O curioso mito de Rifeu

O mito de Rifeu, apesar de curioso, não é muito conhecido. Este herói era, como nos diz a Eneida, um troiano extremamente justo, mas que ainda assim foi morto aquando da conquista de Tróia. O poema de Virgílio só nos diz isso, é até provável que a história até tenha sido inventada por esse autor, MAS é precisamente aqui que começa a parte curiosa do mito. Ao falar dessa figura, no segundo canto da sua obra, o autor diz que os deuses pouco valor deram à justiça da figura… mas séculos mais tarde, Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, coloca então esse troiano no Paraíso, enquanto deixou de fora desse local figuras como Cícero ou Platão. O que os antigos deuses rejeitaram, o Deus do Cristianismo acolheu!

 

A este Rifeu também João de Barros atribuía a fundação de uma nova Tróia, próxima de Setúbal, mas essas histórias ficam para outro dia, como prometido a uma leitora.

O mito de Palamedes e o de Náuplio

Palamedes é, pelo menos hoje em dia, um dos heróis menos conhecidos da Guerra de Tróia. Homero dedica-lhe zero palavras, uma ausência que João Tzetzes justificou dizendo que essas obras não queriam dizer mal dos Gregos, mas indo ao que importa, a história do próprio herói…

 

Era filho de Náuplio (já lá iremos), e foi ele quem descobriu o esquema que Odisseu tinha urdido para escapar a toda a guerra. Quando este segundo se estava a fingir de louco, Palamedes colocou um jovem Telémaco em frente de um arado (ou, segundo outras versões menos famosas, ameaçou-o com uma espada) e o pai viu-se obrigado a revelar a sua sanidade, sendo obrigado a juntar-se ao contingente aqueu, mas não sem alguma inimizade perante o seu opositor.

Depois, já durante a guerra de Tróia, Palamedes foi vítima de um vingativo esquema de Odisseu, o que acabou por o matar. O que se passou, mais precisamente, depende das versões do mito – ou foi afogado, ou viu-se acusado de uma (falsa) traição, … – mas é indiscutível que não sobreviveu até aos episódios relatados no início da Ilíada, com pelo menos um autor a dizer que a raiva de Aquiles se devia também à morte deste seu amigo, como já cá foi relatado anteriormente.

 

Falemos, agora, de Náuplio. Depois do seu filho ter sido morto em Tróia, ele ainda tentou que o culpado fosse penalizado, mas ninguém mostrou qualquer tipo de solidariedade para com a sua dor. Então, também ele decidiu vingar-se – tentou insurgir as mulheres dos gregos contra os seus maridos ausentes (dois casos famosos são os das esposas de Agamémnon e de Diomedes, mas pelo menos uma versão diz que foi ele que levou os pretendentes de Penélope a Ítaca) e, quando estes já voltavam de Tróia para suas casas, acendeu uma tocha durante uma tempestade, fingindo tratar-se de um porto seguro e conduzindo assim muitos dos navegadores para as suas mortes.

 

Existe um pequeno elemento a adicionar sobre a primeira destas figuras, Palamedes. Se este mito até nos poderia parece menor, são vastas as menções na literatura da Antiguidade às invenções do herói. Para dar alguns exemplos que nos foram chegando, diz-se então que ele inventou os números, pesos, medidas, a Astronomia, algumas letras do alfabeto grego e também alguns jogos (como os dados, que os heróis gregos depois usaram para se distrair durante os seus tempos livres em Tróia).

Qual a origem dos Duendes?

Seria com todo o prazer deste mundo que hoje aqui divulgaríamos a origem dos duendes, aquelas criaturas mitológicas muito associadas à Península Ibérica, mas pouco se parece saber sobre ela. Se, por um lado, não lhes parece existir qualquer referência directa nos textos da Antiguidade – contrariamente ao que acontece com criaturas como as Fadas – por outro também fomos descobrindo algumas vagas referências à sua existência em textos pós-medievais, ao ponto de no século XVI ter existido legislação que anulava a venda de uma casa se o novo dono não tivesse sido informado que uma destas criaturas habitava no local. Por isso, o que sabemos sobre estas estranhas criaturas e a sua origem?

A origem dos duendes, será este verdadeiro?

Na imagem acima pode ser vista uma pequena criatura que foi identificada por alguém como um duende. O vídeo de onde foi retirada foi supostamente gravado na Argentina, sendo reproduzido aqui e acolá sem que se perceba muito bem de onde vem. Será outra falcatura como a de Teresa Fidalgo? É provável que sim, mas o mais interessante sobre este exemplo é a contínua popularidade desta criatura em países em que se fala o português e o espanhol. Pode, igualmente a título de exemplo, ser visto aqui também um caso profundamente insólito, vindo de terras do Brasil:

Nessa sequência, para se tentar apurar a origem dos duendes talvez seja melhor começar pelo que sabemos sobre eles nos dias de hoje. Dicionários como os da Priberam definem este nome como o de um “Espírito sobrenatural que se supunha fazer travessuras na casa que frequentava”, dando-lhe como uma espécie de sinónimo “fradinho-da-mão-furada” e “trasgo”, ambos definíveis como “entidades que usam os seus poderes para fazer travessuras”. Muito curiosamente, e apesar de actual, esta definição já parece ter alguns séculos, mostrando que a forma como esta criatura era imaginada se foi mantendo ao longo do tempo. Isto porque, em menções populares e obras literárias de outros tempos, as três criaturas surgem quase como sinónimos e estão quase sempre associadas a um espaço residencial, onde ora incomodam as pessoas com as suas traquinices (que raras vezes vão além de chatear alguém…), ora as recompensam por bondades que tenham realizado.

 

Que importância tem isto? Ao longo dos séculos esta visão horizontal dos duendes foi-se mantendo, e a forma como eles são imaginados hoje é quase igual àquela que já aparecia nas fontes literárias mais antigas que temos… o que nos permite teorizar, mas sem grandes certezas, que o seu apelo foi contínuo em virtude do facto de esta criatura habitar e se movimentar num espaço que pouco ou nada foi alterado ao longo tempo – o de nossa própria casa!

Se, caros leitores (ou leitoras, que o tempo não está para sexismos), vivem num local silencioso, certamente que já vos aconteceu acordarem a meio da noite e ouvirem alguns barulhos que não conseguem explicar. Também já vos terá acontecido, mesmo que vivam sem mais ninguém em vossa casa, terem a certeza que deixaram uma coisa num dado local, mas depois não a conseguirem encontrar… e essas coisas acontecem, segundo uma imaginação popular que se vai prolongando no tempo, em virtude da acção destas pequenas criaturas!

 

Mas… é apenas uma possibilidade. Só isso, porque não parecemos ter qualquer fonte literária da época que nos explique qual a origem dos duendes, sabendo apenas que eles parecem ter surgido nos meandros de uma sociedade pós-medieval muito envolvida num universo mágico de feiticeiras, demónios, aparições de santos e outras coisas que tais, que em alguns casos tiveram a sua génese em romances de cavalaria. Nesse contexto, e para os cidadãos da altura, a resposta a dúvidas existenciais tendia a ser no âmbito dessa mesma magia, e, como tal, é provável que tenham tido a necessidade de inventar, ou reinventar, uma criatura capaz de explicar o que de invulgar acontecia em suas próprias casas. E, depois, a ideia foi-se prolongando no tempo até à época em vivemos, em que os duendes parecem estar reduzidos a meras criaturas de fantasia e de desenhos animados, pelo menos até que alguém se lembre de proclamar, como em outros tempos do passado, que as coisas andam a desaparecer de uma qualquer casa porque algum duende as vai furtando…

A história de Beato Amadeu da Silva

Beato Amadeu da Silva poderia ter sido um religioso como tantos outros nascidos no nosso país, não fosse o facto de num determinado momento da sua vida se ter mudado para terras de Itália. Foi aí que ele se tornou particularmente famoso – foi viver para o mosteiro de San Pietro in Montorio, em Roma, e refugiou-se numa caverna próxima do local; se não conseguimos encontrar uma fotografia da própria caverna, pelo menos na imagem abaixo pode ser vista a igreja que numa dada altura esteve associada ao mosteiro em questão.

Igreja próxima de onde viveu Beato Amadeu da Silva

Ao viver então nessa caverna, Beato Amadeu da Silva decidiu seguir uma vida bastante austera, até que lhe foram surgindo um conjunto de oito revelações místicas. E foi sobre elas que escreveu a obra Apocalypsis Nova – algo como “A Nova Revelação”. Fomos lê-la parcialmente, e compreende-se bem o porquê de ter sido proibida pela Inquisição – se é uma obra bastante enfadonha para 99.999% dos possíveis leitores (o que nada tem de mal, nem seria motivo de censura), o seu grande problema passa pelo facto de conter muitas informações teológicas que não eram compatíveis com as da Igreja da época, a que o autor também adicionou algumas curiosas previsões do futuro, incluindo a vinda próxima de um misterioso e novo “Pastor”. Fora isto, sentimos que não há muito mais a dizer, hoje, sobre este religioso e a sua obra…