De que sente falta um falecido? A opinião de Praxila

Praxila é uma poetisa conhecida exclusivamente por uma absurda frase de um dos seus trabalhos, que até só nos chegou devido ao seu carácter invulgar. Reza então a história de que quando num poema dessa autoria a um falecido Adónis era perguntado o que mais sentia falta no mundo dos mortos, este referiu, naturalmente, a luz do sol, o brilho das estrelas e a face da lua. Isto nada teria de errado se não fosse seguido por um outro elemento – “pepinos, maçãs e pêras nas suas estações”.

 

Parece ter sido esta última menção que contribuiu para o não esquecimento desta obra, que até se tornou uma expressão proverbial para algo muito absurdo. Infelizmente, esta única frase também é o único elemento que nos chegou, tornando-nos impossível saber até que ponto representava todo o conteúdo e espírito do poema original, mas, ainda assim, podendo suscitar-nos algumas gargalhadas.

O mito de Demogorgon

O mito de Demogorgon é o de uma figura de alguma importância na literatura do Renascimento e em alguns rituais mágicos da Antiguidade, mas que, curiosamente, é muito pouco mencionada nos textos mais antigos, surgindo só e exclusivamente num comentário à Tebaida de Estácio, no qual é dito apenas que Demogorgon se tratava, supostamente, de um deus supremo da Mitologia Grega.

 

É esse papel divino ou demoníaco que os textos mais recentes, como os de Boccaccio ou de Milton, dão a Demogorgon, mas sem que pareça ter existido, pelo menos hoje acessível para nós, um verdadeiro mito associado a este nome. E porquê? Segundo diversos estudiosos dos nossos dias, é possível que a palavra “Demogorgon” tenha resultado de uma leitura incorrecta de um nome original, possivelmente de uma figura como o Demiurgo que nos chegou nos textos de Platão – ele sim, um deus supremo, que muitos textos filosóficos até nos referem!

“Elogio a Helena”, de Górgias, e as razões do rapto de Helena

Trata-se do mesmo Górgias que aparece num dos diálogos de Platão o suposto compositor deste elogio a Helena de Tróia, mas a que se deviam estas suas linhas neste Elogio a Helena? Essencialmente ele pretendia mostrar que Helena não tinha qualquer culpa de ter sido raptada. Ele não dizia, como o fez Estesícoro alguns séculos antes, que a figura nunca tinha sido raptada. Foi-o, isso é indiscutível para este autor. Mostra é que se a esposa de Menelau foi levada, isso se deveu a pelo menos uma de quatro causas: amor, persuasão, rapto pela força ou influência divina.

 

É dessas quatro causas que falam, de uma forma breve, as linhas deste texto de Górgias e os argumentos que utiliza são puramente lógicos, tão lógicos que merecem ser postos a descoberto. Infelizmente, os “Poemas Cíprios”, onde o episódio tomava lugar, estão hoje perdidos, pelo que não sabemos de que forma Páris acabava por conseguir levar Helena consigo de volta para Tróia, mas se pensarmos por algum tempo facilmente somos capazes de concluir que as quatro possíveis causas deste autor fazem todo o sentido. Se ela se apaixonou pelo filho de Príamo, estava a ir-se embora não porque o queria fazer mas porque a paixão a conduzia a isso. Se este a convenceu por palavras, foi a sua capacidade retórica, mais do que um desejo real de Helena, que a levou a fugir com ele. Se a filha de Leda foi levada à força evidentemente que nada podia fazer. Em último caso, se foram os deuses a causar todo o episódio nenhum dos seus intervenientes teria qualquer tipo de influência real, levando a que nenhum deles pudesse ser culpado pelo sucedido.

 

Não se pretende aqui imitar Górgias, quem estiver interessado nos argumentos que utilizava poderá apenas ir ler o texto mencionado acima. O que se pretende mostrar é que seja qual for o caminho que levou ao rapto de Helena, esta figura pouca influência tinha no resultado final. Não sabemos, repito, como tomava lugar este episódio nos poemas mais antigos, mas o autor deste texto, que nos escrevia no século IV a.C. sabia-o (veja-se que num outro dos seus textos também defendia Palamedes, figura de relevo nos mesmos poemas), tendo apresentado esta defesa, como não poderia deixar de ser, com base no que aí sucedia. Sabemos, portanto, que Helena não era a culpada da sua ausência da casa de Menelau, pelo menos não para este autor. Se, no entanto, era ela a causadora de toda a guerra, isso já é outra questão ligeiramente diferente.

“Livro dos espectáculos”, de Marcial

Neste seu Livro dos espectáculos, Marcial conta-nos algumas das festividades que tiveram lugar durante a inauguração do Coliseu de Roma, também conhecido por Anfiteatro Flaviano. Entre elas contavam-se algumas encenações de mitos, como os de Pasífae, Dédalo, Prometeu ou Orfeu, em que condenados à morte perdiam a sua vida de uma forma muitas vezes semelhante à dos respectivos mitos. Curiosamente, isso nem sempre acontecia, com o autor desta obra a referir que pelo menos uma vez o destino de um dado mito não se cumpriu.

 

Se hoje sabemos que estas encenações até eram frequentes na cultura romana, aparecendo até referidas em obras cristãs contra esses mesmos espectáculos, deve pensar-se nas múltiplas facetas de um mito que poderiam ser retratadas em cena, e passíveis de cumprir com recurso aos condenados. No caso de Prometeu, por exemplo, a ideia seria que alguém fosse esventrado como o deus o era no mito, mas seria difícil assegurar que isso tomava lugar, sendo, mais do que encenações dos mitos, quase re-escritas dos mesmos.

Para quem estiver interessado uma tradução inglesa da obra, ela pode ser encontrada aqui.

Sobre o verdadeiro significado da vida…

Já na Antiguidade se diziam coisas destas, que o Homem insiste em esquecer uma e outra vez, sobre o verdadeiro significado da vida:

 

Ah, if a double term of life were given us by Zeus, the son of Cronos, or by changeful Fate, ah, could we spend one life in joy and merriment, and one in labour, then perchance a man might toil, and in some later time might win his reward. But if the gods have willed that man enters into life but once (and that life brief, and too short to hold all we desire), then, wretched men and weary that we are, how sorely we toil, how greatly we cast our souls away on gain, and laborious arts, continually coveting yet more wealth! Surely we have all forgotten that we are men condemned to die, and how short in the hour, that to us is allotted by Fate.

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