idade muito anterior à de Homero. Isto justifica as vagas alusões que lhes são feitas nos séculos mais próximos da nossa era – sabia-se que tinham sido realizados, sim, mas em épocas remotas, já difíceis de datar para os poucos autores que sobre eles ainda nos escreveram, e que dificilmente os terão testemunhado na primeira pessoa.

O mito de Telo de Atenas

Quando, naquela que será provavelmente uma das histórias mais famosas da Antiguidade Clássica, Creso perguntou a Sólon se o considerava o mais feliz de todos os homens, o segundo rapidamente lhe disse que não, atribuíndo essa grande honra a um tal Telo de Atenas. Mas quem era esta figura?

Creso, a quem foi contado este mito de Telo de Atenas

De acordo com a história, como esta nos é contada por Heródoto, Telo de Atenas vivia numa cidade próspera e tinha filhos de boa índole. Viu todos eles lhe darem netos, também eles de boa saúde. Sempre viveu uma vida próspera, acabando por morrer de uma forma gloriosa, em batalha, sendo depois enterrado de uma forma repleta de honra e no mesmo local em que faleceu.

 

Esta história, como a que depois a segue (a de Cleóbis e Bíton), é importante não só na medida que nos permite constatar o que era a felicidade para Sólon (seja a figura real desse nome, ou uma figura de existência meramente literária), mas porque também nos leva a considerar a própria definição da felicidade, que não deverá depender apenas da riqueza monetária – como pensava Creso – mas que nasce, essencialmente, de viver e seguir um modo de vida muito específico, que pouco ou nada tinha a ver com os encantos da carne. Quão melhor seria este mundo se as pessoas entendessem a mesma lição!

A “Matéria de Tróia”

Há alguns dias atrás ocorreu neste espaço uma pesquisa interessante. Esta pessoa, de identidade desconhecida, procurava pela “Matéria de Tróia” e queria lê-la em Português. O problema é que a “Matéria de Tróia” não é algo que se possa ler, ou pelo menos não directamente, mas sim um conjunto de temáticas abordadas na literatura medieval, como também o eram a “matéria da Bretanha” (as histórias do Rei Artur e seus cavaleiros) e a “matéria de França” (histórias de Carlos Magno e os Doze Pares de França) e a “matéria da grande Roma” (histórias latinas).

Nessa sequência, é fácil compreender que a “Matéria de Tróia” abordava os mitos relacionados com a famosa cidade, sendo particularmente famosa através do popular Romance de Tróia, por sua vez baseado em diversas obras latinas, como os relatos de Díctis e Dares. Seria, então, esse o texto específico que este leitor anónimo deveria procurar, mas creio que não existe traduzido em Português (e mesmo em edições francesas modernas parece só existir de uma forma incompleta).

Uma pequena história de Momo e da Lâmia

Numa das suas obras Tzetzes menciona uma frase proverbial em uso na sua altura – “os Momos vêem tudo menos a si próprios”. O mito desta figura é bastante conhecido, mas este autor também explica a frase, justificando-a com um facto curioso – o deus Momo carregava uma bolsa dupla às costas, guardando as suas coisas na zona das costas, enquanto levava as dos outros na parte frontal, impedindo-o, naturalmente, de ver aquilo que lhe pertencia.

 

Dentro do mesmo tema o autor conta-nos uma história menos conhecida da Lâmia. Segundo ele esta tinha a capacidade de retirar os olhos da face (uma característica que, recorde-se, nem todos os autores lhe dão); assim, quando ia a casa tirava-os e guardava-os numa pequena jarra, tornando a usá-los somente quando saía, razão pela qual também ela desconhecia o que tinha em casa, impedindo-a de se auto-criticar, enquanto o fazia facilmente para com as outras pessoas com quem se cruzava.