“De concubitu Martis et Veneris”, de Reposiano

Dizem alguns memes que menos de 10% das obras produzidas na Antiguidade Clássica nos chegaram, e este De concubitu Martis et Veneris, da autoria de um tal Reposiano, quase parece ter sofrido esse destino. Nada se sabe sobre o seu autor – é provável, com base no conteúdo e forma desta sua produção literária, que tenha vivido por volta dos séculos III ou IV da nossa era – mas o seu tema é muito bem conhecido, e trata-se do adultério de Vénus com Marte (ou Afrodite com Ares, se preferirem os nomes originais gregos), um episódio mitológico cuja referência mais antiga vem ainda dos Poemas Homéricos, onde ocorre, mais precisamente, no livro oitavo da Odisseia.

De concubitu Martis et Veneris, de Reposiano

Já aqui aludimos brevemente a esse mito, quando falámos da transformação de Aléctrion, mas dado o contexto ele merece aqui ser reapresentado – a bela Vénus, deusa do amor, era casada com o feio deus Vulcano, mas ocasionalmente traía-o com o pujante e belo Marte, deus da guerra. Um dia, o deus Apolo apercebeu-se destas traições e alertou o encornado para toda a ocorrência. Este último, criando uma espécie de rede mágica, apanhou depois os dois amantes nos seus amores e expôs todo o adultério aos outros deuses… que, muito curiosamente, parecem ter gozado mais o traído do que os seus dois traidores!

 

Este poema de Reposiano, hoje conhecido sob o nome latino De concubitu Martis et Veneris, apresenta então o famoso episódio mitológico mas parece focar-se maioritariamente em descrições do que envolve a cena da traição e numa questão bastante curiosa – se nem mesmo Vénus, a deusa do amor e mãe de Cupido, foi capaz de conduzir em segredo uma relação amorosa, que esperança haveria para cada um de nós? Nunca é dada uma verdadeira resposta ao problema – para quem até tiver essa curiosidade, ou especialmente se andar actualmente a trair a sua cara-metade – mas, de certa forma, mais do que apenas recontar toda a história do poema de Homero, o autor parece introduzir na trama uma influência adicional de Cupido, para demonstrar que nem a própria mãe estava imune aos encantos das flechas do seu rebento e de todos os problemas que estas traziam aos mortais e deuses.

 

Este De concubitu Martis et Veneris não é um poema particularmente interessante, mas mereceu aqui ser referido pelo seu conteúdo mitológico e pela forma como o famoso tema foi tratado num período mais tardio do Império Romano, por um poeta sobre o qual nada significativo sabemos hoje.

O Massacre de Lisboa de 1506

Falar do Massacre de Lisboa de 1506 é, hoje e talvez mais que tudo, falar de um episódio da história de Portugal que está agora quase esquecido. Isso até faz um certo sentido – tendemos a definir-nos como um “povo de brandos costumes”, entre o qual os massacres são raros… – mas não deixa de ser um episódio bastante chocante da história nacional, que também ficou conhecido como o Pogrom de Lisboa (para quem o desconhecer, um pogrom é um “movimento popular violento organizado contra uma comunidade judaica”, como informa o dicionário da Priberam) ou a Matança da Páscoa de 1506 (em virtude da altura do ano em que teve lugar). Agora, poderíamos, como é habitual, recordar aqui todo o episódio pelas nossas próprias palavras, mas decidimos fazer algo um pouco diferente – vamos contá-lo aqui com as mesmas palavras que outrora encontrámos e transcrevemos de um antigo documento legal presente na Torre do Tombo:

O Massacre de Lisboa de 1506

Em Domingo de Pascoela, 19 de Abril de 1506, pela manhã, estando El-Rei D. Manuel em Avis por causa da peste, começou em Lisboa o horrível motim e matança dos Cristãos Novos, a que deu origem certo reflexo de Sol que se derivava no Santo Cristo da Igreja de S. Domingos, que uns diziam ser milagre, e outros negavam que o fosse.
Fr. João Moucho, natural de Évora, e Fr. Bernardo Aragonez, frades do mesmo convento, foram o principal incentivo daquela emoção, porque com diabólico furor sairam a pregrar pelas ruas contra os Judeus a incautos.
Muitos amotinados ouve, em que entravam bastantes estrangeiros, que carregados de roubos navegaram para suas terras. O número de vítimas, lançadas ao fogo, vivas umas, e mortas outras, passou de duas mil, de todos os sexos e idades. A desordem demorou três dias. El-Rei acudiu severo a punir tamanhas atrocidades, e muitos culpados sofreram a última pena, não escapando os dois frades, que morreram queimados vivos. Todos os outros foram postos na minha do castelo, e as chaves do Convento entregues ao Prior de Santa Justa. A cidade perdeu os seus foros, que recuperou depois.
Esta foi a primeira perseguição directa que sofreram os Judeus em Portugal, e que aumentou o ódio contra eles. O que pinta a eles se haverem tornado ricos pelas suas traficâncias, e por consequência soberbos e orgulhosos; defenderem com audácia os mistérios da sua fé; e talvez olharem com desprezo os Cristãos. Tudo isto chamou contra si a Inquisição, que tão barbaramente os tiranizou.

Em suma, num tempo em que grandes pestes afectavam o nosso país, um pequeno “milagre” parece ter ocorrido no interior da belíssima Igreja de São Domingos, em Lisboa. Os Cristãos presentes pensaram logo tratar-se de um verdadeiro milagre, um Cristão Novo – ou seja, um ex-Judeu, que ainda era visto com desconfiança – atreveu-se a afirmar o contrário, e esta demonstração da sua pouca fé parece ter acendido um rastilho de ódio que levou à morte de milhares de Judeus nos dias em que se seguiram, neste chamado Massacre de Lisboa de 1506. Os culpados não escaparam à Justiça, mas – e como o texto indica – foi este episódio histórico um principal impulsionador da (então futura) presença da Inquisição em Portugal, onde viriam a ser condenados e a falecer muitos outros Judeus.

 

Agora, se este Massacre de Lisboa de 1506 está hoje quase completamente esquecido, quem for à cidade ainda poderá encontrar, muito próximo da Igreja de São Domingos e do local em que estes episódios outrora tomaram lugar, uma pequena homenagem aos que faleceram durante o episódio. Num semicírculo adornado com uma Estrela de David constam as seguintes palavras, que aqui recordamos ao terminar o tema de hoje:

1506-2006
Em memória dos milhares de Judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de Abril de 1506 neste largo.
5266-5766 [*]

 

*- Estas são as mesmas datas já apresentadas acima, mas convertidas para o calendário judaico.

Um breve lenda de Amitaba

A lenda de Amitaba conta-se entre muitas outras associadas ao Budismo e que são quase desconhecidas no nosso país. Assim, falar sobre ela implica uma breve introdução ao tema, com algumas informações que poucos parecem conhecer em Portugal. Há já alguns anos contámos aqui os elementos essenciais da história de Buda, ou de Sidarta Gautama, a figura fundadora do Budismo. Contudo, se esse homem foi o fundador de uma famosa religião, também existem muitas outras histórias ligadas a ela. Algumas delas limitam-se a adicionar elementos à história desse fundador – relembre-se, por exemplo, o que se diz sobre a mãe de Buda – enquanto que outras nos relatam as aventuras de várias outras figuras budistas, algo que podemos considerar como uma espécie de santos do Budismo – relembre-se, também a título de exemplo, aquele nosso famoso “Buda Gordo“; ou Bodidharma, o criador do chá. Nesse seguimento, existem quase infinitas lendas que podemos associar aos “santos” dessa religião, cada qual com elementos muito únicos, como a história de hoje nos poderá fazer ver.

A lenda de Amitaba

No seu cerne, Amitaba foi um santo budista como muitos outros, mas o que o distingue de figuras semelhantes é o facto de ele ter sido o criador daquilo que se chama o “Budismo da Terra Pura”. Sobre ele, conta-se então que antes de atingir o seu Nirvana ele prometeu que todos aqueles que o evocassem no futuro, por uma única vez que fosse no decurso das suas vidas, poderiam mais tarde vir a renascer na tal Terra Pura, uma espécie de paraíso terreno em que tudo segue os preceitos da sua religião. Para tal, bastaria apenas e somente dizer uma única e breve frase – 南无阿弥陀佛 em Chinês, 나무아미타불 em Coreano, 南無阿弥陀仏 em Japonês ou नमोऽमिताभाय बुद्धाय em Sânscrito… que é como quem diz “Refugio-me no Buda Amida” ou “Refugio-me em Amitaba”; na versão aprendida por um dos nossos colegas no Japão, a frase pode até ser apenas Namu Amida Butsu. O processo, na sua vertente mais formal e religiosa, pode ser como mostra este vídeo:

Face à simplicidade do processo, fica o convite para que quem tem interesse nestas coisas o tente… e depois, um dia no futuro, nos diga se funcionou ou não!

Sobre Simão Gomes, o Sapateiro Santo

Simão Gomes, mais conhecido como o Sapateiro Santo, é uma daquelas figuras da história de Portugal que o tempo fez (quase) esquecer. Não fosse o facto de ter vivido quase na mesm altura de um outro famoso sapateiro (o Bandarra, autor das Trovas ou Profecias), tendo nascido em 1510 e falecido em 1576, e talvez já ninguém se lembrasse dele. Mas, juntos, parecem formar aquele selecto grupo de figuras que ora trabalhavam nos sapatos das gentes da sua época, ora profetizavam os futuros, incluindo-se a queda e a futura ascensão de um Império Português. Mas, se pouco sabemos agora sobre a vida do seu outro companheiro, já a deste Simão Gomes parece – sendo “parecer” aqui uma palavra fulcral – ser um pouco mais famosa, já que um tal Padre Manuel da Veiga escreveu e publicou um livro sobre o tema.

Livro sobre Simão Gomes, o Sapateiro Santo

Na primeira parte da obra Vida, Virtudes e Doutrina Admirável de Simão Gomes, vulgarmente chamado o Sapateiro Santo, é contada, de uma forma relativamente breve, o que se supõe ser toda a vida e morte desta figura, num conjunto de sequências que nada ficam a dever às biografias dos muitos santos de outros tempos. Isto porque a sua personagem principal é representada tal como se fosse um vero santo, com episódios de santidade desde a sua mais tenra idade, mas com a estranha adição de alguns episódios que até são demasiado invulgares para serem mentira – em dado momento, por exemplo, ao leitor é dito que o herói casou apenas porque Deus o mandou tomar uma esposa, de forma a que tivesse – e são palavras da obra, não nossas – uma cruz constante a suportar em toda a sua vida… esposa essa que, num ou outro episódio, até demonstra alguns requintes de malvadez, talvez inventados pelo autor para fazer reluzir a cruz do seu herói.

Depois, a segunda parte da mesma obra foca-se quase exclusivamente nos pensamentos filosóficos e religiosos do próprio Simão Gomes. O que tem o seu interesse, para quem quiser conhecer melhor o suposto pensamento desta figura, mas suscita igualmente uma dificuldade muito curiosa – onde estão as tais profecias que a história nos diz que este ilustre sapateiro, nascido em Tomar mas que viveu muitos anos em Évora e em Lisboa, deixou sair da sua boca? Parecem existir apenas duas na totalidade da obra, uma em que foi vista uma espécie de espada de fogo por cima do Mosteiro dos Jerónimos, interpretada como uma alusão à (então futura) destruição de Dom Sebastião, e outra que apenas é dado a entender ao leitor que se cumpriu, mesmo no final do primeiro volume, mas sem que o seu conteúdo seja revelado.

 

Temos, portanto, neste Simão Gomes uma espécie de profeta sem profecias conhecidas, como se teve em Bandarra um igualmente estranho profeta de profecias mas sem uma história. Naquele a que dedicamos as linhas de hoje, pelo menos podemos saber parte da sua vida, fruto das linhas deixadas pelo Padre Manuel da Veiga, mas ela encontra-se, nessa obra, como que escondida entre facto e ficção, devendo ser levada com bastante cepticismo. Onde teria essa sua ficção, e se vai escondendo a realidade, é algo aqui difícil de discernir…

“Relação das Fábulas e Ritos dos Incas”, de Cristóbal de Molina

Esta Relação das Fábulas e Ritos dos Incas, da autoria de Cristóbal de Molina no século XVI, é uma obra curiosa. Se, por um lado, não é propriamente um texto que possa agradar à maior parte dos leitores comuns, por um outro merece ser aqui referida pelo facto de tentar ter preservado um conjunto de histórias e elementos culturais que na altura da escrita desta obra já se estavam a perder.

Relação das Fábulas e Ritos dos Incas, de Cristóbal de Molina

Segundo se percebe pela obra – o manuscrito ainda existe, está na Biblioteca Nacional de Espanha – o seu autor, um clérigo nascido em Espanha no ano de 1529, foi falar com pessoas do Peru que ainda conheciam as tradições dos seus antecessores locais e deixou algumas delas por escrito. Como o próprio título indica – Relação das Fábulas e Ritos dos Incas – o texto é divisível em dois grandes momentos. No primeiro, Cristóbal de Molina conta um número pequeno de lendas locais, com ênfase nas relativas a um dilúvio universal, talvez pelo facto de confirmarem parte da mensagem cristã que ele tentava disseminar enquanto padre católico. A título de exemplo, resumimos a seguinte, que vinha do distrito peruano de Cañaris:

No tempo das cheias existiram dois irmãos que escaparam à ocorrência subindo a uma montanha muito alta. Depois dessa conflagração passar, eles desceram até às planícies e fizeram uma casa para viverem, mas tinham sempre muita dificuldade em arranjar comida e bebida… até que um dia chegaram a casa e viram muita comida, e bebida boa, já preparada para eles. Ficaram muito intrigados, até porque isso voltou a acontecer uma e outra vez, e ás tantas lá descobriram que eram dois pássaros que andavam a fazer isso. Com alguma dificuldade capturaram um deles, aparentemente do sexo feminino, e fazendo amor com ele voltaram a repopular toda a região.

 

É provável que toda esta história tenha sido ligeiramente adaptada pelo seu reportador, que na versão original os pássaros tivessem forma humana, ou capacidade para uma metamorfose, que tornasse possível o que a trama reporta. Mas, deixando para trás essas possibilidades e avançando para o segundo momento, nele o autor reporta um número muito mais significativo de antigos ritos dos cidadãos locais, organizados pelo mês e circunstâncias em que eram realizados. Nesse sentido, ele preserva-nos não só nos seus actos físicos dos crentes, mas igualmente algumas rezas, como a seguinte, que aqui traduzimos para a língua portuguesa:

Ó Criador! Tu que não tens igual até ao fim do mundo. Tu que deste vida e força à humanidade, e disseste aos Homens “Que este seja homem,” e às Mulheres “Que esta seja mulher.” Ao dizeres isto criaste-os, moldaste-os e deste-lhes vida. Protege aqueles que criaste, deixa-os viver em segurança, sem perigo e em paz. Onde estás? Estás nas alturas do céu? Ou abaixo das trovoadas? Ou nas nuvens de tempestade? Ouve-me, responde-me e concede-me o que te peço; dá-nos vida eterna para sempre. Leva-nos pela tua mão e aceita esta minha oferta onde quer que estejas, ó Criador!

 

Sem a compilação desta Relação das Fábulas e Ritos dos Incas pela parte de Cristóbal de Molina informações como as acima teriam sido completamente perdidas. Chegaram-nos, sim, mas este não é um texto que recomendemos à generalidade dos leitores, já que a parte referente às lendas locais, a mais relevante para quem nos vai lendo, é demasiado breve, enquanto que a relativa aos rituais religiosos certamente que já é bem conhecida por quem até tem interesse em temas como esses.