A “Destruição de Tróia”, ou “Excidium Troiae”

A pedido de um colega foi disponibilizada uma tradução de um novo texto, a Destruição de Tróia, também conhecida por Excidium Troiae. Desconhecemos a autoria do texto, mas parece ter tido um intuito pedagógico, como se torna fácil de compreender através de algumas das suas linhas. A trama começa no casamento de Peleu e Tétis, prolongando-se até aos primeiros imperadores de Roma e à morte de Jesus Cristo. Contudo, esta vasta temática é bastante enganadora, já que os episódios retirados da “Eneida” (que o autor até cita repetidamente) ocupam bem mais de metade da obra, com cerca de 13 páginas a relatar o início da guerra até à morte de Aquiles, e menos de três a nos contarem o que teve lugar depois das aventuras de Eneias, tendo o épico de Virgílio um inegável papel principal.

 

Existem alguns elementos mitológicos que apenas são referidos aqui e para os quais não nos chegaram quaisquer outras fontes, mas há que ter em conta um outro aspecto curioso – tratando-se, como já foi referido, de um texto didático, existem múltiplos momentos em que são feitas questões ao leitor, tentando assegurar que ele ainda não está a dormir, ou oferecendo algumas explicações acessórias aos mitos, que nos ajudam a que eles possam ser compreendidos de forma mais completa.

 

Finalmente, fale-se da sua potencial autoria. Seria demasiado fácil vê-lo como um texto puramente medieval, mas uma tal hipótese implicaria a existência de um autor com um conhecimento impressionante dos mais diversos textos da Antiguidade, sendo por isso mais provável que se trate de uma criação, pelo menos em parte, dos segundos cinco séculos da nossa era.

 

Quem estiver interessado neste texto pode agora lê-lo, em tradução inglesa (continua a busca por um tradutor que fale português…), neste link.

Sobre a amizade, nas palavras de Clemente de Alexandria

Aqui ficam algumas das belas palavras de Clemente de Alexandria sobre a amizade:

We are taught that there are three kinds of friendship: and that of these the first and the best is that which results from virtue, for the love that is founded on reason is firm; that the second and intermediate is by way of recompense, and is social, liberal, and useful for life; for the friendship which is the result of favour is mutual. And the third and last we assert to be that which is founded on intimacy; others, again, that it is that variable and changeable form which rests on pleasure. And Hippodamus the Pythagorean seems to me to describe friendships most admirably: “That founded on knowledge of the gods, that founded on the gifts of men, and that on the pleasures of animals.” There is the friendship of a philosopher,—that of a man and that of an animal.

Fonte: Clemente de Alexandria, Miscelâneas II.19

As três mortes dos filhos de Medeia

O mito de Jasão e Medeia já cá foi falado por diversas vezes, como quando cá foi feito um resumo da história de Jasão e os Argonautas. A versão de Eurípides, bem como de todos os autores posteriores que nos chegaram, põe a personagem titular a matar os próprios filhos, tornando-se essa acção quase um sinónimo da própria figura. Porém, há que ter também em conta outras duas versões das mortes dos filhos de Medeia, muito menos conhecidas mas certamente mais antigas.

 

Na primeira delas, querendo imortalizar os filhos Medeia deixa-os num templo de Hera, morrendo eles durante a noite. Pouco sabemos sobre esta versão, excepto que a acção da figura se devia a uma promessa que a deusa lhe tinha feito, mas sem que nada nos seja dito nada sobre o porquê dessa morte ou as razões que levaram à quebra da divina promessa.

A segunda versão, provavelmente um pouco mais recente, diz que foram os habitantes de Corinto a matar as crianças de Medeia, mas sem que saibamos as razões para tal.

 

Face a estas grandes faltas de informação um qualquer leitor poderia perguntar, de uma forma justíssima, como ainda nos são conhecidas essas outras possibilidades. Sobrevivem essencialmente em escólios ou em referências muito incompletas, como a patente em Pausânias (2.3.11), na qual se refere o abandono dos filhos num templo de Hera. E, infelizmente, pouco mais sabemos sobre cada uma delas.

O mito de Perseu e a morte do herói

Na Mitologia Grega é muito famoso o mito de Perseu, na qual este herói defrontou a Medusa (essa famosa história pode ser vista no link!) e salvou Andrómeda de um monstro marinho, mas há um aspecto muito singular na sua trama mitológica e que passa pela morte da sua figura principal – como foi a morte desse famoso herói? Contrariamente ao que sucede com muitos outros, o fim da sua vida é pouquíssimo mencionado nos mitos da Antiguidade, e tanto quanto foi possível averiguar até só existem duas breves menções a todo esse evento:

O mito de Perseu e a Medusa

Higino, ao listar um conjunto de figuras que mataram parentes, diz que este Perseu, o filho de Jove [i.e. Júpiter] e Dánae, foi morto por Megapente, filho de Preto, devido à morte do pai deste. Tratando-se de uma simples entrada numa lista não é dado qualquer detalhe adicional, sendo-nos impossível saber o que se terá passado.

João Malalas, um autor tardio e especialmente conhecido pelos mitos estranhos que fez chegar aos nossos dias, conta-nos que um dia Perseu defrontou em combate um idoso Cefeu, pai de Andrómeda. Dada a sua idade esta segunda figura já não conseguia ver, pelo que quando o herói usou a cabeça de Medusa para o transformar em pedra, o famoso artifício, provavelmente pela primeira vez, falhou. Face a uma tão invulgar falha Perseu decidiu verificar o que se passava, olhando então para a famosa cabeça e assim falecendo.

 

Face a estas duas versões tão divergentes devemos ter em conta que a segunda só é mencionada já no século VI d.C., enquanto que a primeira quase nada nos deixa perceber sobre a morte do herói, como ela tinha lugar no tempo da Grécia Antiga, apesar de ser indubitavelmente mais antiga que a anterior. Se o episódio de Perseu e da sua mais famosa opositora já era conhecido desde tempos muito antigos, em que já aparecia bem atestado na arte, a literatura durante mais de 500 anos nunca menciona o destino final da figura, sendo provável que o herói se tenha limitado a desaparecer, sem qualquer razão para tal.